Quando Tudo Volta
18. VOCÊ não encontraria UM CARA MAIS bacana mesmo QUE TENTASSE
VOCÊ não encontraria UM CARA MAIS bacana mesmo QUE TENTASSE
F oi difícil para Alma aceitar o fato de que voltar para Lily
provavelmente era o melhor a fazer. Ela não estava mais na universidade: desistira no terceiro semestre por causa dos enjoos matinais, por duas notas D e uma F. Em Lily, ela acreditava, as coisas seriam mais simples que em Savannah. Mais familiares. Mais estimulantes. E, principalmente, Lily teria menos Cabot Searcy. Desde que ela o abandonara, Cabot sempre a perturbava, ligava tarde da noite, aparecia com flores, doces ou ursos grandes de pelúcia, mandava recados pelos amigos e conhecidos. Seus esforços foram inúteis, e isso ficou bem evidente quando ele recebeu a papelada do divórcio das mãos de um homem baixo e atarracado chamado Carl ou Joe.
Beverly pagou a passagem de avião de Alma de volta para casa. Ela a abraçou com força. Chorou. Sussurrou no ouvido da única neta: “Você é muito amada”. Alma embarcou no segundo voo de sua vida e, em duas horas, estava de volta ao Arkansas, de pé, perto da esteira de bagagens, esperando que a mãe aparecesse na escada rolante. Quando ela apareceu, tudo ficou bem, e ninguém ficou triste. As pessoas se moviam ao redor delas, chocavam-se umas com as outras, mães tentando manter os filhos por perto, maridos dizendo às esposas que elas deviam se apressar, malas com rodinhas fazendo barulho e uma voz eletrônica anunciando um voo atrasado.
Cabot Searcy conversara com a esposa apenas uma vez desde que ela voltara para o Arkansas, por tempo suficiente para ela implorar que ele assinasse os papéis do divórcio a fim de que ela pudesse tocar a vida adiante. Em resposta às perguntas sem-fim que ele fazia sobre o porquê de ela tê-lo deixado, Alma desligou o telefone. Isso foi no mesmo dia em que Cabot Searcy adormeceu e viu o que chamou de visão divina. Estava sozinho em um descampado, nada além de troncos e árvores mortas espalhadas ao redor. Acima de sua cabeça, um feixe de luz verde iluminou seu corpo. Ouviu uma voz e olhou para o céu. Quando acordou, repetiu o pouco de que conseguia se lembrar, um verso de Hebreus a respeito de Enoque: “foi arrebatado, de modo que não experimentou a morte; e não foi encontrado”.
— Que importa se eles encontrarem o pássaro ou não? — perguntou Alma Ember a sua mãe algumas semanas depois.
— Bem, querida, um acontecimento desses poderia fazer com que muitos negócios viessem para a cidade. Lily vai se beneficiar com as pessoas que vierem, sabe? — respondeu a mãe dela.
— Acho que sim — Alma deu de ombros.
— Além disso, não é interessante pensar que algo pode simplesmente voltar?
— Então, ele está escondido aqui há todos esses anos? — perguntou Alma.
— Sim — respondeu a mãe.
— Parece que não quer ser encontrado — disse Alma, fazendo as unhas.
Naquela noite, na cama, Alma Ember pensou na semelhança entre ela e Lázaro, o pica-pau. Os dois fugiram. Os dois voltaram. Os dois queriam ser o mais invisível possível. Ela se imaginou sentada perto do rio, observando centenas de pássaros voando ao redor e acima de si. Riu ao pensar em estar ali, vendo aquela coisa incrível que era dar a todos na cidade tanta esperança. Decidiu, então, que, se visse o pássaro, não contaria a ninguém. Apenas sorriria, faria um meneio de cabeça e continuaria fazendo o que estivesse fazendo, sabendo que havia salvado o pássaro de alguma maneira.
Foi por acaso que Alma encontrou, certo dia, um velho amigo da igreja no mercado. Ele perguntou como ela estava, disse que estava muito bonita e, com toda a confiança do mundo, perguntou se os boatos sobre ela ter se casado eram verdadeiros. Ela não escondeu nada, riu durante toda a conversa e falou pouco sobre Cabot; apenas comentou que ele havia “enlouquecido” de certa maneira. Esse encontro foi, desde sua volta ao Arkansas, a primeira vez em que Alma sentiu que não a estavam julgando. A primeira vez em que conseguiu falar sobre aquilo sem se sentir idiota. E tudo isso com um colega de ensino médio que ela não via desde que se formara. Sim, Lucas Cader alegrara seu dia. E, apesar de a conversa ter terminado minutos antes, Lucas se aproximou dela mais uma vez no estacionamento e fez uma pergunta surpreendente:
— Você conhece Cullen Witter, certo? — perguntou ele.
— Sim, o que ele tem feito?
— Bem, vou dizer. Cullen é um cara bacana, meu melhor amigo no mundo. Você não encontraria um cara mais bacana mesmo que tentasse. Então, eu estava pensando, já que você voltou de repente para a cidade e tudo, poderia sair conosco hoje à noite.
— Com você e Cullen? — perguntou Alma, confusa.
— Não, não. Eu, Cullen e Mena.
— Mena Prescott?
— Sim. Nós namoramos há algum tempo.
— Ah, que ótimo, Lucas! Ela é muito bonita — disse Alma.
— Então, está marcado o encontro? Hoje à noite? — indagou Lucas.
— Hum, tem certeza? — perguntou Alma.
— É só um cinema com alguns amigos. Você sabe que esta cidade já é entediante demais — Lucas brincou.
— Tem razão. Pode contar comigo.
— Pego você às seis e cinquenta; o filme começa às sete e quinze — avisou Lucas, afastando-se de costas.
— Estarei pronta.
— Até mais.
— Até, Lucas. Obrigada.
Cabot Searcy nunca tinha ido ao Arkansas antes do dia em que aterrissou no aeroporto de Little Rock. Também nunca tinha alugado um carro antes de entrar no Ford Taurus verde-escuro e pegar a rampa para a estrada interestadual. Péssimo para encontrar caminhos, Cabot estava aliviado por ter que percorrer essa única estrada para acabar em Lily, Arkansas, onde esperava encontrar a esposa fujona e resolver tudo com ela. O rádio estava alto quando ele passou por todas as saídas, observando casualmente o número de cada placa brilhante enquanto cantava e estalava os dedos sem parar. Dessa vez, se sentaria com ela, seguraria sua mão e choraria se fosse preciso. Pediria desculpas por seu comportamento. Prometeria um novo começo. Garantiria que ela teria uma vida perfeita.
Depois de sair da estrada, ele dirigiu por cerca de dezesseis ou vinte quilômetros até encontrar uma placa de madeira iluminada por um único poste. Na placa, em letras grandes e vermelhas, estava escrito: BEM-VINDO A LILY! Embaixo, havia sido acrescentado, com letras um pouco menores, pretas e cinza, a frase CASA DO PICA-PAU LÁZARO!
— Não acredito — Cabot disse a si mesmo, desligando o rádio.
Ele dissera a Alma, na noite anterior, ao telefone, que assinaria os papéis e os enviaria à advogada dela em Savannah. Mentira, claro. Em vez disso, procurou o tio para implorar por dinheiro para comprar uma passagem de avião. Depois de passar pela cidade mal-iluminada, estacionou na frente de uma pequena pousada com uma placa de néon com letras queimadas. Tinha o suficiente para pagar por uma noite. Abrindo a porta do quarto 16, olhou para a direita e viu, recostado na lateral da construção, uma placa nova e grande, com letras de néon apagadas, na qual se lia POUSADA LÁZARO.
Acordando com a Bíblia a seu lado, Cabot enfiou um dedo no olho esquerdo para ajustar a lente de contato, ficou de pé e se ajoelhou no chão, apoiando os cotovelos na cama. Em silêncio, pediu que Deus lhe desse as respostas pelas quais procurava desesperadamente. Por que Alma não voltava para ele? Por que ele encontrara o diário de Benton Sage? Por que fora parar em Lily, Arkansas? Ele tossiu. Disse amém. Entrou no banheiro e tomou um banho.
Era perto de meio-dia quando Cabot encontrou a casa de Alma, e só percebeu que se tratava da casa dela graças ao nome de solteira na caixa de correspondência, em letras pretas e douradas. Por curiosidade, ele abriu a caixa do correio, vasculhou entre os envelopes e os devolveu. Não havia carro na casa. Ele se aproximou da garagem e fez o possível para espiar pela janela alta da porta ao lado. Não viu nada além da cozinha escura. Quando se virou para se afastar e voltar para o carro, ouviu uma porta se abrir atrás dele. Viu a mãe de Alma de pé, com a porta de tela ainda fechada diante de si.
— O que você quer? — perguntou ela.
— Senhora, sou Cabot. Sou o marido de Alma — anunciou ele, aproximando-se.
— Sei quem você é. Por que veio aqui?
— Quero ver a Alma. Ela está? — ele questionou, ainda caminhando na direção dela.
— Fique onde está. Ela não está em casa.
— Posso esperar por ela?
— Não. Não é uma boa ideia. Você trouxe os documentos? — a mãe indagou, abrindo a porta de tela o suficiente para passar a mão, a palma virada para cima.
— Eu os enviei ontem. Para a advogada — ele respondeu.
— Ótimo. Então, por que não vai para casa agora? Ela vai demorar um pouco. Me disse que vocês terminaram. Sinto muito, mas é isso.
— Senhora, deixe-me entrar. Por favor.
— Cabot Searcy, entre no seu carro e saia daqui! — a mãe bradou, fechando a porta de tela.
— Preciso vê-la — disse ele. — Preciso. Só para me despedir.
— Espere dentro do carro, então, do outro lado da rua. E não volte aqui a menos que eu o chame. Entendeu?
— Sim, senhora. Obrigado. — Ele caminhou em direção ao carro, onde esperaria por trinta e sete minutos, cada um deles contado com atenção pela mãe de Alma.
Alma Ember dobrou a esquina com o Honda marrom da mãe e entrou na garagem. Quando saiu, olhou para o outro lado da rua e viu o marido olhando para ela de dentro de um carro verde. Ficou ali, esperando que ele se aproximasse, mas ele não se mexeu. Sua mãe abriu a porta e gritou:
— Alma, eu disse para ele ficar ali até quando eu mandasse sair! — Alma olhou para a mãe, ergueu um dedo como se dissesse Me dê um minuto e começou a atravessar a rua. Cabot já tinha abaixado o vidro do lado do passageiro quando ela se aproximou do carro e recostou um braço contra a porta. Olhou para ele, que estava chorando.
— Cabot, o que é isso?
— Alma, eu sei que podemos resolver. Sei que podemos — falou ele, levando a mão à maçaneta.
— Fique no carro, Cabot — disse ela.
— Eu só... estou feliz por ver você. Está linda e...
— Você precisa ir para casa agora. Precisa ir para casa enviar aqueles documentos e tem que parar com tudo isso.
— Alma, eu amo você — ele disse, recostando-se para se aproximar.
— Cabot, está tudo terminado. Tenho coisas a fazer. Preciso me arrumar para sair. Tenho uma vida aqui. Você deve voltar para a sua, na Geórgia.
Quando se afastou, Alma começou a pensar em todas as coisas que não dissera a ele. Deveria ter dito para ele procurar um terapeuta. Deveria ter dito que ele era um cara gentil e bacana que não conseguia se controlar muito bem. Deveria ter dito que ela tinha mudado de vida, que estava namorando uma pessoa, que o havia superado totalmente. Deveria ter mentido para ter certeza de que ele entenderia a mensagem. E assim ela se virou e viu Cabot ainda ali, segurando o volante, cabeça baixa. Ela caminhou de volta ao carro, enfiou a cabeça para dentro e disse:
— Cabot, você não foi o pior marido do mundo. Foi bom. Boa parte foi boa. Mas percebi que terminou e precisei me afastar. Sinto muito. Foi assim que aconteceu e não tem como consertar. Então, vou entrar e me arrumar para o meu encontro, e você vai voltar para Little Rock, entrar no avião e ir para casa. Tudo bem?
— Você tem um encontro? — perguntou ele.
— Sim.
— Com quem?
— Cabot, você não conhece ninguém aqui. Que importância isso tem?
— Pelo menos diga o nome dele e eu irei embora. Prometo que irei.
— O nome dele é Cullen. Ele é bacana. Você ia gostar dele. Por favor, vá.
Com isso, Cabot Searcy deu a partida no carro alugado e logo desapareceu da vista de Alma. Seria a última vez que Alma Ember veria o marido. Fazendo a volta, Cabot Searcy começou a pensar em sua vida até aquele momento. Pensou nas muitas namoradas que tivera no ensino médio. Nas noites de sexo das quais se gabava para os amigos. Nos encontros casuais. Pensou na faculdade. Nos primeiros meses, nos quais tinha a sensação de ser o dono do mundo. Pensou em Benton Sage e em suas palavras sinceras. Em sua sugestão para que Cabot mudasse de comportamento antes que estragasse tudo. Lembrou-se de ter guardado as coisas de Benton. De ter lido o diário dele. De ter encontrado anotações nas margens de livros na biblioteca da escola. Parou no estacionamento de um mercado. Entrou. Observou o espaço amplo à procura de alguém que parecesse útil. Andando pelos corredores, Cabot pegou um pacote de chiclete, jogou em cima do caixa mais próximo, tamborilou os dedos no balcão. Ao sair, parou e viu um atendente alto de cabelos curtos e perguntou seu nome.
— Neil — disse ele.
— Certo, Neil. Olha só. Você conhece um cara chamado Cullen? — perguntou Cabot.
— Sim, Cullen Witter.
— É mesmo? É seu amigo?
— Estudou comigo. Mas ele é um ano mais novo — explicou Neil.
— Ah — respondeu Cabot. — Preciso falar com ele.
— E aí?
— Bom, Neil, se eu te der dez dólares, você me passa o endereço dele? — perguntou Cabot, pegando a carteira.
— Acho que sim. Acho que ele mora perto da rua Oito, na rua de cascalhos — falou Neil, distraído.
— Rua Oito? — repetiu Cabot, como quem diz “não sei andar por aqui”.
— Isso — disse Neil.
— Neil, você me ajudou demais — disse Cabot, colocando a nota de dez dólares na mão do rapaz.
Cabot caminhou em direção ao carro e, depois de passar por duas pessoas, parou a terceira e perguntou, com o rosto tomado de confusão e inocência, como poderia encontrar a rua Oito.
— Então — a mulher começou —, continue descendo a rua Principal até chegar à rua Machen, e então vire à direita. Assim que passar pelo cruzamento, estará lá.
— A rua é asfaltada? — perguntou Cabot.
— Sim — respondeu a mulher.
— Obrigado.
No quarto da pousada, Cabot conseguiu escutar o barulho de buzinas e motores pesados do lado de fora enquanto os funcionários tiravam uma placa da saída da hospedaria e a trocavam por uma nova. Tentou pegar um mapa, mas o barulho o distraía demais. Assistiu à televisão por alguns minutos, porém ficou com dor de cabeça e decidiu parar. Pegara um Lily Press do mercado ao sair, então se sentou à pequena mesa da sala, acendeu a luminária e começou a ler. A história da capa era sobre Lázaro, o pica-pau. Claro, Cabot não conseguia ler o nome Lázaro sem se lembrar de sua Bíblia. Lembrou-se de quando a história de Lázaro foi contada a ele nas aulas de catecismo. Lembrou-se de ter pensado em como seria ver Jesus rolando a pedra do sepulcro de Lázaro e observar o homem morto sair, ainda vestindo as roupas do funeral. O artigo era sobre vários negócios da cidade, abordando a recente explosão no turismo ocorrida em Lily graças ao pássaro. Cabot riu quando leu sobre o Lázaro Burger e riu ainda mais quando leu que uma cabeleireira fazia cortes de cabelo de pica-pau. Mas, ainda assim, só conseguia pensar em Alma e, mais especificamente, no que ele gostaria de fazer com o idiota com quem ela sairia naquela noite. Ao longo das horas seguintes, tentou convencer a si mesmo a voar de volta para casa e acabar com tudo, mas sabia que não podia permitir que a viagem longa fosse desperdiçada. Então, arrumou as coisas, trancou a porta do quarto e desceu a rua. Seguiu as orientações dadas e logo estava dando seta para entrar na rua de cascalho.
Gabriel Witter riu quando Cullen atravessou a toda velocidade o corredor em direção a seu quarto, após ter gritado a combinação mais estranha de palavras que já ouvira. Ele as repetiu a si mesmo: “Canibalismo ornitológico”, enquanto desligava a TV e abria um pequeno caderno verde cheio de páginas com letras de música. Folheou até a primeira página em branco e, depois de pegar uma caneta na mesa, fez o desenho de um pica-pau comendo um hambúrguer. Sorriu quando terminou e escutou um carro parar e uma porta bater. Olhando pela janela, viu o carro de Lucas se afastando, fazendo subir poeira por todos os lados. Olhou para o quintal e viu que a picape de trabalho do pai não estava ali, e, quando atravessou o corredor em direção à cozinha, viu que a mãe dormia no sofá da sala de estar. Em silêncio, despejou cereal em uma tigela branca e abriu a geladeira com uma expressão de “espero que isso não faça muito barulho”. Depois de pegar a caixa de leite, que estava quase vazia, fechou a porta da geladeira com a mesma delicadeza com que a abrira. Virou o restante do leite na tigela de cereal e se sentou para comer. Gabriel passou os olhos pelo jornal que o pai deixara ali naquela manhã, balançando a cabeça ao ver a extensa matéria sobre o pássaro, procurando os classificados. Estava à procura de uma bateria. Não havia nada no jornal. Na pia, enxaguou o restante de cereal que havia na tigela, tomando o cuidado de não deixar nenhum resíduo nas bordas brancas, e quase se queimou com água quente ao fazer isso. Secou as mãos e pegou a caixa vazia de leite do balcão. Vários itens já descartados anteriormente caíram no chão quando ele abriu a lata de lixo. Ele os pegou, tirou a tampa da lata e puxou o saco de lixo com esforço, tentando não fazer muito barulho. Depois de finalmente colocar a caixa no saco, amarrou as pontas e abriu a porta dos fundos em silêncio. Jogou o saco dentro da lata verde e grande, recostando-a no lado direito da casa, deitou-a e, então, começou a descer a rua longa e cheia de cascalho.
Cabot desceu a rua lentamente e, após passar por duas casas à direita, percebeu que se esquecera de perguntar ao menino do mercado qual era a casa de Cullen Witter. Mas seguiu em frente, esperando que veria um nome na caixa de correio ou perto da porta de entrada. Quando deu a volta, viu o que parecia ser um adolescente puxando uma lata grande de lixo na rua. Entrou discretamente no caminho e esperou que o menino, que usava uma camiseta preta desbotada, chegasse mais perto. Quando ele se aproximou, o garoto apertou os olhos e ergueu a mão livre para bloquear o sol. Ele colocou a lata no chão e começou a falar.
— Está procurando alguém? — indagou o jovem, educadamente.
— Witter? — perguntou Cabot, nervoso.
— Sim? — respondeu o garoto, olhando ao redor.
— Hum... pode me ajudar com uma coisa? — perguntou Cabot, esforçando-se para pensar em um plano.
— Claro — respondeu Gabriel, caminhando até o lado do motorista.
— Tudo bem — disse Cabot, abrindo a porta para sair.
— Você perdeu alguma coisa? — perguntou o garoto.
— Acho que sim. Não sei. Talvez — falou Cabot, olhando para o carro atrás dele.
— Bem, precisa usar o telefone?
Em silêncio, Cabot enfiou a mão dentro da janela do carro e no banco de trás, onde pegou uma lanterna com quatro pilhas. Segurou-a contra o peito e ficou de pé diante do garoto, com suor escorrendo pela testa. O rapaz, ainda apertando os olhos por causa do sol, olhou para a lanterna, confuso, e, quando olhou para baixo, na direção de onde o homem estava vindo, Cabot se lançou em cima dele, empunhando o metal e o vidro, acertando o garoto bem na lateral da cabeça. O menino caiu no chão. Cabot imediatamente olhou ao redor. O bairro parecia mais silencioso e vazio que qualquer outro lugar onde estivera em toda a sua vida. O garoto não se mexeu. Cabot jogou a lanterna dentro do carro, deu a volta por trás e abriu o porta-malas. Pegou o garoto, esforçando-se para levantá-lo o suficiente para colocá-lo dentro do veículo, e o deitou com o máximo de cuidado que conseguiu. Olhou para o garoto inconsciente e sussurrou:
— Seu encontro foi cancelado, Cullen Witter. — Fechou o porta-malas, entrou no carro e dirigiu devagar de volta à cidade.
Permaneceu por alguns minutos sentado no estacionamento de uma pequena loja de conveniência perto da estrada interestadual, tentando pensar no passo seguinte. Olhou com nervosismo pelo retrovisor, e não viu nada além de carros passando a esmo e o interior da loja. Ficou atento, esperando o garoto se remexer e começar a gritar pedindo ajuda. Mas nada aconteceu. Não ouviu nem um som. Apenas sua respiração trêmula. Seu coração ansioso. Decidiu, depois de pensar nas opções, que um desmaio não bastaria para assustar Cullen Witter e fazer com que ele deixasse Alma Ember em paz. Ele precisava causar impacto. Mostrar ao rapaz o tamanho do problema no qual tinha se envolvido. Com isso, Cabot Searcy acessou a estrada e foi até Little Rock, com o rádio ligado, tamborilando os dedos e movendo os lábios.
Quando recobrou a consciência, Gabriel Witter se viu na escuridão total. Tentou se sentar, mas bateu a cabeça em algo de metal e duro. Ao redor, ouviu som de movimento e, ao segurar o lado de sua cabeça, pensou ter ouvido música vinda de algum ponto próximo. Demorou alguns minutos para se acostumar à escuridão, e, quando seus olhos se fixaram no brilho vermelho dos cantos da jaula, percebeu onde estava. Nesse breve momento, Gabriel pensou que ficar trancado no porta-malas de um carro nunca acontecia na vida real, e que era muito diferente do que ele sempre imaginara em suas brincadeiras de polícia e ladrão. Pensou em gritar, entretanto sabia que isso só causaria mais problemas. Lembrou-se do homem diante dele. Atacando-o. Golpeando-o. Ficou totalmente confuso acerca do motivo, mas não teve inocência suficiente nem por um minuto para começar a criar planos inteligentes para escapar. Com o corpo molhado de suor, Gabriel tentou o que pôde para não se mexer, esperando que isso aliviaria a dor em sua cabeça.
O movimento parou naquele instante, e ele escutou o som metálico da porta do veículo sendo aberta. Os passos eram quase altos demais para contar, como se estivessem ecoando de todos os pontos a seu redor. Quando a luz de repente brilhou dentro do carro, Gabriel endireitou-se como uma pessoa faria no meio de um pesadelo. Olhou para cima e viu seu captor diante dele, teto e paredes de concreto atrás dele, luzes fluorescentes dos dois lados.
— Consegue ficar de pé? — perguntou o homem, puxando Gabriel do porta-malas.
— Sim, acho que sim — disse Gabriel, recostando-se em um dos lados do carro.
— Você provavelmente já sabe quem eu sou — falou o homem.
— Não faço a menor ideia — replicou Gabriel, esfregando a lateral da cabeça.
— Você conhece Alma, não conhece?
— Ember? — perguntou Gabriel, olhando em volta, para o estacionamento vazio.
— Searcy. O sobrenome dela é Searcy — disse Cabot, com seriedade.
— Ah. Nós íamos à igreja juntos. Ela era Ember da última vez em que a vi.
— Você deve achar que eu sou algum idiota, não é? — Cabot ergueu levemente a voz.
— Não sei nada a seu respeito, exceto que você tem uma lanterna bem grande — respondeu Gabriel.
— Cullen, este não é o seu dia de sorte.
— Cullen? — perguntou Gabriel.
— Sim, sei quem você é — disse Cabot, quase sorrindo.
— Sou Gabriel. Gabriel Witter.
— Para com isso, cara.
— É sério.
— Sério? — questionou Cabot, com o rosto vermelho.
— Cullen é meu irmão mais velho.
— Merda! — disse Cabot.
— Estou confuso.
— Merda! Merda! Merda!
— Você vai me levar de volta para casa agora?
— Merda! Merda! Merda! Não acredito! Não acredito! — Cabot balançou a cabeça.
— Olha, está na cara que você está com problemas, então, se quiser me levar para casa, vamos esquecer tudo isso. Tudo bem? — perguntou Gabriel.
— Merda! Sou um maldito sequestrador agora! Quantos anos você tem?
— Quinze. Mas me solte. Não importa. É só me soltar.
— E aí você vai contar a alguém e, de repente, vou virar notícia, e eles vão me encontrar, me algemar e me levar para a cadeia. Ah, Deus! Não acredito nisso!
— Olha, eu nem sei o seu nome, ok? Então, por que não entra no carro, vai embora e pronto? — Gabriel pediu.
— Isso seria fácil demais. Tem alguma coisa nisso. Você vai me entregar. Eu entregaria. Afinal, quem não ia querer que o cara que o prendeu em um porta-malas depois de agredi-lo não fosse preso? Que loucura! Merda!
— Entre no carro e vá embora — insistiu Gabriel.
— Preciso que você volte para o porta-malas — disse Cabot, com uma calma surpreendente.
— Não.
— Faça isso agora — ordenou Cabot, dando um passo à frente.
— Deixe-me ir embora. É tão fácil. É só me soltar.
— Não posso. Entre. — Cabot levantou a mesma lanterna que usara antes, e seu rosto ficou pálido. Gabriel não soube ao certo se já tinha visto aquela expressão na vida. Tonto pelo primeiro golpe, e sabendo que provavelmente acabaria caindo de cara no chão se tentasse correr, Gabriel seguiu as ordens de Cabot.
Quando fechou o porta-malas na cara de Gabriel pela segunda vez, Cabot percebeu o desenho em sua camisa. Era uma figura branca, um homem, com asas compridas atrás dele. Estava esticando um braço acima da cabeça, em direção ao céu. Sentado no banco do motorista, Cabot segurou o volante e encostou a testa nele. Pensou em fazer o que o garoto dizia, achando que talvez ele estivesse dizendo a verdade. Talvez não contasse a ninguém. E, se contasse, talvez realmente não soubesse seu nome. Mas ele sabia que o garoto juntaria as peças. Desvendaria tudo. Em pouco tempo Cabot não estaria mudando o mundo, mas, sim, sozinho em uma cela com um sanduíche de carne e um vaso sanitário sem tampa. Ele não podia permitir que isso acontecesse. Deu partida no carro. Pensou na camisa do menino. A figura branca com asas. Pensou no nome do menino. Gabriel, a Mão Esquerda de Deus. Saindo do estacionamento, Cabot Searcy começou a unir o quebra-cabeça que sua vida se tornara nos últimos quatro anos. O suicídio de Benton, o Livro de Enoque, os Vigilantes, a visão de Deus, Gabriel e o pássaro. As horas passadas estudando os anjos caídos, os Grigori. O tempo passado teorizando e discutindo o fato de Deus ter reprimido a grandeza do potencial humano. Tudo o que havia, de um jeito ou de outro, o levara a uma cidade no meio do nada, onde, como parecia, as coisas ressuscitavam dos mortos, erros podiam ser corrigidos, vidas poderiam ser recomeçadas. Quando parou em um farol vermelho ao dobrar a esquina, Cabot Searcy percebeu qual seria seu destino.