Sinapismos

Francisco Pires Zinão · Capítulo 23 de 40

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XVII A Sociedade dos Provareis (FRAGMENTO DA HISTORIA GREGA)

XVII

A Sociedade dos Provareis

(FRAGMENTO DA HISTORIA GREGA)

 

Como actualmente predomina nos espiritos illustrados uma tendencia absoluta para a analyse e para a investigação, parece-me que não serão aqui mal cabidas as seguintes linhas, que esclarecem, com os informes de um historiador classico, o periodo, indubitavelmente mais interessante e curioso, da civilização grega— o seculo de Pericles.

Na Litteratura e nas Artes estuda-se tenazmente o Passado, arrancando-se das trevas da tradição e das brumas da lenda, as producções maravilhosas dos grandes genios e os elementos constitutivos das grandes sociedades.

Recompõe-se a organização social da velha India; analysam-se os factores principaes d’essa assombrosa civilização hellenica e os do immenso poderio da antiga e soberba Roma; acompanham-se os Carthaginezes e os Phenicios nas suas audaciosas correrias; reproduzem-se as maravilhas da Arte arabe e investigam-se pacientemente as Sciencias, n’esse glorioso periodo dos Omniadas, que tão brilhantes vestigios deixaram da sua dominação na Peninsula iberica.

Assim, tudo o que actualmente póde representar para o homem illustrado, uma reliquia dos povos e das civilizações antigas—um livro, um pergaminho, um papyro, uma inscripção cuneiforme, um hieroglypho, uma lasca de silex, um fragmento de bronze, o dente d’um mastodonte, o coccyx d’um almoravide, o vomer d’um Ramsés, a tibia d’um khalifa—tem o mesmo valor, n’este culto pela Tradição, n’esta religião do Passado, que para o beaterio póde ter um ossinho de S. Francisco, um cabellinho da venta de S. Pancracio, ou uma unha das onze mil Virgens, que ainda hoje, nos grandes estabelecimentos commerciaes de reliquias sagradas e preventivas contra bexigas, massadores e outras coisas más, obtem elevado preço, apesar da enorme edição que se espalhou no mercado:—duzentos mil exemplares!

Nas Academias, nas Sociedades de Geographia, de Anthropologia, de Geologia, de Linguistica, de Numismatica, e congeneres, fundadas em todas as capitaes e centros civilizados, já com o auxilio dos governos, já pela iniciativa particular, organiza-se e apresenta-se ao exame do publico uma verdadeira exposição retrospectiva da actividade e da intelligencia do homem, desde as primeiras manifestações da sua vitalidade no globo terraqueo, até aos nossos dias.

Claro é que Valença não podia ficar indifferente a esta nova orientação dos espiritos cultos; e até, primeiro que n’outras terras, aqui rapidamente se desenvolveu o gosto pelas antiguidades, o culto ás coisas passadas, que o povo, na sua linguagem rude, pittorescamente classifica como: mania de cacos velhos.

Ha por ahi muitas collecções e muitos colleccionadores:

 

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Teias de aranha, microbios, tarecos velhos e empregos, collecciona o sr. Sampaio. O sr. Agostinho, partidos politicos e casacophones; chinós, ovos de passarada e instrumentos de vento, o sr. Abel Seixas; o sr. Zagallo, caixas de phosphoros, officios de despedida ao Senado e santinhos; sermões gallegos e patacaria de D. João VI, a Assemblea; o Club, homens pacatos da rua de S. João; commendas e pergaminhos, o sr. Verissimo de Moraes; o sr. Leopoldo, machados de bronze, volumes do Almocreve das petas e coisas das edades paleolithica e neolithica; o sr. Palhares collecciona moleques, macaquinhos empalhados e uma raça maldicta de papagaios, que o diabo inventou, para estoirar a membrana do tympano á desgraçada humanidade.

O Albininho collecciona tudo e é um colleccionador precioso, porque commenta; preparando, assim, inexgotavel thesoiro para as investigações historicas dos posteros.

Conserva cuidadosamente ordenadas por dia, mez, anno e seculo, atadas com fitinha de seda verde, azul, ou branca, conforme o signatario, todas as cartas que tem recebido, desde que traduz lettra redonda. Cada missiva mostra, no verso, uma nota explicativa:

14 de Outubro de 1876 (e seis)

Fulano de tal.

Valença do Minho.

(Pede-me sete e vinte emprestados. Desculpei-me, porque anda n’um

desarranjo completo e, qualquer dia, vae de bruços.)

 

5 de Fevereiro de 1869 (e nove)

F. ou C. de tal.[41]

(Pede dez tostões—Ficam-me agora a doze e cinco... Preciso de me desforrar.)

 

4 de Maio de 1875 (e cinco)

Officio da Camara, convidando para a procissão de Corpus-Christi.

(Agradeci tão graduada prova de consideração official. Estes, não são como os

da missa do Rei. Compareci, vestindo pela trigesima sexta vez a minha casaca n.º 3. Chapeo alto n.º 7, do Roxo—Lisboa—(3$570 com correio). Sapatos de polimento n.º 4 (5.ª prateleira, 2.ª estante, á direita). Gravata do Blanco (12 reales e uma perra chica; setim creme, com pintas de prata). Luvas n.º 207, do Baron.

Offereceram-me um logar graduado, ao lado do sr. Joaquim.)

 

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Eu tambem tenho a mania de colleccionador. É uma coisa que não fica mal; é da Moda e até dá um certo tom distincto.