Poesias

Alexandre Herculano · Capítulo 46 de 103

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Poesias

Capítulo VII

Eia, servos! O ferro se cruze.

Assobie o pelouro nos ares;

Estes campos convertam-se em mares,

Onde o sangue se possa beber!

Larga a valla! que, após a peleja,

Todos nós dormiremos unidos!

Lá vingados, e do odio esquecidos,

Paz faremos... depois do morrer!

 

VII.

Assim, entre amarguras,

Me delirava a mente;

E o sol ia fugindo

No termo do occidente.

E os fortes lá jaziam

Co'a face ao céu voltada;

Sorria a noite aos mortos,

Passando socegada.

Porém, a noite delles

Não era a que passava!

Na eternidade a sua

Corria, e não findava.

Contrarios ainda ha pouco,

Irmãos, emfim, lá eram!

O seu thesouro de odio,

Mordendo o pó, cederam.

No limiar da morte

Assim tudo fenece:

Inimizades calam,

E até o amor esquece!

Meus dias rodeiados

Foram de amor outr'ora;

E nem um vão suspiro

Terei, morrendo, agora,

Nem o apertar da dextra

Ao desprender da vida,

Nem lagryma fraterna

Sobre a feral jazida!

Meu derradeiro alento

Não colherão os meus.

Por minha alma atterrada

Quem pedirá a Deus?

Ninguem! Aos pés o servo

Meus restos calcará,

E o riso ímpio, odiento,

Mofando soltará.

O sino luctuoso

Não lembrará meu fim:

Preces, que o morto afagam,

Não se erguerão por mim!

O filho dos desertos,

O lobo carniceiro,

Ha-de escutar alegre

Meu grito derradeiro!

Oh morte, o somno teu

Só é somno mais largo;

Porém, na juventude,

É o dormi-lo amargo;

Quando na vida nasce

Essa mimosa flor.

Como a cecem suave,

Delicioso amor;

Quando a mente accendida

Crê na ventura e gloria;

Quando o presente é tudo,

E inda nada a memoria!

Deixar a cara vida,

Então, é doloroso,

E o moribundo á terra

Lança um olhar saudoso.

A taça da existencia

No fundo fézes tem;

Mas os primeiros tragos

Doces, bem doces, vem.

E eu morrerei agora

Sem abraçar os meus,

Sem jubiloso um hymno

Alevantar aos céus?

Morrer, morrer, que importa?

Final suspiro, ouvi-lo

Ha-de a patria. Na terra

Irei dormir tranquillo.

Dormir? Só dorme o frio

Cadaver, que não sente;

A alma voa a abrigar-se

Aos pés do Omnipotente.

Reclinar-me-hei á sombra

Do amplo perdão do Eterno;