Poesias
O Mendigo.
O tufão, que espalhou seus frageis restos,
Passou: não deixou trilha.
Da sarça a flor virente
Nasceu, gosou, e é morta:
E a qual desses amantes de um momento
Seu fado escuro importa?
Nenhum, nenhum por ella
Gemeu saudoso á tarde;
Não ha quem juncte as derramadas folhas,
Quem amoroso as guarde.
Só da manhan o sôpro,
Passando no outro dia,
Da rosa, que adorou, quando a innocencia
Em seu botão sorria,
Juncto do tronco humilde
O curso demorando,
Veio depositar perdão, saudade,
Queixoso sussurrando.
De quantas és a imagem,
Oh desgraçada flor!
Quantos perdões sobre um sepulchro abjecto
Tem murmurado o amor!
O MENDIGO.
I.
O sol passa nos céus:—sob o carvalho,
Por cujos troncos se pendura a vide,
Cego ancião,
Mirrada dextra supplice estendendo,
Ao passageiro, que o despreza, implora
Do opprobrio o pão.
Ninguem o escuta, o dia foge, e a noite
Involve a luz no manto impenetravel:
E elle chorou:
E em seus andrajos para choça alpestre, Sem se queixar de Deus, tardios passos
Encaminhou:
Mas antes que chegasse ao pobre alvergue, Do presbyterio o sino harmonioso
Soar ouvia,
Que, despedindo em roda os sons pausados, Convidava os fiéis a erguer as preces
Da Ave-Maria.
Á cruz do adro relvoso as mãos mirradas O velho ergueu, e ao céu inuteis olhos
E uma oração,
A oração do infeliz, que Deus só ouve
Quando o desdenha o mundo e ludibria
Sua afflicção.
Para o velho a existencia é solitaria,
Bem como a fonte que esgotou o estio.
Onde os pastores
Vinham a saciar o manso gado;
Onde contavam penas e prazeres
Dos seus amores.
A alampada na igreja triste e muda
Bruxuleava seu clarão, pendendo