Poesias

Alexandre Herculano · Capítulo 35 de 103

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Poesias

Desesperança.

Por essas faces pallidas, cavadas,

Olhae, em fio as lagrymas deslisam;

E com o pulso, que apressado bate,

Do coração os éstos harmonisam.

É que nas veias lhe circula a febre;

É que a fronte lhe alaga o suor frio;

É que lá dentro á dor, que o vai roendo,

Responde horrivel íntimo ciclo.

Encostando na mão o rosto acceso,

Fitou os olhos humidos de pranto

Na lampada mortal alli pendente,

E lá comsigo modulou um canto.

É um hymno de amor e de esperança?

É oração de angustia e de saudade?

Resignado na dor, saúda a morte,

Ou vibra aos céus blasphemia d'impiedade?

É isso tudo, tumultuando incerto

No delírio febril daquella mente

Que, balouçada á borda do sepulchro,

Volve após si a vista longamente.

É a poesia a murmurar-lhe na alma

Ultima nota de quebrada lyra;

É o gemido do tombar do cedro;

É triste adeus do trovador que expira.

 

DESESPERANÇA.

«Meia-noite bateu, volvendo ao nada

Um dia mais, e caminhando eu sigo!

Vejo-te bem, oh campa mysteriosa...

Eu vou, eu vou! Breve serei comtigo!

Qual tufão, que ao passar agita o pégo.

Meu placido existir turvou a sorte.

Halito impuro de pulmões ralados

Me diz que nelles se assentou a morte.

Em quanto mil e mil no largo mundo

Dormem em paz sorrindo, eu vélo e penso, E julgo ouvir as preces por finados,

E ver a tumba e o fumegar do incenso.

Se dormito um momento, acórdo em sustos; Pulos me dá o coração no peito,

E abraço e beijo de uma vida extincta

O ultimo socio, o doloroso leito.

De um abysmo insondado ás agras bordas Insanavel doença me ha guiado,

E disse-me:—no fundo o esquecimento:

Desce; mas desce com andar pausado.»

E eu lento vou descendo, e sondo as trévas: Busco parar; parar um só instante!

Mas a cruel, travando-me da dextra,

Me faz cahir mais fundo, e grita:—ávante!»

Porque escutar o transito das horas?

Alguma dellas trar-me-ha conforto?

Não! Esses golpes, que no bronze ferem, São para mim como dobrar por morto.

«Morto! morto!—me clama a consciencia: Diz-m'o este respirar rouco e profundo.

Ai! porque fremes, coração de fogo,

Dentro de um seio corrompido e immundo? Beber um ar diaphano e suave,

Que renovou da tarde o brando vento,

E converte-lo, no aspirar contínuo,

Em bafo apodrecido e peçonhento!

Estender para o amigo a mão mirrada,

E elle negar a mão ao pobre amigo;

Querer uni-lo ao seio descarnado,

E elle fugir, temendo o seu perigo!

E ver após um dia ainda cem dias,

Nús d'esperança, ferteis de amargura;

Soccorrer-me ao porvir, e acha-lo um ermo, E só, bem lá no extremo, a sepultura!

Agora!... quando a vida me sorria:

Agora!... que meu estro se accendêra;

Que eu me enlaçava a um mundo d'esperanças, Como se enlaça pelo choupo a hera,

Deixar tudo, e partir, sósinho e mudo;

Varrer-me o nome escuro esquecimento: Não ter um eccho de louvor, que affague Do desgraçado o humilde monumento!

Oh tu, sêde de um nome glorioso,

Que tão fagueiros sonhos me tecias,

Fugiste, e só me resta a pobre herança

De ver a luz do sol mais alguns dias.

Vestem-se os campos do verdor primeiro: Já das aves canções no bosque ecchoam: Não para mim, que só escuto attento

Funereos dobres que no templo soam!

Eu que existo, e que penso, e falo, e vivo, Irei tão cedo repousar na terra?!

Oh, meu Deus, oh meu Deus! um anno ao menos; Um louro só... e meu sepulchro cerra!

É tão bom respirar, e a luz brilhante

Do sol oriental saudar no outeiro!

Ai, na manhan sauda-la posso ainda;

Mas será este inverno o derradeiro!

Quando de pomos o vergel for cheio;

Quando ondeiar o trigo na planura;

Quando pender com aureo fructo a vide, Eu tambem penderei na sepultura.

Dos que me cercam no turbado aspecto, Na voz que prende desusado enleio,

No pranto a furto, no fingido riso

Fatal sentença de morrer eu leio.

Vistes vós criminoso, que hão lançado

Seus juizes nos trances da agonia,

Em oratorio estreito, onde não entra

Suavissima luz do claro dia;

Diante a cruz, ao lado o sacerdote,

O cadafalso, o crime, o algoz na mente,

O povo tumultuando, o extremo arranco, E céu, e inferno, e as maldicções da gente?

Se adormece, lá surge um pesadelo,

Com os martyrios da sua alma acorde;

Desperta logo, e á terra se arremessa,

E os punhos cerra, e delirante os morde.

Sobre as lageas do duro pavimento

De vergões e de sangue o rosto cobre.

Ergue-se e escuta com cabellos hirtos

Do sino ao longe o compassado dobre.

Sem esperança!...

Não! Do cadafalso

Sóbe as escadas o perdão ás vezes;

Porém a mim... não me dirão:—és salvo!» E o meu supplicio durará por mezes.

Dizer posso:—existi: que a dor conheço! Do goso a taça só provei por horas:

E serei teu, calado cemiterio,

Que engenho, gloria, amor, tudo devoras.

Se o furacão rugiu, e o debil tronco

De arvore tenra espedaçou passando,

Quem se doeu de a ver jazendo em terra? Tal é o meu destino miserando!

Numen de sancto amor, mulher querida, Anjo do céu, encanto da existencia,

Ora por mim a Deus, que ha-de escutar-te. Por ti me salve a mão da Providencia.

Vem: aperta-me a dextra... Oh, foge, foge! Um beijo ardente aos labios teus voára:

E neste beijo venenoso a morte

Talvez este infeliz só te entregára!

Se eu podesse viver... como teus dias

Cercaria de amor suave e puro!

Como te fôra placido o presente;

Quanto risonho o aspecto do futuro!

Porém, medonho espectro ante meus olhos, Como sombra infernal perpetuo ondeia,

Bradando-me que vai partir-se o fio

Com que da minha vida se urde a teia. Entregue á seducção em quanto eu durmo, No turbilhão do mundo hei-de deixar-te!

Quem velará por ti, pomba innocente?

Quem do perjurio poderá salvar-te?

Quando eu cerrar os olhos moribundos

Tu verterás por mim pranto saudoso;

Mas quem me diz que não virá o riso

Banhar teu rosto triste e lachrymoso?

Ai, o extincto só herda o esquecimento!

Um novo amor te agitará o peito:

E a dura lagea cubrirá meus ossos

Frios, despidos sobre terreo leito!...

Oh Deus, porque este calix de agonia

Até as bordas de amargor me encheste? Se eu devia acabar na juventude,

Porque ao mundo e a seus sonhos me prendeste?

Virgem do meu amor, porque perde-la?

Porque entre nós a campa ha-de assentar-se? Tua suprema paz com goso ou dores,

Do mortal, que em ti crê, póde turbar-se?

Não haver quem me salve! e vir um dia

Em que de minha o nome ainda lhe désse! Então, Senhor, o umbral da eternidade,

Talvez sem um queixume, transposesse.

Mas, qual flor em botão pendida e murcha, Sem de fragrancias perfumar a brisa,

Eu poeta, eu amante, ir esconder-me

Sob uma lousa desprezada e lisa!

Porque? Qual foi meu crime, oh Deus terrivel? Em te adorar que fui, senão insano?...