Sinapismos

Francisco Pires Zinão · Capítulo 10 de 40

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Sinapismos

VI Coisas de Egreja

VI

Coisas de Egreja

 

Beatas—Procissões e Romarias

 

Terminára a faina do dia.

O fogo que elevára a temperatura nos grandes caldeirões do Olympo, onde se manipulava a Humanidade, consumia, apenas, carvões isolados que, pouco a pouco, se transformavam em cinzas.

Os cyclopes, destacados por Vulcano para essa secção da grandiosa fabrica da Natureza, que o proprio Jupiter dirigia, raspavam, apressadamente, nos grandes extendedores, a massa, que ficara collada, e deitavam-n’a, como inutil, nos baldes do lixo e da immundicie.

Jupiter encastellava o dinheiro das ferias; fechava a escrevaninha; trocava a japona da fabrica pelo manto de arminho, e dispunha-se a sahir, tocando de passagem a sineta, para se fechar o estabelecimento.

Mas n’isto, principiou a elevar-se do caldeirão que estava proximo, cheiro activo e nauseabundo, (como o do esturro em guisado francez) que, espalhando-se na atmosphera, seriamente incommodou a regia pituitaria.

Aproximou-se Jupiter e olhou.

No fundo do pote, já com a côr do carbonisado, estrugia o resto da massa que ficára, da que n’esse dia se tinha dosado para a preparação dos hypocritas. Pouco valor aquillo tinha, porque era da mistella mais vulgar e mais facil de preparar; mas Jupiter não perdia ensejo de incutir nos seus operarios os deveres d’uma administração rigorosa e economica.

Ordenou, pois, a dois cyclopes que trouxessem do barril do lixo algumas aparas, recommendando que preferissem as mal-cheirosas e de côr escura, que pertenciam á massa dos invejosos e dos usurarios.

Avivaram o fogo; deitaram os novos elementos no caldeirão; remexeram com o cabo d’uma vassoira, porque a ferramenta já estava guardada e limpa; e, depois de cinco minutos de ebullição, Jupiter provou a mixordia. Estava sobre o insipido.

Deitou-lhe umas pitaditas de sal e de pimenta, com que preparava os maldizentes.

Provou de novo. Estava picante de mais.

Temperou, então, com o betume dos ociosos; e deixou ferver tudo, durante outros cinco minutos.

Os cyclopes retiraram o caldeirão. Trouxeram os moldes; vazaram n’elles a massa, que se conservava no estado pastoso e esperaram.

Pouco tempo depois, Jupiter aproximou-se; arrotou, e dos moldes sahiram duas coisas, duas formas humanas, com movimento, côr e vida.

Eram duas mulheres.

Ora Jupiter não se podia demorar, porque combinára, para aquella hora, uma entrevista com Europa, e os cyclopes principiavam a murmurar, porque dera a hora e tinham as familias á espera.

Assim, mandou Jupiter abrir o postigo do Olympo, empurrou até lá as mulheres e atirou com ellas, cá para baixo, com um valente pontapé.

Por esse ether fóra, assustaram-se as creaturas; agarraram-se uma á outra afflictivamente; principiaram a rezar a Magnificat, a Ladainha, e assim foram cahir sobre o telhado d’uma egreja, aterrando o escorropicha-galhetas, que se deliciava, occultamente, com os restos do precioso sangue de Christo.

Aqui tem V. Ex.ª como chegaram as beatas ao globo terraqueo, e ahi fica a formula da sua composição molecular: aparas de hypocritas, de usurarios, de invejosos, de maldizentes e de ociosos.

Representando esses elementos pelos respectivos symbolos, poderemos estabelecer:

H⁵ + M⁴ + I³ + O² + U = Beatas

*

 

 

Aquellas moleculas da Hypocrisia e da Ociosidade deram-lhes facil e rapida admissão na sociedade.

Casaram; reproduziram-se; e, em pouco tempo, estava a raça extraordinariamente desenvolvida e disseminada por toda a parte, desde a cidade populosa e civilizada, até á aldeia humilde e rude.

Cá as temos e cá as aturamos... Submettendo-as agora, para as descrever, a rigorosa analyse, encontrei-lhes todas as propriedades dos primitivos elementos.

Vão á missa das sete—uma missinha que faz muito arranjo, porque dá tempo de arranjar a casa e de se mandar, á praça, cedo.

Rezam; inspeccionam tudo o que se faz e tudo o que entra na egreja; communicam e transmittem as novidades do soalheiro; e, entre o cochichar do Padre Nosso, segue uma enfiada de casos novos e de commentarios:

Padre Nosso, que estaes no céo (e o vestido novo que hontem levou a X ao jardim! É da Torrona. Ficou a dever. O Blanco é que as canta...) santificado seja o Vosso Nome (acabou o namoro da filha do Y, porque a Mãe bateu-lhe. Diz que o rapaz gosta muito de mulherinhas) venha a nós o vosso reino e seja feita (sahiu a creada da casa do W. Oh menina! Sempre ella conta coisas... Diz que tem a casa como um ôvo! Comem todos os dias prato de meio!) a vossa vontade, assim na terra, como no ceu (Lá entrou o Velloso... que raio de homem! Tem mais de vinte namoros. É como o Prado! Elle é elegante, isso é! Já lhe reparaste nas pernas?) o Pão nosso de cada dia nos dae, Senhor, perdoae-nos (oh... Faltava aquelle... o Leopoldo. Tambem já podia casar... Para o que anda por ahi a fazer...) as nossas dividas, assim na terra, como (agora é o dos pombos correios... Tambem é fresco, com aquella cara de santo...)

Sanctus, Sanctus, Sanctus, Dominus Deus...

Como V. Ex.ª póde suppôr, a fervorosa oração foi cortada pelo badalo do sachrista, que tocou a Santos. Se elle não interrompe, o que teriamos nós de ouvir...

 

*

 

Este beaterio é muito casto e excessivamente pudibundo.

Na egreja de S. Estevão ha uma Virgem do Leite, que, se não é, realmente, uma preciosidade artistica, é, com certeza, a melhor tela que existe em Valença, não falando—já se vê—n’aquellas caras de malagueta e colorau, todas com a mesma fórma e feitio, que o sr. Julião exporta, mensalmente, para as salas nobres dos hospitaes minhotos, a soberano por caveira, com dez por cento de abatimento, por duzia.

Pois o beaterio escandalizou-se com a nudez dos peitos da imagem, isto é, repugnou-lhe que se visse o que na mulher representa a sua missão mais nobre, mais elevada e mais santa—a maternidade. E a instancias d’esses respeitaveis camafeus, muito castos e muito pudibundos, mas que nunca faltam á Rosinha Ferreira, quando ella representa; e mandam logo de manhã comprar bilhete, e dão pançadinhas com riso, e coram (não de pudôr) e se apimentam, e se agitam, nervosas, na cadeira, quando Lili conta as suas coisas—a instancias e reclamações d’essa gente, repito, uma auctoridade ecclesiastica, que eu agora respeito, porque já não está entre vivos, mandou, por um caiador de Arão, borrar os peitos da imagem!!!

Isto, minhas senhoras e senhores, em pleno seculo XIX, n’uma terra que tem dois jornaes, correspondentes varios de ditos, representantes de Sua Magestade El-Rei, Vigarios geraes e não geraes, Conegos Presidentes, e não Presidentes, Capellães, etc., etc.! E entre toda essa gente, que sabe ler e escrever, segundo se diz, não houve um unico homem que corresse a pontapés o cafre de Arão, reproduzindo-lhe com a biqueira da bota, ahi pelas alturas do coccyx, os borrões com que profanou a imagem!

*

 

O beaterio communga quinzenalmente e confessa-se duas vezes por semana, a padres velhos, surdos e rançosos.

Padres novos são o diabo!

Até os Patriarchas fazem das suas... Ainda não ha muito tempo, que os apparelhos de Morse, de Bandot, de Hugues e os telephones da Hespanha e França, não designavam outras palavras, alem de: as botas?

José Luciano perguntava a Vega d’Armijo: as botas? Vega d’Armijo perguntava a Carnot: as botas? Carnot reperguntava ao Luciano: as botas?

Em Pariz, Madrid e Lisboa não se falava n’outra coisa.

Averiguado o caso, fôra o Patriarcha das Gandricas que, em Salamanca, se enamorára perdidamente dos ojos negros d’uma andaluza. Gargalinho, seu companheiro, arrastava a aza á sopeira.

A andaluza dava, com certo recato, nocturnas entrevistas. Uma vez, quando o Patriarcha se inebriava com os effluvios do amor... platonico, surgiu o protector da niña, de cuchilla toledana em punho.

O Patriarcha saltou, em meias, pela janella. Gargalinho sumiu-se debaixo da cama; quando de lá o tiraram, tanto puxaram pelo pescoço, que ficou como o do P. Alexandre.

Do Alcalde reclamou o Patriarcha as botas; o Alcalde officiou ao Consul; o Consul officiou ao Ministro. Não appareceram as botas e o Patriarcha andou na Exposição, subiu á Eiffel, visitou o Carnot, com o seu inseparavel capote de forro vermelho e golla de pelle, chapéo braguez, chinelo de liga, calça dobrada em baixo, deixando ver os atilhos das ceroilas, symetricamente apartados e dispostos em cuidadosa laçada. Nos boulevards, quando elles passavam, diziam as mundanas:

 

C’est um Hottentot et son petit:... mais quel cou, mon Dieu!

[23]

*

 

O Soares, no principio ainda agradou, porque dizia a sua missinha de Santo Antonio a muito boa hora e era pontual; mas, depois, principiou a desleixar-se e a vir para a egreja, tarde e a más horas.

Foi o Albino, que andava sempre com elle, quem o fez peco. Principiou a dizer-lhe que estava n’uma boa posição official, que se devia apresentar sempre muito limpo e lavado, porque o conego velho nem ceroilas usava, apresentando-se n’um desarranjo completo, com a barba por fazer, amarello, completamente deitado abaixo, a ponto de a gente recear, ás vezes, que fosse de bruços; e que era bom, aos sabbados, preparar-se e lavar-se de vespera; levantar-se depois cedo, lavar-se novamente muito lavado, tomar a sua chavenasinha de café com a sua colhér de prata; e nunca chamar a attenção das más linguas, que estão sempre a postos, porque a missa sempre dava os seus sete e vinte, que já chegavam para uma posição graduada; mais isto, mais aquillo, com outros periúdos,—de fórma que o rapaz gastava duas horas a lavar-se, a vestir-se, e a gente que esperasse, só com um café bebido!

O resultado foi perder a missa de S. Antonio, porque já não tinha freguezia.

O Magalhães será muito boa pessoa, mas... não se dá com o sr. Joaquim.

Ora o sr. Joaquim é um homem muito temente a Deus. No inverno, quando ha mais frio e fome, anda por ahi, de porta em porta, com a subscripção... da Semana Santa, para que a pobreza possa curtir... na egreja, as suas maguas e dôres.

Alem d’isso, não se poupa a despezas, quando é Juiz da Senhora da Saude, da Urgeira, e vê probabilidades de (tudo pela santa religião) fazer uma pirraça ao diabo... do João Cabral!

Um homem assim, é um philanthropo e deve andar de bem com Deus. Quem com elle não se dá, não se dá com Deus; ergo: Padre Magalhães não serve.

Depois, prega uns sermões que ninguem entende. Parece que não fala portuguez!

Nem, sequer, faz chorar a gente na Semana Santa!

Resumindo: não serve.

 

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Eu falei na Semana Santa...

É o carnaval do beaterio. N’aquelles ultimos sete dias as beatas dão ar ás mantilhas, e largas á bisbilhotice, á curiosidade e... ao flato.

Quinta e sexta feira santas são em Valença, para a egreja de S. Estevão, o mesmo que domingo gordo e terça feira de entrudo são para a Assemblea.

Ha musica, serviço variado de pastilhas de chocolate, rebuçados e amendoas; confidencias, intrigas, sorrisos, trocas de cartas perfumadas, ciumes, arrufos, apertos de mão e—sobretudo—esta cavaqueira intima, expansiva, franca e alegre d’uma verdadeira reunião de familias.

A gente está alli, perfeitamente bem, e á sua vontade.

Com as temperaturas da egreja e das salas da Assemblea eleva-se, consideravelmente, o mercurio no thermometro dos affectos, em que o zero é—o arrufo, e os 100°—o casamento.

O Christo, já se vê, como dono da casa, lá está no alto da Cruz, recebendo sempre, com reconhecimento cordial, tão fervorosas e animadas manifestações de amor e respeito...

As beatas arranjam, com a Semana Santa, que contar para um mez.

Quando os escorropicha-galhetas abrem, de manhã, as portas do templo, já ellas entram apressadas e remelosas, escolhendo o melhor logar «onde o bruto do povo e os pobres não incommodem, onde se esteja á vontade e se veja tudo». Levam as suas pastilhas de chocolate para a debilidade, a caixa do rapé, o banquinho de tapete, agasalho para os pés e lenço para as lagrimas, que são da praxe, quando o Padre mostra o Santo Sudario.

Installadas assim, com todas as commodidades (tudo pelo amor de Christo, que tanto soffreu na Cruz) no seu ponto de devoção e de observação, gozam á tripa-forra não perdendo um olhar, um sorriso, um vestido novo, uma tournure mais arrebitada...

Á noite vão para casa, consideravelmente alliviadas da consciencia, mas pouco satisfeitas com o Magalhães, que falou em problemas sociaes, em pauperismo, em Philosophia da Historia, em altruismo, em protoplasma e outras coisas, que nem o sr. Joaquim entendeu, apesar de, por vezes, (certamente por delícadeza) abaixar a cabeça, como quem diz: comprehendo, approvo e... estou satisfeito.

O Palmeirão, quando conta imbecilmente pela decima vigesima vez, a tragedia do Calvario—tragedia sublime e benefica para as agruras da nossa existencia, se todos a soubessemos comprehender, mas que por ahi anda como o libretto estafado, nas epochas lyricas da egreja, para especulação, para immoralidades e para descrenças—esse percebe-se e agrada muito mais!

 

*

 

O beaterio tem uns Santos da sua particular estima.

Os Santos, a final, são como a gente, com quem se lida. Ha physionomias que logo inspiram sympathia e ha outras que, sem a gente saber como, nem porque, provocam embirração.

Isto é razoavel e intuitivo. Diga-me, por exemplo, V. Ex.ª quem ha-de gostar do S. Christovão, com aquella grande cara arrenegada, parecendo dizer ás gentes que, se lhe chegam a mostarda ao nariz, corre tudo com a vara, pela egreja fóra, como o Pau-real na feira de S. Bento da Porta-aberta!

Assim, quando rareiam as festas e as bolsas andam exhaustas, com as frequentes subscripções da Assemblea, não havendo possibilidade de se organizar a Semana Santa, então, promove o beaterio umas novenas á Senhora de tal.

«São umas festasinhas muito razoaveis, porque a musica é mais alegre, são de dia e sempre ha probabilidades de, terminadas as ladainhas e as encommendações, se dar, ainda, um passeio até ao Jardim. Emfim, n’uma terra, que tem poucas distracções e onde a Rosinha se não póde sustentar, tudo se aproveita.»

 

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O caso da Santa alarmou vivamente os animos d’estas esgrouviadas bisbilhoteiras.

«Parece impossivel que se não abrisse a Terra, que não viesse um raio, um diabo, que castigasse aquelle pedreiro-livre, aquelle atheu do administrador!»

O malandro que trazia a imagem e a metteu na taberna da Esplanada, expondo-a ás chufas e obscenidades avinhadas dos comparsas, esperando que o contra-regra desse o signal de subir o panno, para essa asquerosa comedia, da nossa asquerosissima Politica,—o malandro que, com um sebento balandrau, de imagem e prato na mão, por ahi chatina semanalmente, a meias, com as crenças do povo, e não hesita em transpôr os humbraes do bordel, pedindo para a bemdita e milagrosa Senhora de tal, interessando assim, a religião de Christo no producto que a barregan obtem da venda, em publico, do corpo e da honra—esse icha-corvos torpe e vil, d’uma ganancia mais vil e mais torpe, do que os trinta dinheiros de Judas, que por ahi esfarrapa as poucas crenças, que ainda existem no povo—esse:

«coitadinho! Mettia dó vêl-o. Estava amarello, aterrado. Foi preciso leval-o, quasi em braços, e dar-lhe café quente, porque lhe podia dar alguma coisa»!

 

Ah, baratas de sacristia! Como eu desejava possuir o açoite, com que Christo expulsou os phariseus e de que côr eu vos poria as nadegas...

 

*

 

As procissões...

Eu não conheço coisa mais estupida, barbara e deshumana.

Felizmente, sou, n’esta opinião, apoiado pelo espirito do seculo que, pouco a pouco, vae terminando com ellas.

Qual é o fim das procissões?

Qual a sua necessidade?

São para avivar as crenças?

Que ha, por esse mundo de Christo, mais ridiculo e caricato do que Santas Cocas, bois bentos, S. Jorges de carne ou de madeira, isto é, com tarracha, ou sem ella, prophetas com barbas de crina, pendões em varas de pinheiro por descascar, gaiteiros aos pinotes, matulões de cara aparvalhada e cabello empastado com gomma de pevides de marmelo?

Que ha, por ahi, de mais barbaro e deshumano, senhoras de Valença, do que essa perigosissima exposição a que, por vaidade, condemnaes os membros ainda tenros das creanças, carregadas com adereços de pechisbeque e diamantes de vintem, peito e braços nus, tiritando e caminhando custosamente, com os pesitos entalados nos escarpes do uniforme, e atiradas, por essas ruas, á voracidade das bronchites e pneumonias que o frio origina, ou das febres e meningites que o calor provoca?

Dizei-me: a Christo, se é a Christo que desejaes honrar, não seria mais agradavel que essas duas libras, com que entraes em ajuste d’uma pneumonia para vossos filhos, lhes fossem entregues para, com ellas, na bemdita missão da Caridade, penetrarem n’uma d’essas barracas da Parada-velha e as deporem nas mãos tremulas e descarnadas do pobre velho que tem fome e frio aos 80 annos, illuminando-lhe assim com a luz do céo, com a luz de Deus, aquelle tenebroso occaso de soffrimento e dôr?

E quando a creança voltasse a casa, risonha e feliz, como Deus a sabe dispôr, ao fazer d’ella a mensageira do Bem, não seriam para vós mais agradaveis as lagrimas da gratidão do pobre entrevado que, como perolas, deslizassem ainda nas mãos pequeninas, do que esse immundo cartucho de papel mata-morrão com doces de farinha de milho e assucar mascavado—suprema delicia dos matulões da Urgeira—com que o boçal e estupido Juiz da festa lhe paga o papel de comparsa?

Senhoras de Valença, que tendes filhos! Pensae n’isto...

 

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A procissão, que os Paes de familia mais respeitam, é a de Corpus-Christi.

Quando se approxima, é inevitavel a contribuição de chapéos novos para as senhoras. É uma coisa feia, na verdade, o apparecer-se n’esse dia, consagrado a Deus, com chapéos de inverno...

Pois se o Blanco os tem tanto em conta... Já se não fala em vestidos, porque emfim, dá-se uma volta ao do anno passado e ainda póde escapar; mas o chapéo é da praxe.

As janellas guarnecem-se, n’esse dia, de caras bonitas. Nas ruas, vae e vem, chibante e taful, a juventude da terra; os aspirantes aduaneiros, com Velloso á frente, pimpam o oiro dos seus uniformes; barrigudos camaristas passam, atados á banda bicolor; ha muita gente do povo; colchas espaventosas, flammulas, etc., etc., e, no fim de tudo, a tropa e as descargas.

N’este anno, então, essa ultima parte esteve magestosa. Digo a verdade: manobras assim, tão complicadas e com tanta tactica, só as tenho visto em França, no campo de Chalons, e em Portugal... no largo de S. João. Consta-me, até, que para o anno cá temos officiaes dos exercitos europeus, em commissão de estudo.

Pelo menos, assim m’o asseveram Moltke, Carnot, o Czar de todas as Russias, o Schah da Persia e o Bey de Tunis. Se o affirmam por lisonja, sabendo que sou de Valença, isso é com elles.

Vae pelo preço...

 

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Agora as romarias.

Diversos pensadores e philosophos consideram as romarias, como indispensaveis e necessarias, attendendo a que o povo que, durante seis dias, labuta e trabalha, necessita de descanço e distracção ao setimo, para que possa retemperar as forças.

Concordo com isso, mas não colhe o argumento na defeza d’ellas, como elemento vivificador de crenças.

Quem é que vae á Urgeira, a Ganfey, ao Faro, a Segadães, que não seja por mero divertimento, por distracção, pela novidade de um caso ruidoso e differente na pacata vida da provincia?

Quem annuncia em casa á familia a visita á Senhora da Cabeça, ou a S. Campio, que isso não signifique um dia de borga e de folgança?

Vejamos as coisas como são, limpando o prisma da observação e da critica, das teias de aranha, com que a rotina, o uso e a tradição lhe mancham a transparencia.

O que é a «Senhora da Cabeça»?

Um concurso legal de caceteiros.

Perguntem ao meu amigo Joaquim Queiroz, se elle de lá veiu com mais crenças, apesar dos esforços que os salta-pocinhas de Lara e de Lapella fizeram, para lh’as introduzir na massa cerebral.

Perguntem a esse amigo, imprudentemente envolvido por generosa dedicação e por nobre arrebatamento, na batalha de Montes Claros, se essas mulheres, que uivavam como hyenas e clamavam em furia horrenda, contra tres homens, não eram as mesmas que se espojavam pelo adro da capella, e se arrastavam de joelhos nas cinco voltas da promessa, com que, sentindo estoirar o bandulho nos arrancos de brutal indigestão, recorreram á fama milagreira da Santa...

Perguntem-lhe se esses matulões, que á porta do Chico Mello o cercavam, embrutecidos pelo vinho, apertando o circulo dos varapaus ferrados, com gritos de chacal e esgares sensuaes de anthropophagos, não eram os mesmos que, horas antes, carregavam, como bestas, com o andor da Santa e abalavam o solo com o poisar da pata na marcha truanesca, pelos atalhos do logarejo.

O que é S. Campio?

A prostituição ao ar livre, sob o manto estrellado da noite, como diria qualquer poeta; e a charlatanice, fazendo suar o Santo e... os milheiraes.

 

*

 

A pequena distancia d’esta villa ha um burgo chamado—Urgeira. É feudo do sr. Joaquim. Descendem em linha recta, os seus habitantes, d’aquelles antigos cultivadores de cebolas do Egypto.

Formam um elemento importante na Politica do nosso Hospital e prestam assaz reconhecido serviço, nas procissões da Semana Santa. Chegam em mesnadas, marcham bem, formam, com os seus balandraus, duas alas, já muito razoaveis e, além d’isso, são faceis de contentar: quaesquer tres patacos de borôa e zurrapa lhes enchem as panças, depois da procissão, na sacristia da Misericordia, provocando-lhes sonoro arrôto.

No verão, rara é a noite de sabbado, em que estes pacovios não queimam algumas duzias de libras, com foguetes de lagrimas e bombas de dynamite.

Ora, no burgo ha pobreza e ha miseria; ha velhos, que gemem na cama com o frio do inverno e ha creanças esfarrapadas, que chafurdam no lamaçal dos becos; ha aleijados, que se arrastam até á villa mendigando o chabo.

Com esses 500, ou 600 mil réis, que annualmente se gastam em festas, podia a Junta de Parochia fundar um Hospicio para os velhos, e estabelecer uma sopa economica para os famintos.

Mas a pandega? O grande brodio da vespera da festa? A figura que se faz na procissão com a vara de Juiz?

 

*

 

Necessita o povo de distracções.

Verdade é, mas dêem-lh’as que o civilizem e não que o embruteçam. Festas, Romarias e Procissões são ainda vestigios d’aquelles primitivos tempos, em que era necessario inveterar pelo mysticismo, pelo apparato e sumptuosidade das manifestações, o espirito da crença.

Mas hoje, em que para o plebeu entrar no templo até á grade, onde a aristocracia aninha, se lhe exige roupa lavada e calçado decente; hoje, em que elle vae á romaria para jogar o pau, beber vinho e entregar fielmente á Batota a féria da semana—acabem com tudo isso e deixem ficar a Religião nos templos, e só nos templos, d’onde nunca devera ter sahido.

E, para divertir o povo, substituam, então, esses grotescos cortejos de Santos, entre espelhos de pataco e plumas de gallo, por verdadeiras procissões civicas, onde figurem os heroes da nossa Patria, que os temos tantos e tão dignos d’essa apotheose.

Em vez de pulpitos ao ar livre, levantem-se tablados, onde se reproduzam os factos mais gloriosos das gloriosissimas epopéas que, a um paiz de tão acanhadas dimensões, deram a celebridade das grandes nacionalidades.

Organizem-se-lhe jogos, luctas, em que se adestre no exercicio das armas e possa desenvolver os musculos e a energia, de que tanto necessita para a constante lucta da existencia.

Conte-se e mostre-se ao povo o que fomos, e assim, distrahindo-o, lhe incutiremos os germens d’esse sentimento, que é o principal impulsor dos grandes feitos e das grandes civilizações—o amor da

patria.[24]

Basta de coisas de egreja. E agora,—beaterio da minha terra!— um Padre Nosso e uma Ave-Maria por este Zinão, que já está ás portas do inferno... mas esperando que entreis, para atrancar solidamente a porta e assim vos acabar com a raça!

Pater Noster...