Quando Tudo Volta
4. O LIVRO de Enoque
O LIVRO de Enoque
Depois de cerca de duas semanas viajando, Benton Sage estava
começando a se acostumar com a rotina de entregar alimentos, água e Cristo com o máximo de rapidez e eficiência. Conversara com sua família apenas uma vez desde sua partida de Atlanta e fora o suficiente para dizer a ela que acreditava estar realizando a missão de Deus. Ao fazer isso, contara sua primeira mentira. Passava a noite acordado, lendo as Escrituras sem parar, procurando, em sua mente, um sentido para as palavras que ele dizia e pregava constantemente. Rameel, certa noite, sentando-se no saco de dormir, olhou para Benton e disse, com a voz sonolenta:
— Você está sempre com Deus, Been-tone.
— Estou tentando entender uma coisa — afirmou Benton.
— O que é?
— Está em Hebreus. Está escrito: “Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?”.
— E? — Rameel se ajeitou.
— Sempre achei que era Deus dizendo que deveríamos ir salvar as pessoas.
— E você duvida disso agora? — perguntou Rameel.
— Não. Duvido que eu esteja ajudando Deus a não ser oferecendo alimento e água. Sinto que não estamos fazendo nada além de ler algumas escrituras e seguir em frente.
— Estamos, Been-tone. Estamos tentando dar alimento a essas pessoas. E água. E, sim, estamos tentando apresentar Deus a elas. Mas, veja, não são exatamente as coisas que dizemos a elas sobre Cristo, mas o que fazemos por elas, que espelha as atitudes de Cristo.
— E como elas saberão como adorá-lo? Como saberão onde procurar a salvação? — O tom de voz de Benton demonstrava frustração.
— Elas saberão que tem alguém cuidando delas. E o restante depende de Deus.
No dia seguinte, Benton Sage pensou muito sobre o que Rameel havia dito. Viu uma criança beber de um jarro de água e molhar os lábios secos pelo sol. Escutou a mãe começar a murmurar e a cantar uma canção, e observou a família toda cantar junto. Viu os garotos brincando com uma bola de futebol perto de uma plantação de trigo, uma área que Rameel ajudara a plantar. Escutou Rameel rindo com uma pequena família em seu casebre enquanto mostrava a ela fotos de sua igreja e de sua própria família, contando histórias e cantando. Benton Sage sentou-se sozinho do lado de fora da choupana e escreveu uma carta para sua casa:
Caro Reverendo Hughes,
Não tenho certeza de que este é o lugar certo para mim. Sinto que meus talentos poderiam ser mais bem
aproveitados em outro lugar, algum lugar cujo idioma eu consiga falar, em que eu consiga pregar, em vez de ficar por aí realizando tarefas. Compreendo que Deus me chamou aqui por algum motivo, mas, ou não estou pronto para receber essa mensagem ainda, ou cometemos um erro. Você sempre diz que devo confiar no Senhor, pois ele me dará uma resposta, por isso esperarei sua resposta e continuarei a fazer o que devo fazer aqui, pelo Senhor, e certamente ele ouvirá meus apelos.
Atenciosamente,
Benton Ezekiel Sage
Benton conseguiu postar a carta em Adis Abeba, a capital, e colocou o endereço da igreja de Rameel como remetente. Disseram-lhe que uma carta para os Estados Unidos demoraria entre três e cinco semanas para chegar ao destino. Ele esperou pacientemente e continuou a trabalhar com Rameel, de quem se tornou mais próximo à medida que as semanas passaram. Soube que Rameel era casado com uma britânica chamada Isadora, e que eles tinham dois filhos: Ezra, a filha, e Micah, o filho. Soube que Rameel estudara em Londres, onde aprendeu inglês, e conhecera Isadora em uma aula de literatura no último semestre.
— Foi como olhar para o sol e não ficar cego — disse Rameel sobre a primeira vez em que vira Isadora.
— Ela era tão linda assim? — perguntou Benton.
— Been-tone, o rosto de minha família brilha como a luz de Deus.
Certa manhã, quase dois meses depois, Rameel entrou em um cômodo pequeno onde Benton ficava entre uma viagem e outra pelo país. O quarto tinha vista para um jardim de oração que Rameel planejara e construíra para a igreja. Benton olhou para Rameel, que parecia preocupado e segurava um envelope endereçado a ele. Benton o pegou das mãos do amigo, que saiu lentamente do quarto, e rasgou o papel com um pouco de hesitação. Ali dentro não havia uma carta de casa. Nenhum cartão parabenizando-o pelo aniversário feito na semana anterior. Nenhuma resposta do Reverendo Hughes. Dentro do envelope só havia uma passagem de avião.
Naquela noite, após Benton explicar que partiria em uma semana, Rameel olhou para as próprias mãos e de volta para Benton. Balançou a cabeça e começou a sussurrar, apesar de ambos serem os únicos na sala de jantar.
— Been-tone Sog. Sentiremos sua falta. Agradeço ao Senhor por seu tempo aqui comigo. Que ele volte sua luz a você todos os dias.
No dia seguinte, ficou decidido que, antes que Benton partisse, ele seria apresentado à família de Rameel, que morava em Londres, mas voltava a Adis Abeba durante os meses de verão. Rameel sorriu animado enquanto ambos se dirigiam a uma casa branca de dois andares, com um gramado tão verde e bem-cuidado que o sol, refletindo nele, fazia Benton semicerrar os olhos.
— A família de Isadora é muito abastada — disse Rameel, com humildade.
— Não é a sua casa? — perguntou Benton.
— Esta casa pertence à minha esposa. Fico aqui de vez em quando. — Rameel riu alto enquanto estacionava o carro.
Do lado de dentro, duas crianças correram e pularam nos braços do pai. Ele as pegou, levantou-as e as colocou de volta no chão. Elas riram muito, e seus rostos se iluminaram. Isadora, uma mulher caucasiana alta, magra e bronzeada, aproximou-se de Benton com a mão estendida.
— Você deve ser Benton Sage — disse ela, graciosa.
— Sim. E você deve ser Isadora.
— Prazer em conhecê-lo, Benton. Está gostando de ficar aqui?
— Muito — declarou Benton, contando a segunda mentira de sua vida.
Depois de Isadora mostrar a casa a Benton e apresentá-lo às crianças, que acharam graça em ficar repetindo “BEEN-TONE SOG!” aos berros, todos se sentaram para jantar. Benton fez o melhor que pôde para engolir a comida, preparada por um chef, mas ficou com nojo do bife malpassado e da sopa fria servida como entrada. Durante a sobremesa, uma musse de chocolate de que Benton gostou muito, Isadora começou a fazer perguntas a respeito dele, de sua família e de sua vida como missionário.
— Bem, esta é a minha primeira missão, na verdade. Ensinei um pouco das Escrituras em Nova Orleans, num verão. Você conhece Nova Orleans?
— Sim — respondeu Isadora. — Meu pai chama de Big Easy. É muito estranho?
— Não. É como a maioria das pessoas se refere a ela. Mas não faço ideia do que quer dizer — disse Benton, pensando no apelido.
— E você tem algum outro hábito além de ajudar pessoas, Benton? — Isadora continuou.
— Você se refere a esportes, coisas assim? — Benton perguntou, rindo.
— Como cantar ou escrever. Você pinta ou faz alguma coisa do tipo? Meu Micah é um ótimo pintor, e Ezra está aprendendo a tocar piano.
— Ah. Bem, sempre pensei que, se o Senhor não fez, então não precisa ser feito. Por isso eu meio que me dediquei às Escrituras. Nunca pensei em ser artista nem nada assim. Acho que isso me distrairia — explicou Benton.
— Bem, então talvez devêssemos chamá-lo de Gabriel. Hein, Rameel? — Isadora riu.
— Sim, Gabriel, a Mão Esquerda de Deus — disse Rameel, erguendo o copo de água em direção a Benton e bebendo um gole.
— Não entendo — declarou Benton, sentindo-se confuso e deslocado.
— Gabriel, o anjo. Você o conhece? — perguntou Rameel.
— Claro.
— Ele mandou os Grigori para o inferno — disse Isadora.
— Os Grigori... os anjos caídos? — quis saber Benton, ajeitando-se na cadeira.
— Isso. Mas dizem que, se você ler o Livro de Enoque, saberá que ele fez isso porque os Grigori estavam ensinando coisas demais aos seres humanos, como astrologia e artes — Isadora explicou.
— O Livro de Enoque? — perguntou Benton.
— Sim. Não está na sua Bíblia. Só naquela — Rameel apontou para a estante atrás dele, onde havia uma edição volumosa e de capa de couro da Bíblia Ortodoxa Etíope.
— Eles foram mandados para o inferno por toda a eternidade porque não paravam de atrapalhar os seres humanos na Terra. Eram abelhudos, então Deus, por intermédio de Gabriel, matou os filhos deles e os mandou para o inferno — Isadora explicou, de maneira casual.
— Eles tinham filhos? — perguntou Benton.
— Os néfilins — disse Rameel, em voz baixa.
— Eles eram gigantes. Gabriel matou todos eles e fez com que seus pais assistissem a tudo — afirmou Isadora, tomando um gole de água em seguida.