Poesias

Alexandre Herculano · Capítulo 54 de 103

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Poesias

Poesias Varias.

A mãe o filho seu,

Que busca, mal nasceu,

Fontes da vida e amor.

Surges, symbolo eterno

No céu, na terra e mar,

Do forte no expirar,

E do viver no alvor!

 

LIVRO SEGUNDO

POESIAS VARIAS.

 

A PERDA D'ARZILLA.

 

(1549).

Era noite: do céu limpo e sereno

Milhões d'estrellas trémulas pendiam,

Quaes as nocturnas lampadas d'um templo, E as ribas ermas sussurrar se ouviam.

D'alterosa galé o negro vulto

Corta ao largo, bem largo, o mar do Algarve, E lá nas serras d'Africa fronteiras

Branqueja a espaços o albornoz do alarve.

Como tocheiros com brandões accesos,

De um féretro ao redor,

Cuja vermelha luz o horror da morte

Só faz sentir melhor,

Taes as nocturnas almenáras fulgem

Nas torres d'atalaia,

Pelos outeiros, que circumdam muros

De povoação na praia.

Arzilla, a guerreira.

Lá jaz na afflicção,

Que a rendeu aos mouros

Elrei dom João.

Tomar-te-ha Deus contas,

Rei fraco e prasmado,

De tão grande vilta,

De teu grão peccado.

Maldiz-te nos mares

Valente fronteiro,

Que na sé de Ceuta

Se armou cavalleiro;

Que dez aduares

Em Tanger queimou,

E em muros d'Alcacer

Dez elches matou:

Que era hoje d'Arzilla

Temido adaí l,

E a quem tu mandaste

Fugir como vil.

 

Vêde-o lá na gavia

Da negra galé,

De braços cruzados,

Immovel, em pé;

E a náu que arfa e voa

Na fremente via,

Ferindo na esteira

Fugaz ardentia;

E d'Africa as praias,

Que a ré vão fugindo,

E as vagas, que rolam,

Distantes mugindo.

Em roda o silencio: