Poesias

Alexandre Herculano · Capítulo 89 de 103

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Poesias

Scena VIII.

Ei-lo o triste signal, signal de morte!

Á sua esquiva sorte

Não poderão fugir! Meu Deus!

 

LOBNA.

 

Patente

Ante si tudo hão-de encontrar. Se ao menos

Suspeitassem de nós!

 

HALEVA.

 

Ei-los! Silencio!

 

SCENA VIII.

 

D. Pedro e D. Henrique entrando dirigem-se para Lobna e Haleva, que recuam aterradas.

 

D. PEDRO.

 

Lobna!

 

D. HENRIQUE.

 

Haleva!

 

D. PEDRO.

O juramento

O momento é de cumprir!

De partir não tarda a hora:

Ha-de a aurora

Refulgir-nos juncto ao mar.

 

D. HENRIQUE.

 

Sobre os rapidos corceis

Nós fieis vos guiaremos

Aonde achemos mil delicias

Nas caricias

De que amor nos vai cercar!

 

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

 

Vinde! a noite nos protege:

Dorme tudo pela aldeia;

E este braço não receia,

Quando cumpre, o pelejar.

Vinde ser enlevo d'almas,

Sob um céu meigo e sereno;

Que nunca ha-de o sarraceno

Como nós saber amar!

 

LOBNA.

 

Correndo ao portico da direita, e voltando com afflicção e energia.

Fugí breve, oh desgraçados,

Que cercados sois da morte!

Queira a sorte que um momento

Seu intento

A cumprir tarde Gulnar!

HALEVA.

 

De ninguem serdes sentidos,

Já perdidos, ainda creis!

Mal sabeis vos esperava

Quem velava

Para em vós um pae vingar!

 

LOBNA E HALEVA.

 

Triste umbral haveis cruzado,

Do wali ultimo abrigo,

Que no extremo do perigo

Jaz a ponto d'expirar.

Por seu sangue a feroz filha,

Que essas portas franqueiou,

Vingativa aos céus jurou

Vosso sangue derramar.

 

D. PEDRO.

 

A perfidía em recompensa

Só achou o nosso ardor?!

Desleaes! Porque o furor

De mulher cruel servir?

 

D. HENRIQUE.

 

Porque a vida nos pedieis,

No olhar terno amor pedindo,

Quando os golpes retinindo

Era livre inda o fugir?

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

 

Porque em noite deliciosa

De deli rios seductores,

Generosos vencedores

Só pensaveis em trahir?!

 

LOBNA.

 

Uma idéa tenebrosa

De Gulnar surgiu na mente

Nessa noite, em que estridente

Veiu a espada aqui luzir:

 

HALEVA.

 

«Ide:—disse-nos—sois bellas:

Fascinae os nazarenos,

Talvez possa assim, ao menos,

Da vingança a senda abrir!»

 

LOBNA E HALEVA.

 

A leôa do deserto

Entre as cervas se escondia:

Seu aceno constrangia

Pobre escrava a amor fingir.

 

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Com vivacidade e despeito.

Era pois um falso affecto?!...

 

LOBNA.

 

Foi-o só um breve instante...

 

HALEVA.

 

Hoje puro, hoje constante

 

LOBNA E HALEVA.

 

Far-nos-ha por vós morrer.

 

D. PEDRO.

 

Pondo a mão sobre o punho da espada.

Que ella venha, pois, e a cerquem

Seus escravos traiçoeiros!

Portugueses, cavalleiros

Somos nós: ha-de tremer!

 

D. HENRIQUE.

 

Sabe o forte nos combates

Se este braço é prompto e duro;

O covarde, que no escuro

Fere só, o ha-de saber!

LOBNA E HALEVA.

 

| Oh, fugi; que ainda é tempo, | Antes de ella aqui volver! |

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4 | D. PEDRO E D. HENRIQUE

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| Partiremos! Dentro em breve |

| Nos vereis aqui volver!

 

O exterior da sala illumina-se de repente: a luz penetra pela gelosia, e pelos porticos da direita e da esquerda. Os infantes, que vão a sair, param e escutam.

 

CÔRO DE GUERREIROS MOUROS, fóra.

 

Gloria ao sancto propheta que aos impios

A cerviz insolente vergou,

E do amir português crueis filhos

Do muslim ao punhal entregou!

 

LOBNA E HALEVA.

 

Bateu funerea hora...

Morreu nossa esperança!

 

D. PEDRO E D. HENRIQUE.