Poesias

Alexandre Herculano · Capítulo 57 de 103

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Poesias

O Mendigo.

O tufão, que espalhou seus frageis restos,

Passou: não deixou trilha.

Da sarça a flor virente

Nasceu, gosou, e é morta:

E a qual desses amantes de um momento

Seu fado escuro importa?

Nenhum, nenhum por ella

Gemeu saudoso á tarde;

Não ha quem juncte as derramadas folhas,

Quem amoroso as guarde.

Só da manhan o sôpro,

Passando no outro dia,

Da rosa, que adorou, quando a innocencia

Em seu botão sorria,

Juncto do tronco humilde

O curso demorando,

Veio depositar perdão, saudade,

Queixoso sussurrando.

De quantas és a imagem,

Oh desgraçada flor!

Quantos perdões sobre um sepulchro abjecto

Tem murmurado o amor!

 

O MENDIGO.

 

I.

O sol passa nos céus:—sob o carvalho,

Por cujos troncos se pendura a vide,

Cego ancião,

Mirrada dextra supplice estendendo,

Ao passageiro, que o despreza, implora

Do opprobrio o pão.

Ninguem o escuta, o dia foge, e a noite

Involve a luz no manto impenetravel:

E elle chorou:

E em seus andrajos para choça alpestre, Sem se queixar de Deus, tardios passos

Encaminhou:

Mas antes que chegasse ao pobre alvergue, Do presbyterio o sino harmonioso

Soar ouvia,

Que, despedindo em roda os sons pausados, Convidava os fiéis a erguer as preces

Da Ave-Maria.

Á cruz do adro relvoso as mãos mirradas O velho ergueu, e ao céu inuteis olhos

E uma oração,

A oração do infeliz, que Deus só ouve

Quando o desdenha o mundo e ludibria

Sua afflicção.

Para o velho a existencia é solitaria,

Bem como a fonte que esgotou o estio.

Onde os pastores

Vinham a saciar o manso gado;

Onde contavam penas e prazeres

Dos seus amores.

A alampada na igreja triste e muda

Bruxuleava seu clarão, pendendo