Quando Tudo Volta
7. Vizinhos
Vizinhos
Minha tia Júlia andava deprimida desde que Gabriel desaparecera,
aumentando o estresse e a preocupação de minha mãe, a quem observei certa tarde, na terceira semana de busca. Em uma tentativa de tirar vantagem da recente fama nacional da cidade e para se distrair da ideia de que meu irmão estava morto em um celeiro em algum lugar, ela havia apresentado o corte de cabelo pica-pau. Era para garotos, principalmente, e consistia em um moicano com as pontas dos cabelos tingidas de vermelho, em homenagem ao amigo imaginário de John Barling. Eu o achava ridículo, mas não conseguia parar de ver sempre que ela destruía os cabelos de um menino com o aparador e tintura. Duke Lister foi o primeiro a fazer o corte, e, assim que todos os meninos de 12 anos na cidade o viram posando para fotos com aquele penteado gigantesco ao estilo pica-pau Lázaro, que havia substituído uma velha cabana de madeira como a principal atração do parque local, todos encheram o salão de minha mãe com notas de dez dólares nas mãos.
— Você já viu algo assim, Cullen? — perguntou minha mãe, enquanto detonava o cabelo de Caleb Cooper, de 7 anos.
— Com certeza, não.
Em que momento minha mãe decidiu que era adequado fingir que estava tudo bem eu não fazia ideia. O que imaginei era que ela estava tentando viver a vida de um jeito normal, como nas três semanas anteriores, na esperança de que Gabriel reapareceria com a mesma facilidade com que havia desaparecido. Meu pai, por outro lado, ficava ao telefone a maior parte do dia. Falava com as delegacias de todo o Estado. Entrava em contato com jornais para imprimir anúncios de pessoas desaparecidas. Contudo, poucos concordavam em publicar matérias desse tipo. Seu plano era cuidar para que a foto de Gabriel aparecesse em todos os jornais do Estado. Ele também estava se dedicando à criação de um site, com a ajuda do menino que consertava computadores na loja de móveis Wilson.
É difícil explicar por que, depois de só três semanas, eu havia perdido toda a esperança de que meu irmão seria encontrado. Mas tudo acontecia em estágios. Um dia eu acordaria pensando Pronto. Ele não vai voltar para casa hoje, e no dia seguinte seria mais ou menos como Vão encontrar o corpo dele hoje. A única maneira de me consolar era imaginar que meu irmão tinha, na verdade, apenas se cansado de nós e fugido. Eu o imaginei na cidade de Nova York, conseguindo um emprego como entregador de correspondências em uma grande empresa e progredindo até conseguir uma vaga administrativa depois de ter estudado à noite. Eu o imaginei em uma cafeteria pedindo uma garota em casamento e tornando-se pai logo depois. E também o imaginei olhando para um retrato dele comigo e trocando-o por um de sua nova família. Eu o imaginei sorrindo. Ele estava sempre sorrindo.
Eu estava me cansando de ganhar abraços de meus pais todas as noites. Estava me cansando de Lucas Cader dormindo ao meu lado. Estava cansado de ver tia Júlia chorando todos os dias, mesmo quando não a via e apenas a escutava pelo telefone. Mas, principalmente, estava me cansando de ouvir, ler e ver coisas a respeito do maldito pica-pau. E, sentado em minha cama, certa noite, enquanto Lucas zapeava os canais na minha TV, escrevi uma frase em minha agenda, a mesma em que escrevia os títulos: Se eu tivesse uma arma, atiraria na cara do pica-pau Lázaro.
Fulton Dumas me causava arrepios. Não era só porque eu o flagrara olhando para mim de um jeito estranho em mais de uma ocasião, mas também por causa da maneira como ele dizia uma frase e a repetia baixinho para si mesmo. Ele também assustava Lucas Cader, tanto que Lucas tinha desenvolvido uma teoria de que Fulton deveria ser investigado no desaparecimento de meu irmão.
— Eles interrogaram ele e a mãe dele da mesma maneira que nos interrogaram, Lucas.
— Não importa. As pessoas que fazem coisas desse tipo sabem esconder a verdade. Não confio nele. — Lucas olhou pela janela de meu quarto, para a casa dos Dumas, ao lado.
— Acho que você está ficando paranoico. Por que ele seria tão tolo? Quem pega um vizinho?
— Exatamente. É o plano perfeito: sequestrar o vizinho. Ninguém seria burro o bastante para ficar tão perto da cena do crime. E ninguém suspeitaria do vizinho, tampouco. É por isso que ele fez isso. Está sentado ali, agora, só Deus sabe fazendo o quê. — Lucas estremeceu.
— Você precisa se acalmar.
— Não. Não consigo. Vamos lá.
— O quê? Não.
— Sim, vamos.
Lucas Cader atravessou o corredor e saiu pela porta da frente. Sua passada longa e firme me mostrou rapidamente que ele tinha a intenção de entrar na casa dos Dumas. Corri atrás dele.
— Lucas, isso é ridículo.
— Não, eu tenho que fazer isso.
Ele tocou a campainha.
Ding-dong.
Tocou a campainha de novo.
Ding-dong.
E mais uma vez, sem pausa.
Ding-dong.
A porta se abriu lentamente, como aconteceria em um filme de terror. Shirley Dumas estava à nossa frente.
— Posso ajudá-los?
— A senhora viu Gabriel Witter? — perguntou Lucas, sem hesitar.
— Não. Ele voltou?
— Não. Ele está aqui? — Lucas não desistiria.
— O que está dizendo, menino? — perguntou ela, confusa.
— Seu filho está aqui, senhora? — interrogou Lucas, entrando na casa, passando por ela. Eu permaneci na varanda, olhos arregalados e boquiaberto.
— Sim, posso ajudá-lo, Lucas? — Ela estava começando a se agitar. Eu permaneci na varanda.
— Fulton! — Lucas gritou, e começou a atravessar o corredor até o quarto de Fulton.
— Bem, vá com ele, creio eu — disse Shirley, balançando a mão.
No quarto de Fulton, percebi por que nunca tivera coragem de pisar naquela casa antes. A cama dele era coberta com uma colcha do game G. I. Joe e, em cima dela, havia o que deviam ser cerca de quarenta ou cinquenta bichinhos de pelúcia. As paredes estavam repletas de pôsteres de animais diversos, como filhotes de gato, macacos e ursos, por isso não podiam sequer ser vistas. Fulton estava sentado diante de seu computador com fones de ouvido. Cantava uma canção dos anos 1980 em voz alta quando entramos.
— FULTON! — Lucas gritou, dando um tapinha em seu ombro.
Ele se virou depressa e tirou o fone. Olhou para Lucas e para mim. Olhou para Lucas de novo e então para mim. Fez isso duas outras vezes até Lucas começar.
— Fulton Dumas, você sabe onde Gabriel Witter está?
— Não — disse ele, com a expressão mudando de repente, passando da vergonha para a tristeza.
— Tem certeza? — perguntou Lucas.
— Por que eu saberia onde ele está?
— Não sei, Fulton. Por que você precisa de mil bichinhos de pelúcia? Você viu Gabriel Witter?
— NÃO! — Fulton ficou de pé. Estava ficando nervoso enquanto Lucas continuava seu interrogatório. Não tentei impedi-lo porque não consegui pensar em nada a dizer. Além disso, depois de ver seu quarto, imaginei dar a Lucas uma chance de mostrar que eu estava errado. Não consegui assistir à cena, no entanto, por isso me virei e fingi que observava um dos muitos pôsteres de Fulton.
— Você era apaixonado por Gabriel Witter?
— Lucas, por favor. — Tive que interromper, desconfortável demais para ver.
— Cala a boca, Cullen! Era ou não, Fulton?
— NÃO!
De repente, o quarto ficou silencioso, e alguém segurou meus ombros por trás. Era Fulton. Ele me virou e olhou em meus olhos.
— Cullen — ele começou —, sinto muito, muito, muito pelo desaparecimento de seu irmão. Ele era um bom garoto. Muito bacana, sabia perdoar, era muito parecido com você. — Dito isso, sussurrando, ele me abraçou com força. Olhei para Lucas, cuja raiva havia se transformado em remorso enquanto ele observava Fulton Dumas começar a chorar com o rosto em seu ombro.
— Tudo bem, Fulton — disse Lucas.
— Sim, está tudo bem. Ele vai aparecer — declarei.
— Eu estava só de brincadeira — confessou Lucas.
Fulton deixou a conversa para lá e saiu do quarto. Atravessamos o corredor e saímos da casa em silêncio. No quintal da frente, olhei para trás para ver Lucas, e ele estava mordendo o lábio inferior. Estava com aquela cara que faz quando está pensando demais em alguma coisa.
— Não foi o Fulton. Eu me enganei — disse ele.
— Você acha que se enganou? — perguntei, brincando.
— Foi John Barling — afirmou ele, confiante, quando entrou na minha casa.
O pica-pau Lázaro foi visto pela última vez em uma floresta no norte da Louisiana, conhecida como Singer Tract. Apesar dos apelos da National Audubon Society e de vários representantes do sul, a Chicago Mill and Lumber Company, que tinha direito de desmatar a área, fez isso na floresta em 1944. Foi quando o último Lázaro conhecido, uma fêmea de nome Gertrude, deixou de existir oficialmente. O Lázaro era o maior pica-pau do mundo, passando o pica-pau-imperial com apenas dois centímetros e meio a mais de comprimento. John Barling afirmava ter a sensação de que, se deixasse seu emprego na Universidade do Oregon e se mudasse para Lily, Arkansas, conseguiria redescobrir o Lázaro e provar que ele nunca havia sido extinto. Ao fazer isso, deixou para trás dois filhos, uma esposa que não tinha formação universitária nem experiência de trabalho e um financiamento imobiliário. Foram essas as coisas que Fulton Dumas tinha descoberto sobre ele. Um dia, alguns meses depois de se mudar para Lily e ter feito sexo com a mãe de Fulton, John Barling desceu de canoa, pela milésima vez, um trecho curto do rio White, que passa pela margem da cidade. Em seu passeio de canoa naquela tarde, John Barling disse ter visto um pica-pau Lázaro voar rapidamente sobre sua cabeça e pousar em um enorme carvalho. Pegou a câmera sem fazer barulho, mas hesitou, sabendo que o som espantaria o pássaro. Segundos depois, decidiu registrar a ave batendo o bico diversas vezes na árvore e, em seguida, conseguiu o que precisava: o pássaro soltou um pio alto, que, de acordo com o National Ornithological Institute, é único dessa espécie. Depois, com apenas um pequeno registro digital em mãos, John Barling entrou em contato com o NOI, e em pouco tempo minha cidade ficou cheia de pessoas que tinham dedicado a vida a estudar e observar aves.
Na quarta semana após o desaparecimento de meu irmão, ainda não havia nenhum sinal dele. Durante essa mesma semana, também não apareceu nenhuma foto do maldito pássaro. Entretanto, mesmo assim, minha cidade estava cheia de gente, mais do que cabia ali. Todas as pousadas ficaram lotadas pela primeira vez em quase uma década, e a Pousada Lily mudou de nome para Pousada Lázaro, o que me deixou bravo quando passei por ela em uma tarde enquanto ia para o trabalho.
Além dos turistas e dos observadores de aves, com os quais eu me recusava a conversar, a maioria das pessoas que entrou na loja aquele dia era de motoristas de caminhão que precisavam de estoque de energéticos e também usar o banheiro por mais tempo que o necessário para qualquer ser humano. Enquanto eu limpava a chave do banheiro com desinfetante, um homem alto entrou (ding-ding) vestindo cáqui da cabeça aos pés. Era John Barling, o maldito cara do pássaro. Ele caminhou pela loja assoviando, com as mãos nos bolsos, naquele estilo idiota de safári, e eu fiquei imaginando como devia ser se sentar em uma sala de aula na faculdade tendo ele como professor. Ele pegou um doce. Colocou-o no balcão. Pegou o doce de novo, leu a parte de trás e voltou a soltá-lo. Fez a mesma coisa com cerca de outros três doces, até finalmente pegar um qualquer da prateleira, aproximar-se e colocá-lo em cima do balcão.
— Quanto morre? — perguntou ele, de um jeito triste, como se quisesse ter o charme do sul.
— Oitenta e sete centavos — respondi, sem ânimo.
— Você não é meu vizinho? — perguntou ele.
— Acho que não. — Não queria mais conversar com John Barling.
— É, sim. Ei, você encontrou seu irmão?
— Não. Você não o viu por aí, por acaso, não é? — perguntei, com uma seriedade quase tão intensa quanto o sarcasmo.
— Não, infelizmente. Que pena. Talvez ele apareça logo. É o que espero, pelo menos.
— Espero que o pássaro também apareça logo — eu disse, sem conseguir me conter.
John Barling não disse mais nada ao sair pela porta (ding-ding) com olhar confuso.
Título de livro número 78: Não é pecado matar um pica-pau.