Poesias

Alexandre Herculano · Capítulo 61 de 103

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Poesias

O Bom Pescador.

Nos gonzos ferrugentos range a porta

Do tugurio do pobre adormecido,

E descuidado;

Que do mendigo o umbral patente é sempre, Nem carece de estar, como o do rico,

Aferrolhado.

O bom do velho ao sobresalto acorda,

E as lagrymas de alguem banham-lhe a face,

E o pranto é mudo;

Mas breve um grito e o soluçar e os beijos E o sonho que passou e a voz do sangue

Lhe dizem tudo.

Não mais sob o carvalho ao velho honrado Esmoladora mão o peregrino

Estenderá:

Meigos lhe sorrirão extremos dias,

E as suas cinzas filial gemido

Consolará.

 

O BOM PESCADOR.

 

O sol rubro, em leito

De nuvens descendo,

Tremente, crescendo,

No mar se ia a pôr.

Sentado no barco,

Que a onda embalava,

Scismando cantava

O bom pescador.

A paz da sua alma

No olhar exprimia,

E a voz traduzia

Scismar do cantor:

E o canto sereno

Levava-lho a brisa,

Que á tarde deslisa

Com meigo frescor.

 

«Acabem de todo

No prado as boninas,

E em vastas campinas

Não surja uma flor;

Dispa-se o ameeiro

Da folha viçosa,

E o Tejo em lodosa

Mude esta azul côr;

O vento gelado

Só reine e as procellas;

Das vivas estrellas

Se apague o fulgor:

O sol radioso

Em nuvens se envolva,

E á terra não volva

Seu grato calor;

Que do horrido inverno,

Comtigo, oh serrana,

Na minha choupana

Rirei do furor!

Não pensa se as veigas

Se vestem de relva,

Se está nua a selva

Do lindo verdor;

Nem ouve os rugidos

Do vento inquieto

Quem, sob o seu tecto,

Se abriga no amor.

Nasci, eduquei-me

N'um mundo mais nobre,

Agora sou pobre,

Sou um pescador.

Ás bordas do abysmo

Chegou-me a ventura;

Medí delle a altura,

Descí sem pavor.

Co'a dita se enlaça

Humilde existencia,

Se do homem a essencia

O orgulho não fôr.

Emquanto de paços,

De ferteis devesas,

Emfim, de riquezas

Eu pude dispor,

O somno tranquillo

A mim não descia,

Que o ferro temia

Do vil salteador.

Na minha alma, immersa

Em noite e amargura,

Pesava bem dura

A mão do Senhor!

Agora misturo

Do rude oceano

Nas vagas, ufano,

O honrado suor;

Agora sereno

Vem dia após dia,

E a noite sombria

Não cerca o temor;

Porque entre teus braços,

Esposa querida,

Me esqueço da lida

Do mar bramidor.

Da vida no sonho

Que importa vil ouro,

Se tu és thesouro

Perpetuo de amor;

Se ainda em teus labios,

Oh cara consorte,

Virá doce a morte

Minha alma depor?

Nas ribas fragosas,

Que os ventos castigam,

E as ondas fustigam

Com longo fragor,

Ao pé da ermidinha,

Nesse adro tão só,