Sinapismos

Francisco Pires Zinão · Capítulo 35 de 40

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Sinapismos

6.º Dirigir nos campos da politiquice, com a aguilhada da administração, o rebanho dos camaristas.

administrativo

 

a) F. (governamental) tem uma burra. Só paga decima

quando fôr da opposição.

b) F. (gov.) tem um rendimento collectavel de reis 100$000.

Reduz-se a 50$000.

c) F. (opposição) é professor e politico contrario. Retiradas

as gratificações sob qualquer pretexto.

d) F. (gov.) requer uma policia correccional contra X. Pedra

nos autos.

e) F. (op.) é filho unico e amparo da familia. Intimado para

em tres horas se apresentar á inspecção.

f) F. (gov.) é forte como um toiro e robusto como um

Hercules. Entra ámanhã na inspecção. Isento por tisico.

g) F. (gov.) é gallego e intrujão. Na gazeta do partido illustre

correligionario e probo cidadão.

h) F. (op.) é homem de bem; eu tambem o creio... apesar

de que dizem por ahi (eu não acredito) que é ladrão e salteador de estrada.

 

6.º

Dirigir nos campos da politiquice, com a

aguilhada da administração, o rebanho dos

camaristas.

 

Este problema exige dois mezes de tirocinio com os

boieiros do Alemtejo, para se apprender a deitar o laço e a reunir á manada qualquer boi tresmalhado.

Ora diga-me V. Ex.ª: n’estes tres mezes em que tem empregado a sua actividade nas coisas da nossa administração não encontrou ainda em equação, sobre a sua mesa de trabalho, todos esses problemas?

E resolveu-os?

Não os resolveu, porque a sua consciencia e a sua dignidade esperam, ainda, as provas de elasticidade e de resistencia que necessitam para a tensão das patifarias politicas.

V. Ex.ª tem feito um pessimo logar.

Nem come os calhos dos abbades, nem é paysanduco, nem é provarei, nem deita foguetes.

Se não fosse a luminosa e providencial influencia do seu Ex.ᵐᵒ Substituto, homem de assaz provado engenho e competencia em assumptos de Direito administrativo e ilhas adjacentes, V. Ex.ª envergonhava a terra, o partido e os amigos, a cujo numero eu tenho a honra de pertencer.

V. Ex.ª não tem feitio para Administrador.

 

Em tantos de tal (ainda V. Ex.ª não tinha na gaveta, ao lado das piugas, a banda azul e branca) entraram no seu escriptorio os cidadãos Zé Pita, Tóne do Logar e Manel Cancella.

Este Manel trazia uma questão com o sogro por causa das aguas da rega.

Disse da sua justiça.

V. Ex.ª ouviu, pensou e aconselhou.

Zé Pita, cidadão que tem as suas fumaças de doutor lareiro, metteu a colherada no caso, muito lepido e escorreito com umas objecções ao douto conselho de V. Ex.ª

V. Ex.ª ouviu, pensou e refutou: artigo tantos, paragrapho tal, etc.

Vae n’isto—o Tóne do Logar, home de representação e de lettras gordas na freguezia, chegou-se tambem ao rego da discussão, e metteu o bedelho, descobrindo ainda outra hypothese.

V. Ex.ª ouviu, pensou e concluiu.

Ficára o caso liquidado entre os quatro doutores, digo, entre V. Ex.ª e os tres cidadãos.

—Quanto é? perguntou Manel.

—Dezoito vintens! respondeu V. Ex.ª

Ficou estarrecido o homem. Nunca imaginára pagar um conselho por mais de tres patacos, muito especialmente agora que o João Moraes os annunciava a quatro menos cinco, para quem se avençasse ao mez.

—Sôr Doutor... talvez seja engano de Vóssoria, mas foi só um conselho...

—Foram tres e não um! respondeu V. Ex.ª com aquella cara muito arrenegada que ás vezes tanto assusta a gente.

—Tres, meu senhor?

—Você não falou?

—E depois não falou outro?

—E não falou depois outro? Tres vezes seis, dezoito.

 

Justissima era a reclamação.

Nem os sete sabios da Grecia poderiam contestar a legalidade e a exactidão d’aquella operação arithmetica.

 

Este simples facto revela a rispida e austera execução que V. Ex.ª dá aos sacratissimos principios da Justiça e da Equidade e revela, tambem, a incompetencia de V. Ex.ª para um logar onde, tendo tres, oito, dez ou vinte consultas diarias, nada poderá reclamar, quando venham recommendadas por o sr. Joaquim, ou por outro qualquer confrade politico que se lembre de fazer favores e de adquirir popularidade, á custa dos dois contos que V. Ex.ª gastou na formatura.

 

Para estas coisas de Politica é preciso vêr muito ao longe, ter vista de caçador, e V. Ex.ª mesmo como caçador, é um desastrado.

Nunca me hei-de esquecer d’aquella surriada que lhe fizeram os rapazes de Arão, quando V. Ex.ª lá appareceu com todo o seu arsenal de guerra.

 

Um dia, o Rocha e o Leitão suggeriram no cerebro de V. Ex.ª as glorias de Nemrod.

Depois de jantar, sahia V. Ex.ª com todos os petrechos de caça, inoffensivamente mortiferos. Uma solida escopeta de carregar pela culatra; á cinta, um grandecissimo facalhão para escuchinar javalis; no bolso direito, uma enorme navalha de furar lobos; a tiracollo, d’um lado a cartucheira com trezentas cargas de polvora e bala; do outro lado, o canudo de cortiça com vinte e sete furões e furoas; no bolso direito do collete, um revolver de oito tiros; no esquerdo, um box de quebrar dentes a cães e vinte exemplares do Noticioso para necessidades urgentes; nos pés, aquellas grossas botas de sete solas impermeaveis, até, no Rio Minho; aos hombros, o capindó de borracha, gemeo do outro com que o Albino attrae a chuva por essas ruas, em dias claros e formosissimos de Primavera; atraz de V. Ex.ª, ladrando, farejando, saltando vallados e alçando as pernas, seguia a terrivel matilha, recrutada na Parada-velha: podengos de todas as raças e feitios, para coelho, para perdiz, para lobo: o Nilo, a Fuinha, o Gigante,—tó, Nero!—volta, Farrusca!

Assim disposto e precavido, seguia V. Ex.ª por essas aldéas fazendo tremer o solo, os ceos, a terra, os mares, com o aspecto apavorador da sua ferocidade venatoria.

N’isto,—alli ao pé de Arão, um triste pintasilgo risca no ar uma curva e vae poisar no arvoredo proximo.

A matilha amarrou.

V. Ex.ª toma ar, carrega a escopeta, aponta... toma outra vez ar... desfecha e olha.

O passarito soltára uma gargalhada de escarneo e batera as azas, voando...

Quando passou sobre a cabeça de V. Ex.ª, lá do azul dos ceos cahiu uma coisa sobre o seu excellentissimo nariz.

A qual coisa, molle, pastosa, de côr cinzenta e com o feitio retorcido d’um S fez exclamar a um rapazinho que, de carrapuço vermelho e mãos nos bolsos, a distancia presenciava o caso:

—Oh que grande caçador de minhocas!

 

E campos fóra de Politica, Ex.ᵐᵒ Sr., quando encontro V. Ex.ª armado de ponto em branco com a escopeta da Administração, cartucheira presa á banda azul e branca, matilha de abbades e rafeiros,—quando verifico que V. Ex.ª nem tem animo para disparar o bacamarte d’uma transferencia, nem sabe empalmar uma urna, nem falsificar uma acta, nem dirigir uma borga de calhos, nem descascar uma batata, nem deitar um foguete com ropia, nem tocar n’um gaiteiro, nem mentir com cara seria, nem perseguir os professores, nem desgraçar uma familia, nem deshonrar um funccionario, nem amesquinhar um merito, eu, Ex.ᵐᵒ Sr., n’esta occasião em que V. Ex.ª por ahi anda atrapalhado com a escopeta de dois canos que nas mãos lhe metteram, para dar o primeiro tiro contra a opposição—não posso reprimir estas palavras com que, conceituando politicamente V. Ex.ª, parodio o rapazito d’Arão:

 

—Oh que grande Administrador das duzias!

 

Aos pés de V. Ex.ª, curva-se respeitosamente o

 

Zinão.