Poesias

Alexandre Herculano · Capítulo 21 de 103

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Poesias

A Voz.

Onde maldigas a existencia e a morte.

 

XXVII.

Calou tudo no templo: o céu é puro,

A tempestade ameaçadora dorme.

No espaço immenso os astros scintillantes O Rei da creação louvam com hymnos,

Não ouvidos por nós nas profundezas

Do nosso abysmo. E aos cantos do Universo, Ante milhões de estrellas, que recamam O firmamento, ajunctará seu canto

Mesquinho trovador?—Que vale uma harpa Mortal no meio da harmonia etherea,

No concerto da noite? Oh, no silencio,

Eu pequenino verme irei sentar-me

Aos pés da Cruz nas trévas do meu nada. Assim se apaga a lampada nocturna

Ao despontar do sol o alvor primeiro:

Por entre a escuridão deu claridade;

Mas do dia ao nascer, que já rutíla,

As torrentes de luz vertendo ao longe,

Da lampada o clarão sumiu-se, inutil,

Nesse fulgido mar, que inunda a terra.

 

A VOZ.

 

É tão suave ess' hora,

Em que nos foge o dia,

E em que suscita a lua Das ondas a ardentia,

Se em alcantis marinhos,

Nas rochas assentado,

O trovador medita

Em sonhos enleiado!

O mar azul se encrespa

Co'a vespertina brisa,

E no casal da serra

A luz ja se divisa.

E tudo em roda cala

Na praia sinuosa,

Salvo o som do remanso

Quebrando em furna algosa.

Alli folga o poeta

Nos desvarios seus,

E nessa paz que o cérca

Bemdiz a mão de Deus.

Mas despregou seu grito

A alcyone gemente,

E nuvem pequenina

Ergueu-se no occidente:

E sóbe, e cresce, e immensa

Nos céus negra fluctua,

E o vento das procellas

Já varre a fraga nua.

Turba-se o vasto oceano,

Com horrido clamor;

Dos vagalhões nas ribas

Expira o vão furor E do poeta a fronte

Cubriu véu de tristeza:

Calou, á luz do raio,

Seu hymno á natureza.

Pela alma lhe vagava

Um negro pensamento,

Da alcyone ao gemido,

Ao sibillar do vento.

Era blasphema idéa,

Que triumphava emfim;

Mas voz soou ignota,

Que lhe dizia assim:

 

—«Cantor, esse queixume

Da nuncia das procellas,

E as nuvens, que te roubam

Myriadas de estrellas,

E o frémito dos euros,

E o estourar da vaga,

Na praia, que revolve,

Na rocha, onde se esmaga,

Onde espalhava a brisa

Sussurro harmonioso,

Em quanto do ether puro

Descia o sol radioso,

Typo da vida do homem,

É do universo a vida;

Depois do afan repouso,

Depois da paz a lida.