Poesias
O Soldado.
Herdarei o morrer! Como é suave
Bençam de pae querido.
Será o despertar, ver meu cadaver,
Ver o grilhão partido.
Um consolo, entretanto, resta ainda
Ao pobre velador:
Deus lhe deixou, nas trévas da existencia,
Doce amizade e amor.
Tudo o mais é sepulchro branqueado
Por embusteira mão;
Tudo o mais vãos prazeres, que só trazem
Remorso ao coração.
Passarei minha noite a luz tão meiga,
Até o amanhecer;
Até que suba á patria do repouso,
Onde não ha morrer.
O SOLDADO.
I.
Veia tranquilla e pura
Do meu paterno rio,
Dos campos, que elle réga,
Mansi ssimo armentio.
Rocio matutino,
Prados tão deleitosos,
Valles, que assombram selvas
De sinceiraes frondosos,
Terra da minha infancia,
Tecto de meus maiores,
Meu breve jardimzinho,
Minhas pendidas flores,
Harmonioso e sancto
Sino do presbyterio,
Cruzeiro venerando
Do humilde cemiterio.
Onde os avós dormiram,
E dormirão os paes;
Onde eu talvez não durma,
Nem rese, talvez, mais,
Eu vos saúdo! e o longo
Suspiro amargurado
Vos mando. É quanto póde
Mandar pobre soldado.
Sobre as cavadas ondas
Dos mares procellosos,
Por vós já fiz soar
Meus cantos dolorosos.
Na prôa resonante
Eu me assentava mudo,
E aspirava ancioso
O vento frio e agudo;
Porque em meu sangue ardia
A febre da saudade,
Febre que só minora
Sopro de tempestade;
Mas que se irrita, e dura
Quando é tranquillo o mar;