Sinapismos

Francisco Pires Zinão · Capítulo 20 de 40

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Sinapismos

Santa Casa da Misericordia

E já que o vendaval do Tempo levou os ultimos sons d’essas fervorosas manifestações de Sentimento, que á beira do tumulo d’um homem que caíu fulminado defendendo os interesses de Valença, inspirou tanto necrologio bombastico e tanto discurso farfalhudo—já que em homenagem á memoria do homem que amou, como ninguem, esta terra, porque tinha na alma a rigida austeridade d’um caracter impolluto e sacrificava os haveres, como sacrificou a vida, sem pedir á Politica o salario dos seus serviços— se não ergueu ainda, ahi, uma voz para reclamar da Justiça o cumprimento rigoroso das disposições a que se obrigou a Junta de Parochia, seja-me permittido alterar, por momentos, a feição humoristica d’estes artigos para, com verdadeira indignação, dizer ás auctoridades que, n’esta terra, vigiam pelo cumprimento da Lei:

 

A Junta de Parochia rouba, mensalmente, ao culto os lausperennes instituidos no legado de Ascencio José dos Santos.

Esses lausperennes representam cento e dez mil reis annuaes, que são desviados para applicação illegal e ignorada.

Ha, ou não ha obrigação de cumprir as disposições dos legados?

Ha, ou não ha Lei que peça responsabilidades aos auctores d’estes desvios?

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—Prosigamos, porque a rabeca desafina.

 

Santa Casa da Misericordia

 

É uma Santa Casa de Politica.

As eleições disputam-se (tudo por philanthropia) como as da Camara, ou do deputado. Impera sempre n’ellas, para suprema humilhação dos valencianos, a massa bruta da Urgeira, porque ha o cuidado de conservar alli a maioria dos irmãos.

Quem escreve estas linhas já teve, por duas vezes, a honra de ser convidado para irmão da Santa Casa. Por acaso, aconteceu sempre isso em vesperas de eleições. Mero acaso.

Na ultima lucta eleitoral entrou uma fornada de 60 ou 70 irmãos. Offereciam-se os diplomas com todas as despezas pagas, e depois da eleição houve regabofe de castanhas e vinho branco. O moderno carneiro com batatas ainda não estava inventado.

Foi uma eleição renhida, tenazmente disputada; e, com ropias de parva politiquice, dotou-se a terra com mais uma loja de... barbeiro!

Deus me livre de duvidar, por um momento, dos sentimentos caritativos dos especuladores, quero dizer, dos protectores da Santa Casa.

Mas (pergunta-me um diabo que tenho aqui, ao pé de mim, e que desconfia de tudo), porque será que em todo o anno ninguem se lembra do Hospital para lhe augmentar os rendimentos, ou para alargar a sua acção benefica?

Porque será que esse zelo se não manifesta agora, auxiliando os Provedores nos trabalhos da utilissima instituição que o legado Cruz fundou—o Asylo?

Porque vos não reunis agora em activa propaganda,—oh cafila de pantomineiros!—angariando no Concelho donativos em dinheiro e em materiaes que habilitem a Santa Casa a, quanto antes, poder levantar esse edificio tão util para os infelizes?

—Parece-me (diz o tal diabo) que se a Santa Casa, em vez de ter um capital de cento e tantos contos, em inscripções, escripturas com hypothecas, e fiadores com paes, manos e cunhados, tivesse apenas algumas de X, ninguem lhe disputaria as eleições.

Que diz V. Ex.ª a isto, interrogando a sua consciencia?

Teremos n’este caso Philantropia, Politica, ou... abandalhado Arranjo?

Em coisas da Santa Casa, por emquanto, vem só isto á luz do dia.

 

Ora aqui tem V. Ex.ª um rapido e superficial exame sobre as principaes instituições da nossa terra.

A Politica, a Hypocrisia e a Rotina imperam soberanamente em tudo que póde ser util em Valença. Por isso, quando a gente bate á porta de muitos filhos d’esta terra, que lá fóra, pela sua posição e pela sua fortuna podiam auxiliar novas instituições, só ouve queixas, reclamações e justos resentimentos.

O grande homem da nossa terra seria um velhaco qualquer que em eleição renhida pudesse empalmar o João de Gaiteira, ou o Abbade de Cerdal.

Se alguem conseguisse isso, á noite, na taberna do Pedro, teria uma apotheose de calhos e de chouriço com ovos, de rachar tudo.

 

*

 

—Mas, oh sr. Zinão, dirá V. Ex.ª, então não ha por ahi homens que tenham interesses no Concelho e que lucrem com o seu desenvolvimento?

—Oh, meu senhor! V. Ex.ª sabe quem verdadeiramente mexe os pausinhos da nossa Politica? São os pyrotechnicos da Questão da Santa. São dois homens que teem tantos interesses no Concelho como eu, que por duas perras chicas offereço a V. Ex.ª as minhas propriedades. São os que armam as baralhas.

Não teem um palmo de terra que os interesse no desenvolvimento da Agricultura; não teem uma capoeira nas freguezias, que lhes faça sentir a necessidade de estradas; não teem relações directas ou indirectas com o Commercio, nem com a Industria. Entre elles e as instituições civis ha um abysmo. Nunca fizeram parte d’uma corporação que tratasse do desenvolvimento do Concelho. De administração municipal sabem tanto, como eu sei quem V. Ex.ª é. Influencia pessoal: como são dois, levam dois votos. Tem Politica de sapa. Ensaiam as comedias, põem os actores na rua, mas quando veem fogo nas barbas da vizinhança mettem-se em casa e fecham as portas.

Posso francamente asseverar a V. Ex.ª que esses homens inspiram na povoação mais antipathias do que affectos. Elles que digam a V. Ex.ª se não teem a consciencia d’isso... Aos que lhes fazem a côrte oiço ás vezes cada arcada, em surdina...

Um quer por força pôr o pé nas muralhas para trepar á tina, onde se tingem as meias. O outro surgiu ahi na tripode das sibyllas sem a gente saber como nem porque; dizem que vê as coisas muito ao longe. Ás vezes adivinha, mas se dá a palavra d’honra... é tolice certa.

Ora, como na terra dos cegos e dos dorminhocos quem tem um ôlho é rei, os homens por cá vão arranjando a sua vida muito honradamente e livres de vergonhas do mundo.

 

*

 

Esses dois maioraes representam os dois partidos; porque nós, meu senhor, nominalmente, tambem temos dois partidos, como as terras grandes. A gente é sempre a mesma.

V. Ex.ª recorda-se do que succedeu ha quinze dias, em S. Pedro, com os comparsas d’aquelle Auto dos Moiros e Christãos?

O Zé da Cancella, o Chico da Aguilhada e o Tóne do Pernicas, no primeiro domingo faziam de judeus. N’aquella scena em que, por ordem do Bento Cambádas, que era o Herodes, matam os innocentes, o publico e especialmente o mulherio, escamou-se com elles, mandou-os p’ro raio que os parta e correu-os a soque.

No outro domingo nenhum d’elles quiz fazer de judeu e para que a peça se representasse, metteu-se o Senhor Abbade no caso. Os que eram christãos passaram para judeus e vice-versa.

Cá, nas farças da nossa Politica, succede o mesmo. Quem faz de Abbade é o Senhor Administrador.

 

Ora aqui está, meu senhor, a razão porque o Concelho ganhou o titulo de burgo podre e a razão porque a gente, quando vae offerecer o circulo a pessoas serias, como succedeu ha mezes, é posta no ôlho da rua pelo creado da casa.

 

*

 

Voltemos á Questão da Musica e encaremol-a pelo seu verdadeiro aspecto—o comico.

Esta celeberrima questão, decomposta nos seus factores, baseia-se n’uma simples formalidade, n’uma pueril e ridicula ceremonia: a licença do Conde de Lippe, a licença do Administrador, ou uma e outra concedidas ao mesmo tempo.

É um caso comico, como o do Hyssope.

Examinemos:

A Musica é a applicação artistica do som; influe poderosamente em a nossa natureza psychica, quer a agite com as sonatas de Beethoven, em que o Sentimento nos apparece burilado e subtil, como uma cinzeladura de Cellini, quer tumultue nas estranhas innovações de Wagner, em que a Harmonia, á primeira audição, nos fére de imprevista e áspera.

Decomposta nos seus elementos, a Musica reduz-se a simples vibrações, transmittidas pelas ondas sonoras. No caso presente, visto que na Questão da Musica se trata d’um grupo de labregos, que selvaticamente mortificam os nossos apparelhos auditivos, essas vibrações que, pela instrumentação, se transformam na Harmonia, partem do organismo humano.

Examinando o organismo humano, verificamos que os elementos essenciaes á potenciação d’essas vibrações podem, egualmente, ser fornecidos pelas duas extremidades do canal digestivo e modulados, ou regulados, pela articulação da maxilla inferior, ou pela elasticidade muscular do esphincter.

A composição molecular d’esses elementos será pois: oxygenio, azote, acido carbonico e vapor de agua (caso a), ou: hydrogenios carbonado e sulfurado e acido carbonico (caso b).

A sua acção vibratil chama-se vulgarmente sôpro, ou bufo; e n’esta ultima designação, que é a mais geral, para distincção dos dois casos a e b relativos á composição molecular, costuma o povo usar do genero masculino no primeiro caso, e do feminino no segundo.

Assim, por uma rigorosa analyse, de deducção em deducção, chegamos ao seguinte resultado: que a essencia (caso b), o valor, a importancia d’essa celebre questão, que fez perigar a paz das nações e que, por ahi, inspirou tanta facecia e tanto remoque de fino espirito—é um simples caso de sôpro, é um reles caso de bufo (b).

E continuando a empregar o methodo deductivo, visto que esse caso foi o producto d’uma laboriosissima gestação politica, com muita vigilia, muita tactica e muito estudo, por isso que foi cuidadosamente preparada pelos dois partidos contendores—visto que elle symbolisa e exprime os valimentos intellectuaes e politicos dos chefes e maioraes—afoitamente podemos dizer, synthetizando: tudo isso e todos elles não valem um bufo! (b)

Politiquemos:

 

*

 

Os dois partidos prepararam com longa antecipação, no remanso dos gabinetes, esse estupendo acontecimento.

Mediram-se as forças, calcularam-se os accidentes, preveniram-se as hypotheses, estudou-se cuidadosamente o terreno, escolheu-se a hora e inventou-se o pretexto. A malandragem de Ganfey foi assoldadada para deitar fogo ao rastilho.

Na vespera de rebentar a bomba, descobriram-se os jogos e todos ficaram logrados. Um dos chefes recebia ordem para ficar ás ordens do outro; este, esbarrava a cabeça na estupidez do Zé Povo e nos barrancos que a sua inepcia cavára.

Cá a gente (já se vê) n’essas alturas, arrebitava a pança com o brodio, a vêr os toiros de palanque; e, como elles ainda escabeceiam no curro, vae-lhes mettendo a sua farpa muito honradamente.

Depois da explosão da coisa, principiou a desembestar-se por ahi a mais sordida mistela de pilherias apanascadas, que tiveram echo no districto, como se o ridiculo de tudo isso não fosse bastante para nos fustigar o rosto e alvoroçar o sangue.

A partida perdeu-se. Quem a pagou (e foi carita) chorou sete dias e sete noites. Os pyrotechnicos metteram-se em copas. É da praxe: nas barracas do Pim-pam-pum, quem ageita os bonecos não paga entrada. Entra pela prenda...

 

*

 

Farpeemos...

Depois d’essa dejecção politica, os campos conservam-se armados, medindo-se os adversarios com rancor. No meio d’elles, lá está o sôpro, o bufo (caso b)—eterno pômo de discordia.

Progressistas teimam em obstar que a gente em occasião de festa, possa, á noite, dar a sua gaitada por essas ruas e muralhas.

Regeneradores, pela penna auctorizada do Senhor Joaquim, como Juiz da Senhora da Saude, invectivam o Ministerio, reclamando a livre expansão do bufo (b).

E agora, que estamos em maré de syndicatos, n’esta carencia de bufo (b) muito dinheiro podiam ganhar alguns senhores cá da terra e aquelle barqueiro de Vigo...

Ha coisas que, guardadas, engarrafadas, servem para occasiões de falta e dão muito dinheiro...

 

*

 

O certo é que não se obtem licença para Musica dentro de Valença; ou porque seja negada por mero capricho do Senhor Administrador, ou porque a recuse o Lippes.

Porque nós—louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo—somos cidadãos tão portuguezes, como os de Coura; pagamos decima, como os de Coura; damos votos, como os de Coura; fazemos filhos para o exercito, como os de Coura, mas não temos as liberdades civis, que teem os de Coura.

Pelos modos, ainda nos corre nas veias algum resto d’aquelle bulhento sangue dos nossos antepassados, os soldados de Viriato, que, segundo diz o Senhor Joseph Avelino, tanto assarapantaram o mundo com os seus feitos; e o Governo, em vez de uma auctoridade administrativa, manda-nos duas!

—Quer V. Ex.ª dar a sua gaitada? Precisa de dar o seu bufo?

Tem de ir pedir ao Administrador e á Praça; e antes de transitar por essas ruas tem de bufar, voltado para a casa do Governo. Se offerece as primicias do bufo á Camara, ou á Administração, a Praça amua e ha baralha, como succedeu com a fanfurrilha gallega.

—Tem V. Ex.ª fogo em casa?

Acodem, logo, da Praça e da Administração:

—Mando eu.

—Não mandas tu.

—Apago eu.

—Apaga tu.

Levanta-se questão; tudo grita, tudo berra, e V. Ex.ª, para se livrar de prejuizos, o que tem a pedir ao seu Anjo da Guarda é que o deixem ficar sósinho com o fogo, que é mais socegadinho e pacato.

—Ha banzé no theatro, ou na rua? Lá os temos em disputa.

De fórma que, se um dia, V. Ex.ª por esquecimento, por descuido, larga o seu bufo (b) na cara d’uma das auctoridades, e sem a devida licença, leva pancada dos dois.

É preso. Chega um paysanduco e agarra V. Ex.ª pelo braço direito. Vem o Balagota e agarra-o pelo esquerdo.

—Venha para a Praça!

—Venha para a Administração!

Puxa um; estica o outro.

V. Ex.ª atrapalha-se, reclama, gesticula, bufa... (b)

Se o faz na cara do paysanduco, mais pancada leva. Se mimoseia o Balagota, este põe-se ainda mais amarello do que é, e apita.

Santo nome de Maria! O que ha-de a gente fazer?

Sem musica, sem bufo não se póde passar. Fossem-no lá prohibir ao Senhor A. Seixas! Estoirava... de raiva.

Dentro de casa, felizmente, ainda V. Ex.ª póde mandar tocar a Musica e dar o seu bufo; mas eu estou a vêr isto de tal fórma que, d’aqui a pouco, se V. Ex.ª, em qualquer sitio, na sala de visitas, na cama—por exemplo—lhe appetece bufar, tem logo, ao seu lado, um paysanduco e o Balagota, procurando, investigando, cheirando, esmiuçando, por cima e por baixo da cama, levantando, até, a roupa para metterem os narizes (imagine V. Ex.ª a sua desgraça se, para essa operação, lhe apparece o nariz do Dr. Ladislau...) e berrando depois, irados:

—Aqui deu-se um bufo!

E V. Ex.ª terá de pedir perdão, confessar o crime, ou desculpar-se humildemente, dizendo:

—Não dei, não, senhor! E se dei... não foi por querer...

Ora a nossa desgraça!

Oh gentes do Kalakana! que dizeis a isto?

*

 

Esta interrupção dos tubos... musicaes—claro é—vem a acabar; e com a mesma imbecilidade, com que actualmente os progressistas impedem a livre circulação do bufo, os regeneradores, subindo ao poder, hão-de metter cá dentro, quanto nedio folle por ahi haja, previamente reforçado com alimentos explosivos.

E n’esse dia anti-pituitario, em que tenho de encontrar: uns, de vexados, em casa ou fugindo de corrida ao apupo; outros, de pança tesa e cara alegre, abraçando-se por essas ruas—e todos, supinamente idiotas e essencialmente ridiculos—cá me tendes, oh bufos e anti-bufos!, para vos estralejar nas ventas a mais sonora gargalhada, que gentes de Valença teem ouvido!

E tenho tambem uma idea...

Emfim, vocês merecem recompensa, pelo enthusiasmo com que teem tratado d’essa questão, de grande valor e importancia para a terra. Mastigae já em secco e ouvi lá marotinhos: (mas caluda, por emquanto):

Nos cómes-e-bébes dos philarmonicos hei de misturar umas gottasinhas d’um certo elemento drastico

—Oleo de Croton Tiglium—por exemplo, para que elles, nas ruidosas e puxadas explosões dos seus bufos, vos possam dar tambem—oh progressistas e regeneradores do pataco!—algo mais de...

 

...solido!

 

Toca a aguçar a dentuça, Politiqueiros de meia-tigela!