Quando Tudo Volta

John Corey Whaley · Capítulo 20 de 21

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Quando Tudo Volta

20. O GAROTO QUE causava SILÊNCIO

O GAROTO QUE causava SILÊNCIO

 

Mais ou menos duas semanas depois de ter sido enfiado em um porta-

malas, Gabriel Witter estava sentado à beira de uma cama confortável, com uma colcha de retalhos marrom e laranja sobre os ombros. Murmurava algumas canções que nunca ouvira antes de ser raptado e ficou tentando imaginar se era mesmo a reencarnação do anjo Gabriel, o que Cabot Searcy afirmara ser a verdade. Divertiu-se com a ideia de ser qualquer coisa além de um adolescente muito curioso. Quando a porta do quarto vazio foi aberta, ele se levantou com uma expressão de animação.

— Volte a se sentar — disse Cabot Searcy, bloqueando a passagem.

Cerca de uma vez por dia, desde que eles tinham chegado aonde quer que estivessem, Cabot entrava no quarto pequeno e sem janelas de Gabriel, sentava-se em uma cadeira de madeira à frente dele, olhava-o com ansiedade e hesitação e fazia perguntas estranhas, como: “Como é o céu?” e “Estou fazendo tudo certo?”. Gabriel raramente respondia a essas perguntas, e, em geral, olhava para seu sequestrador sem qualquer expressão no rosto ou pedia, com educação, para ser libertado. Cabot Searcy nunca chegou perto o suficiente para tocar Gabriel. Nunca levava nada para o quarto, como uma lanterna ou uma arma. Apenas entrava em silêncio, sentava-se e começava a compartilhar suas ideias malucas.

Três semanas após sua chegada, Gabriel perguntou a Cabot onde eles estavam. Cabot ficou de pé, empurrou a cadeira contra a parede, virou-se para sair e disse apenas:

— Estamos em um quarto.

Gabriel não era o tipo de garoto que acreditava que só precisava gritar, socar as paredes ou pular sem parar para chamar a atenção de alguém de fora. Não era tão tolo a ponto de pensar que o resgate seria uma tarefa simples. Em vez disso, permanecia sentado em silêncio. Pensava em seus amigos. Libby Truett, a menina a quem amava. Lucas Cader, a única pessoa capaz de vencê-lo no Banco Imobiliário. Imaginava a mãe chorando no salão de cabeleireiro, enrolando lentamente os cabelos de uma mulher. Via o pai espalhando cartazes com uma foto feia dele na frente e uma recompensa ínfima oferecida abaixo. E, quando pensou em Cullen, começou a ficar chateado pela primeira vez desde que chegara ali. Sabia como o irmão era. Sempre pensava em todas as coisinhas. Sempre pegando uma frase dita por alguém e dissecando-a até que não houvesse mais sentido. Ele sabia que o irmão estaria em seu quarto, não mexendo em suas coisas, mas observando-as. Sabia que ele se sentiria desesperançado. Sozinho. Sabia que Cullen Witter culparia a si mesmo sem nem mesmo saber o que acontecera.

— Já faz cinco semanas — disse Gabriel quando Cabot Searcy entregou a ele um prato de papelão com um sanduíche de queijo e presunto.

— E um dia — completou Cabot, sentando-se em uma cadeira.

— Então — Gabriel começou, dando uma mordida no lanche —, se eu sou um anjo, o que me impede de sair voando daqui?

— Acho que não é assim que funciona — disse Cabot.

— Olha, não faz sentido. Afinal, se eu tivesse todos esses poderes, com certeza eu os estaria usando para alguma coisa. Pelo menos para colocar uma televisão aqui dentro.

No dia seguinte, Cabot Searcy trouxe uma TV pequena, preta e prateada, colocou-a no chão, no canto mais afastado da sala, ligou-a e disse:

— Pronto.

Em seguida, saiu e trancou a porta por fora. Gabriel quase se jogou no chão e, atravessando o quarto até a TV, pensou que começaria a chorar. Apertou o botão de ligar e viu uma tela repleta de linhas trêmulas pretas e brancas. Tentou mudar de canal. Nada aconteceu. Olhou atrás da TV e viu que ela estava apenas ligada à tomada. Não havia antena. Nem canais. Mas ele a deixou ligada, aumentou o volume o máximo possível e sentou-se ali, no meio do quarto, deixando o som de um milhão de moscas envolvê-lo, de aviões decolando, de carros colidindo, de papel sendo amassado, passando por um túnel, tomando a sala. Mantinha um dos ouvidos fechado com uma mão e, soltando, tampava o outro. Fez isso por um tempo, criando sons diferentes na cacofonia que o envolvia. Cabot Searcy entrou no quarto, desligou a televisão e olhou para Gabriel no chão.

— O que é isso? — perguntou ele.

— Não tem antena — disse Gabriel, sem se levantar.

— Estou cuidando disso, está bem? — declarou Cabot, saindo e batendo a porta.

— Ele está cuidando disso — Gabriel sussurrou para si mesmo, deitando-se de costas e olhando para o teto para ver a brancura familiar salpicada com pontinhos dourados.

Seis semanas e quatro dias depois de ter sido confundido com seu irmão, Gabriel estava deitado na cama, zapeando os canais da televisão. Cabot Searcy havia, no alto de sua esperteza, passado um cabo de antena por baixo da porta de alguma sala do lado de fora e o prendera à parte de trás do aparelho. Após fazer isso, pegara uma toalha ou algo do tipo e a passara por baixo da abertura na porta. Gabriel Witter, que não conseguia dormir na escuridão total, finalmente começara a descansar desde a chegada da TV. Sintonizou em um canal de notícias e esperou que seu nome fosse mencionado. Como já notara na semana anterior, ninguém falava dele. Mas conseguiu descobrir que estava em algum lugar da Geórgia, porque, sem querer, sintonizara em uma emissora de notícias de Atlanta. Sabia que não tinha como saber ao certo se estava na cidade ou em algum lugar fora dela. Durante horas, pensou em maneiras de escapar, desde fingir estar muito doente a se esconder atrás da porta com a televisão para jogá-la na cabeça de Cabot. No entanto, ele sabia que nada seria como nos filmes. Não teria coragem de machucar Cabot o suficiente para chegar tão longe. E sabia que Cabot voltaria, e, da próxima vez, seria para pegá-lo.

Cabot Searcy entrou no quarto no dia que marcava a semana de número dez e se sentou no lugar de sempre. Sorriu para Gabriel, que estava acordando, e olhou para ele como se esperasse ouvir algo importante.

— O que foi? — perguntou Gabriel, esfregando os olhos.

— Você me diria se isso tudo fosse um teste, não é? — perguntou Cabot.

— Se o quê fosse um teste?

— O fato de eu pegar você, colocá-lo aqui e encontrar todos os livros e coisas assim. Se fosse um teste de Deus. Bem, você me diria. Não é?

— Certo. Vou dizer pela última vez. Sou só um garoto — disse ele lentamente, como se falasse com um idoso ou uma criança pequena.

— Sei, sei — Cabot assentiu.

— Certo. Sou Gabriel. Sou a mão direita de Deus — afirmou Gabriel.

— Mão esquerda, você quis dizer — Cabot o corrigiu.

— Tanto faz. Isso. E agora? — perguntou Gabriel.

— Bem, estou pensando bastante nisso — falou Cabot.

— E?

— E me parece que, para que as coisas voltem a ser como devem ser, você tem que ir embora — disse Cabot, hesitando um pouco.

— Está dizendo que devo ir para casa? — perguntou Gabriel.

— Não exatamente a casa, mas o céu. Para ficar com Deus. Entende? — perguntou Cabot.

— Certo — assentiu Gabriel, olhando para o chão. — Vamos recapitular, se não se incomoda.

— Claro.

— Você frequentava a faculdade e seu colega de quarto se matou na noite de Natal.

— Certo.

— E você encontrou um verso no diário dele que o levou a uma Bíblia antiga na biblioteca da escola.

— Enoque. Isso.

— E então você leu as anotações do cara, leu o livro e decidiu que Gabriel...

— Você! — Cabot se intrometeu.

— Se eu não tivesse seguido as ordens de Deus de impedir que aqueles anjos caídos vivessem com os seres humanos, então as pessoas, nós, todo mundo teria aprendido a ser tão esperto e poderoso como o próprio Deus?

— Bingo! — disse Cabot.

— Então você acha mesmo que aqueles anjos eram inteligentes a esse ponto?

— Inteligentes, mas mal compreendidos. Eles queriam nos ajudar aqui. E você os impediu de fazer isso.

— Mas foi o que Deus me mandou fazer — falou Gabriel, entrando no jogo.

— Mas Deus agora disse para eu fazer isso. Ele me orientou a fazer todas essas coisas. Ele me levou àquela faculdade, a Benton Sage e a encontrar os livros. Ele me levou a Savannah para que eu me casasse com Alma e então me levou para Lily, onde eu, por acidente, peguei você. Mas não foi um acidente. É assim que tudo tinha que acontecer. É incrível como tudo se encaixa, não é?

Gabriel olhou para Cabot Searcy e, por um momento, pensou nas muitas coisas que poderia dizer a ele para acabar com suas ilusões. Pensou em usar frases da Bíblia, porém mudou de ideia. Pensou em, mais uma vez, negar sua divindade, mas não o fez. Sentiu vontade de chamar Cabot de maluco. Mal-informado. Confuso. Queria gritar que Deus jamais orientaria um homem a tirar um garoto de sua família. Mas não o fez. Em vez disso, Gabriel Witter ficou de pé, ergueu as duas mãos e começou a gritar do modo mais convincente e sincero que conseguiu.

— Ó Deus, faça comigo o que quiser!

Com isso, Cabot Searcy levantou-se, atravessou a porta e a trancou. Gabriel escutou batidas no outro quarto. Ouviu dois gritos breves, como se duas pessoas estivessem discutindo, ou uma pessoa estivesse discutindo consigo mesma. Encostou a orelha na porta com a respiração pesada e profunda, os olhos fechados. Escutou palavras como “merda” e “inferno” e “ajude-me”. Ouviu o barulho de portas de armário batendo, o bater de pés no chão de lajotas e o girar do ventilador de teto. Gabriel escutou quando Cabot Searcy gritou:

— Eu pequei! Eu pequei! Ajude-me, Senhor! Eu pequei!

Ouvindo passos rápidos em sua direção, Gabriel se jogou na cama e não tirou os olhos da porta. Ela se abriu, bateu na parede, voltou um pouco, e Cabot se aproximou da cama. Olhou para baixo. Estava respirando, ofegante. O rosto estava molhado, e Gabriel imaginou serem lágrimas. Cabot se ajoelhou. Ergueu uma mão e a colocou no ombro de Gabriel. Fechando os olhos, começou a falar:

— Gabriel, preciso que você me diga a verdade. Confio que Deus me dirá a verdade por meio de sua voz. Então, me diga. Diga o que devo fazer.

— Não sei o que você deve fazer — disse Gabriel, do modo mais calmo que conseguiu. — Você não percebe?

— Você tem que me dizer! — Cabot se alterou, começando a gritar. — Não consigo respirar. Não consigo pensar. Isso deveria ser mais fácil. Alma, Cullen e Savannah. Está tudo ligado. Tem que estar. Não faz sentido. Benton se matou por isso! Ele simplesmente se foi! De repente! Simplesmente desistiu! Foi difícil demais! Mas eu entendo, certo? Eu consegui, certo? Eu sou o escolhido! Sou o escolhido para terminar o serviço. Sou a pessoa que consertará as coisas!

— Onde está sua família? — perguntou Gabriel, sentando-se na cama.

— O quê? — Cabot chorava, e as lágrimas escorriam por seu rosto.

— Sua família. Onde eles estão? Eles sabem quem você é? Eles sabem que você é importante? — perguntou Gabriel, começando a se levantar.

— Cale-se! Pare de me distrair!

Cabot levou as mãos às laterais do rosto, irado. Parecia estar tentando afastar os pensamentos. Gabriel ficou de pé. Apesar de ter pensado em sair correndo em direção à porta, caiu de joelhos, uniu as mãos e começou a rezar.

— Senhor, ajude este homem a encontrar seu caminho sem machucar a si mesmo ou outras pessoas. Ajude-o a encontrar seu coração, Senhor, o mesmo coração que me deu alimento e calor. Ajude-o, por favor. Por favor, ajude-o a parar e pensar.

— Pare, pare, PARE! — Cabot uniu as duas mãos e derrubou Gabriel para o lado. Chutou as costas e as pernas do garoto. Fungou, chorou e se abaixou para levantar Gabriel e jogá-lo para o outro lado do quarto. A cabeça de Gabriel bateu na lateral da televisão, e ele caiu imóvel e estatelado no chão.

— Você deveria ter me dito a verdade — disse Cabot, aproximando-se lentamente do garoto.

Apesar de seu rosto estar encostado no chão, Gabriel sussurrou baixinho e de modo firme. Cabot gritou.

— O quê? Fale mais alto!

— Você não é o escolhido — afirmou Gabriel de modo mais claro, com a voz tomada pela dor.

Depois disso, Cabot Searcy sentou-se na beira da cama, olhou para Gabriel Witter e para sua cabeça ensanguentada e não disse nada. Olhou para a TV e viu que o programa de notícias estava sendo transmitido de Lily, Arkansas. Letras pequenas apareceram embaixo da imagem de um jornalista diante de um campo de futebol. Na legenda, as palavras NÃO HÁ SEGUNDA CHANCE EM LILY, ARKANSAS .

Cabot começou a rir. Riu alto e mais alto, até finalmente parar, de repente, ao olhar para o corpo imóvel no chão.

— Está na hora de dizer adeus, Gabriel — Cabot murmurou, levantou-se e desligou a TV.