Poesias

Alexandre Herculano · Capítulo 97 de 103

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Poesias

O Canto do Cossaco.

O corpo aqui dormirá:

Porém tua alma comigo

Mais longe se acolherá!»

Não lhe respondeu o alcaide,

Que a morte empallidecera,

E, ao som de arranco profundo,

No chão, extincto, batera.

Mas contam 'inda os pastores,

Que á meia-noite vagueia

Nas margens do ameno Lima,

Que murmurando serpeia;

E que, gritando e gemendo,

O seguem duas figuras,

Ambas com brancos vestidos

E tisnadas cataduras.

 

O CANTO DO COSSACO.

 

(Béranger).

 

Vem, meu ginete: oh vem, meu nobre amigo! Chama-te em altos sons tuba do norte.

Prestes no saque, intrepido nas brigas,

Dá, guiado por mim, asas á morte.

Os teus jaezes não arreia o ouro;

Mas de meus feitos o terás em paga.

Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,

E os reis e os povos com teus pés esmaga.

Tuas rédeas me entrega a paz que foge. Ei-los por terra os europeus baluartes!

Meus aureos sonhos realisa agora;

Terás repouso na mansão das artes.

Volve a terceira vez ao Sena inquieto,

Que te lavou sangrento, e a sede apaga. Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,

E os reis e os povos com teus pés esmaga.

Reis, sacerdotes, grandes nos clamaram, Entre o choro de mi seros humanos:

—Cossacos, vinde ser de nós senhores! Servos seremos, por ficar tyrannos.»

E a cruz e o sceptro quebrarão meus fortes; Que eu hei tomado minha lança e adaga. Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,

E os reis e os povos com teus pés esmaga.

De um enorme gigante vi o espectro

Nosso campo correr co' a vista ardente;

E, gritando:—meu reino outra vez surge!»— Mostrar com a acha d'armas o occidente.

A sombra era immortal do rei dos Hunos; D'Áttila a voz, qual maldicção aziaga.

Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,

E os reis e os povos com teus pés esmaga.

De que serve seu brilho á velha Europa? Que lhe presta o saber para salvar-se?

Os turbilhões de pó, que hão-de sumi-la, Debaixo de teus pés vão levantar-se.

Templos, palacios, leis, memorias, usos, Na correria extrema, e pisa e estraga.