Quando Tudo Volta
19. UMA viagem EXTRAVAGANTE
UMA viagem EXTRAVAGANTE
Decidi que Lucas Cader era meu herói por ter agredido John Barling,
ainda que, na verdade, ele fosse apenas um cara triste à procura de fama e fortuna. Além disso, Barling levara todas aquelas bobagens à cidade, bobagens essas que eu sentia serem desnecessárias e das quais não me esqueceria tão cedo. A julgar por seu ferimento de batalha, acho que Lucas também não se esqueceria. Mena me disse, certa noite, depois de tudo, que Lucas precisou ser tirado do palco e teve sorte de não ter sido processado por agressão. Não consegui acreditar. Sei lá, Lucas Cader batendo no cara do pássaro. Era quase tão louco quanto ser um caçador de pássaros na cidade, para começo de conversa.
— Sua camisa é legal — Mena me disse quando nós três fomos ao Burke’s, certa tarde.
— É do Gabriel. Andei roubando umas roupas do armário dele — declarei.
— Ah, eu sabia que você não era tão estiloso — ela brincou, me dando um soquinho no braço.
— Sou mais legal que o seu namorado machucado — respondi.
— E aí, idiota, que... — disse Lucas, dando um tapa em meu braço com as costas da mão.
— Não comece a me bater, Capitão Ahab, só estou brincando — eu disse, rindo.
Por algum motivo, o Sr. Burke, que, claro, era dono da Burke’s Burger Box, pensou que, como meu irmão havia desaparecido, podia me ajudar dando hambúrgueres de graça. Então, e foi apenas a segunda vez, ele se aproximou de nossa mesa, reclinou-se e sussurrou que não pagaríamos a conta. Agradecemos a ele, não fizemos perguntas e rolei os olhos para Lucas e Mena quando ele se afastou. O que percebi naquele verão foi que as pessoas, em geral, não fazem ideia de como reagir a situações estranhas como aquela na qual minha família estava. As pessoas simplesmente não pareciam saber como ajudar ou o que dizer, ou até o que não dizer. Tentavam nos dar coisas, oferecer conselhos e colocar livros diferentes em nossa caixa de correspondência. E também havia aqueles que nos evitavam. Eram as pessoas que mais me incomodavam. Eram aquelas que, assim que entrávamos em algum lugar, se esforçavam para não olhar para nós; que se escondiam atrás de um corredor de alimentos ou fingiam não nos notar. Eu não conseguia entender como aquelas pessoas justificavam evitar não apenas a mim, mas a família toda. Minha mãe dizia que as pessoas não gostavam da situação desconfortável de falar conosco. Eu dizia que isso era bobagem. As pessoas não gostavam de ter que pensar em algo inteligente, útil ou sensível a dizer, e não eram inteligentes o bastante para perceber que nós só queríamos, que eu só queria ser tratado como fora três meses antes. Queria ser ignorado por causa de minhas excentricidades, não por causa de meu irmão. E queria receber ajuda das pessoas porque elas se importavam comigo, não porque se sentiam obrigadas a me ajudar. Queria que o mundo se sentasse, prestasse atenção e me deixasse explicar que, quando alguém está se sentindo triste ou desesperançado, a última coisa que precisa sentir é que é a única pessoa no mundo se sentindo assim. Então, se sente pena de alguém, não finja estar feliz. Não finja se importar apenas com os problemas dele. As pessoas não são idiotas. Pelo menos, não todas. Se o irmão mais novo de alguém desaparece, não lhe dê um hambúrguer de graça para que ele se sinta bem — não funciona. É um bom hambúrguer, claro, porém não quer dizer nada. Diz alguma coisa apenas para os Srs. Burkes do mundo. Mas as pessoas fazem essas coisas. Fizeram o verão todo. Ofereciam refeições gratuitas, hospedagem gratuita em hotéis da Flórida e até serviços de encanamento gratuitos. E nós deixávamos. Deixávamos porque elas precisavam disso, não nós. Não deixávamos que elas nos ajudassem porque precisávamos, mas porque existe uma coisa nos seres humanos, uma necessidade inominada de se sentir útil. De sentir que temos algo significativo com que contribuir. Então, senhoras, façam seus ensopados e os coloquem na porta de casa. E, senhores, assem seus hambúrgueres e entreguem-nos aos adolescentes com visões hipócritas do mundo. O mundo não pode ser satisfeito, porém essa necessidade de consertar tudo pode.
Título de livro número 87: Sozinho no mundo com esse sentimento.
O Dr. Webb diz que, se Lucas Cader não tivesse conhecido minha família, poderia ter vivido a mesma vida desordenada na qual viviam seu pai e seu irmão. E eu pensei exatamente nisso, certa noite, enquanto Lucas e eu jogávamos basquete no escuro, do lado de fora da minha garagem. Pensei em como eu era péssimo em basquete e em como Lucas Cader parecia acostumado a ignorar isso e continuar jogando comigo.
— Decidi que provavelmente vou me casar com Mena — disse ele, fazendo um lançamento.
— É mesmo? — perguntei.
— Parece adequado, você não acha?
— Na verdade, acho, sim — respondi, pegando a bola da grama.
— E você, Cullen, vai ser o padrinho, claro. — Ele riu.
— Mas é claro que sim — respondi.
— E, quando tivermos filhos, bem, você sabe quem será o padrinho — falou Lucas, me driblando.
— Bom, pode ser o Cullen Witter? — perguntei, apontando para mim.
— Não. Gabriel é mais responsável que você. Mas tenho certeza de que ele vai deixar você ajudar — disse Lucas, lançando a bola.
Fiquei parado em silêncio. Com tamanha confiança e sem qualquer desconforto, Lucas mencionara meu irmão como se ele estivesse, simplesmente, dentro de casa ouvindo música, assistindo à televisão ou compondo. Eu me sentei no chão e me apoiei nas duas mãos, olhando para o céu. E, apesar de não haver nenhuma estrela à vista, sorri. Sorri e imaginei meu irmão segurando um bebê no colo. Cantando uma canção infantil. Dançando como um bobo.
Na manhã seguinte, sentindo-me um pouco culpado por ter expulsado Lucas de nossa casa e, assim, feito com que ele abordasse um ornitólogo para provar sua lealdade à nossa família, sugeri que descêssemos ao rio White e pegássemos um dos famosos barcos Lázaro de Merle.
— Está brincando? — perguntou Lucas, desviando o olhar da tigela de cereal.
— Não estou, não. Vamos, vai ser divertido — falei, inclinando-me para calçar meus sapatos.
— Isso é algum truque? Vai jogar meu corpo no rio, Cullen? — perguntou ele, em tom de brincadeira.
— Sim. Mas não hoje. Hoje vamos nos unir ao famoso guia turístico Merle Hodge em uma viagem extravagante pelas águas do Arkansas para procurar o famoso pica-pau Lázaro. — Levantei as mãos de modo dramático enquanto falava.
— Bom, vai ser interessante ver o que um pescador revela sobre um pica-pau que ninguém vê há sessenta anos — respondeu Lucas.
— Não vai? — Eu me levantei da cadeira e segui em direção à porta.
Eis o motivo pelo qual Merle Hodge tornara-se o único funcionário do Famoso Passeio de Barco Lázaro: ele era o proprietário e único funcionário do Famoso Barco de Pesca Merle. Até o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos declarar que a área toda ao redor de Lily se tornaria parte do Refúgio Nacional de Vida Selvagem do rio Cache. Ao fazer isso, caçadores e pescadores de todas as partes tinham perdido a terra e a água que procuravam e na qual acampavam e destruído parte de suas vidas. Isso talvez tenha causado a maior revolta pública contra o pica-pau Lázaro, com matérias sendo publicadas no jornal todas as semanas para criticar John Barling e seu bando de amigos observadores de pássaros. Houve até boatos de reuniões secretas de um grupo chamado Odiadores de Pássaros Unidos. Eu pensara seriamente em participar de uma delas.
Acontece que um passeio de luxo, all inclusive, pelo Refúgio custa vinte e cinco dólares por pessoa e dura menos de três horas. Cada um de nós partiu em um caiaque, com roupas camufladas e acolchoadas.
Quando alguém está em um passeio de barco há uma hora e quinze minutos e percebe que sabe tanto, se não mais, a respeito da área quanto seu guia turístico, ele começa a olhar para a água clara e fria e concentra a atenção na maneira como o sol do meio-dia está se refletindo no fundo do rio. Então, quando escuta Merle Hodge dizer alguma bobagem sobre o pica-pau Lázaro e cometer quatro ou cinco erros gramaticais, imagina Gabriel Witter ao lado dele, batendo o remo no caiaque do irmão mais velho, lançando um olhar do tipo “não ria desse pobre-coitado”. Aí, quando estica a mão para puxar o irmão mais novo mais para perto, para ver se ele é real, imagina uma sombra escura cobrindo-os totalmente. Olha para o alto para ver, lá no céu e bloqueando o sol por completo, o pica-pau Lázaro há muito perdido, com as asas abertas e o bico voltado para cima, quase bicando o azul celestial. Volta a olhar para baixo e vê que o irmão não está mais ali. Não está mais ali para impedir que ele ridicularize Merle Hodge ou faça algum comentário sabichão sobre pica-paus. Não o impede quando ele pensa em fazer ao guia turístico uma pergunta impossível de ser respondida ou quando pensa em fingir ter visto um pássaro grande a distância. Ele não está mais ali para dar a Cullen Witter chances sem-fim de se sair melhor.
— Você acha que eles o encontrarão? — perguntei a Lucas enquanto dirigíamos para casa naquela noite.
— Sei que encontrarão — disse Lucas, com confiança.
— Está falando sério quando diz isso? Você acredita mesmo nisso, não é?
— Acredito, sim, Cullen — disse Lucas, de modo direto, com o olhar na estrada à frente.
Título de livro número 88: Uma canção infantil.