Poesias
A Graça.
Que é a gloria na terra? Um eccho frouxo, Que somem mil ruí dos.
E a voz da terra o que é, na voz immensa Dos orbes reunidos?
Amor! amor terreno!... Ai, se podesses
Comprehender a amargura,
Com que te chóro, oh alma transviada!
Eu, que te amei do berço, e qual doçura
Ha no affecto que liga o anjo ao homem, Rindo despiras esse corpo enfermo,
Para te unir a mim, para aspirares
O goso celestial de amor sem termo!
Alma triste, que mesquinha
Te debruças sobre o inferno,
Ouve o anjo, pobresinha;
Vem ao goso sempiterno.
Resigna-te e espera, e os dias de prova
Serão para o crente quaes breves instantes. Tomar-te-hei nos braços no trance da morte, Fendendo o infinito co' as asas radiantes. Depois, das alturas teu terreo vestido
Sorrindo veremos na terra guardar,
E ao hymno de Hosanna nos córos celestes A voz de um remido iremos junctar.»
A GRAÇA.
Que harmonia suave
É esta, que na mente
Eu sinto murmurar,
Ora profunda e grave,
Ora meiga e cadente,
Ora que faz chorar?
Porque da morte a sombra,
Que para mim em tudo
Negra se reproduz, Se aclara, e desassombra
Seu gesto carrancudo,
Banhada em branda luz?
Porque no coração
Não sinto pesar tanto
O ferreo pé da dor,
E o hymno da oração,
Em vez de irado canto,
Me pede íntimo ardor?
És tu, meu anjo, cuja voz divina
Vem consolar a solidão do enfermo,
E a contemplar com placidez o ensina
De curta vida o derradeiro termo?
Oh, sim! és tu, que na infantil idade,
Da aurora á frouxa luz,
Me dizias:—acorda, innocentinho,
Faze o signal da cruz.»
És tu, que eu via em sonhos, nesses annos De inda puro sonhar,
Em nuvem d'ouro e purpura descendo
Co' as roupas a alvejar.
És tu, és tu! que ao pôr do sol, na veiga, Juncto ao bosque fremente,
Me contavas mysterios, harmonias
Dos céus, do mar dormente.
És tu, és tu! que, lá, nesta alma absorta
Modulavas o canto,
Que de noite, ao luar, sósinho erguia
Ao Deus tres vezes sancto.
És tu, que eu esqueci na idade ardente
Das paixões juvenis,
E que voltas a mim, sincero amigo,
Quando sou infeliz.