Poesias

Alexandre Herculano · Capítulo 36 de 103

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Poesias

O Anjo da Guarda.

O teu fatal poder hoje maldigo!

O que te chama pae, mente: és tyranno.

E se aos pés de teu throno os ais não chegam; Se os gemidos da terra os ares somem;

Se a Providencia é crença van, mentida, Porque geraste a intelligencia do homem?

Porque da virgem no sorrir poseste

Sancto presagio de suprema dita,

E apontaste ao poeta a immensidade

Na ancia de gloria que em sua alma habita?

A immensidade!... E que me importa herda-la, Se na terra passei sem ser sentido?

Que val eterno vagueiar no espaço,

Se nosso nome se afundou no olvido?

 

O ANJO DA GUARDA.

«I mpio, silencio! A tua voz blasphema

Da noite a paz perturba.

Verme, que te rebellas

Sob a mão do Senhor,

Vês os milhões d'estrellas

De nitido fulgor,

Que, em ordenada turba,

A Deus entoam incessantes hymnos?

Quantas vezes apaga

Do livro da existencia

Um orbe a mão do Eterno!

E o bello astro que expira

Maldiz a Providencia,

Maldiz a mão que o esmaga?

Acaso pára o cantico superno?

Ou apenas suspira O moribundo,

Que se chamava um mundo?

Quem vai pôr uma campa sobre os restos Desse inerte planeta,

Que o destructor cometa

Incinerou na rapida passagem?

E tu, átomo obscuro,

Que varre á tarde a aragem,

Sóltas do seio impuro

Maldicção insensata,

Porque o teu Deus te evoca á eternidade? Que é o viver? O umbral, a que um momento O espirito, surgindo

Das solidões do nada

Á voz do Creador, se encosta, e attento

Contempla a luz e o céu; d'onde desata

Seu vôo á immensidade.

Geme acaso o passarinho

De saudade,

Quando as azas expande, e deixa o ninho A vez primeira, a mergulhar nos ares?

Volve olhos lachrymosos

Aos mares tormentosos

O navegante, quando aproa ás plagas

Da patria suspirada?

Porque morres?! Pergunta á Providencia Porque te fez nascer.

Qual era o teu direito a ver o mundo;

Teu jus á existencia?

Olha no outono o ulmeiro

Que o vendaval agita,

E cujas tenues folhas

Aos centos precipita.

São a folha do ulmeiro o nome e a fama, E o amar dos humanos:

Ao nada do que foi assim se atiram

No vortice dos annos.