Quando Tudo Volta
13. A COISA mais SIMPLES do MUNDO
A COISA mais SIMPLES do MUNDO
Estávamos em um campo que fora todo devastado, e o que restava não
passava do que parecia uma triste e antiga zona de guerra. A grama estava praticamente morta, a terra passara de marrom a cinza, e a única árvore ainda de pé estava desfolhada e inclinada como um monstro assustando uma criança em seus pesadelos. Vilonia Kline estava diante de nós, mãos estendidas, olhos fechados novamente, lábios tremendo, murmurando algo muito importante ou uma tremenda bobagem. Lucas olhava para mim como alguém faz quando uma vidente está de pé em um campo, diante dele, falando com a terra. Mena Prescott segurava na mão de minha mãe, e meu pai estava encostado na picape, olhando fixamente para a mulher que murmurava. Ela caminhou quase cem metros, parou e depois se virou. Os olhos se abriram. Os ombros foram jogados para trás. Ela colocou as mãos na lateral do corpo.
— Ele está aqui — disse a mulher, em voz baixa, mas alto o bastante para ser ouvida, apontando para o chão sob seus pés.
— Aqui. — Minha mãe balançou os braços para abranger o campo todo. — Ou ali? — ela perguntou, apontando para o solo sob Vilonia Kline.
— Aqui — Vilonia repetiu, apontando para baixo.
Ninguém, para minha surpresa, tinha começado a chorar. Ninguém estava falando. Lucas olhou para meu pai, que olhou rapidamente para mim, enfiando a mão na traseira da picape e tirando uma pá. Ele a jogou no chão, na minha frente. Depois pegou outra e apoiou no ombro direito, andando na direção da mulher. Lucas Cader aproximou-se e pegou a pá, olhou para mim e disse:
— Espere no carro.
Fiz o que ele disse, e Mena Prescott foi comigo. Minha mãe se sentou no capô do carro, observando os dois cavarem a terra morta. Vilonia Kline sentou-se sobre a terra ao lado deles, vendo o buraco ficar cada bem mais largo e mais fundo a cada escavada.
Quando alguém está sentado no banco de trás da picape do pai, ao lado da namorada do melhor amigo, que está com a cabeça apoiada em seu ombro, observando o pai e o melhor amigo perfurarem o mundo lentamente para encontrar o irmão caçula, ele imagina Vilonia Kline se levantando, tirando a poeira da saia longa e entrando no buraco. Ele a vê saindo, segurando uma camiseta suja, manchada de sangue. Ela estica a camiseta, abrindo-a diante do peito como uma mãe faria com o filho em uma loja de roupas, e ela é preta, com um grande anjo branco no centro. Era a última camiseta que Gabriel Witter fora visto usando. Ele vê Vilonia Kline colocar a camiseta no chão com cuidado e voltar para o buraco, enquanto seu pai e seu melhor amigo continuam a cavar ao redor dela. Ela sai novamente, agora segurando um jeans azul, joelhos sujos de grama e terra, sangue ressecado nas barras, bolsos furados e descosturados. Era a última calça que Gabriel Witter fora visto usando. Ela coloca o jeans com cuidado embaixo da camiseta e começa a caminhar, rodeando lentamente os trajes, entoando um canto e erguendo as mãos. Atrás dela, da terra, surge Gabriel Witter nu, cabelos cobertos de sangue e sujeira. Sua pele é muito branca em alguns pontos, mas quase preta em outros. Ele se vira na direção da picape, olha diretamente para seu irmão mais velho e sorri muito discretamente.
— Não posso acreditar nisso! — disse Vilonia Kline ao meu pai, em tom frustrado, quando voltávamos para casa.
— O quê? — perguntou minha mãe.
— Vocês não cavaram fundo o bastante. Precisamos voltar. — Vilonia cruzou os braços.
— Sra. Kline, se não se incomodar, poderia por favor ficar quieta pelo resto do trajeto? — meu pai disse com aspereza, ainda com terra espalhada na testa.
— Acho que cavamos uns… três metros — Lucas afirmou em voz baixa, o suor escorrendo de seu nariz.
Minha mãe olhou feio para o meu pai, como uma esposa faz, e depois se virou para mim. Levou uma mão às costas, colocou-a em cima da minha, escorregou de um lado a outro duas vezes e então se virou. Mena Prescott estava adormecida com a cabeça encostada na janela. Lucas Cader estava tirando terra seca do joelho de sua calça jeans. Vilonia Kline olhava pelo para-brisa com a boca bem fechada. Estava sentada entre meu pai e minha mãe, como uma criança a caminho de um churrasco. Ela me lembrava a tristeza.
Ver meu irmão como um zumbi, ou o que quer que fosse, me fez pensar em Russell Para Man e em como eu provavelmente nunca mais o veria de novo. Ele ainda estava na Flórida, ainda em uma cama de hospital, e eu ainda estava pegando sua ex-namorada no banco traseiro do carro de minha mãe. Ada uma vez me disse, logo depois que começamos a nos conhecer melhor, que Russell Para Man, embora fosse um tremendo babaca, era, na verdade, uma das pessoas mais sensíveis que ela conhecera.
— Ele chorava pelas coisas mais estranhas — disse ela —, como um cachorro morto no acostamento da estrada ou um cheiro que o fizesse lembrar de sua avó.
— Ele chorou quando vocês terminaram? — perguntei.
— Se debulhou em lágrimas como um bebê.
— Naturalmente — brinquei.
— Você não choraria? — perguntou ela.
— Veremos — eu disse simplesmente.
— Rá! O que isso significa?
— Apenas que veremos.
Ada Taylor disse que minha amizade com Lucas Cader devia ser a única coisa que me fizera conseguir suportar a loucura daquele verão. Seguem mais algumas coisas que eu sabia sobre Lucas Cader: seu pai era um bêbado que costumava pagar para ele e o irmão mais velho brigarem em frente de casa. A mãe era aquele tipo de mulher que raramente fala e, em geral, diz algo, de modo não intencional, muito triste quando abre a boca. Ela deixava o marido bater nos dois filhos pequenos, então nunca perdi muito tempo tentando conhecê-la. Nem Lucas. O pai de Lucas os deixou no meio da noite, quando ele tinha 9 anos. O irmão de Lucas, a caminho de se tornar um alcoólatra igual ao pai, morreu em um acidente de carro três anos depois. Lucas Cader havia namorado todas as meninas de nossa turma e quase todas da escola quando estávamos no segundo ano do ensino médio. Ele ainda passava a maior parte do tempo comigo e dormia no chão do meu quarto umas quatro noites por semana. Eu amava Lucas Cader, no sentido não sexual, e tudo isso era muito conveniente para mim. E Lucas Cader estava com o coração tão partido quanto eu no que dizia respeito a Gabriel, senão mais.
O comentário de Ada, de que Lucas estava me salvando mais uma vez, me fez pensar se eu já tinha feito algo por ele. Não consegui me lembrar de uma única vez em que o ajudei, dando-lhe carona para algum lugar, ou defendendo-o de algum imbecil, ou consolando-o pela perda de seu primo, ou pela morte de seu irmão. Não conseguia me lembrar de Lucas Cader ter necessitado de mim para nada, exceto por minha capacidade única de constantemente precisar ser resgatado por ele por um ou outro motivo.
— Lucas — eu disse, certa noite, deitado na cama, na direção do chão.
— O que foi?
— Por que você é meu amigo?
— Que pergunta idiota.
— Por quê? Porque não tem resposta?
— Não, porque é como perguntar por que as pessoas se espreguiçam quando acordam ou pulam quando levam um susto — ele disse, com firmeza.
— Hã?
— Essas coisas simplesmente acontecem, Cullen. Você simplesmente é meu amigo. É isso. Não é necessário explicar.
— Então você é meu amigo só porque é meu amigo? — eu ri.
— Isso mesmo. Eu simplesmente sou. É a coisa mais simples do mundo.
Título de livro número 81: A cama do pesadelo.
— Você se lembra de quando Gabriel decidiu que não gostava mais de brinquedos? — minha mãe me perguntou uma manhã, daquele jeito que diz estou-falando-sobre-o-passado-e-sendo-bizarramente-nostálgica.
— Lembro.
— Nós guardamos todos aqueles bonequinhos em sacos. Devia ter, sei lá, uma centena deles — disse ela.
— No mínimo — acrescentei.
— Acho que vendemos sacos com uns vinte bonequinhos por cinquenta centavos naquele bazar que fizemos. E ele não derramou uma lágrima. Acho que estava pronto.
— Pronto para quê? — perguntei.
— Pronto para crescer — respondeu ela.
— Acho que sim.
— Você nunca brincou muito com brinquedos quando era criança. Estava sempre no quintal, inventando aqueles cenários estranhos e lutando com piratas e monstros imaginários. Era a coisa mais fofa.
— É? — perguntei.
— Era como observar alguém com múltiplas personalidades — disse ela, rindo.
— Obrigado, mãe.
Antes de Lucas Cader se mudar para Lily e se tornar meu amigo, eu passava a maior parte do tempo com meu irmão ou completamente sozinho. Gabriel, no entanto, não gostava muito de sair, nadar, nem nada do tipo. Gostava de ficar em casa, ler livros, ver TV e fingir que tinha crescido. Eu nunca quis me sentir grande, ser como um adulto. Queria gritar até ficar com dor de garganta e com a voz estranha pelo resto do dia, e correr e passar pelo irrigador do vizinho, e espalhar lama pela casa e sacudir o cabelo molhado no meio da sala, como faria um cachorro. Na igreja, eu costumava tentar convencer meu irmão a jogar jogo da velha comigo no folheto, mas ele sempre se recusava, me mandando ficar quieto e apontando para o sacerdote. Uma vez, meu irmão me disse que Deus era como o melhor músico do mundo, porque ele juntou todos os sons da natureza e deu dedos a pessoas como Jimi Hendrix e o cérebro a John Lennon.
— E ele também é o melhor escritor — Gabriel me disse.
— Por quê? — perguntei.
— Porque ele dá a cada bom escritor algo com que lutar e tentar resolver por meio da escrita. É genial.
Meu irmão media cerca de um metro e oitenta e tinha cabelos castanhos e desgrenhados.
Nunca usou um pente; sempre secou os cabelos violentamente com uma toalha, até parecer estar tudo no lugar. Normalmente, usava camiseta de banda, ou camisas compradas de segunda mão. Não me lembro de tê-lo visto usando outra coisa além do jeans desbotado ou da calça de sarja marrom, que suponho ter sido feita para trabalhar. Ele não andava de skate e nunca tentou tocar violão. Seus olhos eram mais ou menos como os meus, não azuis como o céu, mas como ovos de páscoa de plástico. Ele tinha covinhas também, como as minhas, e, se não fosse pelas sobrancelhas um pouco mais grossas e o nariz mais fino, poderíamos passar por gêmeos. Eu era dois centímetros mais baixo que ele, e meu tio Joseph tinha morrido, então Gabriel era o membro mais alto de toda a família.
Desde que ele desaparecera, passei a usar as camisetas de meu irmão quase todos os dias. Não sei ao certo o que me levou a fazer isso, contudo também não sei ao certo o que me levou a fazer ou a dizer qualquer uma das coisas que fiz ou disse na época. Como meu irmão não tinha nenhum amigo além de Libby Truett, decidi visitá-la uma tarde, sete semanas após o desaparecimento dele. A última vez que a vira fora algumas semanas antes, sentada à minha frente na igreja. Virando-se lentamente, ela me perguntou como eu estava. Durante o sermão, desenhou um porco-da-terra e o passou para mim.
Toc-toc.
A porta se abriu, e Libby apareceu diante de mim, cabelos presos em um rabo de cavalo e os olhos verdes olhando fixamente para o meu rosto. Ela pareceu surpresa, mas não como quem pensa: não-acredito-que-você-está-na-minha-casa. Era mais como: Ah, Cullen, por favor, não me dê más notícias.
— Cullen! — disse ela, com entusiasmo.
— Libby, como está, minha querida? — eu disse, porque sempre chamei Libby Truett de “minha querida”.
— Estou bem — afirmou ela, rindo. — Entre, por favor.
Ela abriu espaço, segurando a porta para mim, e me acompanhou até a sala, onde me sentei no sofá verde-claro. Ela se sentou diante de mim em uma poltrona reclinável que parecia não parar de balançar, além de ranger também. Enquanto nos olhávamos, um esperando o outro começar a falar, comecei a ficar irritado.
— Ainda está trabalhando na loja? — perguntou ela.
— Ah, estou. Tenho certeza de que estarei lá pelos próximos quarenta anos mais ou menos — brinquei.
— Pensando muito na faculdade? Ouvi dizer que Lucas está indo para a Universidade do Arkansas. Você vai com ele?
— Ainda não sei. Talvez não. Não consigo nem pensar muito nisso sem ficar com dor de cabeça — respondi.
— Sim. Suponho que seja uma decisão importante.
— É. E sabemos que não sou bom nessas coisas.
Eu não sabia ao certo quando começar a falar sobre meu irmão com Libby e imaginei que ela estivesse pensando o mesmo. Conversamos um pouco mais sobre se eu estudaria ou não para ser escritor, ou se faria como todo mundo que quer ser escritor e me tornaria professor. Eu disse a ela que não tinha paciência para ser professor, e ela começou a falar sobre como considerara rapidamente a ideia de estudar enfermagem, mas não suportava ver sangue. Foi a menção ao sangue que, infelizmente, fez com que começássemos a falar sobre Gabriel.
— Você pode tentar não chorar? — pedi a Libby da maneira mais gentil que consegui.
— Posso tentar — respondeu ela, quase rindo.
— Está bem. Obrigado.
— Você não vai chorar também, vai? — perguntou Libby.
— Eu raramente choro.
— Então, sobre o que quer falar comigo?
— Meu irmão era feliz? — perguntei, sem rodeios.
— O que quer dizer?
— Ele era feliz? — repeti.
— Parecia ser.
— Eu também achava, mas ele realmente era feliz?
— Acho que ele era tão feliz quanto um adolescente de quinze anos pode ser em Lily. Acho que não era infeliz, apenas acomodado, sabe? — disse Libby, cutucando as unhas.
— Você é feliz? — perguntei a ela.
— Eu era. — Ela ficou pálida, e seus olhos perderam a vida. O tom de voz mudou para o de uma menina tentando conter o choro.
Foi nesse momento que precisei, contrariando meu comportamento normal, abraçar a melhor amiga de meu irmão. Uma coisa que você precisa saber sobre mim é que não gosto de abraçar pessoas com as quais não esteja sentimentalmente envolvido. Também não gosto muito de apertar a mão das pessoas, sentar-me perto o bastante a ponto de tocar em alguém ou sentir a respiração de quem quer que seja em minha pele. Se você é do tipo que gosta de fazer alguma dessas coisas, não vou fingir que entendo. Libby era mais forte do que eu imaginava que seria — não se descontrolou nenhuma vez nem derramou a primeira lágrima. Ela me apertou com força, pressionando o rosto com firmeza em meu pescoço, e ficou lá sentada, imóvel e em silêncio, até eu finalmente dar dois tapinhas em suas costas como os garotos fazem quando estão prontos para parar de abraçar.
Quando alguém está voltando da casa de Libby Truett e não tem nada bom para ouvir no rádio, imagina seu irmão caçula sentado no chão do quarto de Libby tentando convencê-la a beijá-lo. Ele vê Gabriel se inclinar, apoiando a mão com cuidado no joelho de Libby, fechar os olhos e esperar que ela se aproxime de seus lábios. Ele imagina Gabriel corando de constrangimento quando nada acontece, levantando-se e se sentando o mais longe possível, tentando não olhar para ela. Vê Libby andar pelo quarto, passar os braços ao redor do pescoço de Gabriel e apertá-lo com força. Ele a ouve dizendo ao irmão que o ama. Ouve Gabriel dizendo que a ama também. Seu irmão, ele pensa, estava apaixonado por todos que conhecia.
Minha mãe faz uma coisa quando está cortando os cabelos de alguém: coloca metade da língua para fora e dobra a ponta de volta para trás dos lábios, como se a estivesse mordendo e empurrando o restante para fora. Se Gabriel estivesse sentado ao meu lado, naquela tarde, no salão, enquanto eu a via fazendo aquilo, teria dito rapidamente: “Mãe, a língua”, e ela teria, um pouco constrangida, recolhido a língua e continuado a passar spray nos cabelos da Sra. Elmore.
Da mesma forma, quando meu pai se concentra em alguma coisa, morde o lábio inferior e aperta os olhos, como se sugerisse que está fazendo algo extremamente complexo. Ele fica assim quando faz panquecas, troca o óleo do carro de minha mãe ou lê o jornal pela manhã. E também estava fazendo isso no dia em que o agente Perry se sentou diante de nós no sofá para conversar sobre a investigação.
— Estamos seguindo algumas pistas, mas, para dizer a verdade, temos quase certeza de que não darão em nada.
— Não darão em nada — meu pai repetiu, outra coisa que fazia quando estava concentrado.
— Sim. Esgotamos nossos recursos, Sam. Seguimos todas as pistas, verificamos todos os telefonemas, todas as cartas. A situação é difícil. — O rosto do agente Perry estava tomado por uma decepção sincera.
— Todos vocês fizeram um excelente trabalho, Sr. Perry. Só estamos tentando nos manter esperançosos, sabe? Ainda estamos otimistas — meu pai explicou.
— Sam — disse minha mãe, olhando para o meu pai como se ele a tivesse estapeado —, eles não fizeram nada.
— Sarah, por favor. Eles fizeram o possível. Somos gratos pelo esforço — ele falou, acenando com a cabeça na direção do agente Perry e colocando o braço em volta de minha mãe.
— Bem, senhora, este caso não está encerrado de jeito nenhum. Vários de nossos melhores agentes estão trabalhando nele, e nós também, acredite se quiser, estamos muito esperançosos. Mas já fiz todo o possível aqui.
— Nós sabemos, nós sabemos — meu pai disse, enquanto os olhos de minha mãe se enchiam de lágrimas e eu ficava em silêncio ao lado dela.
— Vocês foram tão gentis com nossa equipe. Estamos muito agradecidos. Em outras circunstâncias, eu teria apreciado muito minha estada em Lily — declarou o agente Perry, levantando-se para apertar a mão de meu pai.
Eu e meus pais acompanhamos o agente Perry até o carro, e, quando ele saiu, todos parecíamos ter o mesmo olhar: de desilusão e leveza. Era uma sensação semelhante a sentir o ar tocando-lhe a pele ou ouvir o som de seus passos na calçada. Era o tipo de sensação que faz você pular quando sente o toque das mãos de sua mãe em sua nuca, quando pisa na varanda. É mais uma reação física a algo que um estado de espírito. Foi nossa reação física ao caso de meu irmão, que parecia ser completamente impossível de ser solucionado.
A primeira reação de Lucas Cader quando lhe contei sobre a visita do agente Perry foi caminhar até o freezer da loja, abri-lo e enfiar a cabeça lá dentro. Depois de alguns segundos, Lucas foi até o balcão onde eu estava e disse que aquilo não significava nada. Nós não nos abraçamos nem dissemos nada que se esperaria ouvir em um dramalhão, mas, em vez disso, começamos a rir e continuamos com uma conversa detalhada, que iniciáramos durante o café da manhã, sobre as intenções de Ada Taylor em relação a mim.
— Então, você acha que ela gosta mesmo de você ou é só pena? — perguntou Lucas.
— Acho que ela gosta mesmo de mim. Mas é isso que desejo, então não sei.
— Acho que é de verdade. Ela não parece do tipo que faz joguinhos.
— Sim, ela é bem direta — concordei.
— Cullen, estou feliz por você ainda não estar morto — Lucas disse, rindo.
— Bem, tenho evitado carros e o rio, só para garantir — brinquei.
— E ela chegou a mencionar aqueles caras? Toda aquela confusão? Os rumores? — perguntou ele.
— Só uma vez. Um dia, no parque, estávamos no balanço, e Ada me perguntou se eu tinha medo dela.
— O que você disse? — perguntou Lucas.
— Eu disse: “Por que teria?”.
— E?
— E ela disse: “Porque eu sou amaldiçoada”.
— Amaldiçoada — Lucas sussurrou, como se tivesse tido algum tipo de revelação.
— É, e não dava para saber se ela estava falando sério ou brincando, porque em seguida ela se aproximou e me deu um beijo no rosto. Eu sei lá. Ela é difícil de decifrar.
Foi aí que Lucas Cader sugeriu que todos saíssemos na sexta à noite: ele e Mena, eu e Ada. Seria “incrível”, ele disse. Lucas usa a palavra “incrível” quando está tentando me convencer a fazer algo que ele sabe que não quero fazer. Limpar o quarto dele e trabalhar em sua transmissão também são coisas “incríveis”. Então planejamos tudo, e eu estava pronto para sair quando o telefone tocou e minha mãe gritou para mim da cozinha.
— Cullen? — disse Ada do outro lado da linha.
— Sim?
— Você dormiu com Alma Ember? — ela perguntou, sem rodeios.
— O quê? — perguntei, surpreso.
— Dormiu, Cullen? Responda. Não tem problema, só preciso saber.
— Sim — respondi, sentindo que tinha pouco a perder.
— Certo. Hum, você já está quase pronto?
— Estou. Lucas está chegando. Estaremos aí em cinco minutos.
— Está bem. Tchau.
— Tchau.
Clique.
No cinema a céu aberto, onde os adolescentes sóbrios iam nas noites de sexta-feira, esperamos na fila para comprar pipoca e espantamos alguns mosquitos. Eu estava tentando ver os trailers enquanto Ada ficava me fazendo perguntas sobre Alma Ember. Lucas olhava para mim de canto de olho; estava se divertindo. E Mena também, tentando usar sua capacidade singular de nunca calar a boca para instigar o questionamento de Ada.
— Vocês dois estavam apaixonados? — Ada sussurrou em meu ouvido.
— Não, Ada — respondi.
— Ela amava você?
— Ada, eu não sei. Deixe para lá. — Eu estava ficando irritado.
— Desculpe — disse ela.
— Não. Tudo bem. Só… podemos conversar depois? — pedi, virando-me para ela.
— Sim.
O filme só estava interessante o suficiente para prestar atenção até Ada assumir a tarefa de me agarrar. Era outra coisa que os adolescentes de Lily faziam nas noites de sexta-feira; Lucas e Mena ocupavam-se da mesma atividade no banco da frente. Foi quando Ada tentou tirar minha camiseta, e pedi a ela que fosse dar uma volta comigo. Assim que chegamos no alto de um morro próximo, eu me sentei na terra. Ela se sentou ao meu lado.
— Ada — eu disse.
— O quê?
— Preciso saber o que é isso.
— O que é isso o quê?
— Isso. Nós — expliquei.
— Não é melhor não saber? Simplesmente gostarmos um do outro e nos vermos o tempo todo sem nenhum rótulo?
— Não? — perguntei, em voz baixa.
— Cullen, você está apaixonado por mim? — ela perguntou bruscamente.
— Hum. — Eu me esforcei para pensar em algo para dizer que não fosse mentira.
— Está? — ela perguntou de novo.
— Sim? — respondi, como se pedisse permissão.
— Não está — disse ela, começando a rir.
— Hã?
— Você acabou de mentir para mim — afirmou ela, levantando-se na minha frente.
— Ada, qual é o problema? Só estamos saindo há algumas semanas. Não precisa ser tão séria — brinquei, em uma tentativa de me distrair de meu próprio melodrama.
— Você é que é sério, mentiroso e tem casos secretos por toda a cidade. O que aconteceu com o Cullen Witter inocente?
— Quem? — brinquei.
— O menino do posto de gasolina que ficava me olhando pela janela.
— Ah, acho que ele morreu.
— Isso não tem graça — disse ela, voltando a se sentar.
— Pensei que tivesse — falei, apoiando minha cabeça em seu ombro.
— Você é um imbecil.
— Sou o cara mais legal que você já conheceu, e você sabe disso.
— Mesmo assim — encerrou ela —, você continua sendo um imbecil.
Acordar na casa de Ada Taylor não era nada parecido com fazer o mesmo na casa de Alma Ember. Ada sussurrou: “Levante, levante” em meu ouvido, enquanto eu me espreguiçava e soltava um grunhido. Eu me sentei, lentes de contato grudadas nos olhos, ar-condicionado soprando desconfortavelmente em meu rosto.
— Você precisa ir agora — Ada sussurrou.
— Como? — respondi, também sussurrando. — Estou sem carro.
— Vai andando, eu não sei.
— Andando? São mais de seis quilômetros — afirmei, elevando um pouco a voz.
— Shhh. Você vai acordar minha mãe.
— Que horas são? — perguntei, voltando a sussurrar.
— São 5h30.
— Da manhã?
— É. Agora levante!
— Está bem, está bem.
Quando alguém está fugindo pela janela do quarto da menina com quem acabou de dormir, lembra-se no mesmo instante de todos os filmes em que viu isso acontecer e pensou que coisas assim não aconteciam na vida real. Começa a rir até se dar conta de que de jeito nenhum conseguirá caminhar mais de seis quilômetros até sua casa. Pensa rapidamente em ligar para o pai, que seria a única pessoa da cidade acordada a uma hora daquelas, mas descarta a ideia depois de tentar pensar em uma explicação para lhe dar. “Hum, pai, acabei de fugir da casa de uma menina”, diz ele a si mesmo enquanto caminha pela calçada e passa por uma casa com enfeites de plástico no jardim, na forma de gansos e cervos. Depois — que surpresa! —, resolve ligar para Lucas Cader salvá-lo mais uma vez. Essa parece a solução mais fácil até que, parando de supetão, ele se lembra de que está sem telefone e que voltar e subir até a janela de Ada Taylor está fora de questão. Pensa em bater na porta de alguém e inventar alguma história triste sobre estar perdido, porém sabe que não conseguiria seguir adiante com isso. Assim, com uma atitude melhor que a da maioria sobre algo que realmente não pode mudar, Cullen Witter anda pela rua e chega em casa uma hora e quinze minutos depois.
O que mais me incomodava em meu irmão caçula era a forma como ele corrigia constantemente a gramática de todos. Se alguém usasse uma palavra um pouquinho errada, ele estaria lá para corrigir e depois explicar por que o erro foi cometido, mesmo que a pessoa não estivesse prestando atenção. Mas, por incrível que pareça, eu me peguei sentindo falta de suas correções naquele verão. Eu ficava sentado no quarto e, em voz alta, dizia para mim mesmo: “Hoje estou com menas fome” e “Não tem nada pra mim fazer”. Então ouvia o silêncio, que não era meu irmão corrigindo meus erros, e fingia, só por um instante, ser ele. “Hoje estou com menos fome”, eu dizia, com presunção. “Não tem nada para eu fazer.”
Não falei com Ada Taylor por três dias após ter sido praticamente jogado para fora de sua casa. Não liguei para ela, ela não me ligou. Foi como se tivéssemos planejado não ligar um para o outro por aquele período estabelecido, porque, quando finalmente decidi ir até a casa de Ada, quase bati no carro dela parando na frente de casa. Nós nos encostamos em seu carro, ela falando, eu escutando. Ela disse coisas como:
— Sinto muito, mas minha mãe é muito severa, e ela me mataria se soubesse que deixei um garoto dormir em casa. Talvez meu pai tenha ouvido a gente sussurrando, só que acho que ele não vai contar para ninguém. Da próxima vez teremos que encontrar um lugar melhor.
— Certo — eu disse, incapaz de conter o sorriso.
— Seu tarado! — ela brincou, dando um soquinho em meu braço.
— É a sua mãe.
— Nossa, que maduro!
— Sua mãe é madura. — Eu ri.
— Cullen.
— Desculpe.
Título de livro número 82: 5h da manhã é para amantes e enfeites de jardim.