Quando Tudo Volta
11. Vilonia Kline
Vilonia Kline
Como a recusa de meu pai em voltar ao trabalho praticamente esgotou
nossos fundos, minha família decidiu aceitar doações mediadas pelo banco local, organizadas pela Primeira Igreja Metodista Unida de Lily, que frequentávamos duas vezes por ano. O site que meu pai criou só serviu como fórum para alguns babacas enviarem informações falsas sobre meu irmão e algumas donas de casa de estados vizinhos escreverem para expressar suas “sinceras condolências” e bobagens do tipo. A pesquisa de Lucas só serviu para transformá-lo no sujeito mais paranoico que eu já conheci, e minha mãe finalmente aceitou o fato de que as pessoas, mais cedo ou mais tarde, deixariam de tolerar péssimos cortes de cabelo só porque se sentiam mal por ela.
Eu, por outro lado, encontrei um estranho refúgio estando com Ada Taylor, que rapidamente descobri ser muito mais que uma menina bonita que usava short jeans desabotoado com a parte de cima do biquíni.
— Talvez ele simplesmente tenha acordado e dito: “Dane-se”, e entrado em um trem para, sei lá, o Novo México ou algo do tipo — Ada sugeriu, passando os dedos levemente pelos meus cabelos enquanto eu deitava a cabeça em seu colo.
— Ele não faria isso — respondi.
— Ou talvez — ela continuou — ele fosse espião do governo todo esse tempo e esteja sendo feito refém na Rússia ou algo parecido. Talvez seu irmão seja o homem mais perigoso do planeta! — Ela riu.
— Talvez — eu disse.
— Você espera que ele tenha fugido, Cullen? — perguntou ela, ainda praticamente despreocupada.
— Espero que o céu tenha se aberto e meu irmão tenha flutuado direto para dentro dele.
— Eu também, então — concluiu ela, inclinando-se para beijar minha testa.
Em algum momento da semana seguinte, eu já tinha concluído que até mesmo Ada Taylor estava me dando atenção e afeto apenas por sentir pena de mim, e eu ainda estava perdidamente apaixonado por ela. Lucas me disse que ela acabaria sendo o meu fim, e, quando eu o lembrei de que, de qualquer modo, tinha pouco pelo que viver, ele ficou dois dias inteiros sem falar comigo. Quando, no entanto, voltou à minha casa, foi com Mena Prescott ao lado e um sorriso forçado no rosto.
— Sinto muito, Cullen. Perdi a cabeça — ele explicou, olhando para o chão.
— Tudo bem, Lucas. Você pode perder a cabeça de vez em quando — afirmei.
— Ai, vocês dois deviam se beijar e oficializar a relação! — Mena gritou, cruzando os braços e inclinando a cabeça de lado.
— Ah, não com você aqui. — Lucas brincou.
— É, vamos esperar até você pegar no sono no cinema — eu disse, piscando.
— Certo, já basta. Vocês estão me assustando — censurou Mena.
Mena Prescott havia se tornado, em algum momento daquele verão, alguém que aprendi a apreciar de verdade, algo que não faço facilmente com a maioria das pessoas. Pelo menos uma noite por semana desde o desaparecimento de Gabriel, Mena aparecia em nossa casa com uma sacola cheia de compras e preparava uma refeição completa, com sobremesa e tudo. Também tinha começado a ajudar minha mãe no salão, recusando pagamento, e perturbado o editor do Lily Press para veicular a foto de Gabriel na primeira página até ele ser encontrado. Todos hesitamos em perguntar de que maneira ela havia conseguido esse último feito, e, de qualquer modo, estávamos gratos demais para dar importância a isso. E, quanto mais eu começava a apreciar o que ela fazia por minha família, menos seu sotaque e sua hiperatividade me incomodavam. E, independentemente de Lucas amá-la de verdade ou não, ele parecia estar passando cada vez mais tempo com Mena e menos tempo sentado no balcão da loja enquanto eu estocava cigarros nas prateleiras e passava o esfregão no chão.
A estrada estava vazia e deserta, e todas aquelas coisas que uma estrada não deve ser quando se está dirigindo às 23h55, depois de sair da casa da nova namorada e ficar se perguntando se ela existe mesmo ou se é parte de sua imaginação — algum mecanismo mental de resistência que toma conta dos pensamentos e das ações. Eu comecei a pensar em meu irmão e em como, quando estava no carro à noite, ele sempre abria a janela e apoiava a cabeça na porta, olhando fixamente para o céu e assoviando ou cantarolando alguma música com a qual estivesse obcecado. Meu irmão frequentemente ficava obcecado por músicas. O mesmo acontecia com livros, o que ficava evidente ao olhar para seu bolso traseiro, em um dia qualquer, e encontrar uma cópia cheia de marcas de dedo de O apanhador no campo de centeio, que li em voz alta para ele quando ele tinha apenas 12 anos. Na semana anterior à sua partida, Gabriel disse que havia lido o livro pela décima primeira vez.
Quando cheguei em casa, fui para o quarto de Gabriel procurar pelo livro. Estava na primeira gaveta da cômoda, ao lado da carteira vazia e de uma revista sobre bandas e músicos dos quais eu nunca tinha ouvido falar, mas eu sabia que Gabriel era especialista. Havia um pedaço de papel dobrado marcando a última página do livro que ele lera, e, quando eu o abri, o marcador caiu no chão. Eu o peguei e comecei a desdobrá-lo, nem mesmo fingindo hesitar um pouco por estar sendo intrometido. Nele, estava rabiscado algo com uma letra que mal dava para decifrar, mais uma coisa que eu e meu irmão tínhamos em comum, e dizia:
Você veio nos pegar. Todas as coisas se vão, todas as coisas se vão. Para nos recriar. Todas as coisas crescem, todas as coisas crescem. Tínhamos nosso modo de pensar. Todas as coisas sabem, todas as coisas sabem. Você teve que encontrar. Todas as coisas se vão, todas as coisas se vão.
Quando meu irmão não encontrava nada melhor para fazer, anotava a letra de qualquer música que estivesse passando por sua cabeça. Em geral, era algo que eu nunca tinha ouvido antes. Nesse caso em particular, tratava-se de uma canção sobre um homem dirigindo com um amigo a Chicago e dormindo em estacionamentos. Uma vez, cerca de um ano e meio antes, encontrei um caderno com páginas e mais páginas de músicas, todas as quais tocavam na cabeça de meu irmão. Ele nunca as cantava, apenas anotava com precisão, como se tivesse sido designado a fazer isso. Do mesmo modo, sempre que eu pensava em uma conversa que fora especialmente engraçada ou esclarecedora, costumava anotá-la em meu caderno, o mesmo em que anotava os títulos de livros. Um exemplo de uma dessas conversas foi uma que tive com o policial Lansing, do Departamento de Polícia de Lily, no dia seguinte ao desaparecimento de meu irmão. Foi mais ou menos assim:
— Você disse que viu seu irmão ontem à tarde, certo?
— Sim. Ele estava sentado no quarto — respondi, mecanicamente.
— Sobre o que vocês dois conversaram?
— Pássaros.
— Pássaros? — perguntou Lansing rapidamente.
— Bem, na verdade estávamos falando de hambúrgueres.
— Hambúrgueres? Então não eram pássaros?
— Estávamos falando sobre o Lázaro Burger e que ele não passava de um Número Três sem queijo — eu ri.
— Não é muito bom, né? — O policial Lansing brincou, deixando um pouco de lado o comportamento sério.
— É só um Número Três — respondi, sacudindo a cabeça.
O Dr. Webb diz que às vezes os irmãos de uma criança desaparecida passam por um tipo estanho de ataque de raiva. Isso acontece quando a criança que não está desaparecida começa a se sentir amargurada em relação àquela que desapareceu somente porque ele ou ela está recebendo toda a atenção das pessoas próximas. É um daqueles conceitos estranhos, como a síndrome de Münchausen, em que alguém se faz de doente apenas para que os outros lhe deem atenção. Vou dizer uma coisa: não implorei a atenção de ninguém. Na verdade, achava que toda a atenção que estava recebendo era muito perturbadora. A parte de que menos gostei naquele verão foi a forma como os estranhos me olhavam nas lojas, nos restaurantes e em lugares desse tipo. Eu passava por eles ou entrava em uma sala e, de repente, como se tivessem treinado e estivessem esperando uma oportunidade para colocar em prática, as pessoas baixavam a cabeça ou se viravam para alguém ao lado e começavam a sussurrar, dizendo coisas como, presumo: “Aquele é o irmão do menino” e “Ainda não encontraram seu pobre irmão” e “Ele parece estar aguentando bem, mas ouvi dizer que sua mãe está enlouquecendo”.
Naquele verão, não era minha mãe que estava enlouquecendo, e sim meu pai. Depois que o site em que ele gastara uma fortuna não resultara em nada além de perda de tempo, ele começou a ler livros e mais livros sobre crianças desaparecidas. Minha mãe, por outro lado, fingia que estava tudo bem. Talvez ela também estivesse enlouquecendo, porém era uma loucura menos ofensiva e escancarada, então ficava um pouco mais fácil engolir.
Um dia depois que se passaram seis semanas do desaparecimento de Gabriel, meu pai levou Vilonia Kline para nossa casa e a convidou para se sentar na sala. Minha mãe, Lucas Cader, Mena Prescott e eu ficamos de frente para ela, do outro lado do cômodo. Meu pai, de maneira um tanto quanto desajeitada, apresentou-a como “alguém que acho que pode nos ajudar a encontrar Gabriel”.
— O quê? — perguntou minha mãe.
— Sarah, a Sra. Kline é uma guia espiritual — meu pai começou a explicar.
— Ah, faça-me o favor… — minha mãe o interrompeu.
— Mãe — sussurrei, cutucando seu braço com o cotovelo.
— A Sra. Kline concordou em nos ajudar, então peço que sejamos compreensivos enquanto ela nos faz algumas perguntas, certo? — Meu pai permaneceu calmo e decidido.
— Está bem — disse minha mãe.
— É claro — concordei.
Lucas Cader e Mena Prescott não disseram nada, mas me olharam com cara de quem estava prestes a rir ou sair correndo pela porta. Não fizeram nenhuma das duas coisas.
— Primeiro, preciso de uma camisa de Gabriel. Algo que ele usava sempre, sua camiseta preferida ou algo do tipo — disse a Sra. Kline, de modo mais equilibrado que o esperado.
Meu pai entregou a ela a camiseta preferida de Gabriel, uma preta com PINK FLOYD escrito no peito.
— Certo. Gabriel tinha algum passatempo ou esporte favorito? — perguntou ela, conseguindo olhar para todos nós de uma só vez.
— Ele lia muitos livros — respondeu Lucas, olhando na direção da minha mãe em busca de uma aprovação silenciosa de sua participação.
— Sim, e ouvia muita música — meu pai acrescentou.
— Bem. Deixe-me ver. — A Sra. Kline fechou os olhos e pensou por um instante. — Tragam-me o livro que possa ser o preferido dele, ou talvez o último que ele tenha lido, e começaremos por aí, certo?
Vilonia Kline, que meu pai disse ter ajudado a solucionar outros casos de pessoas desaparecidas, segurou a camiseta de meu irmão, sua cópia de O apanhador no campo de centeio e a última foto que ele havia tirado na escola. Fechou os olhos. Olhamos uns para os outros com as sobrancelhas erguidas, esperando desconfortavelmente, balançando de um lado para o outro. Eu mordia os lábios e batia cada um dos dedos das mãos no polegar repetidas vezes.
— Ele era um garoto inteligente. — A Sra. Kline rompeu nosso doloroso silêncio.
— Era, sim — meu pai concordou.
— E era engraçado também, não era?
— Com certeza — disse Lucas.
— Qual foi o último lugar em que qualquer um de vocês o viu?
— No quarto dele — respondi.
— Posso ver? — ela pediu, levantando-se, ainda segurando os pertences dele.
Ela se sentou na beirada da cama de Gabriel, tocando de leve o travesseiro com a mão direita, retorcendo os dedos como se fossem minhocas. Ficamos no corredor, meus pais meio dentro e meio fora do quarto. Ela se deitou na cama e colocou a cabeça no lugar em que a de meu irmão estava na última vez em que eu o vira. Nós todos nos aproximamos alguns centímetros, lentamente, quando ela fez isso, mas logo voltamos às posições em que estávamos e observamos. De olhos fechados, ela começou a cantarolar. Tenho quase certeza de que era uma versão bem lenta de “Stairway to Heaven”. Olhei para Lucas. Ele estava irritado. Mena segurava a mão dele e retorcia os cabelos com nervosismo. Minha mãe olhava fixamente para o meu pai, com expressão de desgosto e pena. Vilonia Kline rompeu o silêncio mais uma vez, levantando-se.
— Ele era religioso, não era? — perguntou ela, em voz alta.
— Por que diz isso? — indagou minha mãe.
— Muitas orações foram feitas aqui.
Uma única lágrima correu rapidamente pela lateral do rosto de meu pai. Minha mãe chegou mais perto dele e colocou a mão em seu ombro. A testa de Lucas Cader estava apoiada de leve em meu ombro, até que ouvi uma fungada e ele rapidamente percorreu o corredor e saiu. Mena o seguiu. Eu permaneci no mesmo lugar. Olhei dentro dos olhos verde-claros de Vilonia Kline e me aproximei.
— Você pode encontrá-lo? — perguntei, com calma.
— Ele não está perto da água — disse ela.
— É isso? É tudo o que pode dizer? — Aproximei-me ainda mais.
— Ele deixou muita energia aqui. Tinha um espírito forte.
Não me lembro de ouvir mais nada enquanto caminhava pelo corredor. Era como se o apito em meus ouvidos fosse tão alto que o ruído se transformava em silêncio. A porta se abriu, batendo na parede externa, e desci os degraus da frente. Lucas e Mena estavam sentados no último, ambos olhando para o chão. Passei por eles. Segurei a cabeça entre as mãos, puxando os cabelos para trás. Levei as mãos de volta para a frente e cobri os olhos e a boca.
— O que foi, Cullen? — perguntou Lucas, em voz baixa.
Eu não disse nada.
— Cullen, por que não se senta? — Mena sugeriu.
Eu não me sentei.
— Cullen! — Lucas se levantou, segurando meus dois braços e me sacudindo de leve.
— Ela disse que ele TINHA um espírito forte! — gritei, agora com lágrimas escorrendo para a boca.
— O quê? —Lucas perguntou, ainda segurando meus braços.
— Ela disse que ele tinha um espírito forte! — gritei. — Ela disse tinha.
Agachei-me até o chão, e Lucas, sem me soltar, abaixou-se comigo. Nós nos sentamos na grama. Mena ficou de pé, olhando para nós.
— O que ela sabe, Cullen? — Lucas sussurrou. — Ela não sabe de nada. Ela não sabe.
— Mas e se souber? — perguntei.
— Ela não sabe.
Ele me olhou com um meio sorriso. Sequei os olhos com a gola da camiseta e me levantei. Sentei-me no último degrau que dava para a varanda, e Lucas e Mena se sentaram ao meu lado. Comecei a rir. Ainda sentia o gosto das lágrimas, ainda sentia a meleca escorrendo do nariz.
— Qual é a graça? — Mena perguntou.
— Tem uma vidente em minha casa e eu estou chorando na varanda.
— E? — Lucas indagou.
— E estou imaginando o quanto isso ainda pode ficar mais absurdo.
— Bem — Lucas começou a dizer —, alguns caras disseram que viram o Lázaro ontem. Disseram que ele desceu até a frente da picape deles, bem atrás de um caminhão, na Estrada Dezenove. É absurdo o bastante para você?
— É. Pelo menos não estou vendo pássaros imaginários como todo mundo — afirmei, sabendo que havia tido uma conversa imaginária com o pássaro apenas seis semanas antes.
Quando os pais de alguém saem correndo de casa, seguidos por uma vidente que ainda está com a camiseta e o livro de seu irmão desaparecido nas mãos, a pessoa se levanta, olha nos olhos de sua mãe e se pergunta para onde estão indo. Olha para o seu melhor amigo, que estava se segurando para não chorar, e vê que até ele parece estar acreditando nesse terrível drama. Ele segue sua mãe. Ela se vira e diz: “Estamos indo encontrar seu irmão”, e entra no banco de trás da picape do pai. Ele faz sinal para que seu melhor amigo e Mena se aproximem, deixa-os entrar primeiro e depois se espreme no banco de trás lotado enquanto tenta fechar a porta. Olha pela janela enquanto passam pela cidade. Sua testa está colada no vidro.
Título de livro número 80: O olhar dos estranhos nas lojas.