Poesias

Alexandre Herculano · Capítulo 29 de 103

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Poesias

Capítulo XI

Após si volve os olhos; na existencia

Deserto árido só descobre ao longe,

Onde a virtude não deixou um trilho.

Mas o justo, chegando á meta extrema,

Que separa de nós a eternidade,

Transpõe-na sem temor, e em Deus exulta. O infeliz e o feliz lá dormem ambos,

Tranquillamente: e o trovador mesquinho, Que peregrino vagueiou na terra,

Sem encontrar um coração ardente

Que o entendesse, a patria de seus sonhos, Ignota, por lá busca; e quando as eras

Vierem juncto ás cinzas collocar-lhe

Tardios louros, que escondera a inveja,

Elle não erguerá a mão mirrada,

Para os cingir na regelada fronte.

Justiça, gloria, amor, saudade, tudo,

Ao pé da sepultura, é som perdido

De harpa eolia esquecida em brenha ou selva: O despertar um pae, que saboreia

Entre os braços da morte o extremo somno, Já não é dado ao filial suspiro;

Em vão o amante, alli, da amada sua

De rosas sobre a c'roa debruçado,

Réga de amargo pranto as murchas flores E a fria pedra: a pedra é sempre fria,

E para sempre as flores se murcharam.

 

XI.

Bello ermo! eu hei-de amar-te, emquanto esta alma, Aspirando o futuro além da vida

E um halito dos ceus, gemer atada

Á columna do exilio, a que se chama

Em lingua vil e mentirosa o mundo.