Sinapismos

Francisco Pires Zinão · Capítulo 37 de 40

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Sinapismos

XXIV Ultimas palavras

XXIV

 

Ultimas palavras

 

Na vida social, uma povoação possue a complexidade do organismo d’um individuo. Pode estudar-se physiologicamente e psychologicamente.

Tem sentimentos, expansões, dôres, coleras, alegrias; tem orgãos, musculos, enfermidades e lesões; periodos de vigor, de engrandecimento e de decadencia.

Athenas foi a alma da civilização hellenica; Sparta teve a musculatura dos fortes na hegemonia das cidades gregas; Roma cingiu o mundo com os seus braços de ferro; na gloria dos seus triumphos e das suas conquistas teve a vertigem da sensualidade e do prazer; libertinou-se, effeminou-se e apodreceu na enxurrada das sargetas.

Paris ri; e Londres, embrutecida com o gin, com as fresh-girls e com os deboches de Cleveland-Street, offerece o nojento bandulho ao facalhão de Jack, ou escouceia no match-box do Pelican Club, em que dois homens se esborracham a sôco, com grande gaudio d’isso que é a quinta essencia da pelintrice, do egoismo, da ambição, do orgulho, da pataqueirice réles da viella e que nas altas espheras do High-life, em Leicester Square, no Regent’s Park ou no Covent Garden se intitula pomposamente—um lord!

 

Appliquemos aqui, aquella conhecida theoria de Broca sobre a relação entre o volume cerebral e a intelligencia.

O volume do cerebro pode, segundo o eminente sabio, indicar maior ou menor desenvolvimento intellectual.

Ora, o que é o cerebro?

É a parte pensante do organismo.

N’este individuo social—uma povoação—onde o devemos procurar?

Na sua parte illustrada; nos filhos que se distinguem pelas manifestações da sua actividade mental, e, assim, poderemos dizer que o numero d’elles está para a consideração e importancia intellectual do individuo—povoação—como o volume do cerebro está para o individuo—homem.—Tanto maior, quanto mais illustrada, tanto menor quanto menos culta.

E admittido isto, desassombradamente podemos affirmar que nenhuma outra povoação do paiz, com egual numero de habitantes —nas cathedras do Ensino superior, nas elevadas posições do Exercito, nos altos cargos da Magistratura, na Classe medica, na Advocacia, no Commercio e frequentando ainda os cursos superiores—tenha numero egual, que não superior, de filhos, e tão, que não mais, distinctos.

Mas, honrosa como é esta superioridade tambem ignobil e infamante é a indolencia a que nos entregamos, com que abandonamos os nossos direitos politicos, com que ficamos de bocca aberta e mãos nos bolsos, na triste impassibilidade do fackir, assistindo, impotentes como um eunucho, a essa activa evolução que impulsa as mais insignificantes povoações, transformando-as com os benesses das modernas instituições e levando-lhes as arterias á hematose dos grandes centros civilizados.

O titulo de burgo podre, com que realmente este concelho é mencionado em Lisboa, deve ser para nós mais degradante do que a marca a fogo do grilheta e do forçado.

Tempo é de nos libertarmos d’essa tristissima condição de barregan, em eterna dependencia de qualquer tia, velhaca e rufiona que á nossa custa encha a pança e o pé de meia.

Na choldra da prostituição politica do nosso paiz ha circulos que necessitam de caricias e de namoro; ha circulos fieis, ainda que rarissimos; ha-os de pernas abertas para quem mais der, e ha-os pataqueiros destinados a desvirgar os meninos lisboetas, ou a entregar o corpo ao primeiro pandego, que lá de Bijagóz ou de Paio Pires, se lembre de passar por elles, fazendo caminho para ir ajudar a embolar os toiros no curro de S. Bento.

Esta é a nossa triste condição.

 

Ha seis ou oito annos que n’este burgo podre se manifestaram uns debeis symptomas de vigorização politica. Regosijei.

Pareceu-me que ainda poderia ver Valença como as outras terras; á mesa do orçamento, com o seu logar marcado e o seu talher, e não como então estava: debaixo do banco, apanhando de quando em quando o osso esfolado e o pontapé do gajo que a levara pela trela do voto.

Vans esperanças! Antes o Passado. Appareceu effectivamente a Politica, mas esfomeada, esqueletica, larvada, com manhas de gato lambareiro e caricias de cadella aluada.

Anichou-se por ahi, comendo á tripa-forra e passando o tempo ao sol, de barriga para o ar e carcela desapertada.

Tem dichotes de histrião e insultos de fadista. É insupportavelmente porca: onde toca deixa baba; onde poisa deixa excremento. Quando fala não deita perdigotos, deita escarros; quando escreve não o faz com tinta, mas com pus.

Se graceja causa nauseas, se chora provoca o pontapé.

Examinada physiologicamente encontramos-lhe deficiencia de orgãos. É impotente e a impotencia organica reflecte-se na alma, porque não tem enthusiasmos, nem aspirações, nem... vergonha.

Conjuga só um verbo:—comer; só conhece um pronome:—nós.

Muda de patrão de tres em tres annos. Pouco se importa com isso. Se elle a trata mal, agacha-se, servil e humilde; se a trata bem, esfarrapa-lhe uma cannela ou levanta a perna e... molha-o.

Um ataque de epilepsia politica agita actualmente os magnates eleitoraes.

Está no chôco novo deputado...

Indigitam-se dois filhos da terra como candidatos.

A rua de S. João torce o nariz...

Esta rua de S. João representa os mesmos chimpanzés que, em tempos, rejeitaram o sr. dr. Illidio Ayres para facultativo do Hospital e o sr. dr. José Vieira para medico da Camara.

Para que V. Ex.ª conheça bem a gente que o rodeia, sr. dr. Pestana, aconselho-o a que peça pormenores ácerca das discussões que o seu nome provocou nos centros.

Arrufos, gréves, amuos, etc.

Diz V. Ex.ª que o Zinão é politico e má-lingua.

Contra a primeira accusação protesto respeitosamente, e rogo a V. Ex.ª que faça melhor conceito do meu caracter.

Emquanto á segunda, direi a V. Ex.ª que tem mais a recear da boa-lingua e da fidelidade dos seus pseudo-partidarios, do que da critica zinoica.

Eu defendi sempre a candidatura d’um filho da terra, emquanto que os seus amigos... Informe-se, informe-se V. Ex.ª, porque talvez isso lhe seja proveitoso.

 

Os trabalhos eleitoraes teem peripecias engraçadissimas que davam para novo volume de Sinapismos.

Abstenho-me, porém, de explorar esse inexgotavel filão de ridiculos, existente na massa cerebral—grude de sapateiro e pura secreção de rins—dos nossos politiqueiros.

Tenho na minha frente dois filhos de Valença. Não sei, nem quero saber qual d’elles tem mais probabilidades de vencer.

Oxalá que todas as difficuldades desappareçam; que todas as indisposições terminem, que todos os esforços se reunam e que esta terra possa, finalmente, ter em S. Bento um representante util e proveitoso, como deve ser qualquer dos seus filhos.

Seja qual fôr o vencedor e a opinião politica que perfilhe, eu saúdo n’elle o valenciano que recebe o mandato dos seus patricios, e oxalá que a eleição de 30 de março de 1890 seja o inicio d’uma politica digna, purificada de trampolinices, de arruaças, de borralhadas da Santa,—independente de histriões e de tartufos, que até á data teem manchado a consideração d’esta terra com o infamissimo labéo de

burgo podre!

Eis o que para Valença deseja o má-lingua do

 

Zinão.