Poesias

Alexandre Herculano · Capítulo 98 de 103

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Poesias

O Caçador Feroz.

Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,

E os reis e os povos com teus pés esmaga.

 

O CAÇADOR FEROZ.

 

(Burger).

 

Sua buzina tocára

O conde, altivo senhor:

«De pé, de cavallo, álerta!—

Disse; e monta o corredor.

O nobre animal relincha:

Pula e parte; e a turba após.

Ei-los vão! Quem era o conde?

Era o caçador feroz.

Por estevaes e por sarças,

Por campinas cultivadas,

Voam rapidos. Resoam

Motejos, gritos, risadas.

O sol que vinha rompendo

Em luz as veigas banhava,

E do zimborio do templo

O lanternim scintillava.

«Tlim, tlão!—convocando á missa,

Tangia o sagrado sino;

E involto nos sons de um orgam,

Do côro se ouvia o hymno.

Duas sendas lá se cruzam;

E a turba chegára lá.

Da direita um cavalleiro,

E outro da esquerda está.

Nedio ginete, qual neve

Alvo, guiava o primeiro;

O segundo, á rédea solta,

Esporeava um fouveiro.

Quem taes cavalleiros eram

Creio certo adivinha-lo,

Bem que ainda com certeza

Não me atreva a declara-lo.

Da direita ao cavalleiro

Fulgia o rosto formoso;

Porém no olhar do da esquerda

Fulgor havia horroroso.

«Bem vindos sois, cavalleiros;

Bem vindos á montaria!

Qual prazer, no céu, na terra,

Ao nosso se igualaria!—

Assim disse o conde, e rija

Palmada na côxa deu.

Atirando pelos ares

A grande altura o chapeu.

«O som da tua buzina—

Tornou logo o da direita—

Nem aos canticos do côro

Nem do sino ao som se ageita.

Ruim caçada te espera!

Atrás te cumpre voltar.

Contra ti a ira celeste

Não queiras desafiar.»

«Nobre conde monteae—

Prestes o outro atalhou—

Que importa a bulha do côro,

E se o sino badalou?

Deixae ao povo o seu medo:

Que para a relé foi feito.

Não são palavras sandías

Das que merecem respeito.—

«Ah, bem dicto! Oh tu da esquerda,

Um heroe és quanto a mim.

Só padre-nossos empecem

A algum caçador ruim!

Que tem missas, que tem resas

Com o montear, sandeu?

Se medo queres metter-me,

Falhou o calculo teu.—

Disse o conde. Ávante correm:

Vão por campinas e outeiros.

Sempre da direita e esquerda

Estão os dous cavalleiros.

Eis, lá em distancia, um cervo

Branco transpõe a assomada,

Tendo de pontas galhosas

A erguida fronte adornada.

Então o conde a buzina

Com mais alento assoprou,

E tudo, a pé, a cavallo,

Com mais rapidez voou.

Ora dos que por diante,

Ora dos que de trás vão,

Um ou outro rebentado

Fica no meio do chão.

E o conde:—Cahem? No inferno

Baqueiar podesseis vós!

Os que desalentam fiquem:

Sem elles bem vamos nós.—

N'uma seara guarida,

Fugindo, o cervo buscou:

O pobre dono do campo,

Triste, ao conde se chegou:

«Meu bom senhor—clamou elle—

Compaixão, meu bom senhor!

Ah, poupae mesquinhos fructos

De um abundante suor.—

Da direita o cavalleiro

O conde amoestou então:

Cortezes eram seus dictos,

Cortezes e de razão:

Mas, atiçando-o o da esquerda

Á maldade perpetrar,

Desprezou o da direita

Para o maldicto o enredar.

«Fóra cão!—ao camponez

Grita o conde esbravejando—

Quando não, com mil diabos,

Soltar-te a matilha mando.

Álerta, socios! O açoute

Pelas orelhas chegae-lhe;

E que sou fiel ás juras

Dessa maneira provae-lhe.»

Dicto e feito. O conde salta

Por cima os vallos fronteiros;

E atrás delle, estrepitando,

Homens, cavallos, balseiros.

O tropel, com grita horrenda,

Pisa e destroe a seara;

Que ninguem do lavrador

Dorido choro escutára.

Pelo estridor acossado,

Que já bem perto sentia,

O cervo os crueis intentos,

Veloz fugindo, illudia.

Através de montes, valles,

Perseguido e não tomado,

Manhoso se foi metter

Entre um rebanho de gado.

Entrando do campo ao bosque,

Saindo do bosque ao claro,

Seguiram-no os cães, e em breve

Lhe acharam da pista o faro.

Cheio de angustia o pastor,

Por seu rebanho temendo,

Por terra se arremessou

Aos pés do conde, tremendo.

—Deixae meu pobre rebanho;

Senhor, tende dó de mi:

De muitas tristes viuvas

O gado retouça aqui.

Cada qual das pobrezinhas

Tem das rezes uma só:

Eis toda a sua riqueza:

Senhor, tende dellas dó.»

Da direita o cavalleiro

O conde amoestou então:

Cortezes eram seus dictos,

Cortezes e de razão:

Mas a maldade do conde

Sempre atiçava o da esquerda,

E elle, o bom ludibriando,

Corria á ultima perda.

«Cão! A mim oppôr-te queres?

As contas vou-te eu fazer.

Quem me déra entre essas vaccas

Comtigo as taes velhas ver;

Que seria o mais suave

Prazer do coração meu

Montear-vos, mais que fosse

Pelas campinas do céu.

Álerta, socios, ávante!

Cães, avança! csê! perdido!—

E os cães no que acham mais perto

Saltam com fero latido.

O pegureiro por terra

Cái em seu sangue banhado,

E sanguento o gado fica

Todo alli atassalhado.

Á morte escapou a custo

O veado, que fugia

Cada vez menos ligeiro,

N'uma floresta sombria.

Cuberto de escuma e sangue,

Perdida a respiração,

Do bosque em meio salvou-se

No alvergue de um ermitão.

Segue-o o tropel incançavel:

Estala o açoute incessante:

Soam buzinas; retinem

Os gritos de—abóca! ávante!»

O solitario piedoso

Da cabana então saíu,

E ao conde, com brando gesto,

Taes palavras dirigiu:

—Senhor, deixa teus intentos,

E o sacro asylo venera:

A creatura ao céu se queixa;

Delle teu castigo espera.

Aos bons avisos, oh conde,

Cede pela ultima vez;

Quando não, na perdição,

Certo, abysmado te vês.»

Cuidadoso o da direita

Ao conde correu então:

Cortezes eram seus dictos,

Cortezes e de razão.

Mas o da esquerda atiçando

Nelle o animo damnado,

Do bom apesar do aviso,

Ai, do mau foi enganado!

«Perdição?! Disso me rio,

Não cuideis que eu tenha susto.

No terceiro céu que fôra

Me escapára o cervo a custo.

Que me importa a ira divina?

Vae-te prégar ao deserto.

Teus sermões a montaria

Não farão falhar, por certo.—

Assim disse o conde. O açoute

Sacode; as buzinas soam.

«Csê! abóca!..—Ui! de diante

Homens e cabana voam.

De trás corceis, homens fogem:

Sons e gritos de caçada

Se esvaecem de repente

Da morte na paz gelada.

Pávido o conde olha em roda:

Tóca a buzina... não soa:

Grita... em vão: nada ouve: o açoute

Vibra: mas no ar não toa.

Para um e para outro lado

O seu cavallo esporeia...

Nem para trás voltar póde,

Nem àvante se meneia.

Então escurece emtorno:

Cada vez mais de ennegrece:

Qual sepulchro fica: ao longe

Bramir triste o mar parece.

Lá troa voz de trovão!

Que era o que dizia a voz?

Era a sentença do conde,

Sentença medonha e atroz.

«Genio infernal, atrevido

Contra Deus, homens e feras!

Das creaturas os gemidos

Resoaram nas espheras.

Tuas maldades e insultos

Alto pedem punição,

Onde da vingança o facho

Ondeia erguido clarão.

Malvado, foge; que os monstros

Do inferno te vão seguir,

Para que sejas exemplo

Aos tyrannos do porvir!»

Qual d'aurora boreal,

Flavo pallido fulgor

Tingiu então na floresta

Das folhas a verde côr.

Immovel, pasmado, mudo,

Gelado o conde ficou;

Trépida angustia dos ossos

Á medulla lhe chegou.

Frio susto pela frente

Contra elle arroja o terror:

Pelas costas o persegue

O trovão atroador.

O susto o gela; o céu ruge...

Da terra vai-se elevando

Negra agigantada mão,

Ora abrindo, ora fechando.

Pelos cabellos da fronte,

Ai, quer o conde prender!..

Elle atrás o rosto volta;

Nem mais o pôde volver.

Em roda chammeja a terra

Verde, azul, vermelho fogo:

Delle um mar rodeia o conde:

Surge o inferno em peso logo.

Lá dos abysmos profundos

Sáem mil mastins raivosos,

Que, pelo averno açodados,

Se tornam mais furiosos.

Toma alento o conde, e foge:

Por montes, por campos vai,

Do seio arrancando a espaços

Do espanto terrivel ai:

Mas por todo o largo mundo