Quando Tudo Volta

John Corey Whaley · Capítulo 9 de 21

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Quando Tudo Volta

9. EM defesa DA IRRACIONALIDADE

EM defesa DA IRRACIONALIDADE

 

— Simplesmente não gosto do cara — eu disse a Lucas sobre John

Barling, cinco semanas depois de Gabriel ter bancado o Gasparzinho.

— Então teremos que matá-lo — respondeu Lucas, com muita confiança e uma sobrancelha levantada.

Precisei olhar fixamente para os olhos de Lucas por alguns segundos para ter certeza de que ele estava brincando. Mais ou menos naquela época, ele tinha começado a falar e a fazer coisas que, como diz o Dr. Webb, eram sinais de algum tipo de colapso nervoso ou insanidade induzida por estresse. Ele se recusava a dormir em qualquer lugar que não fosse o chão do meu quarto, começou a me levar de carro para o trabalho, ficava comigo durante todo o meu turno e pesquisava sequestros suspeitos em todo o Estado em seu laptop.

— Esse menino desapareceu há três anos e o tio estava com ele o tempo todo! — Lucas gritou para mim uma manhã enquanto eu escovava os dentes.

— E? — retruquei, derrubando pasta de dente sobre a pia.

— Você não tem nenhum tio meio louco?

— Não! — Eu ri, embora soubesse que Lucas Cader estava falando sério.

Quando alguém entra na cozinha da própria casa e encontra a mãe, o pai e o melhor amigo sentados diante de uma pilha intacta de panquecas, sabe que algo estranho aconteceu. Instantaneamente, lembra-se da última vez em que toda a família se reuniu à mesa e consegue ouvir, apenas vagamente, seu irmão imitando a risada do pai, conhecida por ser extremamente aguda e esquisita. Ele vê o pai ficando vermelho, tentando ao máximo conter o riso, enquanto Gabriel se levanta e começa a dançar, como vira a mãe fazer enquanto tirava o pó da casa, alguns dias antes. Samuel Witter então se descontrola, e lágrimas escorrem pelo rosto. Sarah Witter o acompanha, segurando a barriga ao se curvar de constrangimento e regozijo. Cullen Witter se senta à cabeceira da mesa, os olhos se enchendo de lágrimas, quase chorando de tanto rir, e observa o irmão, impressionado.

Quando me sentei entre Lucas Cader e meu pai, olhei de relance a manchete da primeira página do jornal que escondia o rosto dele. Dizia: L ILY RECEBE CELEBRIDADE NACIONAL. Eu soube na mesma hora que o artigo seguinte seria sobre todos na cidade estarem extremamente obcecados pelo maldito pássaro. Sabia que alguém havia sido entrevistado a respeito dos visitantes na cidade, vindos de todas as partes do país, e que teria dito coisas como: “É inacreditável!” e “Já viu alguma coisa assim na vida?”. Sentindo o vômito subir pela garganta, eu me virei para Lucas e vi que ele estava de olhos fechados e mãos unidas. Olhei para minha mãe na outra ponta da mesa e uma lágrima escorria por seu rosto, então perguntei, sussurrando, qual era o problema.

— Aquele menino, Russell Quitman, sofreu um acidente de carro na Flórida e quebrou o pescoço — disse ela, com cuidado. — Não é horrível?

Levei um minuto para tirar da cabeça a imagem do Para Man todo ensanguentado, caído no asfalto.

— Ele está bem? — perguntei.

— Está paralisado — respondeu Lucas, ainda de olhos fechados — da cintura para baixo.

— Minha nossa! Isso é terrível! — exclamei, surpreso por estar sendo sincero.

— Minha mãe ligou uns minutos atrás e disse que a mãe dele tinha telefonado e contado a ela — Lucas acrescentou. — Disse que ele ficaria no hospital por mais algumas semanas.

— Ah. — Eu não sabia o que dizer.

— Pobre Janette — minha mãe acrescentou, referindo-se à mãe de Russell.

— Pobre Don. Ele tem que pagar as despesas médicas — disse meu pai detrás do jornal.

— Pobre Ada — eu disse, por fim. Assim ficavam três para três.

— Não — Lucas interrompeu. — Eles terminaram duas semanas atrás. Eu não contei?

— Hum, não.

— Pois terminaram. Ela disse a ele que queria estar solteira quando entrasse na faculdade. — Lucas riu, mas logo se conteve.

— Pense só — eu falei. — Se eles ainda estivessem juntos, ele provavelmente estaria morto.

— Provavelmente — Lucas concordou.

Alma Ember estava começando a passar de uma distração agradável a uma inconveniência. Não se podia esperar que um garoto de 17 anos substituísse adequadamente o marido com nível universitário de uma mulher de 19 anos. Então, com a mais profunda maturidade e respeito, eu disse a Alma Ember, na sala acarpetada de seus pais, que talvez fosse melhor não nos encontrarmos mais. Quando ela começou a chorar, fiquei muito nervoso e rastreei meu cérebro em busca de algum tipo de reação, palavras de sabedoria, gesto de apoio ou consolo. Não encontrei nada. Gabriel Witter teria sido capaz de fazê-la rir antes de sair da sala. Eu a vi pela janela, ainda chorando, quando saí com o carro de ré.

Antes disso, eu tinha feito uma menina chorar uma única vez. Foi, é claro, Laura Fish. Depois de apenas três encontros, nós dois, na época com 16 anos, decidimos nos conhecer melhor em uma tarde ensolarada, no local previamente mencionado às margens do rio White. Assim que vestimos as roupas e voltamos para o carro de Laura, eu comecei a rir. Ela perguntou o motivo. Eu me recusei a dizer. Ela parou o carro e estacionou no acostamento da estrada. Perguntou o motivo de novo. Eu me recusei a dizer, negando com a cabeça, a mão tampando minha boca. Ela começou a chorar.

— O que foi? — perguntei.

— Por que está rindo de mim?

— Não estou. Quero dizer… São cocegas, eu acho. Não é nada — eu disse, do jeito que faço quando acho que a pessoa com quem estou falando está sendo irracional.

— Você é um cretino! — respondeu ela.

— Laura, não estou rindo de você. Estou rindo do fato de termos feito tudo isso para ficarmos deitados nus na lama, um do lado do outro, durante uma hora e depois irmos para casa — declarei.

— Saia! — ela ordenou, destravando as portas calmamente.

— Laura, eu não fiz nada!

— Desculpe se não sou a vadia que você está procurando, Cullen. Agora saia!

— Laura — eu disse, parado do lado de fora do carro, com a porta aberta —, eu estava rindo de nós, não de você. Não estou procurando nenhuma vadia. Eu nem gosto de vadias. Nunca nem conheci uma vadia!

— Bem, boa sorte. Cretino!

Ela saiu acelerando, batendo a porta logo depois que fui deixado tossindo na nuvem de poeira produzida pelos pneus. Caminhando pela estrada de terra naquele dia, eu me imaginei sendo corajoso e pegando carona para percorrer os cinco quilômetros até minha casa. Então imaginei um caminhoneiro desdentado parando para eu entrar e me perguntando sobre meus amigos e passatempos. Isso me deixou perturbado. Justo quando comecei a sorrir, pensando em Laura Fish correndo nua para o rio, uma picape passou em alta velocidade ao meu lado e parou. Novamente, tossi com a poeira. Quando consegui voltar a enxergar, Joe Eddie Fish, 15 anos, irmão de Laura que dirigia na ilegalidade desde os 13, estava vindo em minha direção.

— Minha irmã disse que você é um verme! — ele gritou.

— Sua irmã é louca — retruquei, incapaz de me conter.

— Repita.

— Não podemos conversar um minuto? — perguntei, tentando não rir com o absurdo da situação.

— Conversar não serve para nada — respondeu ele.

— Sério, Joe Eddie? Está se sentindo bem com o que acabou de dizer?

— Cale a boca, Cullen! Droga! Estou tentando intimidar! — ele resmungou.

— Joe Eddie, você corria pelo meio do irrigador no jardim da frente da minha casa. É difícil ficar com medo de você — afirmei, rindo.

— Que merda, Cullen! Eu devia estar acabando com a sua raça! — Ele também riu.

— Você ia mesmo fazer isso, Joe Eddie? — perguntei.

— Eu achava que sim.

— Em vez disso, pode simplesmente me levar para casa? — Vamos.

Contei toda a história a Joe Eddie enquanto ele me levava em casa, e ele riu comigo. Contou que sua irmã tinha uma reação exagerada em relação a quase tudo que qualquer um dissesse a ela, e que sua mãe agia da mesma forma. Falei para Joe Eddie que era uma pena ele e Gabriel não andarem mais juntos, e ele disse que Gabriel era esperto demais para ele.

— Ele faz com que eu me sinta burro. Mas não é culpa dele. Não estamos no mesmo nível, sabe? — Tive a impressão de que aquela era a primeira conversa adulta que Joe Eddie tinha. Também me pareceu que ele não era tão burro quanto todos faziam com que se sentisse.

— Obrigado pela carona — agradeci, desafivelando o cinto de segurança.

— Cullen — disse ele —, sinto muito.

— Por quê?

Assim que terminei a frase, o punho de Joe Eddie acertou meu olho direito. Preto. Por alguns segundos, vi tudo preto. Então, quando a dor começou a se intensificar e rolei para fora da picape, minha cabeça começou a latejar e eu cambaleei na direção da casa. Joe Eddie Fish, na sua opinião, havia defendido a honra da irmã. Havia feito isso mesmo acreditando que ela era louca. Por isso, não fiquei bravo com ele. Joe Eddie tinha princípios. É mais do que eu podia dizer da maioria das pessoas. No dia seguinte, Laura Fish passou por mim no corredor com um sorriso amarelo. Meu olho estava roxo. Lucas riu e cutucou meu braço com o cotovelo. Gabriel assoviou a música tema de Rocky.

Agora que o destino de Russell Para Man havia sido selado, eu estava me sentindo muito culpado por todas as vezes em que imaginei que ele era um zumbi e eu cortava sua cabeça fora. Dito isso, estava me sentindo cada vez menos culpado pelas fantasias nada-a-ver-com-zumbis que tinha com Ada Taylor e sua saia pregueada. Eu estava tendo uma dessas fantasias enquanto organizava cigarros em uma prateleira, em uma manhã de sábado do mês de julho. A fantasia logo foi interrompida quando alguém entrou na loja. Ding-ding.

— Olá — eu disse, sem tirar os olhos da prateleira de cigarros.

— Você precisa cortar o cabelo. — Uma voz afirmou atrás de mim. Era a voz de uma menina; no momento, era só o que eu sabia.

— Por que eu preciso… — comecei a falar enquanto me virava e via Ada Taylor parada bem na minha frente; entre nós, um balcão de madeira verde e uma grossa camada de constrangimento.

— Porque está ficando comprido demais. Você está tentando ficar com visual de surfista ou algo assim? — ela brincou.

— Não. — Eu não fazia ideia do que dizer enquanto ela continuava a conversar casualmente comigo.

— Você está estranho, Cullen Witter — disse ela, com um sorriso.

— Ah, eu não esperava ver você, só isso — respondi, com a voz trêmula.

— Bem, vim até aqui para ver você. Se não tiver problema. — De repente ela pareceu ansiosa.

— Tudo bem, Ada. Como você está? — Reuni coragem para tentar falar e ignorar o fato de que uma menina linda, para quem eu nunca havia dito mais que um “oi”, tinha vindo me visitar no trabalho.

— Estou aqui porque ouvi falar sobre o que aconteceu com seu irmão há algum tempo e ainda não tive a chance de encontrar você. — Seu tom de voz passou de descontraído a sério.

— Ah. Tudo bem. Você não precisava…

— Precisava — ela interrompeu. — Estou pensando nisso há semanas, desde que fiquei sabendo, e me senti tão culpada por não ajudar todos vocês a procurarem por ele. Estou envergonhada por não ter feito nada além de pensar em você em vez de telefonar ou aparecer para vê-lo.

— Ada — eu disse —, nós mal nos conhecemos. Está tudo bem. — Usei novamente minha voz-para-falar-com-uma-pessoa-irracional.

— Sei que não somos amigos, e sei que isso é idiota, só que não consigo parar de pensar nisso. Acabei de chegar à cidade, e esse é o primeiro lugar aonde vim.

Seus olhos continham mais sinceridade do que eu já tinha visto em quase todo mundo que havia me dito “Sinto muito” ou “Estamos rezando por sua família” nas últimas semanas. Aquela menina linda, talentosa e inteligente estava realmente preocupada comigo, com minha família e com meu irmão. Ela realmente se importava. E, naquele momento, de repente me senti incapaz de continuar de pé. Recuei lentamente até a cadeira de metal que estava atrás de mim e me sentei. Fechei os olhos. Minhas mãos estavam tremendo.

— Cullen? — ela sussurrou. — Você está bem?

Não respondi porque, quando tentei falar, parecia que ia vomitar ou gritar, e não queria fazer nada daquilo na frente de Ada Taylor. Abaixei a cabeça sobre os joelhos e, quando meu corpo começou a tremer incontrolavelmente, senti um braço caloroso ao redor dos ombros. Ada Taylor se ajoelhou ao meu lado no chão enquanto eu chorava pela primeira vez, ao pensar que a pessoa que eu mais amava no mundo provavelmente estava morta.

Título de livro número 79: Como fazer as garotas chorarem.