Poesias

Alexandre Herculano · Capítulo 41 de 103

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Poesias

O Soldado.

Herdarei o morrer! Como é suave

Bençam de pae querido.

Será o despertar, ver meu cadaver,

Ver o grilhão partido.

Um consolo, entretanto, resta ainda

Ao pobre velador:

Deus lhe deixou, nas trévas da existencia,

Doce amizade e amor.

Tudo o mais é sepulchro branqueado

Por embusteira mão;

Tudo o mais vãos prazeres, que só trazem

Remorso ao coração.

Passarei minha noite a luz tão meiga,

Até o amanhecer;

Até que suba á patria do repouso,

Onde não ha morrer.

 

O SOLDADO.

 

I.

Veia tranquilla e pura

Do meu paterno rio,

Dos campos, que elle réga,

Mansi ssimo armentio.

Rocio matutino,

Prados tão deleitosos,

Valles, que assombram selvas

De sinceiraes frondosos,

Terra da minha infancia,

Tecto de meus maiores,

Meu breve jardimzinho,

Minhas pendidas flores,

Harmonioso e sancto

Sino do presbyterio,

Cruzeiro venerando

Do humilde cemiterio.

Onde os avós dormiram,

E dormirão os paes;

Onde eu talvez não durma,

Nem rese, talvez, mais,

Eu vos saúdo! e o longo

Suspiro amargurado

Vos mando. É quanto póde

Mandar pobre soldado.

Sobre as cavadas ondas

Dos mares procellosos,

Por vós já fiz soar

Meus cantos dolorosos.

Na prôa resonante

Eu me assentava mudo,

E aspirava ancioso

O vento frio e agudo;

Porque em meu sangue ardia

A febre da saudade,

Febre que só minora

Sopro de tempestade;

Mas que se irrita, e dura

Quando é tranquillo o mar;