Quando Tudo Volta

John Corey Whaley · Capítulo 10 de 21

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Quando Tudo Volta

10. CABOT Searcy

CABOT Searcy

 

 

Está escrito no Livro de Enoque que duzentos anjos liderados por

Azazel, guardião do trono de Deus, vieram à Terra depois de se apaixonar pelas mulheres humanas que protegiam. Ao fazer isso, esses anjos caídos começaram a se reproduzir com as filhas da Terra e geraram os chamados de néfilins, gigantes que consumiam todas as posses do homem. Como o homem não conseguia detê-los, chegou um momento em que também começou a ser devorado. E, depois de destruir os pássaros, as feras, os répteis e os peixes da Terra, os néfilins começaram a comer a carne e a beber o sangue uns dos outros.

Ao mesmo tempo, os anjos caídos, conhecidos como Grigori (ou Vigilantes), começaram a ensinar a todos os humanos remanescentes as artes da guerra, da vaidade e da astrologia. Foi aí que os céus ouviram os gritos daqueles homens que morreram pela falta de leis na Terra. E Deus ordenou que sua mão esquerda, o anjo Gabriel, fosse até a Terra acabar com a falta de leis. Então Gabriel, com os anjos Miguel, Uriel e Rafael, fez com que os néfilins declarassem guerra uns aos outros. Seus pais, os Grigori, foram relegados ao inferno por toda a eternidade, por todos os pecados que haviam levado à Terra.

Depois Deus falou com Noé, bisneto de Enoque, instruindo-o a salvar sua família e os animais de um grande dilúvio que limparia a Terra dos humanos corrompidos. E Enoque, que não morreu, mas foi levado por Deus e transformado no anjo Metatron, guardou o trono de Deus, inventou a arte da escrita e transmitiu as palavras Dele àqueles que estavam na Terra.

Quando Cabot Searcy ficou sabendo que seu colega de quarto e amigo tinha se suicidado, entrou imediatamente no banheiro da casa dos pais, jogou água morna no rosto e ficou se olhando no espelho enquanto lágrimas começavam a escorrer pela sua face. Benton, ele pensou, não pularia de um campanário no dia de Natal. Mas pulara, e agora Cabot Searcy enfrentaria seu segundo semestre na faculdade sozinho, sem o amigo. Após secar o rosto, abriu bem os olhos, endireitou os ombros e saiu do banheiro, quando foi interceptado pela irmã caçula, Megan, que rugiu como um leão e fingiu arranhar seu peito.

Não deveria ser sua responsabilidade, mas Cabot Searcy já tinha esperado duas longas semanas até a família de Benton Sage mandar alguém pegar as coisas dele; ninguém veio, então ele começou a encaixotar a metade do quarto que não lhe pertencia. Fazendo isso, sentia que conseguiria evitar se distrair demais com a morte de Benton e tocar a vida adiante.

No segundo dia da lenta retirada das coisas de Benton, Cabot Searcy deparou-se com um álbum etiquetado com uma faixa de fita adesiva e caneta preta. Dizia: FAMÍLIA.

O álbum era como qualquer outro. Tinha algumas fotos de infância, brincadeiras no quintal e à beira da piscina, coisas assim. Havia várias fotografias de Benton adolescente, sentado no sofá com as irmãs ou fazendo careta para a câmera enquanto fazia a lição de casa. Uma delas mostrava Benton pendurado de cabeça para baixo em um balanço, com a mãe bem perto dele, olhando com doçura em sua direção. E apenas uma foto mostrava seu pai, vestindo terno e gravata, ombros largos e fortes, bigode muito bem aparado. Benton estava ao lado dele, um pequeno espaço entre os braços dos dois, sorrindo de modo aparentemente constrangido. Na última página havia uma fotografia de Benton ao lado de um homem negro muito alto e muito magro, cujo sorriso parecia não dar muita margem para o de Benton, que estreitava os olhos, dando um leve riso forçado enquanto o homem apertava seu ombro com força.

Três caixas eram mais que suficientes para todas as coisas de Benton, então Cabot Searcy iniciou a tarefa final, que consistia em tirar os lençóis e a colcha da cama do amigo, planejando levar tudo para baixo, para que, com sorte, alguém enviasse pelo correio aos pais de Benton. No entanto, foi quando tirou o lençol de baixo que Cabot encontrou o que parecia ser um tipo de diário enfiado sob o colchão. O caderninho era estreito: tinha uma capa que parecia papelão e um elástico em volta. Cabot sentou-se no chão, ao lado da cama, e continuou a dobrar os lençóis, empilhando-os com cuidado na última caixa. Sentou-se em sua cama, olhando para o caderno. Pegou-o e colocou-o ao seu lado. Pegou-o mais uma vez e depois o largou novamente. Carregou a primeira caixa, que continha principalmente livros e CDs, até o primeiro andar. Quando voltou para o quarto, foi direto para o caderninho. Rapidamente retirou a faixa elástica e abriu na página um. Dizia, em tinta preta:

Atenção: as páginas seguintes, usadas como diário ou para anotar ideias, certamente estão repletas de melancolia, cinismo e angústia.

Cabot riu enquanto virava as páginas do caderno e encontrava reflexões muitas vezes curtas e aleatórias sobre coisas, desde frases estranhas que Benton escutara em programas de televisão a que assistira até pessoas que havia encontrado. A primeira anotação de todas datava de cerca de três meses antes do início da faculdade, então Cabot passou rapidamente as páginas até encontrar o ponto em que os dois haviam se conhecido. A página que tinha o número quarenta e sete no canto superior começava assim:

Conheci meu novo colega de quarto hoje. Ele parece bem legal, mas eu nunca vou querer deixá-lo irritado. Acho que parece gostar de mim, o que é bom. Ele já estava flertando com as meninas do quarto ao lado.

Cabot Searcy riu. Fechou o caderninho, carregou a segunda caixa pelo corredor e desceu os três andares até o térreo. Antes de pegar a terceira, jogou o pequeno caderno sobre os lençóis e começou a descer as escadas pela última vez. Em frente à sala onde deixara as duas primeiras caixas, Cabot deixou a última, surrupiou o livro de cima, enfiou-o no bolso de trás e deixou o restante das coisas lá, como já fizera duas vezes antes. De volta ao quarto, colocou o caderninho na gaveta do criado-mudo e foi dormir.

Em 1773, um explorador escocês chamado James Bruce ouviu rumores de que existia uma cópia do Livro de Enoque na Etiópia. Lá, descobriu três cópias de um texto antigo e voltou para a Europa com eles, levando-os para uma posterior tradução para o inglês pelo professor de Oxford Dr. Richard Laurence. Na época, os livros estavam desaparecidos havia quase mil anos, banidos da igreja por teólogos poderosos que alegavam que o texto era herege e ordenaram que todas as cópias fossem queimadas ou rasgadas. Mais tarde, cópias do livro foram encontradas entre os Manuscritos do Mar Morto, com data anterior a Jesus Cristo; ele próprio, segundo dizem, fez referência a isso por meio de suas ideias e elaborações sobre a queda e o julgamento do homem. Embora muitos teólogos cristãos e judeus deem pouco ou nenhum crédito ao livro, que já foi considerado um apócrifo, ou escrito secreto, do Novo Testamento, existe uma igreja que o inclui na Bíblia cristã, e é a Igreja Ortodoxa Etíope. Tal igreja também adota muitas práticas rígidas igualmente promovidas pelo judaísmo ortodoxo e tem cerca de quarenta milhões de seguidores, como Rameel e Isadora Desta, de Adis Abeba.

Bastaram duas noites folheando casualmente o caderno para que Cabot Searcy lesse todas as anotações, na maioria cômicas, de Benton Sage. Ele rira alto ao ler a descrição que Benton fizera dele: “parece muito mais esperto do que realmente é”. O diário não estava nem na metade, e, embora tenha hesitado por um instante, Cabot Searcy decidiu escrever algo na primeira página em branco que viu. Vasculhou o fundo de sua mochila de livros até finalmente encontrar uma caneta e, depois de tirar a tampa com os dentes, começou a escrever.

Benton Sage morreu ao pular de um campanário no Natal. Sentiremos muito a sua falta.

Com isso, Cabot Searcy decidiu que talvez fosse hora de encontrar outra coisa para fazer com o caderno, simplesmente porque a ideia de guardar algo que pertenceu a uma pessoa morta o deixava incomodado, o que explicaria as duas noites seguidas em que não conseguira dormir. E, justo quando estava prestes a recolocar o elástico ao redor do caderno, Cabot usou o polegar para passar rapidamente por suas páginas, fazendo um barulho que ele lembrava ter sido provocado por um idoso na igreja, anos antes. Fez novamente, no entanto, porque pensou ter visto algo nas páginas próximas ao fim. Parou de folhear, virou algumas páginas e logo viu, escrito em tinta preta:

Restaura a terra, a qual os anjos corromperam; e anuncia vida a ela, para que Eu possa recebê-la. Todos os filhos dos homens, sua descendência, não perecerão em consequência de todo segredo, pelo qual os Vigilantes têm destruído, e o que eles ensinaram. Toda a terra tem se corrompido pelos efeitos dos ensinamentos de Azazel. A ele, portanto, se atribui todo pecado.

— Livro de Enoque, 10:10-12