Poesias
Scena VIII.
Ei-lo o triste signal, signal de morte!
Á sua esquiva sorte
Não poderão fugir! Meu Deus!
LOBNA.
Patente
Ante si tudo hão-de encontrar. Se ao menos
Suspeitassem de nós!
HALEVA.
Ei-los! Silencio!
SCENA VIII.
D. Pedro e D. Henrique entrando dirigem-se para Lobna e Haleva, que recuam aterradas.
D. PEDRO.
Lobna!
D. HENRIQUE.
Haleva!
D. PEDRO.
O juramento
O momento é de cumprir!
De partir não tarda a hora:
Ha-de a aurora
Refulgir-nos juncto ao mar.
D. HENRIQUE.
Sobre os rapidos corceis
Nós fieis vos guiaremos
Aonde achemos mil delicias
Nas caricias
De que amor nos vai cercar!
D. PEDRO E D. HENRIQUE.
Vinde! a noite nos protege:
Dorme tudo pela aldeia;
E este braço não receia,
Quando cumpre, o pelejar.
Vinde ser enlevo d'almas,
Sob um céu meigo e sereno;
Que nunca ha-de o sarraceno
Como nós saber amar!
LOBNA.
Correndo ao portico da direita, e voltando com afflicção e energia.
Fugí breve, oh desgraçados,
Que cercados sois da morte!
Queira a sorte que um momento
Seu intento
A cumprir tarde Gulnar!
HALEVA.
De ninguem serdes sentidos,
Já perdidos, ainda creis!
Mal sabeis vos esperava
Quem velava
Para em vós um pae vingar!
LOBNA E HALEVA.
Triste umbral haveis cruzado,
Do wali ultimo abrigo,
Que no extremo do perigo
Jaz a ponto d'expirar.
Por seu sangue a feroz filha,
Que essas portas franqueiou,
Vingativa aos céus jurou
Vosso sangue derramar.
D. PEDRO.
A perfidía em recompensa
Só achou o nosso ardor?!
Desleaes! Porque o furor
De mulher cruel servir?
D. HENRIQUE.
Porque a vida nos pedieis,
No olhar terno amor pedindo,
Quando os golpes retinindo
Era livre inda o fugir?
D. PEDRO E D. HENRIQUE.
Porque em noite deliciosa
De deli rios seductores,
Generosos vencedores
Só pensaveis em trahir?!
LOBNA.
Uma idéa tenebrosa
De Gulnar surgiu na mente
Nessa noite, em que estridente
Veiu a espada aqui luzir:
HALEVA.
«Ide:—disse-nos—sois bellas:
Fascinae os nazarenos,
Talvez possa assim, ao menos,
Da vingança a senda abrir!»
LOBNA E HALEVA.
A leôa do deserto
Entre as cervas se escondia:
Seu aceno constrangia
Pobre escrava a amor fingir.
D. PEDRO E D. HENRIQUE.
Com vivacidade e despeito.
Era pois um falso affecto?!...
LOBNA.
Foi-o só um breve instante...
HALEVA.
Hoje puro, hoje constante
LOBNA E HALEVA.
Far-nos-ha por vós morrer.
D. PEDRO.
Pondo a mão sobre o punho da espada.
Que ella venha, pois, e a cerquem
Seus escravos traiçoeiros!
Portugueses, cavalleiros
Somos nós: ha-de tremer!
D. HENRIQUE.
Sabe o forte nos combates
Se este braço é prompto e duro;
O covarde, que no escuro
Fere só, o ha-de saber!
LOBNA E HALEVA.
| Oh, fugi; que ainda é tempo, | Antes de ella aqui volver! |
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4 | D. PEDRO E D. HENRIQUE
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| Partiremos! Dentro em breve |
| Nos vereis aqui volver!
O exterior da sala illumina-se de repente: a luz penetra pela gelosia, e pelos porticos da direita e da esquerda. Os infantes, que vão a sair, param e escutam.
CÔRO DE GUERREIROS MOUROS, fóra.
Gloria ao sancto propheta que aos impios
A cerviz insolente vergou,
E do amir português crueis filhos
Do muslim ao punhal entregou!
LOBNA E HALEVA.
Bateu funerea hora...
Morreu nossa esperança!
D. PEDRO E D. HENRIQUE.