Sinapismos

Francisco Pires Zinão · Capítulo 5 de 40

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III Carta a Sua Excellencia, o sr. Governador... de Paysandu

III

 

Carta a Sua Excellencia, o sr. Governador... de

Paysandu

 

Senhor!

Tenho a honra de me apresentar a V. Ex.ª

Sou o Zinão.

Quarenta annos; casado, e com bom comportamento moral, civil e religioso.

Nunca tive contas com o Borralho, nem com o Assiz dos Algarves, nem com o Julinho.

Sou de muito bom genio; depois que vi as caras feias, que fazem os srs. Barros e João Monteiro, quando se zangam, abracei immediatamente as doutrinas philosophicas da eschola optimista, e digo com Leibnitz: «Tudo vae bem n’este mundo, que é o melhor possivel.»

Sou irmão da Misericordia e approvei a admissão das irmãs de Caridade, porque em coisas de religião sou muito temente a Deus, como o sr. José Narciso. Tenho bulla, porque se a não tivesse, quero dizer, se a não pagasse, diz a Santa Madre Egreja, que era peccado comer carne.

Vou á missa e á desobriga; além d’isso, sendo amigo intimo do sr. Baptista e, como affirma o dictado, os amigos dos meus amigos, meus amigos são, tambem sou das relações intimas da Senhora do Faro, que tem tomado chá na casa d’elle, e com quem este senhor se trata por tu, jogando, nas noites de inverno, a bisca e o 31 de bocca.

Tambem sou militar, porque pertenço á terceira reserva.

Respeito a mulher do meu proximo. Sou economico; tenho chapéos ainda mais antigos, que os do sr. Polycarpo.

Como portuguez, amo a minha patria; odeio os ibericos, como o sr. João Ignacio.

Em Politica sou legitimista, como o sr. Santa Clara, porque ninguem me tira da cabeça, que estes reinos pertencem ao sr. D. Miguel e a mais ninguem.

Tenho sido, por vezes, Juiz de Paz e, se na minha terra me não guindei, ainda, ás alturas a que chegaram os srs. Joaquim, que se carteia com o Ministro do Reino, ou o sr. Illydio Dias, que com a sua Bibliotheco-mania telegrapha ao Rei, como amigo velho, quem viver verá, que talvez consiga roubar-lhes o pennacho.

Ora aqui está a minha folha corrida; e por ella já Vossa Excellencia vê, que sou homem sério e que, se não moro na rua de S. João, podia muito bem lá morar.

 

Excellentissimo Senhor!

Dizem-me que Vossa Excellencia está prestes a deixar-nos, para ir fulgurar na brilhante constellação dos nossos generaes; e não quero que isso succeda, sem apresentar a Vossa Excellencia a homenagem sincera do meu respeito e enthusiastica veneração, porque considero Vossa Excellencia, como um dos melhores Governadores, a quem, para felicidade d’estes povos e d’estes reinos, Sua Magestade tem havido por bem confiar o governo d’esta Praça.

Na pleiade de homens illustres que, ha doze annos para cá, teem governado Valença, Vossa Excellencia destaca-se pelo seu senso, illustração, excessiva modestia e desprendimento das glorias do mundo, que tão tentadoras e offuscantes são, quando, após annos de lucta, de vigilias, de laboriosas lucubrações de espirito, de penosissimo labutar das funcções cerebraes com senos, cosenos, raizes quadradas de a e ditas cubicas de b, chega a gente a alcandorar-se nos inaccessiveis pinaculos d’uma tão elevada posição social.

Os dois illustres antecessores, que precederam Vossa Excellencia, eram e são muito boas pessoas; mas alargavam demasiadamente a esphera das dependencias da Praça, de fórma que faziam incluir no seu Estado-maior uma certa pessoa, clara já, talvez, á perspicacia de Vossa Excellencia—pessoa que, até alli, tinha a seu cargo o caridoso e humanitario mistér de desobrigar pessoas serias, como eu, Excellentissimo Senhor, e que, depois da chegada de Suas Excellencias, se viram na dura necessidade de, ou desviar para outra applicação a sua potencia vital, como, por exemplo, para o estudo de construcções, principiando com a rudimentar disposição das traves nos tectos, ou a curtir... as suas maguas pelas muralhas, entregando, assim, o organismo á terrivel atonia d’essa perigosa enfermidade, que a todos ataca na puberdade. (Vossa Excellencia tambem devia dar o seu contingente...)

Ora, o tal monopolio, Excellentissimo Senhor, tornou-se muito funesto á povoação. Foi, até, na epocha d’elle, e por causa d’elle, que aconteceu aquella grande desgraça ao sr. Abilio Araujo...

 

Eu sou muito amigo de Vossa Excellencia e Vossa Excellencia tambem é meu amigo. Sou d’aquelles que, no dia do Anno Novo, apanham o seu quinhão nas boas festas que Vossa Excellencia, lá das alturas, se digna dar, como os antigos senhores feudaes, á burguezada e aos paradas-velhas, cá da terra.

Depois, venero Vossa Excellencia, porque é um homem energico, que tem, como o povo diz (e realmente tem) cabellinhos na venta (com o devido respeito).

Aquella felicissima resposta, que Vossa Excellencia deu ao Padre Magalhães, quando elle foi pedir para a Semana Santa com o innocente sr. Joaquim e com o ingenuo Abbade das Gandras, foi fulminante de espirito; foi á Pombal, á Richelieu, á Pitt, á Bismarck, á Duque d’Olivares; teve a potencia explosiva d’uma bomba á Orsini, ou d’um petardo nihilista, preparado chimicamente, com os mais poderosos elementos endothermicos.

Disse-se, por ahi, que Vossa Excellencia procedera mal; porque, se queria dar carambola ao Noticioso, que lhe chamára General não sei de que, não devia escolher para bola vermelha um homem que ia de preto, que tinha entrado na sua sala de visitas, onde, até a pretalhada do Bonga, que pouco sabe de hospitalidade, recebe e trata bem a gente.

Accusaram Vossa Excellencia de ter faltado, n’essa occasião, aos mais rudimentares preceitos da delicadeza e até se asseverou, fazendo justiça ao caracter de Vossa Excellencia, que a tal resposta foi soprada ao ouvido, por Sua Excellencia, o Senhor Vice.

Eu não sou d’essa opinião. Vossa Excellencia respondeu e respondeu muito bem. N’isto de militanças praceiras, não ha attenções, nem hospitalidades, nem sala de visitas, ha... o regulamento do Conde de Lippe! Quem o não acatar... leva a sua conta, e assim é que deve ser.

O Padre devia ficar ainda mais pequeno do que é, mas Vossa Excellencia tambem escapou de boa! Se elle tem ao lado o Sant’Anna, lá do Porto, Vossa Excellencia bem podia gritar por Sua Excellencia, o Senhor Vice...

Então o caso era serio!

 

*

 

Depois, quem não ha-de respeitar Vossa Excellencia, com a sua variadissima illustração?

Nunca me hei-de esquecer d’aquelle esplendido discurso, que Vossa Excellencia, de improviso, pronunciou na Assemblea, em 20 de janeiro de 1887, quando tomou conta da Presidencia. Sei-o de cór; e tão profunda foi a impressão, que causou no meu espirito, que até n’elle ficaram gravados os ápartes e as interrupções.

Se Vossa Excellencia dá licença, eu repito alguns periodos. Os ápartes, para falar a verdade, são ainda para mim um tanto enigmaticos, mas deve haver por ahi, quem os possa explicar a Vossa Excellencia.

Ahi vae uma tirada:[12]

«... As prestimosas agremiações, como esta, com que as Sociedades

 

modernas procuram deleitar e amenizar os espiritos, após as laboriosissimas horas da lucta e contrariedades da vida, nascem, crescem e desenvolvem-se, como essas enormes, vas- (o sr. capitão Marques da Costa:—Vaz? É o amigo Lopo? Então appoiado!) tas e florescentes ilhas do Atlantico e Pacifico, formadas pela organisação rudimentar das algas marinhas e de myriadas de seres microscopicos, da familia dos polypos, classe dos coelenterados, grande grupo dos radiados, ou zoophitos. (Os srs. Roldão, Polycarpo Monteiro, Zagallo e outros cavalheiros versados em sciencias naturaes:—muito bem!)

«Da Natureza, meus senhores, deliciam-nos as suaves fragancias das

flores: a modestia da violeta; a pureza immaculada do lirio; o murmurar dos bosques, os seios tumidos (o sr. José Lopes, da Principal:— appoiado!) da donzella, os alvores da madrugada e o canto das avesinhas. (Os srs. Alberto Marques, Gaspar Durães, Justino Guerra e outros poetas e prosadores da estafada eschola romantica:—muito bem!)

«Pois na vida social, as horas fugitivas, que aqui deslizam em

encantador e aprazivel convivio, com os Cavalheiros de fino trato (o sr. Verissimo de Morães:—appoiado!) e com as amaveis, airosas e donairosas e gentilissimas damas d’esta formidolosa Praça (os srs. Justino Guerra, Eugenio Martins e Soares Romeu, interessantes collaboradores do interessantissimo «Mensageiro das salas»:— appoiado!) ou com as encantadoras hijas da hidalga y noble Espãna (o sr. D. Ramon:—Ká! Muy bien! Maunifico! Precioso. Ká! Seño Gobernador: Viva la gracia! Ká!) bellas, como uma virgem de Murillo e castas, como a esposa de Jacob, de que me não recorda agora o nome (diversas pessoas serias:—appoiado!) quando as cingimos em suave enleio, no vertiginoso redemoinhar da valsa (o sr. Salazar Muscoso:

muitobemmuitobemmuitobem! [13] ) ou quando as brindamos com preciosas iguarias e delicados vinhos (os srs. C. Oliveira, Verissimo de Morães, um Cavalheiro de Tuy e outro de Monsão, que não tive a honra de conhecer:—appoiado!) essas horas, repito, representam em a nossa vida social aquellas alegrias da Natureza!

«Não ter alma para sentir isto, meus senhores, como muito bem disse o

nosso grande ex-historiador[14] Alexandre Herculano, é proprio d’um ser doentio; é, como vulgarmente se diz, proprio de gente pequena. (Protestos ruidosos dos srs. dr. Ladislau, Alvaro Garção e P. Magalhães. —O sr. dr. Pestana:—peço a palavra para explicações.)

Trabalhar, pois, para esta Sociedade é uma acção de elevado

patriotismo; (o sr. José Lopes, da Principal:—muito bem!) é uma acção de

larga influencia regeneradora (protestos dos srs. Alvares d’Oliveira, P. Cunha e Agostinho) para os nossos costumes; é um symptoma da benefica evolução progressista; (protestos dos srs. Appollinario, Camisão e do dito sr. Agostinho) é, emfim, como ainda ha pouco me disse, e disse muito bem, o sr. Capellão (o sr. Leopoldo Gomes:—qual d’elles? Então Vossa Excellencia também gasta? Por isso eu estive á espera!...) que aqui me ouve, uma missão altamente honrosa e humanitaria!

«Por isso, meus senhores, unamos os nossos esforços e como os

polypos e as algas.................... as algas.....................»

 

Que Vossa Excellencia me perdõe o que vou dizer, mas... perdi o fio ao discurso e o melhor é ficar por aqui, porque, n’estas questões de Historia, não quero metter de minha casa.

Verba volant, scripta manent...[15]

 

*

 

Eu atrapalho-me sempre, quando falo de Vossa Excellencia, que representa para mim o que ha de mais alto, mais nobre e augusto, nas elevadas jerarchias e coisas serias da minha terra.

Quando encontro Sua Excellencia nas ruas da vizinha cidade de Tuy, pisando com arrogancia e altivez, genuinamente portuguezas, o solo d’aquelles odiosos Filippes, seguido automaticamente, á distancia regulamentar, por alentado e escolhido artilheiro, como estabelece o regulamento de Sua Excellencia, o Senhor Conde de Lippe, eu tremo de respeito e envergonho-me de mim mesmo— pobre e mesquinho verme da terra.

Quando assisto á entrada de Sua Excellencia, solemne, magestoso, omnipotente, rutilante de oiro e pedrarias, constellado de crachás, faiscante de venéras,—no templo de Santa Maria, em festividade da Semana Santa, para mandar prevenir as auctoridades civis e ecclesiasticas, que superintendem no cerimonial, que está alli, para, como unico e fiel representante de Sua Magestade El-rei,

n’estes burgos,[16] depôr o osculo de respeito nos chagados pés do Senhor dos Passos, exactamente como, á mesma hora, faz o mesmo Augusto Senhor Rei, no templo da Graça—quando o vejo aproximar vagarosamente da veneranda imagem, n’aquelle passo grave, solemne e arrastado de solas, com que os prophetas de barba de guita e cara borrada com pós de sapato, acompanham em Tuy o sagrado esquife, e o ouço depôr o respeitoso osculo, confundindo assim, em edificante e enternecedora homenagem, a magestade dos céos com a magestade da terra—quando sigo, depois, Sua Excellencia na retirada do templo, rodeado do seu luzido e brilhante Estado-Maior, essa pleiade de homens illustres, que representam o que ha de mais intelligente, nobre e indispensavel nas instituições militares do meu paiz, homens encanecidos em mil batalhas contra columnas cerradas de algarismos, cifras e cifrões de indomitas contas de feijão e batata, do rancho geral, ou dos cadernos da arrecadação dos puxa-frictores, morteiros, colubrinas, missagras, lanternetas, chapuzes, cepos, boldriés, sacres, caçoletas, falconetes, lanadas, cucharras, soquetes, munhões, sotroços, trinque-bales, tira e mette-buchas e outros tarecos velhos, que nas dependencias da Praça são do exclusivo dominio e usofructo dos ratos e aranhões, formando, no seu conjuncto, collecção superior, em inutilidade, á feira da Ladra— quando eu vejo tudo isso, meu Senhor, sinto-me mais pequeno do que um feijão fradinho; mais sumido, do que um certo parasita que Vossa Excellencia, d’essas alturas em que vive, não enxerga, mas com o qual, eu, infelizmente, estou relacionado, desde que commetti a imprudencia de (com licença de Vossa Excellencia) verter aguas, detraz das portas do Meio, onde tambem o faz a soldadesca!

Vossa Excellencia deslumbra-me; offusca-me; tem para mim as proporções d’um semi-Deus; mas quer Vossa Excellencia saber, respeitabilissimo Senhor?

Ha, por ahi, gente tão nescia, tão ignorante, tão alheia ao mechanismo d’esta complicada engrenagem das instituições sociaes, que chega a perguntar (perdõe-lhe Vossa Excellencia) para que serve o Governo da Praça, alliando, ainda, á ignorancia, a grosseria de lastimar que, do que a gente paga nas decimas, do que se rouba ao trabalho honrado e aspero do lavrador e do padeiro, se desviem 500 e tantos mil reis mensaes, obra de sete contos por anno, para ter ahi (que malcreados!) n’um rasoavel sybaritismo, cinco ou seis servidores da patria, equiparados escandalosamente (dizem elles) em honras e proventos, ao official, que nos corpos atura, diariamente, o brutal trabalho do quartel, com enorme responsabilidade, com necessidade de instrucção e arriscado a, d’um momento para outro, receber ordem para expôr a caixa craneana á bala do trabuco assassino, que anda a monte, ou ao zagalote do bacamarte desordeiro e avinhado, nas grandes borgas eleitoraes.

Eu, até, já ouvi dizer, Excellentissimo Senhor, que se isso era por causa das procissões, das missas pela alma do Senhor D. Pedro , ou da recepção das musicas gallegas, o Governo podia muito bem contractar, para tal effeito, os gigantones de Tuy, ou os barbacenas da Guarda romana, porque eram de mais apparato, era outra limpeza e ficava muito mais barato.

Mas quer Vossa Excellencia saber ainda mais? Ha, até, n’esta terra de cafres, quem reponte com a posição original que Vossa Excellencia dá á sua boquilha, quando, nas ruas, se delicia com os aromas d’um bom charuto! Como se Vossa Excellencia, pelo simples facto de não ter Tosão, d’Oiro, que dá honras de principe e direitos a poder fazer a gente o que quizer, não tenha a plenissima faculdade de trazer uma coisa (a boquilha), como muito bem lhe appetecer, horisontal, ou ao dependuro, e como se esta ultima posição não fosse, realmente, a mais decente e apropriada á edade de Vossa Excellencia!

Ora diga-me Vossa Excellencia, agora que desceu commigo a estes profundos abysmos da ignorancia popular, se é, ou não, necessario applicar, de vez em quando, a estes barbaros, umas espadeiradas á Macedo, ou quatro mimos com o historico chicote do Bruto, digo, do Barão do Rio Zezere...

 

Excellentissimo Senhor!

Eu folgo de ter encontrado pretexto, para manifestar o meu respeito e veneração a Vossa Excellencia, mas, como esta já vae longa, abrevio o muito que lhe tinha a dizer e contar.

Não se incommode Vossa Excellencia com as más linguas. Nosso Senhor Jesus Christo perdoou aos que não sabiam o que faziam. As realezas da terra, meu Senhor, são representantes legitimos da realeza dos céos. Affonso Henriques, quando em Ourique dava tapona na moirama, a folhas tantas, olhou para o céo e de lá fizeram-lhe um signal com a cruz, que queria dizer: vences. Constantino, quando se viu atrapalhado com os barbaros, olhou tambem para lá e o Padre Eterno fez-lhe o que a gente faz, quando está sentado na praia com o namoro, deante do futuro sogro e da rabujenta futura sogra e, não podendo dizer á rapariga: amo-te, oh filha! escreve sorrateiramente essas palavras na areia, com a ponta da bengala. Pois o Padre Eterno foi-se ás areias do céo e, com a vergastinha com que tosa a canalhada miuda dos anjos e seraphins, escreveu tambem disfarçadamente:

In hoc signo vincis.

Ainda ha mais exemplos, mas eu sou muito fraco em mnemonica.

Ora, sendo as realezas da terra representantes da realeza dos céos, e sendo Vossa Excellencia representante da nossa realeza, como muito e muito bem disse e declarou, ao annunciar o seu osculo nos chagados pés do Senhor dos Passos, ergo, por irrefutavel syllogismo, Vossa Excellencia é tambem representante n’esta terra, de Nosso Senhor Jesus Christo! Isto não falha.

Por conseguinte, Vossa Excellencia póde e deve perdoar, aos que não sabem o que dizem.

Eu não lhe aconselho isto com interesse directo, meu Senhor. Vossa Excellencia nada tem que me perdoar.

Eu adoro tanto as instituições da minha Patria, reputo tão necessarias e consentaneas, com as aspirações da epocha hodierna, as disposições dos regulamentos do sr. Conde de Lippe (que o diabo levou ha perto de 200 annos e podia, mesmo, ter levado logo ao nascer) das quaes, a mais branda e attenciosa é

mandar varar por uma bala[17] o desgraçado, que tenha o atrevimento de—utilizando-se da unica applicação d’essas muralhas e torturado com as ancias e arrancos de urgentissima necessidade corporea, sem poder esperar um unico segundo,—baixar as calças, (permitta-me Vossa Excellencia a liberdade que vae expressa, ainda assim, em portuguez de lei, do que usava o Padre Antonio Vieira) que, se tivesse alguma importancia politica, se fosse homem de prestigio e d’estes que valem uma eleição, como os srs. Joaquim, Cardoso e seu amigo P. Cunha, Alvares d’Oliveira, Santa Clara e Agostinho que, unidos todos no mesmo partido, belliscados para a victoria do mesmo candidato, são capazes de levar á urna, não digo 6, mas, talvez, para cima de 3 votos, se fosse homem d’essas craveiras, repito, era capaz de ir a Lisboa, apresentar-me ao sr. Zé Luciano, ao Senhor Rei, se tanto fosse necessario, e reclamar energicamente, como indispensavel ao brilho das nossas instituições, ao prestigio do nosso exercito, á manutenção da nossa dignidade nacional, mais um segundo Governador, com um segundo... (não me lembro do nome... ah!) Estado Maior.

Sómente estabeleceria uma condição:—baseada no muito apreço, em que tenho os grandes homens da minha Patria; convencido da necessidade de haver aqui, na fronteira, nas barbas do hespanhol, quem dignamente possa representar o paiz—e seria: que, para fazer pár com Vossa Excellencia, não me dariam outro bis-Governador, que não fosse o grande, o saudoso, o inimitavel

Zé da Rosa!!

 

*

 

E se tal conseguisse, ai que alegria a minha, quando encontrasse Vossa Excellencia na rua de S. João, com a gravidade propria a um representante de Sua Magestade El-Rei, de braço dado ao sr. Zé da Rosa, outro representante de Sua Magestade (a Rainha, não meu Senhor?), seguidos por Sua Excellencia o Senhor Vice, com o seu chapéo de pennas de capão, e com a espada politica de Brenno, ao lado do outro Senhor Vice (quem devia ser? O sr. Roldão, por exemplo. É da arma de cavallaria...) e depois, atraz, o Senhor Baptista da Senhora do Faro com os outros Estados-Maiores; e depois ainda, atraz, muita gente, a sociedade do Provarei, o Fileiras, o João de Ganfey, o Senhor Martinho, que deitava la coca, o Capellão (o n.º 2), todos os paradas-velhas, etc., etc.

Com que arrebatamento então, meu Senhor, eu perderia as estribeiras e, mandando para o diabo a minha seriedade de Juiz de Paz, de irmão da Misericordia, de pae de filhos, como eu saltaria para a frente de Vocellencias e perdido, enthusiasmado, louco, distribuindo pançadinhas e piparotes e atando nas Excellentissimas trazeiras este raboleva de ridiculo,—que é a suprema essencia de toda essa grotesca mascarada, com que gargalhada homerica, ensurdecedora, colossal, lhes não bradaria:

—Oh que rica tropa fandanga!

—Quebra esquina, minhá gente!

Com o respeito devido a um Representante de Sua Magestade El-Rei, sauda Vocellencia o

 

Zinão.