Quando Tudo Volta
15. Tia JÚLIA e o AMOR
Tia JÚLIA e o AMOR
Minha mãe nasceu dez minutos antes de minha tia Júlia, que parecia ter
se tornado um tipo de ermitã naquele verão, porque raramente saía de casa e, de acordo com minha mãe, “fedia demais”. Antes, quando Oslo não estava morto e Gabriel provavelmente não estava morto, tia Júlia ia para a cozinha, sem ser convidada, para conversar com minha mãe, enquanto meu pai revirava os olhos e meu irmão e eu tentávamos ficar escondidos em nossos quartos. Antes, ela teria levado biscoitos caseiros e uma tigela de canja de galinha fria para meu pai, com explicações claras sobre como aquecê-la de modo adequado. Teria falado, falado e falado, principalmente a respeito de pessoas que não conhecíamos, e, caso fizéssemos uma pergunta, nos interrompia de imediato e dava continuidade a suas ideias.
Em uma dessa visitas, quando eu tinha cerca de 15 anos, aconteceu uma conversa que foi mais ou menos assim:
— Cullen — minha mãe me disse enquanto tia Júlia saía da frente de nossa casa.
— Sim?
— Você viu o que acabou de acontecer aqui? — perguntou ela.
— Não.
— Veja, querido. Sua mãe é muito esperta. Finalmente aprendi a calar a boca dessa mulher — disse ela, apontando para o carro de tia Júlia, que descia a rua.
— Como? — indaguei.
— Bom, não é muito difícil. É preciso saber o momento certo, na verdade.
— E qual é, mãe?
— Você só precisa esperar por uma pausa repentina, o que sabe que é difícil quando tia Júlia começa a desembestar, e então abre a boca e não para de falar, independentemente do que acontecer.
— Mas o que devemos dizer? — perguntei.
— Qualquer coisa. Mas tente falar sobre algo que não envolva sua tia. Como a escola ou o programa de TV ao qual acabou de assistir. Desde que você fale por alguns minutos sem permitir que ela tenha a oportunidade de dizer qualquer coisa que seja.
— E depois, o que acontece?
— Bom, então, de repente, sua tia se sobressalta e se lembra de que precisa estar em algum lugar ou se encontrar com alguém que prometeu visitar. É grosseiro, você deve estar pensando, mas é a única maneira.
Agora, sem Oslo, minha mãe passara a visitar a irmã todos os dias, em geral depois que saía do salão, e, na maior parte das vezes, levava um sanduíche ou hambúrguer para tia Júlia, sabendo que ela provavelmente passara o dia todo sem comer. Em um sábado, um dia em que eu surpreendentemente não tinha sido escalado para trabalhar na loja, minha mãe telefonou para casa e eu atendi.
— Alô?
— Cullen?
— Oi, mãe.
— Pode me fazer um favor?
— Acho que sim. Não preciso ir a lugar nenhum, preciso?
— Só queria que você fosse ao Burke’s ou algum lugar do tipo, comprasse um cheesebúrguer e umas batatas fritas e os levasse à casa de sua tia. Pode fazer isso por mim?
— Você não pode fazer isso no caminho para casa? — perguntei.
— Estou bem ocupada aqui. Sei que ela provavelmente está esperando uma refeição. Por favor, vá.
— Tudo bem.
— Ótimo. Amo você.
— Eu também.
Clique.
Não consegui convencer Lucas, que sentia um medo estranho de minha tia, a ir comigo à casa dela, e, como eu tinha um medo estranho de acordar as pessoas, decidi não mexer com meu pai, que adormecera no sofá assistindo ao programa Roda da Fortuna, no qual ele não era bom de jeito nenhum. Então, cuidadosamente, peguei as chaves dele da mesa de canto e atravessei a sala de estar na ponta dos pés até sair pela porta. Detestava dirigir a picape larga demais dele, que dava a impressão de que eu estava dirigindo nas duas faixas da estrada ao mesmo tempo. Passei no Burke’s, comprei um Número Três com fritas para tia Júlia e fui em direção à sua casa.
Tia Júlia estava usando uma camisola de seda, e eu a segui para dentro da sala de jantar enquanto pensava se aquela camisola já tinha sido de minha falecida avó. Ela se sentou à mesa, e eu me sentei ao seu lado, observando-a devorar o cheesebúrguer como um leão devorando uma zebra. Olhei para as paredes cobertas por ripas de madeira, para as cortinas de tom rosa-claro, para a estátua de coruja dourada que ela mantinha no canto. Balancei-me devagar da esquerda para a direita na cadeira e fingi que o pássaro falso que fazia barulho quando o relógio marcava as seis horas não tinha me assustado.
— Quer um pouco de batata frita? — ela perguntou, com a boca cheia de comida.
— Não, obrigado. Já comi.
— Acho que não consigo comer tudo isso.
— Bem, não precisa; é só jogar fora — eu disse.
— Não, seria bobagem. Tome, coma um pouco. — Ela empurrou as fritas na minha direção.
— Não, estou bem. Sem fome.
— Coma uma droga de batata frita, Cullen! — ela gritou, então peguei a batata frita e enfiei na boca.
Tia Júlia me observou com atenção enquanto eu continuava comendo. Eu não disse nada, porque é o que faço quando alguém grita comigo, e fiquei pensando se ela iria fazer aquilo de novo. Continuei pegando uma batata atrás da outra e enfiando-as na boca, mastigando devagar, mas não devagar demais, olhando para a superfície lustrosa de madeira. Então, senti a mão dela pesada sobre a minha, e, quando olhei para a frente, vi que ela sorria. Sorri também. Tia Júlia levantou-se, atravessou a sala de estar e foi para seu quarto. Esperei ali por cerca de dez minutos, e, quando estava prestes a ir embora, tia Júlia voltou à sala.
— Cullen, sabe, não está certo ficarmos apodrecendo aqui.
— O quê? — perguntei.
— Nós. Eu, você, sua mãe, seu pai. Estamos todos aqui, e somos todos boas pessoas. Todos nós vivemos nossa vida e não fazemos mal a ninguém. E estamos aqui, largados neste lugar horrível chamado Terra, para fazer o quê? — Ela parou e olhou para mim.
— É uma pergunta retórica ou quer que eu responda?
— Ficarmos sentados aqui apodrecendo como se fôssemos animais. Todo mundo espera que finjamos que está tudo bem e que tudo vai ficar bem. Bom, não está tudo bem. Nada mais está bem. Odeio esta casa. Odeio esta cidade. Odeio o maldito carteiro que sempre espia pela janela da frente! — Ela esticou o pescoço na direção da varanda.
— Tia Júlia, por favor — eu disse, com calma.
— Por favor o quê?
— Por favor, sente-se por um minuto — eu pedi a ela, aproximando-me e passando um braço pelos ombros dela.
— Consigo me virar sozinha, Cullen. Não sou velha. Estou de saco cheio.
— Eu sei. Eu sei.
Ficamos sentados um de frente para o outro, ela na espreguiçadeira e eu no sofá, no qual tenho certeza absoluta de que ela dormira por semanas. Tia Júlia tinha se vestido; colocou uma roupa bonita, uma saia e uma blusa de renda; e havia tentado passar maquiagem, apesar de ter ficado claro que fizera isso rapidamente — sua tentativa de fazer com que eu me sentisse mais à vontade. Eu me endireitei no sofá, apoiei os cotovelos nos joelhos. Olhei para minha tia e me lembrei de que ela já tinha sido bonita.
— Por que você não vem passar um tempo conosco? — perguntei a ela.
— Porque vocês já têm bastante coisas com as quais lidar.
— Não seria um problema — eu disse.
— Seria para mim, está bem? — disse ela.
— Bem, você passou por muita coisa, e faz sentido que não fique aqui sozinha, só isso.
— Cullen, independentemente do que eu faça, sempre estarei sozinha. Um marido morto, um filho morto. E eu. A velha Júlia — ela começou a dizer mais alto —, a rainha de Sherwood Drive!
— Está tomando remédios? — perguntei de modo direto, e foi a primeira vez que tive coragem.
— Querido, tenho mais remédios em mim do que tem um frasco de detergente líquido. — Ela riu, e bem alto, devo dizer.
— Gabriel dizia que você é a melhor cozinheira do mundo, sabia? — eu falei.
— É mesmo? — Ela olhou para o chão.
— Sim. Costumávamos brigar pelos seus biscoitos. E papai sempre vinha e dizia: “Pronto, pronto, a única maneira de resolver isso é deixando que eu coma o último”, e então ele o pegava antes que eu pudesse impedi-lo. — Eu ri.
— É mesmo? — perguntou ela.
— Sim. Tem cozinhado muito ultimamente? — indaguei, sabendo a resposta.
— Cullen, parece que tenho cozinhado muito ultimamente?
— Não muito.
— Então, por que a pergunta?
— Bem, por que não volta para a cozinha, então? — eu disse, com entusiasmo forçado.
— Esqueci como se faz. Já tem muito tempo. Acho que preciso me aprontar para dormir, e talvez você possa acender aquela luz ali quando sair. — Apontou para o interruptor da cozinha.
— Vai telefonar se precisar de alguma coisa? — perguntei.
— Vou, querido.
Eu nunca tinha sentido vontade de abraçar minha tia, contudo algo me fez fazer isso, a mesma coisa que faz as pessoas segurarem portas para senhoras no mercado ou parar e deixar as pessoas atravessarem a rua; coisas que pareciam comuns e impessoais a quem as fazia, mas que tinham importância enorme para quem as recebia. Eu a abracei e a mantive junto ao peito. A sala estava muito silenciosa, eu me lembro porque conseguia ouvir a respiração de tia Júlia. Quando saí, ela ficou me observando da sala de estar, com os braços soltos ao lado do corpo, os ombros encolhidos, o rosto apenas meio vivo.
Título de livro número 83: O carteiro sempre espia duas vezes.
Lucas Cader entrou em meu quarto e se sentou ao meu lado no chão, na tarde do dia seguinte em que minha tia Júlia me forçou a comer batatas fritas. Ele sorria, mas não o tipo de sorriso que costumava abrir antes de Gabriel partir. Era o tipo de alegria forçada, na qual todos nós parecíamos estar ficando bons.
— O que foi? — perguntei, finalmente.
— Tenho boas notícias da cidade.
— Quais?
— Eles tiraram uma foto do pássaro hoje de manhã.
— Não acredito — eu disse, quase interessado de verdade.
— É, sim. John Barling, aquele filho da puta, foi embora antes de amanhecer e jura, para quem quiser ouvir, que tem uma foto do pica-pau Lázaro, vivinho da silva.
— Caramba, Lucas. Parem as máquinas, o mundo vai voltar ao normal! — eu falei brincando, então fiquei em pé e dei um tapinha em meu joelho.
— Fiquei sabendo que vão mostrá-lo no festival semana que vem — comentou Lucas, e também ficou de pé.
— Festival?
— Ah, não me diga que você não soube do Festival do Pica-pau de Lily! — Lucas gritou, dando um tapa nas minhas costas.
— Você só pode estar...
— Não. Estou falando mais sério do que nunca. Está no jornal, Cullen. Você sai do quarto alguma hora do dia?
— Não mais.
— Vai trabalhar hoje?
— Pedi demissão.
— Você o quê? — Lucas sentou-se em minha cama.
— Telefonei para o Ted hoje e disse que queria parar.
— Ele ficou bravo? — perguntou Lucas.
— Não. Só disse “Eu entendo, filho. Você tem passado por muitas coisas ultimamente”, e coisas do tipo.
— E sua mãe? E seu pai?
— Eles estão preocupados demais para perceber. Vamos deixar as coisas assim, tudo bem?
— Tudo bem, mas por que você parou? — perguntou ele.
— Porque cada pessoa que entra na loja não é meu irmão, e eu não suporto mais olhar para a frente sempre que a porta faz ding e me decepcionar.
— Ah. Certo. Bem, e agora?
— E agora? Vou ficar neste quarto até alguém mais bonito que você vir me buscar — eu disse, meio na brincadeira.
— Está se referindo a Ada, certo?
— Isso.
— Ela está no Russell — disse Lucas, meio nervoso.
— O Para Man?
— Pensei que você fosse parar de chamá-lo assim — disse ele, sério.
Todas as manhãs eu escutava, pela janela de meu quarto, o barulho que John Barling fazia ao bater na porta da frente dos Dumas, deixar a porta de tela se fechar (tap tap tap), e, alguns segundos depois, ligar sua caminhonete monstruosa e dar ré no caminho de pedra.
Fulton Dumas me contou, em um dia estranho no quintal, que John Barling estava dormindo no quarto de hóspedes havia duas semanas e meia. Também disse que Barling ficava acordado a noite toda, geralmente na cozinha, folheando livros, escutando as gravações de pios de pássaros e ditando suas anotações em um gravador portátil. Fulton disse que, se John Barling não encontrasse aquele pássaro em breve e partisse, ele mesmo cortaria a garganta de John enquanto estivesse dormindo.
— Por que esperar? — perguntei a ele, rindo.
— Minha mãe o considerava brilhante — respondeu ele. — Acho que ela quer que ele encontre a ave, apesar de detestá-lo no momento.
— Você o considera brilhante? — indaguei.
— Acho que ele deve ser a pessoa mais burra que conheci.
O Dr. Webb diz que pessoas como John Barling sempre procuram alguma coisa, independentemente de ser um pica-pau de setenta centímetros ou o sentido da vida; elas simplesmente nascem e permanecem incompletas. Quando pensei nisso por tempo suficiente, decidi que talvez todo mundo que eu conheci estava procurando algo de modos diferentes. Lucas Cader procurava o irmão morto em todo mundo que conhecia, menos em Gabriel e em mim. Tia Júlia procuraria, a partir de então, Oslo em todas as pessoas que encontrasse. Da mesma forma, imaginei que minha mãe e meu pai sempre procurariam Gabriel, no sentido literal e figurado. E eu, bem, eu ainda estava tentando descobrir quem eu era antes. Tentando descobrir por que dizia e fazia as coisas que dizia e fazia. Tentando entender por que chorei dez minutos depois de Lucas me contar que Ada estava na casa de Russell, porém não derramei nem uma lágrima quando meu primo morreu. Tentando entender por que eu tinha escrito quase noventa títulos, mas nem um único livro. Questionando por que eu não conseguia fazer uma maldita coisa que fosse para trazer meu irmão de volta, por mais que me sentasse e tentasse pensar em meios para isso.
Quando alguém está sentado no chão do quarto esperando por uma garota que pode nunca aparecer, começa a se lembrar da última vez em que foi à igreja com seu irmão mais novo. Ele se lembra de que, depois do sermão do Reverendo Well, a congregação começou a falar sobre o dinheiro que ainda faltava para completar várias e, em grande parte, desnecessárias reformas no prédio. Ele se lembra de ter rolado os olhos, olhado para a mãe, que estava fazendo o mesmo, e de ter cochichado no ouvido do irmão algo muito parecido com “Não deviam falar de dinheiro aqui”. E, então, ele lembra, quando algum idiota na igreja grita “dois mil”, que o irmão menor, sem qualquer hesitação, disse alto o suficiente para ser ouvido, mas sem gritar:
— Por que não damos esse dinheiro aos pobres?
Entrei na sala de estar e encontrei minha mãe sentada, sozinha, vendo um álbum de fotos como faria uma mulher com um filho desaparecido. Eu me sentei ao lado dela no sofá. Ela olhou para mim com um olhar do tipo “o que você quer me dizer que não quero ouvir?”, e comecei a falar.
— Por que você faz isso consigo mesma? — perguntei.
— Porque não há mais nada que eu possa fazer — respondeu ela, rapidamente, como se tivesse ensaiado em sua mente.
— São do Natal passado — eu disse, apontando para uma foto minha na frente da árvore de Natal.
— Não há muitas de Gabe — disse ela, séria.
— Ele não gosta de tirar fotos — contestei.
— Eu me lembro de quando entramos no quarto e tiramos foto dele dormindo, para que eu tivesse algo além da foto da escola para colocar na geladeira — comentou ela, rindo.
— Sim. Ele tentou me convencer, certa vez, de que as fotografias roubam parte de sua alma. Viu isso em algum documentário, ou algo assim.
— Esse é o Gabe — disse ela, balançando a cabeça —, sempre inventando alguma coisa para nos amedrontar.
— Faz oito semanas, mãe — eu disse.
— Parece muito mais, não é?
— Parece que faz oito anos — respondi, baixinho.
— Vamos comprar material escolar em breve — falou ela, com um suspiro.
Não vi Ada Taylor naquele dia nem no dia seguinte. Mas vi o carro dela estacionado na casa do Para Man, e vi vermelho quando fechei os olhos. Vi Lucas Cader tentando ao máximo me fazer rir enquanto passávamos por ali. Vi Mena Prescott me dizendo que eu estava melhor assim. Vi minha mãe e meu pai assistindo à televisão no quarto deles, usando pijama às três da tarde. Vi Fulton Dumas cortando a grama do jardim devagar, fones de ouvidos presos à cabeça, os cabelos arrepiados, os olhos vidrados de tédio.
O primeiro Festival anual do Pica-pau de Lily me deixou meio enojado. Só fui porque Lucas Cader me convenceu de que seria um modo infalível de ver Ada Taylor, que estava ficando cada vez mais habilidosa em me evitar e ignorar meus telefonemas. O festival aconteceu onde acontecem todas as coisas em Lily: no parque da cidade. Deixe-me fazer uma descrição do local: dois balanços. Um gira-gira. Três escorregadores, um de metal e dois de plástico. Uma gangorra possivelmente perigosa. Um trepa-trepa multicolorido. Muitas plantas e muita grama. E, melhor que tudo, um coreto hexagonal de treliças brancas e um campanário. Foi nesse parque que aprendi a não confiar em crianças com areia nas mãos e a não saltar de objetos quando desafiado.
Para o Festival do Pica-pau, trailers de metal foram trazidos de Harrison e agora pareciam fechar o parque em um círculo completo. No meio, perto do coreto, uma cerca de madeira separava quem passava dos cavalos que podiam ser alugados para passeios por cinco dólares e de um pequeno zoológico com bodes, veados e um bezerro preto e branco. À esquerda dos animais havia um trailer que se transformava em palco, onde, quando Lucas e eu chegamos, um monte de meninas jovens, cheias de glitter, se uniram e sapatearam juntas ao som de uma música sobre honkatonk, seja lá o que isso signifique. Dos dois lados do palco havia banners estreitos com desenhos grosseiros do Lázaro e as palavras LILY AMA O PÁSSARO.
A única coisa de que eu gostava nos festivais de cidade pequena era a comida. Mais especificamente, os enroladinhos de salsicha. Existe algo único em um enroladinho de salsicha de festa, uma combinação inegável de massa e óleo, de fome por andar no meio das pessoas, de ansiedade pela fila de quinze minutos. Mostarda? Não, obrigado. Gosto dos meus enroladinhos sem nada e dispostos de qualquer jeito em uma caixinha de papel. Gosto de ver quanto tempo demoro a me convencer a comer um segundo ou terceiro. Enquanto esperava na fila pelo enroladinho número dois, um menininho correu por mim com um cavalo de pau entre as pernas gritando: “Pra cima deles, caubói!”. Eu ri.
— Quando eu era menino, fazia muitos cavalos de pau — disse o homem atrás de mim, na minha direção.
— É mesmo? — perguntei, virando um pouco o corpo.
— Sim. Até conseguir um de verdade, e aí nunca mais foi a mesma coisa — alegou ele, rindo, encostando o cotovelo em meu ombro.
Gostaria de dizer a vocês que, em determinado momento, de repente eu me lembrei de quando Gabriel andava pela casa com um cavalo de pau, mas não seria verdade. Contudo, imaginei isso acontecendo enquanto esperava ali, olhando para o menino cujo suor escorria pelas têmporas, com uma das mãos erguidas, gritando sem parar e se afastando.
— Isso te deixa feliz por não ter filhos, hein? — disse o homem atrás de mim.
— É, acho que sim — respondi.
— Meu neto tem mais ou menos a sua idade. Você tem o quê? Quinze anos? — perguntou ele.
— Dezessete — respondi, inexpressivo.
— Ah, você parece mais novo. Que sorte. Continue assim. Um dia dará valor.
— Aposto que sim — eu disse antes de me virar para fazer o pedido.
Lucas Cader se aproximou de mim enquanto eu estava sentado nos degraus do coreto, terminando de comer meu enroladinho número dois e vendo o coral da igreja Batista se apresentando no palco. Ele se sentou ao meu lado, com um hambúrguer na mão.
— Não é tão ruim — disse ele.
— O quê?
— O Lázaro Burger.
— Santo Deus.
— Cala a boca. O Festival não está tão ruim, não é? — perguntou Lucas.
— Mas também não está muito bom — declarei.
— E aí, já a viu? — indagou ele.
— Ada? Não. E você?
— Não. Mas vi Russell. Ele está ali, perto da barraca de pintura de rosto. — Lucas apontou para o outro lado, para uma mesa cercada de crianças que havia sido montada pela minha igreja.
O Para Man estava em uma cadeira de rodas, preso a um tipo de máquina de oxigênio. O rosto estava inchado e inclinado para um lado, os olhos maiores do que eu me lembrava. A mãe estava atrás dele, segurando as alças da cadeira e a cabeça abaixada perto da orelha esquerda dele. Observei enquanto ela o empurrava calçada abaixo em direção ao zoológico, onde parou a cadeira ao lado de um banco e se sentou. O Para Man não parecia mais durão. Não parecia mau. Havia pouco nele que intimidasse, exceto pelo monte de aparelhos que envolvia seu corpo. Enquanto Lucas sugeria que fôssemos ver a exibição da cobra viva, vi Ada Taylor se aproximar do Para Man e beijar-lhe o rosto. Ele sorriu. Cutuquei Lucas com o cotovelo, e ele olhou diretamente para onde eu estava olhando.
— Merda — disse Lucas.
— Isso mesmo.
Quando alguém está olhando para a garota que acredita ser sua namorada e a vê cochichando no ouvido do ex, imediatamente imagina Russell Quitman arrancando os tubos do pescoço, saindo da cadeira de rodas, pegando Ada Taylor do chão com um movimento rápido. Ele vê o Para Man dar um beijo cinematográfico em seus lábios e colocá-la no chão, rindo. Seu rosto assume a feição de zumbi e volta ao normal, e depois o contrário. Atrás deles, todas as pessoas comemoram, batem palmas e seus rostos, de repente, começam a mudar e a se contorcer: algumas babam, outras sentem dor, outras ficam boquiabertas e começam a ir em direção ao casal sorridente. E o menino sem irmão fica sozinho no meio do coreto da cidade, com um monte de zumbis se aproximando. Ele se vira para quem acredita ser Lucas Cader e não encontra ninguém além do pica-pau Lázaro, que parece flutuar ao lado dele. Ele o toca para ver se é real, e o pássaro bica sua mão. Agora sangrando, ele observa os zumbis se moverem mais depressa, Russell e Ada liderando a multidão. Ela também é um deles agora, e, em desespero, ele olha para o pássaro e sussurra:
— Você pode encontrar meu irmão?
— Ele me pareceu um pica-pau como qualquer outro — comentei com minha mãe naquela noite, na cozinha.
— Sim, mas ele era enorme, não? — disse ela, esticando as mãos.
— Era grande, mas nada demais. Eu não achei, pelo menos.
— Lucas, o que você achou? — perguntou ela, ignorando minha opinião.
— Achei que ele é lindo! Foi uma foto muito boa também, bem no céu, entre duas árvores, voando como se não fizesse ideia de que é o maior mistério do Arkansas. — Ele estava animado.
— Idiota — falei, dando-lhe um chute embaixo da mesa.
— Cullen, só porque você acha que ele é idiota as outras pessoas não precisam pensar a mesma coisa — censurou minha mãe.
— Só acho que todo mundo está exagerando por causa de uma coisa sem sentido, só isso — respondi.
— Não é ruim pensar que a vida nos dá uma segunda chance. Só Deus sabe como precisamos mais disso aqui — declarou minha mãe, jogando o pano de prato em cima do balcão antes de sair da cozinha.
Como Lucas teve que fazer algumas coisas para a mãe dele, voltei e me sentei no balanço que meu pai havia pedido que um amigo montasse para nós quando eu tinha 6 anos mais ou menos. Ficava de frente para uma área ampla de grama e uma série de árvores que dava início a quilômetros de mata repleta de coisas que faziam barulho, que costumavam me deixar acordado a noite toda. Comecei a assoviar a canção que Gabriel havia rabiscado no pedaço dobrado de papel. Na época, eu era conhecido por minha habilidade admirável de assoviar qualquer canção que ouvia. Eu sonhava, quando tinha cerca de 13 anos, que ficava sabendo de um concurso nacional de assovios e ia para Los Angeles, ou algum lugar assim, e ganhava milhões de dólares, e aparecia nas capas de revistas, e ganhava um troféu com meu nome.
Enquanto estava ali, escutei o tap tap tap da porta de tela dos Dumas e alguém andar ao lado da casa. Olhei e vi John Barling, com um cigarro na boca e um telefone ao ouvido. Ele estava de pé perto dos fundos da casa dos Dumas quando começou a gritar ao telefone.
— Que inferno, Kathy, me deixe falar com minhas filhas!
Ele disse mais alguma coisa que não consegui entender e então jogou o telefone com força no chão, e recostou o corpo todo na lateral da casa. Permaneceu assim por um momento e depois se virou. Agachado, começou a pegar o telefone, cuja bateria voara para longe. Olhou para a frente e me viu no balanço. Não tentei ocultar o fato de que havia escutado a conversa ou de que ainda observava todos os movimentos dele. Ele encaixou a bateria de novo no telefone, colocou o cigarro de lado e ficou de pé. Começou a andar na minha direção, com o rosto sem emoção.
— Você se importa? — perguntou ele, apontando para o balanço ao meu lado.
— Fique à vontade — respondi, sem conseguir pensar em algo melhor a dizer.
Ele se sentou no balanço e segurou com força as correntes dos dois lados. Pegou impulso uma vez e começou a balançar. Eu mal me mexia. Ele diminuiu o ritmo após um tempo, apoiando os pés no chão de novo, e coçou a nuca.
— Minha esposa não me deixa falar com minhas filhas — contou ele.
— Ah — respondi.
— Ela diz que elas não querem conversar comigo, mas isso não tem cabimento.
— Qual é a idade delas?
— Valerie tem sete anos, e Susanna está prestes a completar três.
— Quanto tempo faz que você não as vê?
— Muito tempo. Tento não pensar muito nisso. Sou um mau pai.
— Ah. — É o que eu digo quando me sinto desconfortável.
— Sabe, Cullen — ele começou —, o cérebro tem um jeito de não permitir que você se esqueça de coisas das quais gostaria de se esquecer. Principalmente com as pessoas. Por exemplo, você vai fazer o que puder para se esquecer de coisas que as pessoas dizem a você ou sobre você, mas sempre se lembra. E tenta se esquecer de coisas que já viu, e que ninguém deveria ver, mas simplesmente não consegue. Quando tenta se esquecer do rosto de alguém, não consegue tirá-lo da cabeça.
— Tenho dificuldade de me lembrar do rosto do meu irmão — eu disse a ele.
— É mesmo?
— Parece que, quando tento imaginá-lo fazendo alguma coisa ou me lembro da última vez em que o vi, às vezes o rosto dele se torna uma coisa branca. Outras vezes, estou sentado no meu quarto e só consigo pensar no Gabriel.
— É assim que funciona, eu acho — disse ele. — Seu cérebro nunca permite que você dê as coordenadas.
— Acho que não.
— Sei que há pessoas nesta cidade que me consideram um homem ruim — afirmou ele —, mas eu poderia ser pior.
— Verdade? — indaguei.
— Sim, eu poderia ser um vendedor ambulante, um falsário pegando o dinheiro de todo mundo, ou algo assim. Poderia ser um assassino. Só quero provar ao mundo que o Lázaro ainda existe. Sei que existe. Já o vi. Já o ouvi. Ele me chamou durante todo o caminho até aqui, desde o Oregon. Está no meu destino.
John Barling ergueu um dos dedos em direção ao céu, como se seu “destino” estivesse flutuando ali, à mostra.
— Espero que esteja certo — eu disse, por fim.
— Qual é o seu destino, Cullen? — perguntou ele, virando para me encarar e olhando direto nos meus olhos. Dei de ombros. — Bem, faça um favor a si mesmo e não forme uma família antes de descobrir — recomendou ele, tossindo.
Após dizer isso, John Barling se levantou, acendeu mais um cigarro e começou a andar devagar de volta à casa dos Dumas. Ele se virou uma vez para piscar para mim e então continuou. Prossegui com meu assovio, fechei os olhos e não vi mais nada além do rosto de meu irmão.
Título de livro número 84: Mais de um quilômetro e meio em um cavalo de pau.