Quando Tudo Volta
2. MENINOS misteriosos com PÁS
MENINOS misteriosos com PÁS
Quando Benton Sage descobriu que partiria naquele ano em uma missão
de sua igreja, ficou animado e em pânico. Sentiu um frio na barriga enquanto estava ao lado das irmãs e do Reverendo Hughes, observou a igreja toda ao redor deles, uniu as mãos e começou a orar. A Etiópia, pensou, seria o primeiro lugar onde poderia de fato exercer sua fé. Era o medo de viajar, de deixar sua vida confortável em Atlanta, de flutuar misteriosamente a 30 mil pés de altura que deixava Benton, de 18 anos, com a sensação de que cairia no tapete macio e verde da igreja, quando escutou o coral começar a entoar améns e aleluias atrás dele.
— Nosso irmão, o jovem Benton Sage, certamente trará muitos ao Senhor! — O Reverendo Hughes gritava do púlpito enquanto os fiéis se acomodavam nos bancos e, mais uma vez, abriam a Bíblia.
— Preciso saber onde posso encontrar pão! — disse Benton Sage, mais alto que o necessário, a um morador de Awasa, Etiópia, para onde fora, uma tarde, depois de perceber que estava sobrecarregado.
— Não falo inglês.
— Inglês? Alguém? — ele gritou no meio de centenas de pessoas que escolhiam frutas e legumes e espantavam moscas enquanto caminhavam devagar ao longo da rua estreita repleta de carroças.
— Não tem problema! — berrou, erguendo uma das mãos até perceber que ninguém prestava atenção ao que ele dizia. Ele havia encontrado pão, ou o que chamavam de pão, naquela parte do mundo.
Depois de passar dois minutos e meio muito frustrantes tentando descobrir qual quantia certa de dinheiro deveria dar à velha senhora que pedia esmola, Benton Sage caminhou rapidamente de volta ao hotel, que não tinha mais de três quartos e ficava no andar de cima de uma pequena clínica, e subiu a escada mal iluminada e úmida até seu aposento. Ali, devorou quase o pão inteiro, sentou-se no chão, encostado na cama, e chorou baixinho. Dois dias depois, foi apresentado a Rameel, que o chamava de Been-tone Sog. Rameel, que havia se convertido cerca de cinco anos antes, assumira a responsabilidade de entrar em contato com a igreja de Benton e pedir ajuda a seu ministério, que consistia em viajar pelo país para fornecer alimentos, água e atendimento médico limitado aos pequenos vilarejos, com o propósito de converter ao cristianismo o máximo de pessoas possível.
Rameel contava os convertidos. Quando Benton Sage chegou para ajudá-lo, o total era, como ele disse com orgulho, 1.740.
— Been-tone Sog, você vai ser a luz de que meu ministério precisa! — disse Rameel em voz alta, cinco minutos após o início da primeira conversa.
— Estou feliz por estar aqui. Estou pronto para ajudar! — Benton ainda falava alto e lentamente, porque tinha a impressão de que seria mais bem entendido se falasse assim.
Foi na primeira incursão ao oeste que Benton teve uma visão de Deus em um sonho. A visão foi assim: Benton estava sozinho à beira de um oceano imenso e ameaçador. As ondas batiam em seus pés descalços, e o vento soprava seus cabelos, levando-os a seus olhos. As nuvens acima do mar tornaram-se pesadas, e, quando ele começou a escutar trovões, uma parede de água escura caiu do céu, dentro do mar. Ele apertou os olhos e notou que não era água, mas sangue caindo das nuvens. Virando-se para se afastar, Benton foi interrompido por uma voz, a voz de Deus. Ele se voltou e viu, ali, no meio da tempestade caótica e bela, um garoto de pé, na água, com uma das mãos, a esquerda, erguida. Benton não mexia os lábios, mas manteve um sorriso discreto enquanto a voz de Deus apresentava o garoto a ele.
— Este é o anjo Gabriel. Não o tema. — Um pouco antes de o garoto abrir a boca para falar, um pássaro grande sobrevoou os dois e pousou no ombro do anjo. A ave piou alto um pouco antes de o anjo Gabriel falar. E então o anjo disse com firmeza:
— Benton, você foi chamado para trazer a mudança ao mundo. Foi agraciado aos olhos de Deus.
Quando Benton Sage acordou no dia seguinte, na barraca que Rameel montara para eles na noite anterior, perto do pequeno vilarejo cujo nome não conseguira memorizar, ele se viu suando frio, com as roupas grudadas na pele e os cabelos úmidos. Rameel estava ao lado dele como uma sombra e mais alto que a própria barraca. Ele sorriu, porém com uma expressão de remorso ou vergonha. Esticou uma das mãos na direção de Benton e, ao puxá-lo de seu saco de dormir, disse: — Deus nos deu um presente hoje.
O presente, Benton logo descobriu, era um pequeno vilarejo chamado Kwalessa, repleto de pessoas doentes, moribundas e famintas. Eles foram de casebre em casebre, entrando em cada um deles sorrindo e com as mãos cheias de coisas como pão e jarros de água, além de caixas de arroz e grãos.
— Cada família vai ganhar dois pães, dois jarros de água e uma caixa. Compreende, Been-tone? — perguntou Rameel, supondo que Benton tentaria não seguir suas orientações.
— Compreendo.
Ao saírem do quinto casebre naquele dia, Rameel, com um sorriso largo, cutucou Benton e sussurrou, com orgulho:
— Mil setecentos e quarenta e seis.
Benton sorriu sem jeito, pensando que talvez Rameel tivesse se convencido de que poderia, em pouco tempo, como vinte minutos, converter pessoas da tribo a uma fé complexa como o cristianismo. Mas ele prosseguiu, seguindo Rameel para dentro de sete outros casebres, até voltarem para a barraca onde estavam para passar a noite. Rameel, sentado em seu saco de dormir, olhava com satisfação para o novo amigo e assentia.
— O que foi? — perguntou Benton.
— Você, meu amigo, é mesmo uma bênção.
— Por que diz isso? Só fiquei ao seu lado segurando jarros de água.
— Porque, Been-tone, essas pessoas desiludidas estão escutando, finalmente. É você, porque você está aqui ao meu lado, porque é ocidental, porque dá a elas uma razão para ter esperança.
Quando Benton acordou na manhã seguinte, viu-se sozinho na barraca. Um feixe único mas muito brilhante de luz do sol havia passado pela entrada da tenda e o acertado diretamente nos olhos. Ele saiu da barraca, que fora montada na curva de uma estrada de terra estreita, e ficou cego no mesmo instante. Enquanto seus olhos se ajustavam à luz, ouviu a voz de várias crianças. Virou-se e viu que cinco delas estavam dando a volta e passando pela tenda, fazendo piadas e rindo. Ele sorriu e apertou os olhos para ver o que elas carregavam. Cada uma delas levava uma pá, como um soldado leva um rifle, apoiando-a no ombro e segurando-a firme na ponta.
— Been-tone! — Rameel gritou, correndo para se colocar à frente dele.
— Bom dia.
— Dormiu bem? — perguntou ele.
— Muito bem, obrigado.
— Viu as crianças? — indagou Rameel, assentindo em direção às crianças misteriosas com pás.
— Não, ou melhor, acabei de vê-las passando. Aonde estão indo? — Benton ainda apertava os olhos por causa do sol.
— Elas vão cavar mais covas.