Quando Tudo Volta
6. Benton SAGE
Benton SAGE
Benton Sage considerou sua recepção um tanto indiferente quando voltou
a Atlanta naquela manhã úmida de junho. Seu pai estava encostado em um muro, braços cruzados e olhos fixos no chão, como se quisesse mostrar que não queria papo. A mãe o abraçou de um modo que sugeria que ele precisava muito de um abraço. E as irmãs, as gêmeas, beijaram-lhe o rosto, disseram: “Bem-vindo ao lar, irmão”, e caminharam em direção à escada rolante.
Benton soube, mais tarde, que o Reverendo Hughes queria vê-lo assim que possível, e imaginou que já tinha recebido uma missão melhor para servir sua igreja. No amplo escritório do Reverendo, o sol que entrava pelo vitral esquentava a sala, elevando a temperatura a ponto de fazer suar quem estivesse ali. Benton secou a testa quando o Reverendo começou a falar.
— Benton, você é um menino inteligente.
— Obrigado, senhor.
— Você tem quantos anos? Dezenove?
— Dezoito, senhor. Eu me formei cedo — disse ele, com orgulho.
— Ah, sim, eu me lembro disso. Bem, eu estava dizendo que você é tão inteligente que acho que precisamos reconsiderar suas tarefas nesta igreja.
— Não entendi — respondeu Benton.
— Acredito que talvez tenhamos escolhido você rápido demais para ser um missionário. O que pensei ser um grande potencial para propagar a palavra de Deus acabou sendo, bem...
— Reverendo — Benton interrompeu —, eu quero fazer isso. Quero sair e mudar as pessoas. Mas não foi possível onde o senhor me colocou. As coisas não funcionavam assim.
— Eu sei como funciona, Benton. Já estive em quase quinze missões. Já estive em várias partes do mundo. Sei como essas coisas são.
— Então, o senhor sabe que o ministério de Rameel tem mais a ver com conversas sobre arroz e grãos do que com Jesus? — Benton estava começando a se incomodar.
— Sei que Rameel foi escolhido por Deus para ajudar todas aquelas pessoas.
— Mas ele não as está ajudando. Só está prolongando a vida delas. Elas ainda estarão perdidas quando ele as deixar. Estarão alimentadas, mas perdidas! — Benton começou a falar mais alto.
— Benton, você perdeu de vista a sua missão como cristão. Sinto muito, mas não vamos mais enviá-lo a lugar algum.
Benton Sage tinha, desde a infância, um grande objetivo na vida: fazer com que o pai sentisse orgulho dele. Também aprendeu, ainda menino, que fazer isso exigia uma devoção firme e às vezes exaustiva à religião. Aos oito anos, Benton havia aprendido a impressionar o pai lendo as Escrituras à mesa do jantar. Isso, no fim, sempre o salvava das surras que as duas irmãs levavam. Aos nove anos, aprendeu a se lembrar das Escrituras cantando-as em pensamento. Aos dez, foi chamado para recitar uma Escritura durante a missa do Domingo de Páscoa. Errou duas palavras, e o pai o encarou de onde estava sentado. Benton pensou em fugir naquela tarde, pensou em nunca mais voltar para casa para não ser castigado. Mas não podia fazer isso. Não podia deixar as irmãs e a mãe sozinha aguentando a ira do “Reverendo Rambo”, como ele e as irmãs se referiam ao pai, de brincadeira.
— Benton — disse seu pai naquela noite de Páscoa, sentado à beira de sua cama.
— Sim?
— Você decepcionou a mim e a sua mãe hoje, filho — começou ele, com a voz séria.
— Eu sei, e sinto muito. Eu tentei — ele se defendeu.
— Não invente desculpas. Não vale a pena. Você disse que sabia a Escritura, e não a conhecia. Amanhã, quando suas irmãs saírem para brincar, você vai ficar lendo aquela Escritura sem parar até decorá-la.
— Mas eu a conheço. Só fiquei nervoso — Benton começou a resmungar.
— Você ficou nervoso porque sentiu vergonha de si mesmo. Como deveria sentir. Eu senti vergonha de você, e Deus também. — O pai saiu do quarto e apagou a luz.
Benton Sage, no meio da mais completa escuridão, gemeu e chorou como um animal ferido prestes a morrer. Repetiu a Escritura em voz alta, para ninguém. E repetiu mais uma vez. E outra. Fez isso até o sono tomar conta dele, e assim que acordou na manhã seguinte começou a recitar a Escritura de novo. Ele a disse enquanto escovava os dentes, as palavras abafadas pela pasta e pela escova. Ele a disse no chuveiro, com a água entrando na boca a cada palavra. Ele a disse no ônibus da escola, fazendo com que três alunos se afastassem com medo de ele ter enlouquecido.
Aos 16 anos, Benton convidou uma garota chamada Susie para o baile da escola. Naquela noite, enquanto ajustava a gravata no espelho do banheiro e saía pela porta, foi interrompido pelo pai, que mandou o garoto se sentar.
— Tenho más notícias — disse o pai.
— O quê? O que aconteceu? Todos estão bem?
— Sim. Todos estão bem. É o seu encontro. Não vai dar certo — declarou o pai, sentando-se à frente do filho.
— Do que está falando? Estou indo buscá-la agora.
— Não está, não. Acabei de desligar o telefone. Estava conversando com a mãe dela, que ficou bem desapontada ao saber o que eu tinha para contar sobre a jovem Susie. — Ele balançou a cabeça.
— O que o senhor disse a ela? — perguntou Benton.
— Bem, acontece que, por fontes confiáveis, eu soube que a jovem Susie foi vista aos beijos com aquele filho idiota e pecador de Stanley Baker.
— O Chip? Chip Baker? Sim, eles saíam. Mas não mais. — Benton olhou para o chão. Sabia o que viria em seguida e tentou entender por que se surpreendera.
— Então você achou que não haveria problema em sair com uma rameira? Eu tinha outra visão a seu respeito, Benton. Certo. Não importa agora. O encontro já foi desmarcado. Você pode tirar essa gravata.
Com isso, o pai saiu da sala, e Benton, com a raiva tomando conta do seu corpo, cerrou os punhos e, por alguns momentos, esqueceu-se de como respirar. Ele quis se levantar, sair e buscar Susie na casa dela; continuar com o plano com o qual se animara por semanas. Porém, não conseguiu. O pai não permitiria. Não podia decepcioná-lo. Não podia ficar com uma moça barata como aquela. Ele merecia mais. Sabia das coisas. E, ao secar uma lágrima do canto do olho, ficou de pé, puxou a gravata do pescoço e voltou para seu quarto. No dia seguinte, no café da manhã, sentou-se na frente do pai com esperança de que o encontro não fosse ser mencionado; ele queria que tudo desaparecesse. Quando estava prestes a bebericar seu suco de laranja, o pai, sem desviar o olho do prato, disse lentamente:
— Sinto orgulho de você, filho, por confiar que sei o que é melhor.
Poucas vezes na vida Benton se sentiu tão bem. Ele não conseguia explicar, nem mesmo para si mesmo, mas aquelas poucas palavras do pai faziam a raiva e a preocupação valerem a pena.
Contudo, aos 18 anos, Benton não havia conseguido atender as expectativas do pai mais uma vez. Já tinha viajado metade do mundo, dormido em casas de chão de terra, dado comida e água aos pobres e moribundos, e ainda não havia impressionado o Sr. Jackson Sage. Quando voltou para casa e depois de ouvir a conversa com Reverendo Hughes, o pai de Benton decidiu ignorar o filho de uma vez por todas. Como se não bastasse, Benton passou praticamente a ser isolado pela família toda, que, tirando coisas como “Como você está?” ou “Pode me passar o sal?”, parecia não perceber sua existência. Queriam o mesmo que ele: saber que estavam fazendo algo que orgulhava o pai. Nada no mundo parecia ser mais importante. Observou o pai falar sobre a escola com as irmãs e sobre culinária com a mãe. Observava todos eles reunidos na sala de jantar para estudar a Bíblia e rir dos programas de TV na sala de estar. Não sentia raiva da mãe e das irmãs, porque ele teria feito a mesma coisa. Teria sacrificado qualquer um deles para saber que o que estava fazendo deixava o pai feliz. Trabalhara por anos para ganhar outro momento como aquele à mesa do café da manhã — aquele momento em que o pai sentira orgulho dele. Mas fracassara. Sentindo que não podia mais suportar, Benton começou a telefonar para as universidades às quais havia se candidatado no ano anterior, antes de ir para a Etiópia e antes de decepcionar o pai pela última vez. Certamente, ele pensou, uma das propostas de bolsa ainda estaria válida. Ele poderia ir embora um dia.