Quando Tudo Volta
5. Ame o PÁSSARO
Ame o PÁSSARO
Duas semanas desde o início das férias de verão foi o tempo que levou
para que todo mundo da cidade começasse a falar do maldito pica-pau. Um cara chamado John Barling começou a aparecer na primeira página do Lily Press, e as pessoas, nos restaurantes e nas lojas, começaram a incomodá-lo pedindo-lhe detalhes e até mesmo autógrafos. Após três semanas ele apareceu no Little Rock Live, um programa matutino com dois apresentadores de mau gosto, com penteados com tanto laquê que não poderiam ser destruídos nem a marretadas. Ele falava sobre si mesmo e sobre como decidira, um ano antes, que iria para o Arkansas encontrar o “indescritível pica-pau de Lázaro”. Quando questionado sobre por que faria algo como aquilo, viajar de Oregon para o Arkansas para encontrar um pássaro que não era visto havia sessenta anos, ele disse algo do tipo: “Eu sempre soube que ele não estava morto”. Não era conveniente? Aquilo era o mesmo que dizer: “Eu sabia que minha chave estava aqui o tempo todo” ou “Eu sabia que você venceria”. Eu soube, desde a primeira vez que vi John Barling, que ele não se preocupava nem um pouco com os pássaros e que, com certeza, não dava a mínima para Lily, o lugar que tentava elogiar da melhor maneira possível em todas as entrevistas naquele verão. Outra coisa que eu sabia a respeito de John Barling era que ele estava envolvido desde fevereiro com Shirley Dumas, a mulher que vivia na casa ao lado da sua com o filho, Fulton.
Fulton Dumas, um rapaz alto, magricela e desgrenhado de 16 anos, descrevia John Barling como o homem mais egocêntrico, maníaco e ganancioso que ele conhecia. Eu não botava muita fé no que Fulton dizia, uma vez que o único homem com quem ele podia comparar os outros era seu pai, levemente afeminado. Contudo, quando vi John Barling e o ouvi falando sobre encontrar Lázaro, eu sabia que Fulton estava certo. O cara era o tolo dos tolos. O maior dos tolos. O único homem que poderia destronar Para Man e se tornar o Rei dos Tolos.
Quando alguém dirige o carro da mãe pela cidade e vê cartazes colados nas vitrines das lojas e dos restaurantes, nos quais se lê AME O PÁSSARO E LILY: CASA DE LÁZARO e SEGUNDAS CHANCES ACONTECEM EM LILY , imediatamente começa a pensar em como o paraíso deve ser para se livrar dos pensamentos infernais que invadem sua mente. Ele imagina que o paraíso não deve ser uma cidade com ruas de prédios dourados, altos e claros, mas uma sala simples repleta de pessoas que o fazem sorrir e se sentir o centro das atenções quando conta uma piada engraçada ou fala sobre uma ideia nova para um livro. Ele vê o irmão de pé em um canto, usando um pijama verde de flanela, como fizera no Natal cinco anos atrás, e vê a mãe e o pai de mãos dadas na pia da cozinha, como os vira uma vez quando tinha 11 anos. Vê Lucas Cader jogando uma bola na sala para o irmão mais velho, Alex, que se parecia com ele, e escuta tia Júlia cantando uma música que ouvira na igreja quando tinha 8 anos mais ou menos. Ele canta o refrão em voz alta, a única parte de que se lembra, enquanto passa pelo Burke’s Burger Box e vê o cartaz de um novo produto chamado Lázaro Burger.
Aqui estou, Senhor. Sou eu, Senhor?
Escutei-o chamando à noite.
Eu irei, Senhor, se me guiar.
Manterei o seu povo em meu coração.
É difícil dizer exatamente o que me irritou tanto em John Barling e em toda a história do pássaro sem parecer um adolescente rebelde sem causa vestido de preto e choramingando como Charlie Brown o tempo todo. Mas era a mesma coisa para Gabriel e para Lucas também. Era como se entendêssemos a piada que todo mundo na cidade tinha ouvido. Nós sabíamos como ia acabar. E teria sido muito mais fácil ficar sentado enquanto toda a Lily caísse no feitiço surpreendente da possibilidade de segundas chances, ou de ressurreição, mas não conseguimos fazer isso. Talvez eu não gostasse tanto das pessoas de Lily, entretanto sentia pena de quem era maltratado.
Meu cinismo, de vez em quando, me colocava em situações constrangedoras. Eu era especialmente cínico quando estava em grupo, talvez porque sentisse que um comentário sarcástico a respeito de um desconhecido me traria o respeito e a admiração dos amigos. Isso raramente dava certo. Uma pessoa age como idiota só algumas vezes; depois disso, todos deixam de prestar atenção. Gabriel me fez deixar esse hábito certa noite, depois que tirei sarro de um casal que saía do cinema.
— Você age como se odiasse todo mundo. Deve ser cansativo.
Sem saber o que responder, concluí que ele tinha razão. Meu irmão, sempre ingênuo, sabia dar a todos a chance de mudar de opinião. As primeiras impressões não significavam nada para Gabriel. Na verdade, o fato de ele não gostar de John Barling e de sua missão não surgiu do cinismo, mas da perspectiva de um ativista dos direitos animais.
— Se eu visse o pássaro, não diria a ninguém — ele me disse, certa tarde, em casa. — As pessoas meio que conseguem estragar tudo mesmo quando estão tentando ajudar.
Eu havia chegado ao trabalho ao meio-dia, e quatro horas depois tinha lido um livro inteiro e exibido minha habilidade de assoviar para três meninas do ensino médio que gostavam de me paquerar enquanto a mãe delas abastecia o carro do lado de fora.
Cinco horas depois de começar a trabalhar, decidi que, se visse o pássaro, não contaria a ninguém. Ninguém mesmo. Como dissera Gabriel, as pessoas se metem onde não são chamadas. Foi por isso que o pássaro foi embora, para começo de conversa. Como a ave poderia sobreviver com tantas pessoas em sua casa? Não, Lázaro ficaria muito melhor sem John Barling e sua pequena missão de redescoberta.
Quando eu estava prestes a aceitar o fato de que deveria limpar o chão da loja, Lucas Cader entrou (ding-ding) balançando a cabeça de um lado para o outro.
— Adivinha só, meu amigo atendente.
— O que foi?
— Tenho grandes notícias.
— O que é? — Eu detestava quando alguém dizia ter algo para me contar em vez de simplesmente contar logo.
— Arrumei um encontro para você!
— Um encontro?
— Sim, e não é de negócios. — Lucas riu.
— Engraçadinho. Com quem?
— Está pronto para saber? — perguntou ele, apontando com as duas mãos para mim.
— Sim! Pode me contar!
— É melhor você se sentar, Cullen.
— Mato você e mato mais gente se você não...
— Alma Ember — ele interrompeu, com confiança, recostando-se no balcão, aproximando-se de mim.
— Alma Ember?
— Isso aí. A própria. Sim, meu amigo. Ela é toda sua.
— Lucas — eu disse. — Alma Ember tem vinte anos.
— Errado. Ela só completa vinte daqui a um mês.
— Mesmo assim, não posso namorar Alma Ember!
— Por quê? Por causa do nome dela? Eu sei, é meio...
— Não é pelo nome dela, idiota. Não posso namorar uma moça de vinte...
— Dezenove.
— Desculpa, uma moça de dezenove anos que não conversava comigo quando nos sentávamos lado a lado na aula de educação moral e cívica!
— Cullen, Cullen, Cullen, Cullen. Você era aluno do primeiro ano naquela época. Era baixinho, estranho, com certeza tinha acne. Tudo mudou agora. Ela conheceu o mundo. Viu o que os lugares fora de Lily têm a oferecer e agora voltou, e voltou para ficar. Isso quer dizer que ela está pronta para ver o que restou em Lily que ainda não foi...
— Estragado? — interrompi.
— Experimentado — disse ele, cruzando os braços.
— Pelo que soube, ela ia se casar com um cara da Geórgia — comentei, confuso.
— Sim, e o divórcio já está quase concluído. Eu verifiquei.
— Meu Deus! Qual é o seu problema, Lucas?
— Qual é o seu problema, Cullen? É a pergunta que precisa ser respondida. Consegui um encontro para você com uma jovem linda, bacana e engraçada que me disse não acreditar que você não tem namorada...
— Ela disse isso?
— Claro que disse! Até comentou que, quando te viu pela última vez, você foi gentil e estava lindo. Juro.
— Mentiroso.
— Não. Pode esperar. Hoje à noite.
— Hoje?
— Sim, hoje às sete vou passar na sua casa com a minha namorada do meu lado e a sua no banco de trás. Espero que você leve flores. O que me diz?
— Você já combinou tudo?
— Mena e eu vamos buscá-la às seis e cinquenta em ponto.
— Tudo bem.
Enquanto mordia meu Lázaro Burger, voltando do trabalho, fiquei pensando em como seria se o pássaro realmente existisse e estivesse em um daqueles lanches. O lanche em si não era feito de pica-pau, claro, mas de um pedaço de carne com ketchup, maionese e molho barbecue. O vermelho, branco e marrom deviam lembrar um dos pássaros, porém só me lembravam de pedir o mesmo lanche, o Número Três.
— Gabriel — comecei ao entrar no quarto de meu irmão, quando cheguei em casa —, o que você acha do Lázaro Burger?
— É só um Número Três sem queijo.
— Certo. Mas e o fato de estarem vendendo um hambúrguer que não tem nada a ver com um pássaro que provavelmente não tinha nada a ver com esta cidade e nem está mais vivo?
— Acho que você está pensando demais em um hambúrguer em vez de comê-lo. — Gabriel virou uma página do livro que estava lendo.
— Pense nisso. — Eu me sentei à beira da cama dele. — E se eu jogasse um hambúrguer na mata e o Lázaro, se existisse, voasse e desse uma bicada nele?
— Rá! Canibalismo! — Gabriel gritou.
— Canibalismo ornitológico! É pior ainda! — gritei em resposta, dei um pulo e corri pelo corredor até meu quarto, de um jeito infantil que só os irmãos adotam perto um do outro.
Às sete e cinco ainda não havia ninguém na rua, só eu, e eu não estava segurando flores, porque a Handy Stop não vendia flores nem o Burke’s Burger Box. Às sete e onze ouvi o carro de Lucas no fim da rua de paralelepípedos. Mena estava com o braço para fora da janela, deixando a mão balançar ao vento, e eles pararam bem ao lado de onde eu estava. Mena abriu a porta, saiu, me deu um beijo no rosto e dobrou o banco para a frente para me deixar entrar. No banco de trás, fiquei calado; Lucas olhou para trás e disse:
— Cullen, você conhece a Alma.
— Oi.
— Oi, Cullen. Você está muito bonito — disse Alma.
— Você também, Alma.
— Obrigada.
O que percebi sobre Alma Ember é que ela não parecia nem um pouco nervosa. Acho que é isso que o mundo faz com você. Ou a maturidade. Ela parecia bem à vontade por estar no banco de trás do carro de um rapaz de 17 anos, com um grupo de estudantes do ensino médio que aposto que ela pensou que nunca mais veria. Eu, por outro lado, não conseguia pensar em uma situação na qual houvesse me sentido mais desconfortável. Lucas percebeu pelo modo como olhei para ele pelo retrovisor, por isso fez o melhor que pôde para quebrar o silêncio, falando que fora picado por uma cobra naquele dia enquanto ajudava o Sr. Branch a construir uma cerca.
Logo depois, entramos em um dos poucos cinemas a céu aberto ainda em funcionamento no país e saímos para buscar algo para comer. Comprei um pacote pequeno de pipoca e uma Coca-cola diet para Alma, e o mesmo para mim, sentindo-me meio envergonhado por pedir um refrigerante diet, porém não envergonhado o bastante para beber uma Coca-cola comum, que eu ainda achava muito doce. Ela me deu um beijo no rosto como forma de agradecimento, e acho que senti algo bem parecido com a sensação que uma pessoa experimenta ao subir uma estrada de terra. Daquele momento em diante, passei a me sentir cada vez mais confiante e menos eu.
Não consegui me concentrar no filme por tempo suficiente para me interessar, porque Alma Ember havia deixado a pipoca de lado e decidido fazer carinho na minha orelha esquerda. Apesar de ter sido bom, fiquei sem saber o que fazer com as mãos. Então, continuei comendo a pipoca enquanto Alma Ember permanecia pendurada no meu lado esquerdo.
Quando alguém, de repente, sente a mão de uma jovem subindo por baixo da camiseta dele, imagina, na mesma hora, essa jovem discutindo com o ex-marido, que imagina ser muito maior e mais forte do que ele próprio. Vê a si mesmo jantando com Alma Ember no Pizza Hut, quando o ex-marido grandão entra pela porta, segura a moça pelo braço e bate no rosto dela com a outra mão. Vê Lucas Cader pulando a janela para pegar uma cadeira e quebrá-la nas costas do gigante. Em pouco tempo, Mena Prescott está em cima do balcão dançando e formando as letras L-U-C-A-S, e Lucas Cader está segurando a cabeça de Cullen Witter enquanto uma linha vermelha escorre pelo seu couro cabeludo e seus olhos ficam vidrados. Ele morre ali, no carpete sujo e vermelho do Pizza Hut, por causa de algumas oportunidades de sexo medíocre com uma moça que abandonou a faculdade e que trabalha como manicure no fim de semana para ganhar um extra.
Eu poderia muito bem ter entrado na casa de Alma Ember naquela noite e saído na manhã seguinte, contudo não entrei. Nem sequer desci do carro. Alma me beijou na boca, afastou-se, mostrou-se desapontada e então saiu do carro. Mena Prescott não conseguia parar de rir, e Lucas desejou boa-noite a Alma.
— Foi estranho — disse Lucas, dirigindo de volta para minha casa.
— Muito — Mena acrescentou.
— Como assim? — perguntei. Eu sabia do que eles estavam falando.
— Sei lá. Ela estava pronta para levá-lo para casa, Cullen — disse Lucas.
— Você acha? — perguntei. Eu sabia que ele tinha razão.
— Ahhh. Ela estava muito a fim de você, idiota — Mena se intrometeu.
— Ela deve estar bem desesperada. — Ri.
— Você não gostou dela? — perguntou Lucas.
— Ela é legal. Mas um pouco séria demais.
— Séria demais?
— Sim. Eu só queria assistir a um filme e comer pipoca. Só isso.
— Cullen, você é o único cara no mundo que diria o que você acabou de dizer, sabia?
— Sim, Lucas, eu sei.
— Talvez você precise namorar meninas mais jovens, sabe, aquelas que não estejam tão prontas para casar, coisa e tal — Mena sugeriu.
— Talvez eu saia de Lily daqui a um ano e possa encontrar alguém muito melhor! — gritei.
— Cullen Witter, pessoal! Ele vive no futuro! — Lucas gritou pela janela enquanto passávamos por um sem-número de árvores, grama e nada.
Gabriel não estava no quarto dele quando cheguei em casa, então me deitei no chão e comecei a assistir a um filme antigo na televisão. A minha tinha quebrado fazia uma semana. Demorei menos de quinze minutos para pegar no sono. Quando acordei, percebi que, sem querer, havia dormido em cima do braço, que acabou ficando dormente, dando-me a impressão de não existir. No espelho, vi que o lado do meu rosto tinha sido apertado contra o piso de madeira e estava muito vermelho, com dois vincos correndo horizontalmente. Escovei os dentes. Tomei um banho demorado. Lavei um dos lados do rosto melhor que o outro, tentando acabar com a vermelhidão. Saí do chuveiro e pisei no tapete, que ficava logo embaixo do aquecedor. Ergui a cabeça, fechei os olhos e deixei o ar quente passar pelo meu rosto e pelo meu corpo, sem me secar, porém me aquecendo o suficiente para sentir tudo de novo, como se estivesse dentro de um balão de ar quente.
Quando fui para a cozinha, meus pais estavam tomando o café da manhã e conversando sobre contas. Preparei uma tigela de cereais e sentei-me ao lado de meu pai. Ele olhou para mim e sorriu.
— Você dormiu no chão a noite inteira, não foi?
— Sim, dormi. E a foi a melhor noite de sono de que me lembro! — Enfiei uma colher cheia de cereal na boca enquanto meu pai respirou fundo em vez de dizer Ha! Ha!
— Onde está o seu irmão? — minha mãe perguntou quando se sentou à minha frente.
— Eu não o vejo desde ontem à tarde — respondi.
— Ah, como foi seu encontro, Cullen? — perguntou meu pai.
— Chato.
— Que pena. Você encontrará a pessoa certa um dia — minha mãe acrescentou.
Título de livro número 76: Esta pipoca tem gosto de gente.
Três horas depois, quando já tínhamos perguntando a todo mundo que conhecíamos e dirigido pela cidade duas vezes, decidimos chamar a polícia. Era uma quinta-feira quando meu irmão, a Mão Esquerda de Deus, desapareceu. Foi nessa mesma quinta-feira que John Barling apareceu na TV para falar sobre o pica-pau Lázaro, e que este havia ressuscitado dos mortos. Lucas Cader permaneceu sentado ao meu lado no sofá o dia e a noite inteiros, assustando-se como eu sempre que o telefone tocava, ou tremendo e batendo o pé como eu. Mena Prescott havia levado um pouco de comida para todos naquela noite, e permaneceu ali apenas o tempo suficiente para me garantir que tudo ficaria bem; o bastante para me dizer que essas coisas aconteciam o tempo todo. Não sei muito bem por quê, mas não conversei com ninguém além da polícia o dia inteiro. Nem com meus pais. Nem com Lucas. Não conseguia falar. Não estava chorando. Só estava calado, sentado ali com os olhos grudados na tela da TV, ouvindo meus pais serem interrogados por dois policiais na sala de jantar. Quando Lucas se deitou no chão e dormiu, simplesmente me joguei no sofá agora vazio e segui seu exemplo, até ser acordado para responder às perguntas da polícia.
Quando alguém é interrogado por um policial sobre a última vez em que viu seu irmão mais novo, caminha rapidamente para a rua, entra no Toyota Corolla verde de sua mãe, dirige por oito quilômetros até a margem do rio White e entra na água depois de se despir. Embaixo d’água, ele grita “PORRA” sem parar, enquanto a água enche sua boca e o nariz começa a arder.
Deitado de bruços à margem do rio, com a água cobrindo meus pés, comecei a imaginar que Lázaro havia se aproximado e pousado ao meu lado na lama. Ele se aproximou bem devagar, porém com a intenção de chegar o mais próximo possível. Seus olhos pretos marejados e o bico comprido e branco me impediram de perceber que ele estava a 70 centímetros do chão.
— O que você quer? — perguntei ao pássaro.
— Quero ajudar você, Cullen Witter — respondeu a ave, com uma voz semelhante à do Pica-Pau do desenho animado.
— Me ajudar em quê?
— Quero ajudá-lo a encontrar seu irmão — disse ele, abrindo as enormes asas e voltando a fechá-las.
— Você sabe onde ele está? — perguntei.
— Sei. E agora vou ficar famoso. Vou ser o primeiro pássaro a encontrar uma criança perdida. Vou aparecer na televisão!
— Cullen! — Ouvi um grito acima de mim. Era Lucas.
— Aqui embaixo! — gritei.
— O que você está fazendo? — Lucas perguntou, olhando para meu corpo quase nu, deitado metade na lama, metade no rio.
— Precisava esfriar a cabeça.
— Está se sentindo melhor? — Lucas perguntou, descendo o montinho de pedras que levava à margem do rio.
— Não muito.
— Pelo menos você está falando — disse ele, sentando-se em uma pedra grande meio enterrada na lama.
— Alguma novidade? — perguntei.
— Não.
— Lucas, ele morreu. Eu sei que ele morreu.
— Cullen, olha pra mim — falou Lucas, com seriedade.
Olhei para cima e mal consegui vê-lo com o sol nos olhos, no entanto percebi que uma lágrima escorria por seu rosto, pelo pescoço e acabava na gola da camisa.
— Seu irmão não está morto.
— Está, sim — disse ele, sentando-me.
— Vá se ferrar, Cullen! — Lucas gritou e me deu um soco na cara; em seguida, voltou para seu carro.
O Dr. Webb diz que perder um filho, às vezes, pode acabar com um casamento. Nas duas semanas seguintes ao desaparecimento de meu irmão da face da Terra, meus pais pareciam mais próximos do que nunca. Meu pai ficara em casa todas as noites, recusando-se a sair da cidade ou a ficar longe de minha mãe por mais que algumas horas. Eles também passaram a me proteger muito; não me deixavam ficar na rua até tarde nem permanecer na casa de Lucas por muito tempo.
Eu disse a Lucas que ele havia me batido uma vez em que pude ficar em sua casa, e a conversa foi meio assim:
— Lucas, você me deu um soco na cara. Seu louco.
— Fiquei nervoso. Me desculpa.
— Mas não doeu — eu disse, rindo.
— Cullen, seu olho ainda está roxo.
— Mas não foi por causa do soco. Escorreguei e caí em uma pedra logo depois que você foi embora. Foi terrível!
— Idiota — xingou Lucas, encolhendo o punho para fingir que me agrediria de novo.
Aquelas duas semanas foram muito tranquilas, exceto pelo grupo de busca de 40 homens que a polícia colocou para vasculhar a mata perto de Lily e descer o rio de canoa. Depois de procurar por quatro dias seguidos, eles não encontraram nada. Naquelas duas semanas, Lucas e eu havíamos procurado por meu irmão quase a região toda, descemos o rio de caiaque duas vezes, saímos para procurá-lo em barrancos de outros rios e coisas assim. Não encontramos nada. Na quinta-feira após o desaparecimento de Gabriel, minha família e Lucas foram para Little Rock e pararam em todas as cidades pequenas do caminho para colar cartazes de DESAPARECIDO, com a foto do meu irmão, em postes, bancos de parque e telefones públicos, além de vitrines de lojas. Fizemos o mesmo em Little Rock.
O problema de um menino de 15 anos desaparecer é que ninguém acha que ele foi sequestrado. Muito menos Gabriel, que parecia ter a minha idade. Todo mundo na cidade, apesar de não dizer, estava pensando a mesma coisa: Gabriel Witter finalmente fugiu de casa. Isso, ou então foi caminhar na mata e se perdeu, ou foi devorado por um urso. Mas eu sabia que meu irmão tinha sido tirado de mim. Não havia fugido, porque não fugiria. Não poderia. Nunca fugiria. E nunca havia se perdido na vida.
Duas semanas depois que eu acordara no chão do quarto de meu irmão, bati rápida e nervosamente na porta de Alma Ember. A mãe dela abriu e arregalou os olhos, surpresa, ao me ver ali às nove da manhã.
— Cullen Witter!
— Olá, como a senhora está? — perguntei a ela, com as mãos no bolso.
— Não. Como você está?
— Ah, estou bem.
— Já descobriram alguma coisa, querido? — ela quis saber, tocando meu ombro levemente com uma das mãos.
— Não, senhora. Nada ainda.
— Bem, sei que alguma coisa vai aparecer, mais cedo ou mais tarde.
— Sim.
Minha vida se transformou naquilo em apenas duas semanas. Agora, eram cerca de cem conversas iguais àquela por dia, que todo mundo que eu encontrava estabelecia comigo na cidade. A monotonia daquilo me dava vontade de desaparecer. Após alguns segundos de silêncio, a mãe de Alma finalmente deu um passo para o lado e me convidou para entrar. Perguntou se eu estava ali à procura de Alma. Respondi que sim. Ela virou a cabeça lentamente, levou uma das mãos ao canto da boca e gritou: “ALMA! CULLEN WITTER QUER VER VOCÊ!”, como se estivesse na arquibancada de um jogo de futebol.
Alma entrou na sala, e eu, de repente, me lembrei por que pensara em descer a rua e bater à sua porta.
— Cullen! Oi! — Ela me abraçou pelo pescoço. Ultimamente eu andava recebendo muitos abraços.
— Oi. Pensei que talvez você quisesse fazer alguma coisa. Estava entediado.
— Uhh. Claro. Vou colocar meu sapato.
Quando entramos no carro dela (eu não tinha mais confiança para dirigir), olhei para ela, que parecia nervosa e muito calada.
Eu disse:
— Alma, se você não se incomodar, podemos tentar não falar sobre o meu irmão hoje? Nada sobre ele?
— Tudo bem, Cullen.
— Tudo bem? — perguntei.
— Eu entendo — disse ela, e então me deu um beijo no rosto.
Por falta do que falar, demorou só meia hora para que Alma Ember e eu acabássemos deitados meio dentro e meio fora do rio White, no mesmo lugar onde eu havia conversado com um pica-pau superconfiante, dado uns amassos em Laura Fish e sido deixado pelo meu melhor amigo. Quando rolei para cima de uma pedra pontuda e gritei de dor, Alma Ember pensou, equivocadamente, que eu estava expressando meu prazer e continuou a se mexer sobre mim, fazendo com que eu encostasse ainda mais na ponta da pedra que estava quase na minha espinha. Por fim, tive que fazer a única coisa em que consegui pensar, e, reunindo toda minha força, levantei Alma Ember e a joguei para trás, na água. Fiquei de pé, levei a mão às costas e trouxe à frente uma mão cheia de sangue. Alma começou a dizer coisas como “Seu idiota” e “Que diabos está fazendo?” até perceber o sangue na minha mão e eu me virar para mostrar a ela o corte profundo.
Um telefonema bem embaraçoso para os meus pais, uma ida ao hospital, sete pontos e duas horas e meia depois eu me vi sentado na cama de Alma Ember. Estava completamente nu, usando apenas meias de dedos dourados e um colar de crucifixo que encontrara no quarto de meu irmão. Alma Ember vestia menos que isso. Depois de me mostrar o que aprendera sendo uma boa esposa — palavras dela, não minhas —, adormeci sob o olhar atento de mais ou menos uma dúzia de bonecas de porcelana.
Quando alguém acorda sozinho na casa dos pais de uma mulher parcialmente casada, com a mãe dela passando o aspirador no carpete e sorrindo, pensa em se transformar em um líquido, vazar da cama, entrar nas frestas do chão e desaparecer. Quando nota que está muito nu e coberto apenas por um lençol fino, fecha bem os olhos e pede a Deus que um tornado arrase a casa e leve a mulher embora, para que possa sair e chegar ao turno da tarde no trabalho. A mãe de Alma começa a assoviar enquanto passa o aspirador ao lado de onde ele está descansando, e então desliga o aparelho com o pé. Olha para Cullen Witter quando ele olha para ela com medo e vergonha. Ela se abaixa, beija sua testa e continua passando o aspirador até sair do quarto, ainda assoviando a mesma música.
— Como foi? — perguntou Lucas Cader ao se aproximar do balcão da Handy Stop naquela tarde.
— Não seja pervertido — respondi.
— Não acredito que você foi lá de repente. Louco.
— Eu sei. Eu estava entediado.
— Não diria entediado, mas um pouco...
— Não diga isso, Lucas — retruquei. Mas ele disse mesmo assim antes de sair do balcão e pegar um pacote de Doritos.
— Deveríamos ir àquela reunião na cidade amanhã — declarou ele, com a boca cheia de salgadinhos.
— Por quê? Nem encontraram a porcaria ainda.
— Porque sim. É uma coisa que tá rolando. Tem um evento em Lily. Nós temos que ir.
— Você pode ir. Não vou conseguir ficar perto daquelas pessoas. Serão muitas caras de “sinto muito”.
— Vamos. Você não quer conhecer o famoso John Barling? — Lucas perguntou, com sarcasmo.
— Ah, claro. Eu queria saber se ele assinaria meu caderno de autógrafos imaginários, com sua caneta imaginária, do escritório de onde ele escreve matérias sobre pássaros imaginários — debochei.
— Podia ser real, não acha?
— Acho que não me importo. Estou cansado de ver cartazes desse pássaro no lugar de cartazes do meu irmão. Estou cansado de ler matérias sobre esse pássaro em vez de ver matérias sobre o meu irmão. E estou cansado de escutar a voz de John Barling no rádio e ver a cara dele na televisão quando ele está falando sobre aquele pássaro em vez de falar sobre o meu irmão.
— Merda — disse Lucas Cader, baixinho.
— Merda mesmo — respondi.
Título de livro número 77: Rezando para que ocorram tornados.