Poesias

Alexandre Herculano · Capítulo 37 de 103

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Poesias

A Graça.

Que é a gloria na terra? Um eccho frouxo, Que somem mil ruí dos.

E a voz da terra o que é, na voz immensa Dos orbes reunidos?

Amor! amor terreno!... Ai, se podesses

Comprehender a amargura,

Com que te chóro, oh alma transviada!

Eu, que te amei do berço, e qual doçura

Ha no affecto que liga o anjo ao homem, Rindo despiras esse corpo enfermo,

Para te unir a mim, para aspirares

O goso celestial de amor sem termo!

Alma triste, que mesquinha

Te debruças sobre o inferno,

Ouve o anjo, pobresinha;

Vem ao goso sempiterno.

Resigna-te e espera, e os dias de prova

Serão para o crente quaes breves instantes. Tomar-te-hei nos braços no trance da morte, Fendendo o infinito co' as asas radiantes. Depois, das alturas teu terreo vestido

Sorrindo veremos na terra guardar,

E ao hymno de Hosanna nos córos celestes A voz de um remido iremos junctar.»

 

A GRAÇA.

Que harmonia suave

É esta, que na mente

Eu sinto murmurar,

Ora profunda e grave,

Ora meiga e cadente,

Ora que faz chorar?

Porque da morte a sombra,

Que para mim em tudo

Negra se reproduz, Se aclara, e desassombra

Seu gesto carrancudo,

Banhada em branda luz?

Porque no coração

Não sinto pesar tanto

O ferreo pé da dor,

E o hymno da oração,

Em vez de irado canto,

Me pede íntimo ardor?

És tu, meu anjo, cuja voz divina

Vem consolar a solidão do enfermo,

E a contemplar com placidez o ensina

De curta vida o derradeiro termo?

Oh, sim! és tu, que na infantil idade,

Da aurora á frouxa luz,

Me dizias:—acorda, innocentinho,

Faze o signal da cruz.»

És tu, que eu via em sonhos, nesses annos De inda puro sonhar,

Em nuvem d'ouro e purpura descendo

Co' as roupas a alvejar.

És tu, és tu! que ao pôr do sol, na veiga, Juncto ao bosque fremente,

Me contavas mysterios, harmonias

Dos céus, do mar dormente.

És tu, és tu! que, lá, nesta alma absorta

Modulavas o canto,

Que de noite, ao luar, sósinho erguia

Ao Deus tres vezes sancto.

És tu, que eu esqueci na idade ardente

Das paixões juvenis,

E que voltas a mim, sincero amigo,

Quando sou infeliz.