Quando Tudo Volta

John Corey Whaley · Capítulo 8 de 21

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Quando Tudo Volta

8. A TORRE DA Terra

A TORRE DA Terra

 

 

Naquele mês de agosto, quando Benton entrou em seu dormitório na

Universidade de Atlanta, respirou fundo, fechou os olhos e se deitou na cama nova. Então, ouviu a descarga no banheiro e, quando a porta se abriu, sentou-se para ver quem estava ali. Diante dele estava um rapaz alto, esguio e musculoso, com aproximadamente a sua idade e cabelos castanhos muito bem penteados, olhos intensos e atitude séria.

— Você é Benton Sage? — perguntou ele.

— Sim — disse Benton, levantando-se e estendendo a mão. — Prazer em conhecê-lo.

— Cabot Searcy. Prazer em conhecê-lo também, Benton — respondeu ele, e o olhar sério se desfez.

— Está aqui há muito tempo? — indagou Benton.

— Tempo suficiente para me perder algumas vezes — retrucou o rapaz, sentando-se na cama.

Os dois riram e conversaram por um tempo, até que decidiram caminhar pelos arredores para conhecer alguns de seus vizinhos. Dez minutos depois, encontraram uma estudante de francês chamada Lucy, um estudante de jornalismo chamado Thomas e duas meninas da irmandade cujos cursos não ficaram claros. De volta ao quarto, os dois começaram a desfazer as malas e, em pouco tempo, estavam prontos para dormir.

— Amanhã o dia será corrido — disse Cabot de sua cama, com o quarto totalmente escuro.

— É. Fiquei sabendo que esse lance de orientação não termina nunca — comentou Benton.

— Você não me disse o que vai fazer com seu diploma em Inglês — disse Cabot.

— Ah, vou ser escritor — declarou Benton pela primeira vez.

— Legal. Estou estudando filosofia, porque, bom, vou mudar o mundo.

Benton Sage considerava a faculdade menos interessante que o colégio só porque as meninas pareciam mais abertas e bebiam mais, e os caras pareciam preocupados demais com seus corpos, sempre levantando peso ou falando sobre musculação, e olhavam para seus bíceps no meio da aula de história, sem que ninguém percebesse.

— Não preciso de músculos — afirmou Benton a Cabot Searcy certo dia, durante o almoço.

— Por quê?

— Porque os escritores nunca têm que bater em ninguém nem levantar pesos. Pelo menos eu acho que não — justificou ele, brincando.

— Acho que você está certo. Mas não perturbe ninguém com seus livros — disse Cabot, rindo.

Cabot Searcy tinha o tipo de confiança que tornava difícil a quem estivesse por perto prestar atenção a qualquer outra coisa. Quando começava a falar, a sala toda se concentrava nele. Quando ria, a sala toda começava a rir. Quando parecia irritado, a sala toda franzia o cenho. E as meninas, bem, elas praticamente faziam fila na porta do quarto de Cabot e Benton, esperando a vez de serem tocadas por sua excelência. Benton, por outro lado, nunca tinha chamado nenhuma menina para sair e passava grande parte do tempo na biblioteca ou na cafeteria, sempre lendo. Certa noite, quando Cabot Searcy voltou de um encontro, olhou para Benton, que estava lendo um romance enorme, e começou a conversar. Benton, claro, escutou no mesmo instante.

— Você não gosta de meninas — disse Cabot, com seriedade.

— O quê? — perguntou Benton.

— Se você for gay, tudo bem. Meu primo é gay. Não me incomoda.

— Não sou gay — respondeu Benton, sentando-se na cama.

— É sério. Tudo bem. É só dizer.

— Cabot, cale a boca.

— Certo. Tudo bem. Então, por que você fica no quarto todas as noites em vez de sair para se divertir?

— Não sinto vontade de ir a lugar algum. Só quero ficar estudando.

— Que chato — concluiu Cabot, balançando a cabeça, demonstrando preocupação genuína.

— Não é. Talvez você devesse estudar mais — retrucou Benton, apagando o abajur e voltando a se deitar.

Não foi Benton Sage que ficou incomodado com a conversa naquela noite. Cabot Searcy, olhando fixamente para o teto e tentando adormecer, ficou pensando em quantas vezes havia dormido durante a aula naquele semestre e em quantas pessoas havia contratado para fazer seus trabalhos. Não conseguia parar de pensar nas duas aulas das quais já tinha saído ou do trabalho de geologia no qual fora reprovado. Então, em uma aula de inglês no dia seguinte, Cabot Searcy sentou-se em sua cadeira, com os olhos grudados na lousa, os ouvidos atentos à aula, os dedos folheando o livro em busca de detalhes. Destacava todas as linhas importantes. Marcava todas as páginas de referência. Fazia anotações nas margens. Cabot Searcy começou a se preocupar em aprender não para conseguir boas notas, mas porque ainda queria mudar o mundo.

— Passei. Acredita nisso? — perguntou Cabot a Benton no último dia do semestre.

— É mesmo? — indagou Benton.

— Sim. Meus pais vão adorar. Tanto estudo valeu a pena?

— Não. Preciso refazer duas matérias — respondeu Benton.

— Ah — disse Cabot, por não ter mais nada a dizer.

Enquanto a maioria das pessoas estava em casa visitando a família durante o recesso de Natal, Benton Sage decidiu ficar e começar a escrever o que seria seu primeiro romance. Cabot Searcy, pegando suas coisas, disse a Benton que ele podia ir a Vidalia com ele durante a semana. No entanto, Benton disse que aproveitaria o silêncio para fazer algumas coisas e colocar a cabeça em ordem. Benton Sage, depois de escrever apenas uma página em quatro dias, comemorou o Natal assistindo a uma reprise de Anos Incríveis e comendo uma barra de chocolate.

Quando telefonou para casa para falar com a mãe, ninguém atendeu. Ao se lembrar das irmãs cantando “Noite Feliz” na noite de Natal, chorou. Benton Sage não acreditava mais no Natal, porque achava que Deus o havia enganado. Tentara ajudar o mundo, mas o mundo não permitira. Naquela noite, quando os sinos da igreja começaram a tocar na Primeira Igreja Batista na rua Washington, Benton subia a escada para a torre do sino. Quando o décimo segundo sino tocou, Benton sentiu o vento no rosto, os braços esticados ao lado do corpo. Ouviu a cantoria baixa de músicas de Natal. Seus pulmões puxaram o ar frio pela última vez, e seu corpo se tornou parte da terra.