Quando Tudo Volta
3. Leve-me AO FIM do mundo
Leve-me AO FIM do mundo
À s terças, quartas e sábados eu trabalhava em uma loja de conveniência
chamada Handy Stop, que fica bem perto da I-40. Entre minhas atribuições estava vender cigarros, salgadinhos, refrigerantes, bilhetes de loteria, gasolina e preservativos. Às vezes, nos piores momentos, eu era obrigado a lavar o banheiro, que ficava no fundo, e para entrar nele era preciso pegar uma chave que ficava com o atendente (eu). Nesses momentos, eu imaginava que um teste de bomba nuclear acidental caía em Lily, Arkansas. A nuvem-cogumelo. Consegue perceber sua majestade? Consegue ouvir sua fúria silenciosa? Eu conseguia, principalmente quando tentava ignorar o suor que escorria nos meus olhos quando pensava no abismo escuro.
Ding-ding. Esse som sempre era sinal de que alguém estava entrando ou saindo da loja.
— Posso ajudar? — perguntei educadamente quando um homem alto e grande se aproximou do balcão e espiou, atrás de mim, a estante de cigarros.
— Quero um maço de Pall Malls.
— Dois e cinquenta.
Teclas. Caixa abrindo. Fechando.
— Obrigado.
— Obrigado.
Ding-ding.
Quando alguém passa doze horas de seu sábado em uma loja de conveniência vazia, a mente começa a vagar e a pensar que o presidente não consegue pronunciar a palavra “nuclear” e no fato de o primo de Lucas ainda estar no Iraque. Ele imagina imensos desertos de areia, e que seria desconfortável lutar contra os ventos apertando os olhos e mantendo a boca fechada, e que seria péssimo encontrar areia dentro da calça sempre que se despisse. Ele pensa na mãe cortando a franja de uma senhora e perguntando a respeito do marido dela, que está em uma casa de repouso. Imagina a tia no quarto de seu irmão menor, chorando e sozinha.
Ding-ding.
O Para Man chega, com seu aliado atrás.
Enquanto Russell e Neil andavam pela loja, observei Ada Taylor sentada e sozinha dentro do jipe de Russell, olhando para si no espelho retrovisor, sem ter ideia de que alguém podia vê-la. Ela usava a parte de cima de um biquíni, e não consegui ver o que mais ela vestia, porque a maldita porta bloqueava minha visão. Quis imaginar que se tratava de uma saia longa e toda amassada que dançava ao redor de suas pernas enquanto ela caminhava à margem do rio White.
— Posso comprar um maço de Marlboro? — Neil perguntou, com seriedade.
— Não.
— Tenho 18 anos, cara.
— Você tem 17. — O rosto dele se alternava entre normal e zumbi (o que não era muito diferente, exceto pelo fato de ele não ter mandíbula em minha imaginação).
— Venda os cigarros, bichinha! — O Para Man tinha um jeito próprio de falar.
— Não.
— Idiota — Neil murmurou ao jogar um pacote de Doritos sobre o balcão. Russell caminhou até o balcão do modo como imagino que um estuprador faria e colocou duas garrafas de Coca-cola ao lado dos salgadinhos. Pegou a carteira, tirou uma nota de 20 dólares e a entregou a mim. Não olhou na minha cara.
— Só isso? — perguntei.
— Isso e a gasolina — disse ele.
— Você não abasteceu o carro.
Com a cara frustrada e a respiração ofegante, Russell partiu em direção à porta, abriu-a (ding-ding) e gritou:
— Abasteça, imbecil!
Não era uma saia longa e toda amassada. Era um short jeans desabotoado. Quando percebi que estava olhando demais, virei-me e vi dois zumbis esperando pacientemente e discutindo a respeito de onde ir em seguida.
— Cullen, que diabos aconteceu com Oslo? — perguntou Neil, de repente.
— Ele morreu.
— Sei que ele morreu, cara. Como foi? Foi overdose mesmo?
— Temos quase certeza — respondi, olhando para Ada pela janela ao meu lado.
— Que idiota — disse Russell.
Por um segundo, fez-se silêncio. Aquele tipo de silêncio profundo, quando os sons que você em geral não percebe começam rapidamente a ficar mais e mais evidentes e inconvenientes, como o zumbir da geladeira nos fundos da loja e o do ar-condicionado. Russell e Neil foram as primeiras pessoas com quem eu havia conversado naquela semana que não me disseram sentir muito pela morte de Oslo. E, por mais estranho que seja, achei isso bacana, daquele jeito meio esquisito de “Gostaria de me esquecer da vida real e fingir que está tudo bem”.
— São 15 dólares e 73 centavos.
Paga. Abre. Fecha.
— Obrigado, rapazes.
Ding-ding.
Gabriel costumava fazer isso quando ouvia alguém contar uma história, onde podia apoiar os cotovelos em uma mesa, cobrir os olhos com as mãos e se balançar para a frente e para trás bem devagar. Ele estava fazendo isso um dia depois de eu encontrar Para Man no salão de cabeleireiro de minha mãe, enquanto ela contava a Penny Giles, a mulher do carteiro, a respeito de tia Júlia e seus terrores noturnos. Sei disso porque eu estava girando lentamente na cadeira do salão à esquerda de Penny, lendo um livro sobre um menino de 16 anos que chupava o dedo.
— Ela vai ficar bem. Espere e verá. Não vai demorar nada — disse Penny Giles, fechando os olhos quando a nuvem de laquê a envolveu.
— Espero que sim, Penny. Espero mesmo — disse minha mãe, com aquela voz séria que só Gabriel e eu sabíamos ser falsa.
— Ela ainda está com vocês?
— Sim. Está no quarto do Gabe. Os coitadinhos estão dividindo uma cama.
— Ah, você não se importa, não é, Cullen? — perguntou Penny, olhando para mim de esguelha.
Eu não me importava muito com o fato de Gabriel ter passado as últimas quatro noites no meu quarto. Ele ficou relativamente em silêncio, não mexeu nas minhas coisas e à noite gostou de ouvir minhas ideias estranhas para livros. Quando contei que queria escrever um livro sobre zumbis que dominassem nossa cidade, ele sugeriu que eu fosse o mocinho e disse, tranquilamente:
— Talvez você tivesse que me matar quando eu fosse mordido. Não seria uma reviravolta incrível?
Não contei a ele naquele momento, porém eu não tinha a menor intenção de permitir que ele morresse em qualquer livro que fosse.
O que precisa ser dito a respeito de meu irmão é que, apesar de ele ter 15 anos, parecia ter a mesma idade que eu. Mas não sei bem se isso era porque ele parecia mais velho ou porque eu parecia mais novo. Gosto de pensar que era uma boa mistura das duas coisas. O mais conveniente disso tudo era que podíamos dividir roupas, desde que um pedisse ao outro com educação. Nós dois não gostávamos quando alguém mexia em nossas coisas. Gabriel também era esperto, mais esperto que eu, até. Quando éramos pequenos, ficávamos deitados no telhado, e Gabriel mostrava constelações diferentes. Sinceramente, eu achava que ele estava inventando a maioria delas, até que procurei em um livro de astronomia na biblioteca pública. O que é estranho, já que não consigo me lembrar de uma única vez em que Gabriel tenha mentido. E isso não quer dizer que ele era grosseiro, franco ou direto de alguma forma. Quando ficava calado, era sinal de que o que queria dizer, que era sempre a verdade, era inadequado. Nisso nós somos muito diferentes. Eu costumava me ver em situações nas quais, sem pensar, falara demais ou com muitas pessoas sem muito cuidado. É por isso que Laura Fish não fala comigo até hoje na fila do mercado. Uma situação parecida aconteceu comigo naquela mesma tarde enquanto eu estava deixando Gabriel em casa. Encontrei meu pai enquanto ele colocava latinhas de refrigerante diet dentro da caixa de isopor.
— Cullen, não poderei ir ao velório amanhã. Você pode levar sua mãe e sua tia, certo?
— Claro. Como sempre.
Aquelas duas últimas palavras saíram de minha boca antes de eu conseguir detê-las. Era tarde demais. Meu pai olhou para mim como se eu fosse o maior mal-agradecido da face da terra. Enfiou a última lata na caixa, abaixou a tampa, acendeu um cigarro, fechou a porta do caminhão e partiu.
O que acontece entre mim e meu pai: nós nos dávamos bem. Tudo ficou ótimo entre nós quando ele parou de beber, quando eu tinha 13 anos. Então, um dia, quando eu tinha quase 16, decidi começar a ser um idiota com ele. Não sei explicar direito. Quando eu tinha 11 anos, meu pai levou Gabriel e a mim a um museu, a cerca de três horas de Lily. Tinha esqueletos de dinossauros em tamanho real e um aquário com peixes e crocodilos do Arkansas. Tinha a pegada fossilizada de um mamute e balas em formato de pedra na loja de presentes. Tinha uma sala na qual dava para entrar para ver sua sombra e um espelho que refletia sua imagem de cabeça para baixo. E, no caminho para casa, enquanto meu irmão dormia no assento do meio entre nós, meu pai me disse, com a voz mole por estar embriagado, que me levaria com ele, sem pestanejar, até o fim do mundo. Eu sorri, confuso, mas feliz.
Título de livro número 74: Merdinha mal-agradecido
Na manhã seguinte, no pátio da igreja, onde havia estado pouquíssimas vezes, eu me senti familiarizado com o vento roçando suavemente meu rosto e com as palavras que eram ditas de modo tão sincero quanto eloquente pelo Reverendo Wells.
“Com isso, aprendemos que a morte pode nos ferir.
A morte pode nos surpreender.
Pode nos assustar.
Pode nos tirar o sono à noite.
Mas também aprendemos as coisas que a morte não pode fazer.
Não pode destruir nossas esperanças.
Não pode tirar o amor e o apoio de nossos amigos e de nossa família.
Não pode nos fazer perder nossa fé sem fim no mundo e em Deus.
A morte nos entristeceu, mas não vai prevalecer.”
O Dr. Webb diz que, quando alguém jovem morre, as pessoas mais velhas se sentem culpadas por viver. Como Oslo era dois anos mais velho que eu, senti-me pouco culpado quando ele morreu. O que senti foi desgosto e pena. Fiquei triste por minha tia Júlia, que mal conseguia dizer uma frase sem cair em prantos. Fiquei triste por pessoas como Mena Prescott, que tentou com muito esforço fingir que não se sentia afetada. Principalmente, fiquei triste pelo meu irmão. Ele não demonstrava tristeza, mas eu o conhecia muito bem. Sabia que alguns sentimentos não estavam sendo demonstrados. Sinceramente, não consigo me lembrar de nenhum momento no qual Gabriel tenha interagido com Oslo. Nem uma vez. O único motivo pelo qual eu tinha que interagir era porque tinha habilitação e porque Oslo sabia que eu era como meu pai. Não digo não às pessoas com muita frequência.
Quando alguém está a quase um metro e oitenta acima do corpo de seu primo enquanto tia Júlia geme de sua cadeira dobrável de metal e a mãe dele sussurra “Calma, calma” em seu ouvido, só dá para ver uma sala clara repleta de corpos no Little Rock City Morgue. Ele se vira e tudo o que vê é um cemitério repleto de zumbis meio para fora das covas. Eles tropeçam, se arrastam e se aproximam para ficar perto dele. Quando alguém está cercado por centenas de zumbis e todos estão olhando para seu único primo, ele só consegue entoar as palavras de uma canção que ouviu no rádio de seu irmão mais novo.
E, quando morremos,
Todos temos asas.
Não precisaremos mais de pernas para ficar de pé.
O Reverendo Wells chorou mais para o fim. Eu o vi enxugar o olho esquerdo com as costas da mão enquanto terminava a oração, e a pequena multidão começou a se dispersar. Lucas sussurrou em meu ouvido: “Vou buscar o carro”. Lucas era assim: levava a família do falecido ao velório e depois para casa sem que pedissem. Gabriel ficou do meu lado. Olhei para ele do jeito como se olha para alguém em um velório, e ele conseguiu abrir um daqueles sorrisos “Estou meio desconfortável e adoraria ir embora assim que possível”.
— Será que ela nunca vai parar com isso? — perguntei a Gabriel, olhando na direção de tia Júlia.
— Duvido — respondeu ele.
— Você nunca vai reaver seu quarto.
— Você está dizendo que nunca vai reaver o seu quarto. — Ele riu.
Dei um soquinho de leve no braço direito de meu irmão para demonstrar afeto, e caminhamos em direção ao carro quando Lucas parou.
Havia neblina demais para o meu gosto ao redor da casa quando entramos na garagem e minha mãe gentilmente ajudou tia Júlia a sair do carro e entrar na residência.
— Coitada da Júlia — disse Lucas, apoiando o queixo no volante.
— Ela fez a mesma coisa quando meu avô morreu.
— Eu estava presente, Cullen.
— Ah. É mesmo.
— Ficou sabendo sobre aquele passarinho? — perguntou Lucas, ainda olhando para a casa. Lucas era uma das pessoas mais inteligentes e estranhas que eu conhecia, então não fiquei muito surpreso com o assunto que ele escolheu.
— Que passarinho? — perguntei.
— Tem um pica-pau que está extinto há quase 60 anos. Mas um cara de Oregon ou algo assim veio aqui e acha que viu um.
— Em Lily?
— Perto da cidade. Acho que ele estava descendo o rio de canoa e viu o pica-pau voar, ou coisa do tipo.
— Que estranho.
— Bom, preciso ir. Minha mãe vai achar que estou fazendo bagunça por aí — disse ele, rindo.
Quando Lucas Cader tinha 12 anos, seu irmão mais velho morreu em um acidente de carro. Foi em Little Rock. Eles se mudaram para Lily no começo do nosso oitavo ano. Lucas não falava muito sobre isso, mas, quando falava, tenho certeza de que era só pra mim. E, em suas palavras, como sua mãe não podia impedir que um filho se embriagasse e se metesse no trânsito na estrada, ele tinha que sofrer as consequências, com relatórios diários a respeito de onde havia estado, de para onde estava indo e do porquê do antes e do agora.
Eis o que eu sabia sobre Lucas Cader que a maioria das pessoas não sabia: ele não era tão feliz quanto parecia. Quando não estava nos corredores da escola, não mantinha aberto o sorriso de comercial de pasta de dentes e com certeza não tinha aquele brilho nos olhos do tipo “o mundo é um lugar incrível, então vamos sair daqui e amar a vida”. O que ele tinha eram olhos marejados no banheiro e uma cara de tédio e confusão quando acreditava que ninguém estava olhando. E, um pouco antes de dormir à noite, ele fechava os olhos com uma força que nunca vi e sussurrava orações depois de se benzer. Quando terminava, olhava para o teto até cochilar, finalmente.
Tia Júlia voltou para casa exatamente uma semana depois de Oslo ter sido encontrado morto pela amiga que era prostituta. Tente explicar tudo isso a seu irmão de 15 anos, que ainda quer acreditar que o mundo é um lugar bom. Naquela tarde, quando Gabriel estava pegando algumas de suas coisas de meu quarto, e eu estava anotando umas ideias no caderno, ele olhou para mim e ficou paralisado.
— O que foi? — perguntei a ele com desconforto, percebendo uma lágrima em seu olho direito.
— E se você morrer, Cullen?
— O quê?
Ele se sentou na beira da cama.
— Sei lá, e se de repente você morre e eu fico aqui sozinho com a mãe e o pai e a tia Júlia na mesma rua, com seus gritos e choros?
— Gabriel, o que faz você pensar que vou morrer?
— Não acho que você vai morrer. Eu só estava pensando no que faria se você morresse, só isso.
— Não pense nessas coisas, tudo bem? Você está me assustando.
Quando o irmão meio tímido, e às vezes divertido e dramático, de uma pessoa o abraça com força, ele começa a pensar em escrever um livro ou a fazer um filme no qual os mocinhos e os vilões não atirem uns nos outros nem briguem com espadas, mas só se abracem muito. O irmão da pessoa começa a chorar muito baixinho, e ele realmente parece não ter ideia a respeito do que fazer ou dizer, ou de como sair da situação. Ele pensa em chorar também, mas sabe que não conseguiria ser convincente. Por fim, ele abraça o irmão e dá vários tapinhas em suas costas, como se estivesse abraçando uma senhora na igreja. Seu irmão finalmente o solta.
— Desculpa — disse Gabriel sussurrando.
— Tudo bem — respondi, sem saber se acreditava ou não naquilo.
O dia seguinte foi o último dia de aula antes das férias de verão. Não sei por que o último dia foi uma segunda, mas não reclamei por não ter que terminar a semana. Era tradição minha e de Lucas faltar no último dia de aula, mas havíamos decidido ir naquele dia simplesmente porque não conseguíamos pensar em nada melhor para fazer. Além disso, eu queria dar uma última olhada em Ada Taylor antes que ela se formasse e nunca mais voltasse para Lily. Ela era uma das poucas que eu acreditava que construiriam uma vida para si em outro lugar; em algum lugar melhor.
Se você já foi à escola no último dia do ano, sabe que os professores estão totalmente cansados. Em geral, eles atribuem as tarefas de limpeza assim que os alunos entram e parecem quase irritados por você existir. Foi por esse motivo que Lucas e eu escolhemos ajudar a levar as carteiras para fora das salas, para a limpeza de verão. Nós deslizávamos as carteiras até a porta, erguíamos cada uma delas e as jogávamos em cima da última mesa que empurramos para o corredor, e então começávamos de novo. Eu sempre sentia um bem-estar estranho em rotinas como aquela. E durante todo aquele dia, quando não estava arrastando carteiras, eu tinha a sensação de que deveria estar me abaixando, pegando, erguendo e começando tudo de novo.
Ada Taylor não apareceu naquele dia. Sabíamos que a chance seria pequena, no entanto ficamos incomodados quando nos demos conta de que talvez nunca mais a veríamos. Lucas apoiou uma mão em meu ombro e disse, com um sotaque estranho:
— Bem, irmão, não era para ser. E, se era para ser, então você está ferrado!
— Podia ser pior — eu disse. — Eu podia ter dormido com ela e morrido.
— Verdade. Grande verdade, meu amigo.
— Por favor, pare de falar assim.
— Assim como?
— Como um James Bond mal interpretado.
— Idiota — ele murmurou, com um sotaque escocês perfeito.
Depois da aula, Lucas, Gabriel e eu fomos à casa de Mena Prescott por tempo suficiente para entrar, beber uma Coca-cola entregue pelo pai dela, bastante empolgado, responder a um breve interrogatório feito pela mãe enxerida dela e, finalmente, tirar Mena dali e colocá-la dentro do carro. Fomos para um lugar perto do rio, onde Lucas me contou pela primeira vez sobre seu irmão e onde eu tinha, depois de um tempo, vivido um momento impróprio para menores com Laura Fish.
— Onde está Libby? — perguntou Mena, ao perceber que um membro do grupo estava faltando.
— De férias com a família — respondeu Gabriel, com o olhar triste.
Lucas e Mena logo estavam brincando na água enquanto Gabriel e eu nos deitamos à margem, usando nossas camisetas emboladas sob a cabeça para servir de travesseiro.
— Você acha que ficaríamos famosos se encontrássemos um? — perguntou Gabriel.
— Um o quê? — Lucas gritou do rio enquanto Mena espirrava água em seu rosto.
— Se estivéssemos deitados aqui desse jeito e víssemos um daqueles pica-paus.
— Ah, não sei se ficaríamos famosos, mas aposto que, pelo menos, ganharíamos uma matéria no Lily Press! — eu disse, brincando.
— Isso quase parece não fazer sentido — Gabriel acrescentou.
— Sim — concordei.
— Não sei por que tanta coisa com esse passarinho — Mena gritou, enquanto tentava não ser puxada para dentro da água por Lucas.
— Gabe, quer explicar desta vez? — perguntei a meu irmão, porque já tinha ouvido a teoria dele a respeito da situação do pica-pau uma noite antes.
— Precisamos dele — Gabe falou. — Quero dizer... eles precisam dele. — Ele acenou em direção à cidade.
— O que quer dizer? — perguntou Lucas, e ele e Mena ouviam com atenção, como todos nós fazíamos quando Gabriel decidia contar uma de suas teorias.
— Veja a nossa cidade — começou Gabriel —, veja as pessoas. Quantas pessoas felizes você vê em um dia? Quantas pessoas vê que parecem satisfeitas?
— Eu estou satisfeita — disse Mena.
— Você é jovem o bastante para pensar que pode sair daqui — afirmou Gabriel, sem hesitar.
— Comigo — Lucas acrescentou, passando um dos braços pelos ombros de Mena.
— Continue, Gabriel — eu disse, virando os olhos para o casal feliz.
— Aí é que está! Esta é uma cidade repleta de pessoas que eram como nós. Você acha que alguém em Lily cresceu sonhando em constituir uma família aqui? Você acha que se todos eles pudessem não partiriam amanhã mesmo?
Ficamos quietos por alguns minutos depois disso. Foi um daqueles momentos em que você espera alguém dizer algo importante ou engraçado, ou fazer qualquer coisa para tirar você dos pensamentos tristes que tomam sua mente. Pensamentos do tipo nunca ter dinheiro para se mudar ou não entrar na faculdade. Pensamentos como ter que voltar para cuidar de um pai adoecido e ficar preso de novo. Era o que acontecia em Lily. As pessoas sonhavam. As pessoas partiam. E todas elas voltavam. Era como se fosse uma versão do Arkansas de um buraco negro; nada podia escapar. Fiquei ali, em silêncio, ao lado do meu irmão, do meu melhor amigo e da sua namorada na água à minha frente, e eu sabia que estávamos perto da decepção pós-decepção. Brincávamos fazendo comentários sobre Lily o tempo todo, porém sabíamos muito bem que fazíamos parte de tudo aquilo. Não havia nada que nos separasse do gerente do mercado de Lily, que sabia que sairia, mas nunca saía. Não éramos diferentes de meus pais, que tinham se mudado de Lily e voltado cinco anos depois de se formarem no ensino médio.
Então, o fato de Gabriel acreditar que nossa cidade precisava que aquele passarinho existisse fazia sentido para mim, independentemente de gostar ou não. Eles precisavam de algo em que ter esperança. Na minha cabeça de 17 anos, nada mudaria se aquele maldito pássaro aparecesse, porque eu ainda tinha uma pequena chance de ter um futuro. Ainda tinha esperança na possibilidade de começar uma vida em outro lugar. Era mais fácil para mim detestar todo mundo na cidade do que me detestar por ter medo de ser como eles.
— Eles precisam disso — disse Gabriel, rompendo o silêncio. — Eles precisam de um motivo para acreditar que ainda estão aqui por algum motivo.
— Então você acha que eles vão encontrá-lo? — Mena perguntou a Gabriel como se ele fosse Yoda ou alguém assim.
— Acho que eles ficarão decepcionados até mesmo se o encontrarem. Nada vai mudar este lugar — declarou ele, com o tom de voz sério e reflexivo, como o de um ator experiente.
— Obrigado pela conversa animadora, Gabe — disse Lucas, espirrando água em meu irmão.
— De nada! — Gabriel gritou, pulando na água para atacar meu amigo.
Lucas rapidamente deu uma gravata nele e olhou na minha direção.
— Então, não tem mais o Para Man, não é? — Lucas gritou da água.
— De jeito nenhum! — respondeu Gabriel. Todos rimos.
— Bem — eu disse —, só até ele ser reprovado na faculdade e voltar para cá!
Título do livro número 75: Os buracos negros do Arkansas.