Poesias
Capítulo VII
Eia, servos! O ferro se cruze.
Assobie o pelouro nos ares;
Estes campos convertam-se em mares,
Onde o sangue se possa beber!
Larga a valla! que, após a peleja,
Todos nós dormiremos unidos!
Lá vingados, e do odio esquecidos,
Paz faremos... depois do morrer!
VII.
Assim, entre amarguras,
Me delirava a mente;
E o sol ia fugindo
No termo do occidente.
E os fortes lá jaziam
Co'a face ao céu voltada;
Sorria a noite aos mortos,
Passando socegada.
Porém, a noite delles
Não era a que passava!
Na eternidade a sua
Corria, e não findava.
Contrarios ainda ha pouco,
Irmãos, emfim, lá eram!
O seu thesouro de odio,
Mordendo o pó, cederam.
No limiar da morte
Assim tudo fenece:
Inimizades calam,
E até o amor esquece!
Meus dias rodeiados
Foram de amor outr'ora;
E nem um vão suspiro
Terei, morrendo, agora,
Nem o apertar da dextra
Ao desprender da vida,
Nem lagryma fraterna
Sobre a feral jazida!
Meu derradeiro alento
Não colherão os meus.
Por minha alma atterrada
Quem pedirá a Deus?
Ninguem! Aos pés o servo
Meus restos calcará,
E o riso ímpio, odiento,
Mofando soltará.
O sino luctuoso
Não lembrará meu fim:
Preces, que o morto afagam,
Não se erguerão por mim!
O filho dos desertos,
O lobo carniceiro,
Ha-de escutar alegre
Meu grito derradeiro!
Oh morte, o somno teu
Só é somno mais largo;
Porém, na juventude,
É o dormi-lo amargo;
Quando na vida nasce
Essa mimosa flor.
Como a cecem suave,
Delicioso amor;
Quando a mente accendida
Crê na ventura e gloria;
Quando o presente é tudo,
E inda nada a memoria!
Deixar a cara vida,
Então, é doloroso,
E o moribundo á terra
Lança um olhar saudoso.
A taça da existencia
No fundo fézes tem;
Mas os primeiros tragos
Doces, bem doces, vem.
E eu morrerei agora
Sem abraçar os meus,
Sem jubiloso um hymno
Alevantar aos céus?
Morrer, morrer, que importa?
Final suspiro, ouvi-lo
Ha-de a patria. Na terra
Irei dormir tranquillo.
Dormir? Só dorme o frio
Cadaver, que não sente;
A alma voa a abrigar-se
Aos pés do Omnipotente.
Reclinar-me-hei á sombra
Do amplo perdão do Eterno;