Quando Tudo Volta

John Corey Whaley · Capítulo 14 de 21

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Quando Tudo Volta

14. ALMA EMBER e seus COSTUMES DE CIDADE pequena

ALMA EMBER e seus COSTUMES DE CIDADE pequena

 

 

Quando decidiu se mudar para a casa da avó em Savannah, Alma Ember

só precisou dar um telefonema, e lhe mandaram uma passagem aérea e dinheiro para o táxi em um envelope pardo. Ao chegar, foi recebida na porta por Beverly Ember, que não parecia ter a idade que tinha, supostamente 76 anos. Sua avó a abraçou, quase sufocando-a com seu perfume forte, e ficou balançando de um lado para o outro, até finalmente soltá-la, inclinando-se para olhar para o rosto de Alma, e depois partindo para outro abraço.

— Você está tão linda! — disse ela para a única neta.

— Puxei à senhora — respondeu Alma, sorrindo.

Demorou um tempo para Alma se acomodar e se acostumar com as constantes perguntas e sugestões da avó sobre o que deveriam fazer ou aonde deveriam ir. Alma havia decidido, no último minuto, não aceitar a bolsa integral oferecida pela Universidade do Arkansas e preferiu ir para a Faculdade de Arte e Design de Savannah, onde pararia de falar sobre ser fotógrafa e finalmente se tornaria uma. Tudo isso, é claro, era pago por Beverly Ember, que, com a morte do terceiro marido, conquistara uma posição financeira que nunca pensara ser possível. Então, Alma Ember deu início aos estudos e passou a morar com a avó na cidade mais tranquila da Geórgia, permitindo-se preocupar-se apenas com os prazos da faculdade e os almoços no clube.

O primeiro ano provou ser mais desafiador do que ela esperava, mas Alma encerrou o último dia do semestre com média A e passos largos e firmes, cabelos balançando em um rabo de cavalo, saia verde e branca sacudindo a cada pisada. Ao chegar em casa, beijou a avó, subiu as escadas para o quarto e jogou a mochila no fundo do armário. Atirou-se na cama e, ainda com certo vigor, deixou os membros caírem sem vida ao lado do corpo. Fechou os olhos. Respirou fundo. Caiu no sono.

Quando Cabot Searcy se formou na faculdade de filosofia, seu pai lhe disse que ele não poderia ter gasto mais tempo ou dinheiro nem se tivesse tentado. Cabot sorriu, aproximou-se do ouvido direito do pai e disse a ele para aguardar e ver. Durante os três anos desde a morte de Benton Sage, Cabot continuou a estudar o Livro de Enoque, e tinha até mesmo escrito quatro trabalhos de pesquisa sobre o assunto. Cabot Searcy não desistiria de sua “busca”, como chamava, pela verdade por trás da existência humana. Havia debatido intensamente com estudantes de teologia, batido de frente com dois ou três pastores locais e se envolvido em uma briga depois de chamar o presidente da Fundação de Estudantes Católicos de pedófilo ignorante. Havia muita gente feliz em ver Cabot Searcy — que começara a faculdade como um jovem charmoso, amistoso e educado — ir embora para sempre.

— Bem, e agora? — o tio de Cabot, Jeff, perguntou a ele após a cerimônia de formatura, quando a família se reuniu em um restaurante perto do centro de Atlanta.

— Estava pensando em fazer pós-graduação, mas ainda não sei bem em quê.

— Que área de estudo está considerando desta vez? — perguntou sua tia Corinne.

— Estava pensando em encontrar um lugar para estudar teologia antiga.

— Vai ser pastor? — perguntou uma de suas irmãs.

— Não.

— Como alguém pode pretender nunca ganhar dinheiro nenhum, Cabot? — seu pai começou a dizer.

— Eu vou me virar — disse ele simplesmente.

— Não com o meu dinheiro — avisou o pai, com calma.

— Richard — a mãe de Cabot sussurrou, olhando feio para o marido do outro lado da mesa.

— Bem — interrompeu tio Jeff, erguendo o copo —, que tal um brinde?

— A quê? — perguntou sua esposa.

— A Cabot ter encontrado seu caminho.

Tim-tim.

Alma Ember não gostava de marcar encontros. Na realidade, odiava a simples ideia de se sentar meio sem jeito diante de um cara que acabara de conhecer, fingindo estar interessada no que ele dizia ou quebrando a cabeça para dizer coisas que lhe fizessem parecer interessante aos olhos dele. Então, simplesmente evitava a coisa toda. Recusava convites para tomar café; paralisava diante do primeiro sinal de flerte; sentava-se longe de qualquer cara que lhe demonstrasse muita atenção na sala de aula. Viver com uma mulher de 76 anos estava começando a afetá-la. À medida que o verão lentamente passava, ela se cansava de ficar sozinha à beira da piscina no clube, observando cidadãos idosos bebendo martínis.

O primeiro encontro com que Alma concordou desde sua chegada a Savannah, um ano antes, foi com um estudante de design gráfico de 22 anos chamado Nico. O rapaz, que ela conhecera nas aulas de design, era de Aspen, Colorado, e tinha procurado o telefone dela e ligado em algum momento de junho. Ela considerou dispensá-lo por um instante, porém respirou fundo, sacudiu a cabeça e disse que estava livre na sexta-feira à noite.

Eles comeram no terraço de um bom restaurante. Alma só se sentiu desconfortável uma vez, e só porque o garçom ficou flertando com ela. Nico parecia mais bonito que na aula, principalmente porque estava usando uma bela camisa de botões em vez de uma camiseta amassada qualquer. Ele fez as coisas que as garotas gostam que sejam feitas em primeiros encontros. Abriu portas. Puxou cadeiras. Fez elogios. Riu das piadas dela. Não riu das próprias piadas. Nunca deixou de olhar nos olhos dela. Ele era confiante, mas não convencido. Delicado, mas não exageradamente charmoso. Falava com facilidade sobre coisas como arte e música, e sempre pedia a opinião dela e ouvia suas respostas. Fazia gestos positivos com a cabeça. Tomava pequenos goles de água. Levantou-se quando ela saiu para ir ao banheiro.

No espelho, Alma Ember praticou um sorriso. Disse algo como: “É claro que quero me casar com você” enquanto batia os cílios. Começou a rir de si mesma. Lavou as mãos, reaplicou o batom e caminhou na direção da mesa. Depois que ambos se sentaram novamente, Nico lhe fez uma pergunta.

— Por que você quer ser fotógrafa?

— É difícil explicar. Não tenho certeza. Só me parece certo — respondeu ela.

— Está bem. Está dizendo que parece que você foi feita para isso? — perguntou ele.

— É como se cada vez que eu visse algo belo quisesse registrar em filme. E esse é o meu jeito de ter certeza de que todas essas coisas sejam, de alguma forma, capturadas — replicou ela, alegrando-se com a própria resposta surpreendente.

— Incrível! — disse ele, tomando outro gole de água.

— E você? — perguntou ela.

— Eu o quê?

— Por que quer ser design gráfico?

— Pelo dinheiro — respondeu ele, simplesmente.

— O quê? — ela riu.

— Ah, e também porque é divertido. — Ele riu com ela.

Nas três semanas seguintes, Alma Ember dormiu no apartamento de Nico todas as noites, exceto duas, fazendo com que sua avó suspeitasse de que ela estivesse sendo corrompida e levando a uma discussão sobre o comportamento adequado para uma moça.

— Moças não dormem na casa de rapazes — disse Beverly.

— Não há nada de errado nisso, vó — respondeu ela.

— Simplesmente não me parece certo.

— Você não confia em mim? — perguntou Alma, os olhos arregalados e cheios d’água.

— É claro que confio, querida. Só fico preocupada, você sabe disso.

— Eu sei. Tentarei me comportar melhor — disse Alma, comendo alface.

Uma semana depois, Alma perguntou à avó se Nico podia se mudar para o quarto de hóspedes por algumas semanas, até encontrar um novo apartamento. O garoto que dividia a casa com ele tinha ido embora, e ele não podia pagar o aluguel. Beverly deu um suspiro, olhou para Alma e assentiu. Um mês depois, Nico estava sentado no sofá da sala enquanto Beverly se servia de um copo de chá gelado na cozinha e Alma sussurrava para a mãe no telefone do quarto.

— Mãe, vou me casar no mês que vem.

Tio Jeff havia contratado Cabot Searcy para trabalhar em sua imobiliária naquele verão, e Cabot, embora achasse o trabalho chato e tedioso, gostava de ficar na ampla casa do tio e passar o tempo livre lendo e escrevendo. O que ele também gostava em Savannah era a tranquilidade do lugar, a falta de trânsito, o chá doce e a forma como as amigas de sua tia falavam e riam quando se reuniam na saleta para jogar Uno. Um mês depois, Cabot teve uma conversa com o pai ao telefone.

— Você não pode trabalhar para o seu tio pelo resto da vida, Cabot — disse o pai.

— Sei disso, pai. Estou procurando emprego.

— Onde? Que empregos procurou?

— Hum, bem, procurei nos classificados e não vi nada — Cabot explicou.

— Precisa começar a pensar nas coisas com seriedade. Isso é ridículo! — O pai estava começando a elevar a voz.

— Pai, dá um tempo. Vou pensar em alguma coisa. Sei que está frustrado, e eu também estou, mas vai levar um tempo.

O primo de Cabot, Josh, que ainda estava no ensino médio, entrou em seu quarto uma tarde e se sentou na cama. Ele ficou mexendo na colcha antes de olhar para Cabot, que estava na escrivaninha no canto, e começar a falar.

— Pode me fazer um favor? — perguntou ele.

— O que foi? — respondeu Cabot.

— Acha que pode me levar ao cinema hoje à noite? — perguntou Josh, com hesitação.

— Claro. Sem problemas. Não tenho mais nada para fazer.

— Obrigado — respondeu o rapaz, animado, sorrindo, e depois saiu do quarto.

No cinema, Cabot e Josh se sentaram na última fileira, pipoca em uma das mãos e um refrigerante de seis dólares na outra. Os dois colocaram os pés no assento vazio diante deles e recostaram-se na cadeira, esperando as luzes diminuírem e o filme começar.

— É uma comédia? — perguntou Cabot a Josh.

— Acho que uma parte sim. É, tipo, parte comédia, parte triste — respondeu Josh.

— Nunca ouvi falar desse filme — disse Cabot.

— Ouvi dizer que é ótimo.

As luzes diminuíram na sala de cinema enquanto Alma e Nico se acomodavam em seus assentos, perto da primeira fila. Chegaram em cima da hora — não tarde demais para perder o início do filme, mas tarde o bastante para não conseguir lugares bons. Nico não parecia incomodado. Alma estava irritada, sussurrando ao ouvido dele.

— Vou precisar de um massagista quando sair daqui.

Nico riu enquanto os trailers começavam a iluminar a tela, e Alma continuou a resmungar, derrubando metade da pipoca e depois fechando os olhos por alguns segundos para se acalmar.

Trinta e sete minutos de filme bastaram para Alma Ember se dar conta de que ainda não estava pronta para se obrigar a gostar de um festival alternativo de dar sono só porque era a única coisa a que Nico gostava de assistir. Ela disse no ouvido dele que precisava usar o banheiro e saiu pela fileira de assentos. Assim que voltou para o lobby, sentou-se em um banco e limpou pedacinhos de pipoca da blusa. Pegou o telefone e tentou ligar para o primeiro amigo de que se lembrou para zombar do filme terrível. Não teve resposta. Enquanto tentava ligar para outra pessoa para matar mais tempo, alguém se sentou ao lado dela, resmungando algo em voz baixa.

— O quê? — perguntou ela, olhando para o jovem, para seus cabelos desgrenhados e seus olhos, a pele bronzeada e a expressão de tédio.

— Não consigo mais assistir a essa porcaria — disse ele, rindo.

— Você também? — perguntou ela.

— É como ver um acidente de carro, ou algo do tipo — ele brincou.

— É mais parecido com um tratamento de canal — ela brincou também.

— Meu nome é Cabot — disse ele.

— Alma. — Ela apertou a mão dele.

— Tenho uma tia chamada Alma — ele disse.

— Conheço uma cidade chamada Cabot — ela rebateu.

— Sério? — perguntou ele.

— Uma pequena cidade no Arkansas.

— Você é de lá? — perguntou ele, com empolgação.

— Sim, de uma cidadezinha chamada Lily.

— Eu sabia que você tinha um sotaque do sul, mas não exatamente da Geórgia.

— Bom ouvido — disse ela.

— Obrigado.

Foram dois dias para tirar todas as coisas de Nico da casa de Beverly, mesmo com a ajuda de alguns amigos. Ele passou a maior parte do tempo no canto do quarto, ainda chocado e confuso com a decisão repentina de Alma de romper o noivado e pedir que ele fosse embora. Alma planejara ficar fora de casa e saiu com Cabot Searcy; foram jogar golfe e conversaram sobre suas aspirações em se tornar fotógrafa da vida selvagem. Cabot compartilhou com ela suas filosofias sobre a vida e até mesmo um pouco de sua teoria sobre o potencial do ser humano. Ela ficou maravilhada com seu discurso, completamente apaixonada pelas coisas que ele dizia e fazia. Ele não tentava parecer perfeito, algo que Nico fazia com regularidade. Ele não tinha muita vergonha de explorar o tio e menos ainda de seu diploma de faculdade inútil. Alma o achava desencanado, e era assim que ela desejava ser. Para Cabot, Alma Ember parecia inocente o suficiente para ser amada, mas audaz o bastante para se impor.

— Deu positivo? — Cabot perguntou a ela pela porta do banheiro, um mês e meio depois.

— Se puder esperar só mais um minuto eu mostro! — Alma berrou de volta.

Depois de alguns instantes, ela abriu a porta e, vendo Cabot parado à sua frente, começou a chorar. A cabeça dela caiu sobre o peito dele, e ele a abraçou. Ficaram assim por um tempo. Cabot conseguiu ver a haste plástica na beirada do balcão, com duas fortes marcas no centro. Não conseguiu conter o sorriso enquanto Alma chorava.

— Vamos nos casar — ele disse a ela horas depois, deitados na cama.

— Não podemos simplesmente nos casar assim — respondeu ela.

— E por que não?

— Só estamos namorando há um mês. O que as pessoas vão pensar?

— Bem. Alma, o que vão pensar quando você sair por aí com um bebê na barriga? — Ele riu.

— Não tem graça! — ela exclamou, tentando não sorrir.

— Amanhã vamos ver a papelada. É a coisa certa a fazer — ele afirmou, beijando-a no rosto.

— Amanhã, então — ela concordou.