Quando Tudo Volta

John Corey Whaley · Capítulo 16 de 21

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Quando Tudo Volta

16. O LUGAR de ONDE as COISAS PARTEM

O LUGAR de ONDE as COISAS PARTEM

 

Como a vida às vezes não é tão previsível, e como o corpo humano às

vezes é igual, Alma Ember e seu marido, Cabot Searcy, não tiveram um bebê como planejavam. Em vez disso, eles se sentavam no chão da sala de estar com poucos móveis do pequeno apartamento e ficavam de mãos dadas, olhando para a televisão e tentando imaginar, em segredo, o que aconteceria em seguida. Na opinião dele, Cabot Searcy havia, talvez, se apressado em se casar, mas não se arrependia nem um minuto. Alma Ember estava começando a questionar todas as decisões tomadas.

— Este lugar é um lixo — declarou Alma, ficando de pé e caminhando em direção à cozinha.

— Quer ajuda? — perguntou Cabot, colocando-se de pé.

— Só fique fora do meu caminho, por favor — disse ela, espirrando um líquido laranja no balcão.

— Certo — respondeu ele, sentando-se no sofá e pegando o controle remoto.

Beverly Ember havia desistido, naquelas poucas semanas, de tentar estar diretamente envolvida na vida da neta, questionando se estava se preocupando demais ou sendo enxerida ao extremo. Mas continuava dando um cheque a Alma quase toda semana, acreditando que ela o usaria para comprar comida ou pagar o aluguel. Alma agradecia, mostrava uma expressão passageira de culpa e beijava o rosto da avó. Cabot Searcy havia perdido o contato com tio Jeff quando engravidou Alma e foi totalmente ignorado. Agora, Cabot passava os dias sem procurar emprego, mas fingindo procurar, enquanto Alma servia café italiano, de diversos tamanhos, em um estabelecimento da rua.

Quatro meses depois de Cabot encontrar um trabalho como vendedor de TV por assinatura, Alma Ember decidiu voltar a morar com a avó. Beverly ficou muito feliz. Alma ficou um tanto aliviada, porém ainda assim se sentia triste. Cabot Searcy perdeu o emprego, não saía da cama e telefonou para Alma Ember cinquenta e sete vezes em três dias. Isso se tornou sua vida. Enquanto telefonava e escrevia cartas cansativas, ridículas e normalmente incoerentes, Cabot continuou estudando o assunto que havia, ainda que ele não soubesse, afastado Alma: o potencial da raça humana. Ainda lendo textos antigos, escrituras secretas e a Bíblia que a mãe lhe dera aos 14 anos, Cabot transformara sua curiosidade em obsessão. Passava a maior parte das noites acordado, lendo, copiando escrituras interessantes ou escrevendo suas teorias em um livro muito parecido com aquele que Benton Sage levava de um lado para outro. Ele dissera a Alma, um dia antes de ela partir, que, se Deus não tivesse matado os anjos Grigori tantos anos antes, o bebê deles estaria vivo. Alma chorou baixinho na cama aquela noite, antes de ir ao banheiro na ponta dos pés e se sentar na beirada da banheira com a cabeça entre os joelhos. Observou as lágrimas caírem no chão de linóleo. Secou-as com o pé e então se levantou e se olhou no espelho. Lavou o rosto e olhou para a frente, concentrando-se para ver se conseguia distinguir as lágrimas da água. Os olhos estavam vermelhos. Os cabelos não eram lavados havia vários dias. A mão segurava com força a lateral da pia.

Aquela não tinha sido a primeira vez que Cabot culpava Deus pela perda de seu filho. Na verdade, ele começara a escrever listas de todos os pecadores do mundo, como se estivesse construindo um exército de palavras para lutar em uma batalha divina. Pegara os bilhetes de Benton e colocara muito peso em todas as letras ou palavras. Alma sabia disso, e então foi embora. Tinha pouca esperança de que ele perceberia como sua própria mente o estava enganando.

Ele estava, de certo modo, tentando provar que o próprio criador da humanidade era também seu maior opressor. Tudo isso causava dor de cabeça em Alma, e, à medida que as bobagens religiosas dele começaram a se tornar mais frequentes e mais absurdas, ela começou a temer o marido, que já tinha sido charmoso e aparentemente normal.