Quando Tudo Volta
21. O SENTIDO disso NÃO É SALVAR você
O SENTIDO disso NÃO É SALVAR você
Quando vi John Barling jogando uma mala grande e marrom na parte de
trás de sua caminhonete, permaneci na varanda e fiz o melhor que pude para ler os lábios dele, que murmurava algo. Não consegui entender as palavras, no entanto imaginei que fossem palavras que não se ouvem na igreja. Ele bateu a porta de trás e me cumprimentou depressa com a mão direita antes de se acomodar no banco do motorista, ligando o motor e afastando-se. Vi Fulton Dumas dar a volta pela lateral da casa gritando “ISSO!” e “CERTO!” enquanto lançava um monte de pedras em direção à estrada. Ele me viu, balançou uma mão de modo desconfortável e entrou na casa.
O pica-pau Lázaro pesa aproximadamente setecentos e cinquenta gramas, tem cerca de setenta centímetros de altura e envergadura de apenas oitenta e um centímetros. Isso faria com que ele fosse, como eu disse antes, o maior pica-pau do mundo. Isso tudo seria verdade se o pássaro existisse, mas não existia. Existiu nos anos 1940, porém não em Lily, Arkansas. Não no verão em que meu irmão desapareceu. Não na mata perto do rio White. Não na péssima fotografia de John Barling. Não nas paisagens da estrada. Não nos exames de DNA realizados pela Sociedade Nacional de Audubon em uma pena encontrada por uma menininha e seu cão.
Em vez disso, o que deixou minha cidade toda cheia de esperança e grandes ideias foi o que um cientista descreveu no jornal como um grupo extremamente raro de pica-paus albinos de nome Dryocopus pileatus.
— São pássaros grandes — disse o cientista ao jornalista —, mas não tão grandes quanto o Lázaro era.
Além de ser de uma espécie completamente diferente, existe uma diferença significativa, mas estranha, na cor do pica-pau Lázaro e do outro, e este tem um bico bem mais escuro. Uma vez que o pássaro ou pássaros vistos perto de minha casa ou supostamente vistos pela cidade eram da espécie albina, o bico deles era da cor de que o do Lázaro teria sido. Isso, reforçado pela incapacidade de prender ou registrar um pássaro real e os exames negativos de DNA, tudo levava à conclusão de que minha cidade vinha vivendo uma farsa havia quase quatro meses. Se você prestasse atenção a qualquer janela em Lily na semana em que descobrimos isso, daria para ouvir o silêncio ensurdecedor da decepção.
— Um cara em uma loja me disse algo interessante hoje — alegou Lucas enquanto estávamos sentados na varanda.
— O quê? — perguntei.
— Ele me disse que o Lázaro costumava ser chamado de o Bom Pássaro de Deus.
— É? Que estranho — respondi.
— Os índios.
— O que têm os índios?
— Eles costumavam ver os pássaros sobrevoando cabeças e árvores, e a única coisa que conseguiam fazer era gritar “PÁSSARO DE DEUS!” — Lucas riu, balançando a cabeça levemente de um lado a outro, as mãos separadas para mostrar o tamanho da ave no ar.
Fiquei pensando, no banco do passageiro do carro de minha mãe, certa tarde, se um dia acabaria o silêncio que agora parecia ocupar todo o tempo de minha família. Uma estranheza surgira depois daqueles meses, onde antes havia risadas e conversas profundas, além de provocações inofensivas. Fiquei tentando imaginar se Lucas Cader realmente se casaria com Mena Prescott e se Gabriel estaria ali para segurar os filhos deles. Fiquei tentando imaginar se Russell Quitman falaria de novo e se Ada Taylor havia se condenado a uma vida de espera pelas reações dele. Foi então que percebi que não me importava.
O Dr. Webb diz que a vida é cheia de complicações e confusões, e que os seres humanos costumam ter dificuldade para enfrentá-la. Isso faz com que as pessoas se joguem na frente de trens e gastem todo o dinheiro que têm, e não conversem com seus parentes, além de nunca voltarem para casa no Natal, e nunca comerem nada que leve chocolate. A vida, segundo ele, não precisa ser tão ruim o tempo todo. Não precisamos nos sentir tão ansiosos com tudo. Podemos simplesmente viver. Podemos nos levantar, prever que o dia terá alguns momentos bons e alguns ruins, e então aceitar esse fato. Aceitar tudo e lidar com as coisas da melhor maneira. Podemos aprender a amar as Mena Prescott; podemos imaginar que os Russell Quitman são zumbis; podemos fantasiar o dia todo com as Ada Taylor; e podemos desejar sermos mais parecidos com os Lucas Cader. Podemos nos consolar com o fato de que a vida sempre será uma luta. Sempre haverá falsas esperanças. Pica-paus Lázaro. Sempre haverá John Barling para nos tirar do caminho e Oslo Fouke para nos lembrar de que talvez estejamos fazendo as coisas certas, afinal.
Quando perguntei a ele sobre o sentido da vida, o Dr. Webb ficou calado e me disse que a vida não tem um único sentido; que ela só tem o sentido que cada um de nós dá a ela. Posso dizer que ainda não sei o sentido da minha. E Lucas Cader, todo inteligente e talentoso, também não sabe qual é o sentido da vida dele. Mas posso dizer qual é o sentido disso tudo. O sentido de um pássaro aparecer, e de um garoto desaparecer, e você saber de tudo isso. O sentido disso não era salvar você, mas alertá-lo. Alertá-lo acerca da confusão, da ilusão e da suposição. Alertá-lo acerca da física, dos zumbis e dos fantasmas de seu irmão desaparecido. Alertá-lo a respeito de Ada Taylor e de sua compaixão, e de mães que nos acordam com aspiradores de pó. Alertá-lo a respeito de aves de setenta centímetros que afirmam poder ajudar, mas que nunca ajudam.
Quando alguém está sentado em seu quarto e, ao olhar pela janela, vê seu irmão mais novo caminhar lentamente pela estrada, ele se levanta de imediato, derruba uma pilha de revistas amontoadas a seu lado e corre porta afora, atravessando o corredor. Abre a porta da frente com tudo, bate o corpo contra a tela e, ao ouvir o tap tap tap atrás dele, pula os degraus da varanda e desce o caminho correndo. Para vários metros à frente do irmão. Pensa em correr, mas não corre. Suas pernas e seus braços tremem. Com o lábio inferior entre os dentes, ele caminha lenta e cuidadosamente, sem emitir um som. Para, estende um braço e toca o ombro esquerdo de Gabriel Witter com o dedo indicador. Sorri um sorriso contido.
Título de livro número 89: Para onde as coisas voltam.
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