Quando Tudo Volta
12. Os VIGILANTES
Os VIGILANTES
A bibliotecária disse a Cabot Searcy que ele poderia encontrar uma
Bíblia Ortodoxa Etíope na seção de Teologia, no sétimo andar, e que ele tinha sorte de o Dr. Sentell ter decidido usar esse livro como referência em um de seus cursos sobre divindades três semestres antes. Cabot sorriu para ela, agradeceu e esperou as portas do elevador se abrirem. Lá dentro, releu a pequena folha de papel que tinha nas mãos. Estava escrito: O Livro de Enoque é encontrado apenas na Bíblia Ortodoxa Etíope. É uma Escritura secreta. Ele anotara isso depois de ficar uma hora pesquisando em vez de ir à palestra sobre anatomia humana naquela manhã.
As portas do elevador se abriram. Cabot Searcy foi recebido com olhares silenciosos enquanto caminhava com lentidão, porém confiante, até os fundos da sala. Ele se agachou, analisando fileira após fileira de livros, passando os dedos de leve pelas lombadas, movendo os olhos de um lado para o outro. Quando encontrou o que procurava, puxou o pesado livro até a mesa mais próxima e se sentou, olhando para trás como se estivesse fazendo algo sigiloso ou errado. Ele o abriu.
A Bíblia Ortodoxa Etíope é formada pelo maior cânone de todas as Bíblias impressas no mundo moderno. Cabot Searcy, criado em uma Igreja Batista do Sul na Geórgia, conhecia muito pouco sobre a Escritura antes desse primeiro encontro. Ele observou o sumário e depois abriu em I Enoque. Este livro, mais comumente conhecido como o Livro de Enoque, é dividido em cinco seções principais: Livro dos Vigilantes, Livro das Parábolas, Livro Astronômico, Livro dos Sonhos e A Epístola de Enoque. Cabot Searcy foi direto para o capítulo dez, para ler a citação que Benton deixara para trás. Estava no Livro dos Vigilantes, que serviria como foco do empenho de Cabot Searcy.
A passagem estava destacada em amarelo, fazendo com que Cabot erguesse uma sobrancelha enquanto lia, palavra por palavra, as linhas que o levaram à biblioteca naquela manhã. E, embora já estivessem destacadas, as palavras “anjos corromperam” estavam também circuladas com caneta preta. E, mais adiante, na mesma página, outra linha estava destacada e também circulada. Ela dizia.
Destrói todas as almas viciadas na luxúria e a descendência dos Vigilantes, pois eles tiranizam a humanidade.
E, mais adiante ainda, outra linha estava marcada de forma similar. Dizia:
Purifica a terra de toda a opressão, de toda a injustiça, de todo o pecado, de toda a impiedade e de toda a impureza que é cometida sobre ela. Extermina-os da terra.
E, no fim da página, estava escrito algo em letras tão miúdas que Cabot Searcy foi obrigado a apertar os olhos e aproximar o rosto do livro o máximo possível. Ele conseguiu decifrar o que estava escrito, em letra cursiva e tinta preta: os anjos ensinaram muito aos humanos. E se não tivessem sido detidos?
Sentindo uma espécie de necessidade, Cabot Searcy comparou as palavras anotadas no Livro de Enoque com aquelas que estavam no diário de Benton Sage e, para sua alegria, teve a impressão de que eram muito parecidas. Agora Cabot Searcy sentia que havia recebido algum tipo de missão póstuma de Benton. Uma tarefa virtuosa de descoberta. Uma busca pela verdade por trás da existência. Cabot Searcy, de repente, se viu consumido por pensamentos prepotentes de como poderia, sozinho, salvar a humanidade.
Lendo o Livro dos Vigilantes, Cabot começou a entender o que ele acreditava que Benton escrevera em seus rabiscos. Leu sobre a queda dos anjos, Deus falando com Noé, o Grande Dilúvio. Leu em sua Bíblia e na Etíope também. Ficava alternando entre uma e outra, do Gênesis a Enoque. De Enoque ao Gênesis. Leu que os anjos ensinaram aos humanos a arte da guerra, astrologia e anatomia. Leu que os filhos dos anjos se tornaram feras desgovernadas e selvagens. Começou a juntar as peças do quebra-cabeça de Benton Sage em sua mente. A única coisa que descobrira no diário de Benton e que ainda precisava se encaixar no restante do quebra-cabeça era como a visão que Benton tinha de Deus, do anjo Gabriel e de um pássaro grande se adequava ao panorama geral. Tudo o que ele sabia é que tinha que continuar com o trabalho que Deus, a seu ver, designara a Benton. Ele, de alguma forma, tinha que mudar o mundo.
— Vou lhe contar por que Noé teve que construir a arca — Cabot disse ao novo colega de quarto, no decorrer daquele próximo semestre.
— O quê? — Chuck Stoppard perguntou da cama, onde estava deitado jogando video game.
— O dilúvio. Vou contar por que Deus mandou o dilúvio e fez Noé construir a arca.
— Está bem. — Chuck Stoppard não tirou os olhos do jogo.
— Foi porque estávamos ficando espertos demais. Veja bem, esses anjos caídos…
— Anjos caídos? — Chuck interrompeu.
— Isso mesmo. Uns anjos caídos desceram, começaram a dormir com as mulheres aqui da Terra e a nos ensinar todas essas coisas sobre lutar e entender a ciência, as estrelas e o nosso corpo, e Deus olhou para baixo e pensou: “Aqueles humanos estão aprendendo demais com os anjos. Isso precisa parar antes que eles fiquem extremamente poderosos”. Então, enviou Gabriel para matar os anjos, e depois de um tempo falou com Noé e mandou o dilúvio para matar todos os humanos que tinham ficado espertos demais.
— Ah — Chuck Stoppard conseguiu dizer.
— Sim. É muito louco. Eu sei.
— Muito louco — disse Chuck, com sarcasmo.
— Pense só. Se Gabriel não tivesse acabado com tudo, hoje os humanos poderiam ser muito mais espertos. Saberíamos tudo. Saberíamos como acabar com as guerras, curar doenças e toda essa merda. — Cabot folheou a Bíblia, apoiando-a sobre o peito, deitado na cama.
— Cabot — disse Chuck Stoppard de sua cama.
— O quê?
— Eu sou ateu — Chuck afirmou, mentindo apenas para não precisar ouvir mais as teorias de Cabot Searcy sobre o potencial da humanidade.