Sinapismos
IV Uma descoberta do Dr. Charcot
IV
Uma descoberta do Dr. Charcot
Accedendo a frequentes reclamações diplomaticas do governo de Sua Magestade, o Imperador do Brazil, resolvera o Governo de Sua Magestade El-Rei de Portugal, que o primeiro fôsse auctorizado a expulsar dois cidadãos portuguezes que, segundo officialmente se asseverava, incalculavel prejuizo estavam causando ao regular movimento dos negocios commerciaes e, portanto, ao desenvolvimento material d’aquelle florescente imperio.
Não se fundamentava a necessidade da expulsão na cumplicidade em crimes politicos; attentados contra o Imperador, ou imperial familia; propaganda de ideas reaccionarias; troça ás preciosas producções poeticas de Sua Magestade; capoeirada nos chimpanzés da policia urbana, ou assuada ao Senhor Conde d’Eu.
Allegava-se, unicamente, que esses individuos, penetrando nas repartições do Estado, nos estabelecimentos commerciaes, nos grandes edificios de industria, nas escholas, nas egrejas, nos clubs, nos passeios publicos, nas chacaras e nos xadrezes, em qualquer parte—emfim—interrompiam as manifestações da actividade d’aquelle labôrioso povo e creanças, mulheres e homens abandonavam, immediatamente, o exercicio de qualquer mestér, fugindo espavoridos e como fustigados, por mal extranho e desconhecido.
A origem d’aquella nociva influencia, a natureza dos phenomenos que ella produzia, a complexidade dos seus effeitos, escaparam, sempre, á perspicacia dos doutos Galenos das terras do sabiá, porque as mesmas propriedades repulsivas obstavam ao demorado exame, que o caso requeria.
Annunciava, n’essa epocha, o eminente Pasteur os seus primeiros trabalhos sobre Microbiologia, que tão poderosa influencia vieram exercer na orientação das sciencias medicas; e não faltou, no estudo investigador dos clinicos d’alem-mar, a applicação das novissimas theorias, com pacientes trabalhos de microscopio, observações por analyse e por synthese e outros processos que a Chimica medica aconselha e, até, com demoradas experiencias nas fezes em acção sobre os orgãos das cinco funcções especiaes da sensibilidade, incluindo a pituitaria e a membrana, onde se ramifica o nervo de Wrisberg.
Lembrou-se alguem de classificar aquelles phenomenos, como suggestões motrizes do moderno Hypnotismo; mas Charcot, Richer e Bernheim, consultados sobre o caso, oppozeram-se á diagnose, visto que elles se manifestavam sempre com a mesma intensidade, isto é, que todos os individuos soffriam egual influencia repulsiva e não se evidenciavam as differenças na sensibilidade á hypnose, que nos sujets estabelece, como caracteristico, a diversidade de circumstancias physiologicas e pathologicas.
Nada se podia descobrir.
Havia no organismo dos dois individuos uma propriedade repulsiva, identica á das tremelgas, ordem dos selacios, grupo dos peixes cartilaginosos; mas desconheciam-se os elementos constitutivos d’essas propriedades e elles continuavam a exercer, em toda a parte, e a toda a hora, a sua funestissima influencia.
Uma unica circumstancia se pôde descobrir, graças á perspicacia do mais reputado Esculapio da Tijuca, a quem se deve a preciosa descoberta da cataplasma de linhaça e foi: que diminuia, consideravelmente, a intensidade d’aquelles phenomenos, quando se isolavam os dois individuos, ou quando permaneciam incommunicaveis.
Utilizando-se d’esta descoberta, o Governo do Imperador, attendendo aos laços de sangue e affecto, que unem os dois paizes, resolveu exportar a praga em epocha e vapor differentes. Assim se fez, com effeito.
O governo portuguez, assustado com o flagello, que subitamente cahia no solo da Patria, reuniu immediatamente a Junta de Saude e, por indicação d’esta, foram os dois compatriotas enviados a Pariz— onde, n’outras espheras e com outros horisontes se dilata a intelligencia humana—para lá serem submettidos á analyse dos grandes Mestres da Sciencia.
Após demorada observação e attento exame, o eminente Charcot, encontrou, emfim, a resolução do problema, que largamente foi demonstrada no Boletim da Academia de Medicina de Pariz, (mez de novembro de 1876) e, com prodigioso interesse, escutada por selecto auditorio, na mesma Academia, em sessão extraordinaria de 27 de dezembro, do mesmo anno.
Não tendo aqui, presente, a lucida exposição do eminente sabio, limito-me a reproduzir, e certamente d’uma maneira deficiente e incompleta—attendendo á escassez dos meus conhecimentos scientificos—a theoria, em que Charcot baseou a explicação do estranho phenomeno.
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V. Ex.ª sabe, como a moderna Sciencia explica, na Acustica, a producção e a propagação do som.
«O som é o resultado d’um movimento vibratorio, communicado á materia ponderavel»—eis a base da theoria, hoje adoptada e conhecida por «theoria das ondulações».
Conhece, tambem, o mechanismo da voz humana. A voz provem da acção do ar nas cordas vocaes. O ar, que sahe dos pulmões, produz, n’essas cordas, vibrações, mais ou menos rapidas, que transmittindo-se ás paredes da larynge se tornam sonoras, e que, depois, a acção combinada da lingua, das maxillas e dos labios, altera modifica e articula.
Conhecido é, tambem, o mechanismo da audição. As vibrações executadas pelas cordas e transmittidas, em ondas, ao ar exterior, chegam-nos ao pavilhão do ouvido e vêm, pelo tubo auditivo, actuar na membrana do tympano. Seguem, depois, até ao ouvido medio, no ar n’elle contido, e, pela cadeia do estribo, do martello, da bigorna e do osso lenticular, reproduzem-se, ainda, nas membranas das janellas redonda e oval, communicam-se ao liquido, que existe no ouvido interno e d’alli, pelos filetes do nervo acustico, ao cerebro.
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A potencia das vibrações, o deslocamento, mais ou menos violento, das ondas sonoras depende, portanto, alem d’outras circumstancias, da força com que os pulmões fornecem o ar, e da maior ou menor vibratilidade das cordas vocaes. Por isso, vêmos individuos com voz forte e penetrante, como o sr. Barros, e outros, com voz debil e sumida, como o sr. Nunes de Azevedo, que difficilmente se percebe.
Ora succedia que, por uma disposição especial dos pulmões, da larynge e das cordas vocaes, aquella força expulsiva do ar e a vibratilidade das cordas, existiam nos dois individuos em grau extraordinario e ainda desconhecido para os mais eminentes physiologistas. D’essa disposição especial resultava, tambem, que a voz, já potente e forte, obtinha, ainda, consideravel augmento de intensidade com a reflexão nas paredes da larynge, attingindo o que em Acustica se denomina resonancia.
Quando as vozes não encontravam obstaculo, pouco se conhecia esse augmento de intensidade, porque, então, se perdiam na atmosphera; mas, se as ondas deslocadas por cada uma se encontravam, era tal a violencia do choque e das vibrações, d’elle provenientes, que só a poderemos comparar, nos grandes phenomenos da Natureza, á rapidez e violencia das ondas do Oceano quando, açoitadas por furioso vendaval, avançam, chocam-se, equilibram-se com medonha expansão de força, recuam para formar novo salto, até que uma perde a força resistente, e a outra vence, esmigalhando, com espantoso ruido, tudo o que se oppõe á sua passagem.
Este effeito destruidor soffriam todas as peças dos apparelhos auditivos, que o circulo da primeira projecção podia abranger.
As membranas do tympano dilatavam-se n’uma dolorosa expansibilidade; o martello batia desesperadamente na bigorna com o mesmo furor, com que Mestre Borralho batia a sola, quando não era director dos Presidios civis; o estribo andava aos saltos, como anda em corcel fogoso, quando, no meio da batalha, entre o rugir da artilheria e o sibilar das balas, perde o cavalleiro e parte, desvairado e furioso.
Na trompa de Eustachio desencadeava-se um verdadeiro cyclone.
Nem as trombetas de Josaphat, n’esse terrivel dia do Juizo final, poderão egualar o infernal ruido, que supportavam os apparelhos auditivos.
Depois, para aggravar o flagello, dotára Deus os dois individos com uma extraordinaria loquacidade, e constante verborrhea que, de dia e de noite, lhes agitavam nervosamente os labios para questionarem, discutirem, argumentarem sobre tudo e sobre todos, em portuguez, em francez, em latim, em allemão, em quantas linguas vieram de Babel.
Era sempre de funestos resultados, de dolorosas consequencias a sua presença, e por isso, homens, mulheres e creanças fugiam, prestes, ao sentil-os, interrompendo todas as manifestações da sua actividade e todo o exercicio dos seus mestéres.
Desculpavel fôra, pois, o proceder do Governo brazileiro, expulsando os nossos compatriotas.
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Ora aqui tem V. Ex.ª, sem exaggero, sem alterações da verdade (que, por ahi, n’este assumpto, tanto tem sido alterada) subordinada a rigorosa demonstração scientifica—a razão, porque regressaram a esta terra, e se respeitam, e se evitam, a ponto de viverem separados pelas grossas muralhas da Praça, os nossos amigos:
Leopoldo Gomes
e
Abilio Lucas.
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Evitam-se e respeitam-se—disse eu, e demonstro.
Um vive dentro, outro fóra. Um foi a Paris em 75; outro em 79. Quando um é da Camara, o outro é da Commissão do Recenseamento. Abilio é socio da Assemblea e frequenta-a; Leopoldo despede-se. Entra novamente Leopoldo; Abilio deixa de frequentar aquella casa. Leopoldo conta a historia dos relogios; Abilio sorri maliciosamente e insinua a duvida; explica Abilio o remedio, que descobrira o ilheu, para salvar a senhora mãe; Leopoldo mastiga em secco e pisca o ôlho para os circumstantes. Um faz-se agricultor e trata de terras no Arraial, em Picões, na Esplanada; o outro faz-se politico e «provarei». Entra o segundo na Politica activa; desvia-se o primeiro, e trata de terras em Gondomil— polo opposto. Um, gosta do Capellão e fala-lhe a miudo, como homem temente a Deus; outro, não se dá com esse ministro do Senhor e rosna-se, até, que tem as suas questões com elle. Um, move-se, agita-se, apparece de manhã na villa, ao meio dia em Monsão, á tarde em Gandra e sempre a pé; outro, limita o exercicio dos seus membros locomotores á loja do sr. José Lopes, ou do sr. José Seixas.
É evidente, palpavel, esta incompatibilidade, esta heterogeneidade de individualidades, que se origina na intima convicção, que elles teem da sua influencia destruidora e no accordo, ou modus-vivendi, que, para mutua conveniencia, secretamente estipularam, ao fixarem a residencia na terra, em que nasceram.
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Quando, ha annos, estive em Paris, no regresso da minha viagem de estudo pelo Oriente—á Mongolia, ao Turkestan, a Niphon, a King-Ki-Tao e outros centros da Asia—onde fui recolher materiaes e elementos comparativos de civilização, com os da minha terra, para a composição d’este livro, encontrei-me, na Academia de Medicina de Paris, com o sr. Zagallo, que alli estudava, commissionado pela Excellentissima Camara d’esta villa, a organisação do serviço de Hygiene publica, indicado, por aquella faculdade, á municipalidade parisiense;—missão, essa, que Sua Excellencia, tão brilhantemente desempenhou, e que tão beneficos resultados produziu para esta povoação, como se prova com esse elegante, commodo e original water-closet do jardim publico.
Tive, n’essa occasião, a honra de ser recebido pelo eminente dr. Charcot.
Falando no meu paiz, alludiu o illustre clinico aos dois portuguezes, que em 74 examinára, por recommendação do Governo; e foi grande a sua admiração, quando lhe affirmei, que com elles vivia em Valença, e que, ha dez annos, permaneciam na mesma localidade, se bem que, nas condições especiaes de isolamento, que já referi.
Mas, a minha asserção tocou para Charcot as raias do inverosimil, quando, á supposição, que me apresentou, da existencia inevitavel de graves doenças e perturbações no apparelho auditivo dos meus conterraneos, sujeitos á convivencia e aos perigosos effeitos da presença e communicabilidade d’aquelles amigos, eu lhe affiancei que não eram essas enfermidades, as que mais avultavam nas estatisticas da secção de Hygiene municipal.
Charcot fazia bem em duvidar. Eu faltei á verdade, e a isso me levou a amizade, que a esses Cavalheiros me liga, e a repugnancia, que tive, em tornar odiosa, para o eminente sabio, a existencia de dois patricios, que tanto prezo, acato e... respeito.
Mas V. Ex.ª sabe o que por cá vae...