Quando Tudo Volta
17. Este PODE SER O FIM DO mundo
Este PODE SER O FIM DO mundo
F oi em algum momento de meados de julho que meu pai começou a me
perguntar sobre a faculdade. Vou dizer uma coisa a vocês: a faculdade era a última coisa com que eu me preocupara no verão em que meu irmão desapareceu e em que Ada Taylor começou a dormir comigo. Mas meu pai, de repente, mostrou-se muito apreensivo com esse assunto, me perturbando para que eu analisasse os catálogos que ele havia mandado e para que visitasse um site ou outro para ter ideia sobre algum campus do outro lado do país sobre o qual eu nunca ouvira falar. De repente ele quis saber quais eram meus interesses. Em que eu queria me formar. Quais eram os sonhos da minha vida e como eu planejava torná-los realidade. Que impacto eu queria ter no mundo. Para ser sincero, tudo isso me irritou a princípio. Ali estava eu, com 17 anos, e a única vez em que meu pai demonstrou interesse por mim foi quando eu menos queria. Será que ele não sabia que eu só queria ficar em segundo plano? Que eu queria me encostar em uma parede e desaparecer dentro dela? Deitar no sofá, torcendo para que as almofadas me engolissem?
Pior ainda, ele fez minha mãe ficar tentando arrancar informações de mim, fazendo perguntas aleatórias do tipo: “Você acha que usa mais o lado direito ou o esquerdo do cérebro?” e “Se tivesse que escolher morar na Costa Leste ou Oeste, qual escolheria?”. Eu nunca disse a ela a resposta que queria dar, que escolheria qualquer costa onde meu irmão estivesse escondido ou preso em um porão. Eu nunca disse a ela que, mesmo se soubesse o que queria ser, ainda assim não conseguia suportar a ideia de sair de Lily sem saber se meu irmão apareceria um dia ou sabendo que o responsável por sua partida podia estar por aí esperando para fazer isso de novo, de novo e de novo, até que mil Cullen Witter vissem zumbis de seus irmãos mortos ao lado da cama à noite. Eu precisaria estar ali quando ele aparecesse. Eu precisaria estar ali para protegê-lo. Eu não dava a mínima para a universidade, e estava cansado de ser forçado a pensar nisso o tempo todo. Então, saí de casa um dia e fui à casa de Ada Taylor, e ela não estava lá. Aí, fui à casa de Lucas Cader, e ele estava sentado nos degraus da escada, na entrada. Sentei-me ao lado dele. Ele percebeu que eu estava bravo, porque não disse nada. Era isso o que Lucas sabia fazer quando eu estava nervoso.
— Ela está na casa dele de novo — eu disse a ele.
— Droga!
— Aquele cara chama mais a atenção em uma cadeira de rodas do que eu, todo saudável. Isso não é triste?
— Não tem nada a ver com você — retrucou Lucas.
— Mas parece que tem — respondi.
Na manhã seguinte, sentados à mesa de minha cozinha, prometi a Lucas que não falaríamos sobre a situação de Ada. Minha mãe, que dormira na casa de tia Júlia três noites seguidas, entrou na cozinha, colocou a bolsa em cima do balcão, virou-se para olhar para Lucas e para mim à mesa e disse:
— Já chega para mim! Júlia pode se cuidar sozinha a partir de agora.
Em seguida, saiu da cozinha. Lucas riu e enfiou mais um pedaço de waffle na boca. Eu me levantei e atravessei o corredor até o quarto de minha mãe. Ela estava sentada à beira da cama. Não estava chorando. Não estava rindo. Não fazia nem dizia nada.
— O que aconteceu? — perguntei, de um jeito meio “espero que você não se importe de conversar agora”.
— Estávamos falando sobre Oslo e de como ele era lindo quando bebê — contou ela.
— Ele não apareceu em um quadro de avisos ou coisa assim? — perguntei.
— Sim, colocaram a foto dele no quadro de nascimentos do hospital quando ele tinha poucas semanas de vida.
— Hum — eu disse.
— Bem, estávamos conversando sobre isso quando ela começou a falar algo sobre o céu.
— O céu? — perguntei.
— É. Ela disse que torcia para, quando chegarmos ao céu, virarmos bebês de novo.
— Legal.
— E aí — minha mãe começou a chorar —, ela disse que só conseguia pensar em Oslo e em Gabriel lá no céu como bebês, engatinhando em um chão branco juntos.
Assim como acontecera com minha mãe, pensar em Gabriel morto, e também pensar em Oslo no céu, começou a me aborrecer enquanto eu saía para levar o lixo. Fiquei tentando imaginar se Oslo de fato havia chegado lá. Fiquei tentando imaginar se uma pessoa que sempre estragava as coisas realmente recebia misericórdia. Então, comecei a pensar no que me tornava diferente dele, além do fato de eu não ser um viciado em drogas. Eu não tinha um futuro de verdade. Não tinha objetivos. Não tinha aspirações. Não tinha vontade de fazer nada além de esperar que algo grande acontecesse, que algo milagroso ocorresse. Talvez Oslo tivesse se sentido da mesma maneira, tentando entender qual seria a razão para abrir mão das drogas que faziam com que ele se sentisse bem quando tudo o que ele estava fazendo era esperar que as coisas boas começassem. Mas ele estava errado. Eu também estava? Ficar esperando pelo impossível? E tia Júlia estava certa? Todos nós voltaríamos a ser bebês quando morrêssemos? Se era assim que começávamos a vida, não fazia sentido pensar que voltaríamos à forma original? Que seríamos totalmente inocentes de novo? Que não conheceríamos tristeza, solidão nem tédio?
— Você pensa demais — Lucas me disse, à margem do rio White, no dia seguinte.
— Eu penso demais? — perguntei, erguendo a voz.
— Sim. Não consegue se recostar e relaxar sem analisar tudo — respondeu ele.
— É isso o que você faz, Lucas! — eu disse.
— Só às vezes — ele retrucou.
— Tanto quanto eu, eu diria.
— Não importa. Não é essa a questão. A questão é que você, ou melhor, nós precisamos aprender a nos acalmar e entender tudo antes de separar as coisas.
— Por quê? — perguntei.
— Porque sempre acabamos estragando as coisas antes de elas começarem.
Foi na nona semana que minha mãe parou de fazer as coisas. Coisas como comprar pão e leite. Coisas como tomar banho ou escovar os dentes. Coisas como atender o telefone ao lado dela. Fazia quatro dias que não ia ao salão, então meu pai encontrou a agenda dela e telefonou para todas as clientes regulares para adiar o horário, sem data definida. Eu estava no meu quarto no dia em que ela começou a jogar latas e caixas de cereal pela cozinha, na parede. A primeira coisa que meu pai gritou foi: “Cullen, fique aí!”. Eu estava na sala de estar quando ela decidiu começar a xingar as reprises dos programas de televisão, mandando Ted Danson se ferrar e Mary Tyler Moore fazer algo mais cruel a si mesma.
Meu pai permaneceu paciente. Ele a acalmava. Ele a observava de todos os ângulos da sala. Levava copos com água e pílulas azuis pequenas. Olhava para mim do modo com que as pessoas se olham em velórios. Como olhamos para pessoas que acabaram de receber notícias ruins. Mas ele permanecia firme em seu propósito de encontrar uma faculdade para mim, de falar mais alto que os gritos e soluços de minha mãe para me contar sobre alguma escola da qual havia tomado conhecimento em uma revista ou sobre alguma carreira que parecia adequada. Eu achava tudo meio exaustivo, contudo não tive coragem de ignorá-lo totalmente. Ele estava tentando, e eu não tinha o direito de não permitir que ele o fizesse.
— Se eu fosse para a Universidade de Arkansas, eles permitiriam que eu dividisse um quarto com Lucas? — perguntei a meu pai.
— Não tenho certeza, mas acho que você pode pedir isso ou algo assim.
— É, talvez eu devesse telefonar e perguntar — comentei, fazendo o rosto de meu pai se iluminar como vi poucas vezes na vida.
— Ei — ele me disse enquanto eu saía da sala —, não se esqueça de perguntar sobre os programas de honra. Aposto o que quiser que você poderia participar.
Não telefonei para a Universidade de Arkansas quando saí da sala. Passei pelo telefone, pela cozinha, pelo corredor e fui para o meu quarto, onde Lucas Cader dormia no chão. Passei por cima dele e subi na cama. Peguei o diário e o abri na primeira folha em branco. Escrevi a conversa que acabara de ter com meu pai e então fechei o caderno e o coloquei de novo embaixo do colchão. Fechando os olhos, comecei a me imaginar andando por um campus grande e lotado. Todos ao meu redor sorriam, apresentando-se a amigos de amigos, falando sobre o jogo importante da noite anterior, vestindo as blusas novas vermelhas e brancas. E eu estava bem no meio, todo mundo se movia depressa em torno de mim, barulhos tomando meu cérebro, e eu não movia um músculo sequer. Meu rosto permanecia inexpressivo enquanto o mundo girava ao meu redor como se eu fosse o sol.
Quando acordei, Lucas estava pulando no meio do quarto. Eu me sentei, olhei para ele e esperei que percebesse que eu tinha acordado. Quando percebeu, só olhou para mim, sorriu e continuou a pular, mexendo os braços e as pernas a cada salto.
— O que está fazendo?
— Ativando minha endorfina — disse ele.
— Por quê?
— Porque vamos correr o Revezamento do Pica-pau hoje à noite — ele respondeu.
— O quê?
— O Revezamento do Pica-pau, Cullen. Você mora em uma caverna?
— Eu tento — falei.
— Eu inscrevi você, Mena e eu para corrermos. Começa às quatro e meia, então é melhor você se vestir.
— Não. Não vou competir nessa corrida idiota! — gritei.
— Cullen, eu te inscrevi. Você precisa ir.
— Não preciso.
— Vamos. Você sabe que vai acabar sendo divertido e vai me agradecer mais tarde — disse ele, ainda dando saltos.
— Não vou, não, porque não vou! — falei, saindo do quarto.
Lucas me seguiu pelo corredor, com a respiração pesada. Abri a geladeira e vi que estava vazia, e, quando a fechei, Lucas estava de pé do outro lado da porta. Olhava para mim com cara de espero-que-você-aceite-esse-pedido-estranho-e-deixe-as-coisas-rolarem. Eu me virei e me sentei à mesa de jantar. Ele se sentou à minha frente, ainda ofegante. Apoiou os dois cotovelos na mesa e se inclinou para me olhar nos olhos. Balançou a cabeça devagar. Seu olhar era de pura confiança.
— De jeito nenhum — eu disse.
— Cullen, não seja maluco.
— Lucas, vá para o seu maldito revezamento e me deixe em paz! — gritei, fiquei de pé e entrei na sala de estar, onde meu pai estava mudando os canais.
— Sr. Sam, diga a ele que correr no revezamento será divertido — Lucas pediu a meu pai.
— Cullen, correr no revezamento será divertido — falou meu pai, de modo automático.
— Viu? Ele quer que você vá. Então, vamos.
Eu me levantei, com o rosto a cinco centímetros do de Lucas Cader, e disse as seguintes palavras com a voz mais contida que consegui:
— Lucas, entendo que você queira se divertir. Que você goste de se distrair da vida fazendo essas coisas ridículas e rindo o tempo todo enquanto as faz. Sei que você quer fingir que tudo está bem tentando ao máximo agir normalmente, mas eu não. Quero ficar em casa, triste, pelos cantos, chorar e me conformar com o fato de que minha vida será uma merda completa a partir de agora. Então, vá buscar sua namorada, participe da corrida, saia da minha casa e não volte até conseguir começar a agir como se não tivesse se esquecido de que o meu irmão menor, seu amigo, ainda está em algum lugar fazendo só Deus sabe o quê com só Deus sabe quem.
Lucas Cader saiu depressa pela porta da frente; meu pai desligou a TV, ficou de pé e me deixou no meio da sala de estar. Arrastei os pés de volta ao meu quarto e me joguei de cara na cama. Senti o ar quente de minha respiração no rosto. Senti o cheiro do algodão de meus lençóis. E gritei alto o suficiente para que o som fosse abafado, como se não tivesse existido.
O Dr. Webb diz que perder um irmão, às vezes, é muito mais difícil para uma pessoa que perder qualquer outro membro da família. “Um irmão representa o passado, o presente e o futuro de uma pessoa”, diz ele. “Os cônjuges têm um ao outro, e, mesmo quando um morre, eles têm lembranças de um tempo em que existiam antes de a pessoa chegar e conseguem imaginar a vida sem ela com mais facilidade. Da mesma forma, os pais podem ter outros filhos com quem se preocupar — um futuro a zelar por eles. Perder um irmão é perder a única pessoa com quem se divide um elo de vida que deve continuar pelo futuro.” Entendo que isso quer dizer que, como um adolescente de 17 anos, cujo irmão provavelmente estava morto, eu estava agindo como um completo idiota por uma boa razão. Além de meu irmão ter desaparecido — pensem comigo —, uma parte de meu próprio ser havia desaparecido com ele. As histórias sobre nós dois só podiam, a partir de então, ser contadas por apenas uma perspectiva. As lembranças podiam ser contadas, mas não compartilhadas.
Dez semanas desde o desaparecimento foi o tempo necessário para que minha mãe se mudasse oficialmente para o quarto de Gabriel. A porta permanecia fechada a maior parte do tempo, e meu pai e eu paramos de tentar fazer com que ela a abrisse. Ela comia uma vez por dia, então pelo menos nos confortava o fato de que ela tinha certa vontade de viver. Se, como dizia o Dr. Webb, existem vários estágios no processo de luto, minha mãe estava bem no meio do estágio da loucura, quase incapaz de falar sem gaguejar, de dormir por mais de uma hora, obcecada lendo a coleção de livros de Gabriel e ouvindo seus CDs. Um dia depois de ocupar o quarto dele, ela abriu a porta e me puxou para dentro enquanto eu atravessava o corredor. Sentou-me na cama. Usava um pijama rosa e branco, sem maquiagem.
— Quero que você ouça esta música, Cullen. É linda.
Ela apertou o play no pequeno aparelho, e eu esperei escutar alguma coisa. Nada aconteceu.
— Merda — disse ela, sentando-se com as pernas cruzadas no chão diante do aparelho.
— Mãe, deixa que eu...
— Não, pare. Eu consigo — ela interrompeu, apertando mais dois botões, deixando metade da língua para fora da boca.
O que escutamos foi a metade de uma canção que eu nunca tinha ouvido antes, e eu fechei os olhos, ouvindo cada palavra.
Olhando para o sol
Oh, minha voz não pode me salvar agora
De pé no mar
Só mais um respirar e então eu descerei.
Olhei para minha mãe, que movia os lábios com as palavras, e fiquei tentando imaginar quantas vezes ela havia se sentado ali para escutar a música naquele dia. Ela balançava de um lado para o outro, com os olhos voltados para o teto, uma mão movendo-se ao lado do corpo, como se, lentamente, afastasse moscas invisíveis. Quando a música terminou, minha mãe apertou o stop, soltou os braços ao lado do corpo e olhou para mim, como se eu tivesse de dizer algo.
— Gostei — eu disse.
— Eu sabia que você ia gostar.
— Onde ele encontra essas coisas? — perguntei.
— Não sei, mas eu adorei — declarou ela, esfregando uma mão no carpete.
— Você vai sair daqui logo?
— Você é igualzinho a ele, sabia? — comentou ela, olhando para o meu rosto.
— Mãe, por favor.
— É, sim. Quando vocês tinham cerca de seis e cinco anos, as pessoas me perguntavam se eram gêmeos.
— Você quer buscar comida ou algo assim? — indaguei, ficando de pé.
— Quero que você saiba que vai ficar tudo bem, Cullen.
— Mãe.
— As aulas começarão em breve, e, um dia, você vai voltar para casa e o Gabe vai estar sentado bem aqui, no chão, escutando essa música.
Ada Taylor concordou em me encontrar no único café da cidade, que também era uma livraria. Sentamos de frente um para o outro e ficamos calados. Ada estava com uma expressão de quem se sentia muito mal por alguma coisa. Eu tinha a impressão de que estava com a mesma expressão quando beberiquei meu café e finalmente comecei a falar.
— Ada, estou um pouco confuso — eu disse.
— Sei que você está — respondeu ela.
— Sobre o que está acontecendo entre você e Russell.
— Certo — concordou ela.
— E sobre você começar a não atender os meus telefonemas e nunca estar em casa.
Ela olhou para mim como se não tivesse nada a dizer ou como se não soubesse o que dizer.
— Você tem alguma coisa para dizer? — perguntei.
— Preciso cuidar de Russell. Ele precisa de mim. Devo isso a ele — afirmou.
— O que isso quer dizer? Você deve isso a ele? Você não quebrou o pescoço dele! — comecei a falar meio alto.
— Quero dizer que, se Russell não tivesse me conhecido, provavelmente nunca teria acabado lá na Flórida, bêbado, no acidente de carro. É minha culpa, de qualquer jeito. Nunca pude cuidar dos últimos dois, então preciso cuidar dele agora.
— E eu? — perguntei.
— O que tem você, Cullen? — perguntou ela, parecendo frustrada.
Esperei em silêncio para que ela se desculpasse.
— Cullen, você está apaixonado pela ideia de ficarmos juntos e pela ideia de isso funcionar. Não é por mim, eu garanto.
— Não é por você — repeti, inexpressivo.
— Sinto muito, Cullen. Sinto mesmo. Sei que isso é péssimo. Mas você está melhor. E vai ficar bem. Você precisava de mim. Agora, outra pessoa precisa de mim.
Quando ela saiu, tomei mais um gole de café e olhei para o casal que estava sentado à minha direita. Eles me olhavam com cara de “sabemos que você acabou de levar um fora”, então levantei minha xícara de café na direção deles, como se dissesse “saúde!”, e bebi mais um gole. Joguei um dólar sobre a mesa e saí porta afora.
Lucas Cader voltou três dias depois que pedi que ele fosse embora. Não havia corrido no revezamento, e o lado esquerdo de sua mandíbula estava roxo e inchado. Ele se sentou ao meu lado no sofá, cumprimentou meu pai com um meneio de cabeça e olhou para a televisão. Meu pai aumentou o volume para abafar o som que vinha do quarto de meu irmão e, aproximando-se o suficiente para olhar em meus olhos, apontou para a mandíbula dele e então para Lucas.
— O que aconteceu? — perguntei, sorrindo.
— Nada — disse ele.
— É sério, que diabos aconteceu com seu rosto?
— Eu disse que não aconteceu nada. Me deixa em paz — respondeu Lucas.
— Tudo bem. Você entra na sala de estar de uma pessoa com o rosto machucado e não dá explicação nenhuma.
— Certo, vou contar — ele concordou.
Meu pai tirou o som da televisão e se ajeitou. Lucas esboçou um sorriso de alguém que tinha apenas metade do rosto funcionando.
— Bem, eu saí daqui aquele dia depois de você dizer que...
— Me desculpa — interrompi.
— Tudo bem. Bem, eu saí daqui e fui buscar a Mena. Ela estava atrasada, então, quando chegamos ao parque, todos os corredores estavam alinhados, e John Barling, logo ele, estava no palco e segurava o revólver apontado para cima. Ele deu boas-vindas a todos e começou a contar. E, naquele momento, quando Mena correu para o seu lugar, corri em direção ao palco. Subi os degraus com tudo, corri até Barling e, então, acertei o nariz dele.
— Você o quê? — perguntei.
— Droga — disse meu pai.
— Dei um soco forte nele, mas ele é mais forte do que eu pensei. Antes que eu pudesse reagir, ele se virou e acertou a minha boca. É por isso que estou assim.
— Droga — falei.
— Ainda está doendo pra caramba — disse Lucas, rindo.
— Por que você fez isso?
— Pra mostrar a você que não me esqueci do que é importante, creio eu.
— Caramba, Lucas, você podia ter dito isso! — retruquei.
Na manhã seguinte, acordei antes de Lucas e saí do quarto na ponta dos pés. Enchi uma tigela com cereal, porque era isso que eu comia em todas as refeições naquele verão, o que fazia com que o céu da minha boca ficasse, o tempo todo, coberto por uma camada doce. Sentei-me de frente para meu pai à mesa; ele estava mexendo o café devagar e fazia uma palavra-cruzada.
— Telefonei para a República Estudantil — disse meu pai, sem olhar para cima.
— É mesmo?
— Sim. Disseram que você precisa preencher um formulário, e Lucas tem que fazer o mesmo. Assim vocês poderão dividir o quarto.
— Obrigado, pai.
Gabriel e eu costumávamos brincar de “E se?”, uma brincadeira na qual o objetivo era criar as situações hipotéticas mais absurdas. Havíamos brincado muito disso no telhado de casa, algumas semanas antes de ele desaparecer. Nosso motivo principal para ficar no telhado era para ver uma chuva de meteoros que tinha sido anunciada. Gabriel não perderia isso por nada, não importava a que horas fosse, porque elas só aconteciam uma vez a cada poucos anos.
— E se os seres humanos começassem a ter asas? — perguntou ele, sem desviar os olhos do céu escuro.
— E se eu já tiver asas e as estiver escondendo todos esses anos? — respondi.
— E se eu derrubar você deste telhado por ter mentido? — questionou ele, rindo.
— E se eu usasse minhas asas secretas para voar para longe? — rebati, rindo.
— E se os seres humanos sem asas começassem a caçar os seres humanos com asas por diversão? — perguntou Gabriel.
— Isso certamente aconteceria em Lily — eu disse.
— E se criássemos umas leis antes desse acontecimento revolucionário? — Gabriel sugeriu.
— E se chamássemos essas leis de “Não é fácil ser alado: regras para quem se tornou capaz de voar recentemente”?
— Perfeito — Gabriel suspirou.
Naqueles dias, quando parecia que o verão estava acabando e meu futuro se recusava a parar de me perturbar a todo momento, comecei a encontrar consolo na minha brincadeira de “E se?”. A maioria das situações, claro, envolvia meu irmão. “E se”, eu me perguntava enquanto descia a rua, ficava no sofá ou tentava adormecer, “e se Gabriel fosse como o pica-pau Lázaro e aparecesse um dia como se nada tivesse acontecido? E se tudo isso fosse real — esse pica-pau idiota? E se as coisas realmente voltassem ao normal neste lugar terrível?”. Isso sempre me fazia pensar em quando Gabriel havia me dito por que sempre teria fé na humanidade. Ele dizia:
— Cullen, as pessoas não podem desistir umas das outras ainda. Todos merecemos uma segunda chance, sabe? Podemos começar de novo, como Noé depois do dilúvio. Por pior que um homem seja, ele sempre ganha uma segunda chance, de um jeito ou de outro.
Título de livro número 85: Só Deus sabe.
Quando alguém está deitado no chão do quarto exatamente dez semanas e três dias após seu irmão ter desaparecido da face da Terra, começa a imaginar uma situação bem maluca. A campainha toca e sua mãe, de vestido preto, atende e cumprimenta tia Júlia e o marido, o doutor James Fouke, que está ao lado dela. Ele não parece nem um pouco morto, Cullen Witter pensa, levantando-se do chão e aproximando-se do sofá. A campainha toca de novo quando Júlia e James vão para a cozinha. Ele se levanta e chega à porta antes da mãe, abre-a e encontra Lucas Cader bem asseado, com gravata e tudo, com Mena Prescott segurando seu braço direito. Ela está usando um vestindo preto também, mas o dela não tem alças e é muito mais justo. Ele, silenciosamente, faz sinal para que eles entrem na sala de estar e, assim que tenta fechar a porta, vê alguém se aproximando. Espera ali, segurando a porta aberta, até Ada Taylor entrar, beijar seu rosto e seguir para dentro da casa. Ele fecha a porta, balançando a cabeça e sorrindo, e entra devagar na cozinha, onde encontra os pais, tia e tio erguendo taças de champanhe em um brinde. Tim-tim.
Ele caminha para a sala de estar, mas se vira assim que a campainha toca de novo. A porta se abre antes de ele chegar até ela, e Oslo Fouke entra, sorrindo, com uma camisa de botões e gravata-borboleta. Sorri para o primo, olha para ele de cima a baixo e aperta a mão dele, que estava estendida. Oslo dá um passo para o lado e entra na sala de estar, onde se senta ao lado de Lucas e Mena no sofá. Pergunta a Lucas sobre a escola. Comenta sobre o vestido de Mena. Não parece morto quando chama Ada Taylor para dançar, e eles começam a se mover no centro da sala. Atrás deles, Cullen Witter vê alguém atravessar o corredor. Tenta ficar na ponta dos pés para ver acima dos convidados, e, ao fazer isso, Gabriel Witter entra na sala do outro lado, ergue as sobrancelhas para o primo, passa por Cullen e lhe dá um tapinha no ombro. Ele vê os lábios de Gabriel se movendo, mas sem som. Percebe a mesma coisa quando todos tentam falar com ele.
Alma Ember e sua mãe entram na casa com uma estranha familiaridade e partem diretamente para a sala de jantar, onde Cullen acredita ouvir um som fraco de risos. Ele entra na sala e, em vez de encontrar uma mesa de madeira com quatro cadeiras, comprada na promoção na única loja de móveis de Lily, vê uma mesa comprida com oito cadeiras de cada lado e uma em cada extremidade. A mesa está coberta com uma toalha branca de renda e pontuada por pratos e tampas prateadas, tigelas de uvas, cestos de pães e taças de líquidos borbulhantes. Seus pais estão sentados nas extremidades da mesa, e a tia e o tio estão ao lado de sua mãe, no lado esquerdo. Alma e sua mãe se sentam ao lado deles, e, quando Cullen tenta sair da sala, seus amigos passam pela porta e se sentam.
Quando Cullen procura um assento, Russell Quitman fica de pé diante dele, com o amigo Neil na cola, e estende a mão. Cullen não aperta a mão dele pela primeira vez e faz um sinal em direção à mesa, olhando para as pernas normais de Russell enquanto os dois se afastam. Neil se vira para piscar para Cullen e faz um gesto com a mão do tipo “Estou atirando com uma arma imaginária”. Cullen fica perto da porta e espera por alguns segundos, até escutar alguém se aproximar dos degraus da varanda. John Barling, Shirley Dumas e Fulton entram na casa e cumprimentam Cullen com apertos de mão e sorrisos. Entram na sala de jantar enquanto Cullen olha para eles, confuso, e balança a cabeça. Deixa a porta aberta e vai para a sala de jantar com todos os outros.
Ele se senta à esquerda do pai, que está dizendo algo que Cullen não consegue escutar. Ele tenta ler os lábios do pai, porém não consegue entender o que está sendo dito. Entediado com isso, estende o braço para levantar a tampa de uma enorme bandeja de prata. Ao fazê-lo, leva um tapa na mão. É Shirley Dumas, que sorri para ele e balança a cabeça como se dissesse Ainda não está na hora, jovenzinho. Ele sorri, pegando a taça para bebericar o que há dentro dela. Não sente gosto de nada e a devolve ao lugar de onde a tirou. Olha ao longo da mesa, para seu lado e para o outro lado. Todos estão sorrindo. Conversando. Rindo. Ele sente mãos nos ombros e encontra Gabriel, de pé, com uma guitarra ao redor do pescoço e do braço. Gabriel sorri para Cullen e se aproxima do lado da mãe na mesa. Puxa a cadeira vazia à esquerda dela e fica de pé sobre ela, começando a tocar a guitarra. Cullen olha ao redor; todo mundo parou de falar. Mas continua sorrindo.
Seu irmão começa a dedilhar a guitarra com aparente habilidade, entretanto Cullen só ouve o silêncio. Ele se pergunta quando o irmão voltou e quando começou a aprender a tocar guitarra. Mesmo assim, recosta-se em seu assento e observa com atenção enquanto todo mundo começa a se mover lentamente ao som da música que Gabriel está tocando. Ele olha para os lábios de Gabriel. Está cantando. Mantém os olhos fechados. Está mesmo arrasando com essa canção silenciosa, Cullen pensa. Observa os convidados admirando o irmão, Mena encostando a cabeça no ombro de Lucas, Oslo segurando um isqueiro no ar, a mãe secando lágrimas de alegria. E então vê algo pelo canto do olho. É vermelho, preto e branco, e é rápido. Olha para Gabriel, ainda dedilhando, ainda cantando, e vê, pousado em seu ombro, um pica-pau Lázaro de setenta centímetros. Olha ao redor e percebe que ninguém está preocupado com isso. Olha direto para John Barling e tenta chamá-lo, mas nenhuma palavra sai de sua boca. John Barling está sentado em silêncio, com um sorriso idiota no rosto, com Shirley Dumas remexendo-se a seu lado. A campainha toca. Cullen fica de pé, corre pela cozinha e vê Vilonia Kline atrás da porta de tela. Faz sinal para que ela entre. Ela sorri para ele. Entra na frente dele e se senta, acenando para todos na mesa, mas olha para a frente para admirar a performance de Gabriel.
Cullen está no canto do fundo da sala. Observa o rosto dos amigos, de sua família, de pessoas que mal conhece e de pessoas que não suporta. Recosta-se na parede. Ainda não escuta nada. Tenta gritar “OLÁ!”, contudo não consegue dizer nada de novo. O pai olha para ele e faz um gesto para que se sente. Ele obedece. Observa o irmão, como todo mundo. Pensa que gostaria de ouvir a música. Deseja ouvir a voz do irmão mais uma vez. Olha para o pássaro. O pássaro olha para ele e bate as asas uma vez. Seus olhos arregalados estão fixos nos dele. Ele abre a boca, talvez emitindo um som, talvez não. Cullen não consegue saber. Ele se encolhe ao ver a proximidade do bico grande do pássaro do pescoço de seu irmão, torcendo para que ele se afaste. Mas ele não se afasta. Permanece ali e começa a mexer a cabeça para cima e para baixo, como se dançasse a seu modo uma canção silenciosa. Cullen olha para o outro lado da mesa, para Neil, e então para Russell, cuja mandíbula está começando a se abrir de modo estranho. Faz um sinal para Russell, apontando para a própria mandíbula, mas Russell ignora o gesto e aponta para Gabriel. Ele olha para Oslo e vê a mesma coisa acontecendo com a mandíbula dele. Os olhos dele também começam a ficar caídos. Seu rosto se torna totalmente deformado. Ele olha para Russell; os olhos dele estão da mesma maneira. Cullen fica de pé, afasta-se da mesa e percebe que todo mundo a seu redor está começando a ficar bem estranho. Bate as costas na parede e abaixa-se em direção ao chão. As pessoas à frente dele se tornam zumbis, movendo-se devagar, levantando-se, todas inclinadas para um lado ou outro, olhos caídos, bocas abertas, remexendo-se como mortos-vivos. Todos estão em seus lugares, ainda concentrados em Gabriel, que permanece normal, ainda dedilhando, ainda cantando. Ele olha para Cullen. E, apesar de seus lábios ainda estarem se movendo, ele parece assustado. Cullen olha para Lucas Cader, mas encontra um zumbi no lugar dele. Fica de pé e vai em direção ao irmão. Gabriel não se mexe. Cullen chacoalha os ombros do irmão mais novo, e a guitarra cai para o lado. O pássaro voa pela sala e pousa na cabeça de Oslo. Gabriel olha para ele sem expressão, o rosto ainda humano, os olhos ainda assustados, diz o nome de Cullen e cai de cabeça sobre a mesa. Cullen se afasta de novo, tenta chegar à porta, mas dá de cara com algo. Ele se vira e vê a casa cheia com os mesmos seres não humanos. Todos caminham na direção dele, com os braços esticados, a cabeça solta, arrastando os pés. Ele sobe na mesa e tenta levantar a cabeça de Gabriel. De repente, não encontra nada nas mãos além de roupas. Começa a gritar e não sai nenhum som. Tenta de novo. Nada, ainda. Ele fecha os olhos. Cerra os punhos. Abre a boca o máximo que consegue e solta o som mais alto que já emitiu. Abre os olhos e se vê sentado à mesa em uma sala vazia. Conta as cadeiras; há quatro de cada lado. Ele se abaixa, chacoalha a cabeça e ajeita os cabelos com uma mão. Entra na cozinha e se senta ao lado do irmão à mesa do café da manhã. O irmão olha para ele e diz, sussurrando: “É assim que termina”.
Título de livro número 86: Jantar dos zumbis.