Sinapismos

Francisco Pires Zinão · Capítulo 17 de 40

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Sinapismos

XIII Carta ao Zé Senso

XIII

Carta ao Zé Senso

 

T P

Burgo de Paysandu. Terça-feira,

17 de Dezembro de 1887.

Meu Zé.

 

Recebeu-se, hontem á noite, o 2.º fasciculo dos Sinapismos.

Não sei ainda como te conte o que se passou. Ha onze horas que estou de cama, a caldos de gallinha e copinhos de geleia.

O Dr. Pacheco só me deixa chuchar uma azinha de pito, de seis em seis horas, tal é o estado de fraqueza e abatimento em que me deixaram as violentas commoções, que hontem agitaram este pobre corpo.

Vou coordenar as ideas para te descrever o caso mais extraordinario, que fastos de Valença podem mencionar ás gerações vindoiras.

Tu sabes o que é o indigena sem illustração: corpo amanhado com borras de nababo, betume de Prudhomme, com leucocytos de Tartufo e cellulas philosophicas de Sganarello; alma ingenua, pura, immaculada, feita de arminho, gesso cré, grude de sapateiro e saliva de Zé Povo; no todo, uma mescla de tanso, de rufião e de sacripanta.

Sabendo isto, certamente não te admirarás do que vaes lêr.

Quando hontem á noite, já em ceroilas, punha o barretinho de dormir, ouvi na rua um enorme barulho: tropel desusado, gritos, rodar de carretas, patadas de mula, tiros, etc.

Como estava em fralda, disse ao Zéca que fosse á janella vêr o que era, e na minha mente surgiu a idea de que teriamos uma invasão ingleza por causa dos makololos.

—São os mokololos? perguntei ao menino.

—Não sei, Papá. São muitos homens que passam correndo; uns com espadas, outros com chuços, outros com chicotes, rewolvers, punhaes, facalhões e espetos, gritando:

mata! mata!

Vão todos com o sim-senhor á mostra e levam nas nadegas duas manchas vermelhas, como ficam nas pernas, quando o Papá me deita sinapismos. Atraz d’elles vem um diabo vestido de amarello, que traz na mão esquerda umas disciplinas de coiro, com que os fustiga, e na direita um ferro em braza.

 

*

 

Calcei á pressa as piugas e approximei-me da janella para presenciar tão inesperado acontecimento. Com o ruido que fiz, abrindo-a, a multidão parou subitamente. Todas as cabeças se ergueram, todos os punhos se levantaram, fechados com crispações nervosas; abriram-se mil boccas, onde rangiam sinistramente os dentes; insultaram-me; chamaram-me porco e chulo; berravam que me haviam de matar, de escuchinar, de virar de dentro para fóra, de arrancar as barbas, as orelhas e mais isto e mais aquillo.

Reparei que aquella medonha e terrivel multidão se dividia em tres grupos distinctos.

O primeiro era composto de maltrapilhos com feitio afadistado, que uma collareja porca e abandalhada, a quem ouvi chamar D. Politica, segurava pelos cabrestos. Zurzia n’elles, com uma aguilhada de ponta d’oiro, El-Rei buffo, D. Milhão.

O segundo era formado por patetinhas, d’estes infelizes, que nos hospitaes de alienados são conhecidos por doidos mansos.

Guinchavam, mostravam papelinhos, davam saltinhos, faziam esgares burlescos, descobrindo os dentes sujos. Tinha conta n’elles, dando-lhes, de quando em quando, um pontapé, outra mulher em desalinho e que parecia soffrer de grande myopia. Conheci D. Idiotice.

No terceiro, então, misturaram-se fedelhos e cães; d’estes tótós pequeninos de pello branco e encaracolado, muito nojentos e muito libidinosos, que mostram sempre a linguinha quando veem as amas, que trazem os focinhos molhados com um liquido que lembra, pelo cheiro, a cal e o peixe da Noruega, e que por ahi chamam, fraldiqueiros. Ladravam, davam ao rabinho, levantavam-se sobre as patinhas de traz, agitando para cima e para baixo a linguinha, d’onde escorria um fio de baba mal cheirante.

Aquella multidão saturava a atmosphera de aromas insupportaveis; distinguiam-se os do bafio, do arroto dyspeptico; este cheiro particular do azebre, do mofo, da catinga, de pé gallego, de coisas lippicas e rançosas, que tresandam a raposinho e a chulé.

No ruido ensurdecedor de tanto grito e de tanta explosão de colera, apenas se percebiam estas palavras:

Mata! Mata o Zinão!

 

*

 

O meu cerebro illuminou-se, então, com aquelles vividos clarões das grandes angustias; pinoteavam-me na imaginação, em infernal dança macabra, todas as vibrações das grandes dôres; vergalhadas cyclopicas açoitavam-me as ideias; a alma rebentava-me com explosões terriveis, minada pela robulite do terror; o coração desfibrava-se esphacelado pelas garras do susto; as cellulas nervosas achatavam-se sob a prensa hydraulica do pavor; o cordão espinal estoirava, esticado pelas furias da raiva; as saliencias do corpo sumiam-se arietadas pela allucinação; na trompa de Eustachio trovejavam as maldições; na retina faiscavam punhaes de odio; na pituitaria abriam chagas os atomos do rancôr; as cordas vocaes rebentavam com a tensão da ira; as papillas da derme eram esmagadas pelos martellões da colera; diabos vestidos de vermelho arrancavam-me os cabellos; harpias esgrouviadas furavam-me a cornea; satanazes com rabo reviravam-me as unhas; demonios acephalos rasgavam-me a bocca; morcegos sinistros esfarrapavam-me as carnes; lebreus hydrophobos roiam-me as cannelas; corujas esfomeadas espicaçavam-me as orelhas; chacaes lazarentos mordiam-me as nadegas; corcodilos e jacarandés trituravam-me os ossos.

 

*

 

E no meio de toda essa coisa phantastica, apocalyptica, satanica, horripilante, onde havia carcavões, fragoas, tenazes, forcas, venenos de Borgias, estyletes ervados, lanças quichotescas, navalhas de ponta e mola, balas de papel, espadas de pau, caçoletas e obuzes, explosões sulfuradas, bofes de leão, tricornios de gazeta, furores de Ugolino, ciumes de Othello, terrores de Machbet, perfidias de Iago, risos de Voltaire, astucias de Loyola, sarcasmos de Erasmo, pançadas de capoeira, chulipas de fadista, rugidos de Adamastor, pedradas de garoto, cobras e lagartos, viscosidades de lesmas, virus de serpente, commissões de quinzes e de paysanducos, protestos, duellos, policias correccionaes, boquilhas, aguas sebastianicas, beliscões kilometricos, musas hystericas, zoilos epilepticos...

—quando contemplava aquelle horroroso quadro em que, as tintas de Miguel Angelo, o pincel de Rembrandt e a phantasia de Hans Mackart, pintavam a sede de Tantalo, a insaciabilidade de Gargantua, a podridão de Imperia, o odio de D. Bibas, o servilismo do eunucho e o calcanhar d’Achilles,

—entre aquelle côro infernal de uivar de feras, clamar de moiros, ulular de caraibas, guinchar de idiotas, urrar de quadrupedes, pinchar de macacos, zunir de vespas, silvar de cascaveis, ladrar de bulldogs, d’onde apenas se destacava:

Mata! Mata o Zinão!

—senti alguem ao meu lado.

O tal diabo vermelho pinchára da rua para a janella; extendia-me o braço e dizia:

 

—Oh Coisa! dá cá um cigarro. Casca n’elles, que ainda bolem!

 

e desapertando a carcela das calças, voltou-se para a turba e...

esguichou-a.

 

Já sabes, Zé amigo, quem elle era:

 

O Ridiculo.