Sinapismos
VII Litteraturas (DUAS PALAVRAS)
VII
Litteraturas
(DUAS PALAVRAS)
Claro é que, tendo subordinado o programma d’este livro ao titulo de Estudos sobre a actual sociedade valenciana, me não posso esquivar a fazer incidir, por momentos, na minha lente de observação, os raios luminosos que os nossos homens de lettras, semanalmente, fazem convergir no fóco das lamparinas cá da terra.
N’esta epocha, em que legalmente está em uso, reconhecida e sanccionada, essa nojenta e nociva convenção litteraria do elogio-mutuo, que tanto talento atrophia, que tanta intelligencia embriaga com os aromas d’um incenso macanjo, parvoiçada é—reconheço— o meu proposito, que significa perigo eminente nas cannelas, irremediavelmente condemnadas á dentuça dos critiqueiros.
Limito a area da observação com as muralhas da Praça e d’ella exceptuo, ainda, algumas individualidades que, demasiado, me ferem a retina com o seu talento, e que a insignificante distancia focal da lente me não permitte abranger.
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N’esta nossa terra, a penna serve, unicamente, para estadulho de deslombar politicos, ou nas protervias e diatribes, originadas em questiunculas ridiculas e comicas, como as da Prisão da Santa, ou nas pacholices rimadas, com que se visa á critica galhofeira.
A penna photographa a Idéa. A Idéa póde evolar-se, librar-se sobre todas as manifestações da actividade humana, consoante as aspirações que a orientam e as intelligencias que a esclarecem. Póde fixar-se na Arte, na Sociedade, no Homem, etc. Entre nós, embirrou com a Politica e não a larga.
Por isso, chafurda na insulsez parrana, na graçola afadistada, na metaphora besuntona.
Ao brazileiro barato, ao fidalgo sem pergaminhos e a outros escarros-piadas, que por ahi fluctuam á tona da enxurrada, corresponde esse constante martellar de bordões estafados, do gaiteiro, do João Bernardo, com que ainda hoje a fedelhada sahe á estacada, empunhando a babuzeira e acenando a quem passa com outro Ideal e com outras armas: não o insulto soez á familia, mas o sorriso caustico do epigramma á individualidade social.
A Imaginação e a Phantasia vasam-se, por ahi, nos moldes d’uma linguagem mascavada, em que pullula o neologismo pretencioso, d’onde resalta a phrase de sensação dos ultimos figurinos, que o francez atira, por cima dos Pyreneus, como uma bota cambada e velha, e que o rabiscador, prestes, enfia nos pesunhos para, coxeante e rufião, seguir em truanesca marcha, campos fóra da critica e da... tolice.
Esfuzia, frequentemente, o gallicismo inutil nas espalmadas linhas; é constante a referencia ôca á lombada das recentes publicações francezas; e, n’uma epocha em que o mercieiro fala na Sapho, de Daudet, ri com as frescuras de Catulle, estremece com as Blasphemias de Richepin, salta com as pinturas realistas de Zola, entretem a familia com os Goncourt e auxilia a chylificação com Maupassant ou Coppee, a arlequinada do rabisca, não só denuncia ignorancia completa da nossa litteratura e dos recursos da nossa lingua, mas, ainda,—com a impropriedade dos termos, apanhados a dente e atacados a soquete sublinhado nos periodos—uma deploravel vaidade e tristissima inconsciencia.
Não ha orientação litteraria, nem eschola definida, nem percepção nitida da idea, nem consciencia na phrase, nem centelha de imaginação que desperte a vibratilidade da nossa alma. Ha, d’um lado, a atrophia voluntaria e criminosa, a que se condemnam faculdades intellectuaes de superior quilate, e d’outro, a ambição ridicula e chatissima de se mostrar á familia—ao papá e á mana, ao titi e á prima, ao namoro e á sopeira—o nome em lettra redonda, claro, ou nas malhas transparentes d’um pseudonymo, que o sorrisinho immodesto descobre ao primeiro e desejado ensejo.
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Poderá alguem suppôr com estas minhas reflexões, tão discordantes na fórma, das hosannas, que por ahi se entoam, impostas pela nojenta convenção do elogio mutuo, que nego merecimentos, ou repudio aptidões intellectuaes?
Tal não succede.
De quando em quando, aqui e acolá, mesmo n’esses a quem a vaidade e o pedantismo desnorteiam, descubro e reconheço os vestigios d’uma expontaneidade de phrase, evidente; d’um colorido de expressão, notavel; d’uma receptividade emocional, definida; d’uma accommodação visual para a analyse, apreciavel;— propriedades que, vigorizadas pelo trabalho, orientadas pelo estudo persistente nos bons modelos e impulsionadas para um Ideal, podiam educar-lhes o espirito e eleval-os, porventura, á consideração que ambicionam e que criminosamente lhes attribuem.
O que eu desconheço é:—o trabalho; o que eu censuro é:—a inercia; o que eu repudio e calco aos pés, é essa perfida e nojentissima convenção, que faz do cinco reis de gente um Adamastor, do balbuciante bebé um polemista, do Rosalino Candido, um Ramalho Ortigão, ou, como elles diriam, de Prudhomme, um Pierre Veron, ou Albert Wolff.
A penna exprime a Idea. A Idea parte do cerebro. O cerebro significa a Intelligencia, a Alma, isto é, o conjuncto da sensações e sentimentos, que na sua phenomenalidade, separam o Homem do bruto.
A faculdade de sentir e a expressão nitida e clara, pela penna e pela palavra, de todos os phenomenos da natureza psychica, são o que o homem tem de mais nobre.
Triste é, portanto que, na critica d’um facto, na discussão d’uma idea, no desforço d’uma aggressão, eu vá encontrar aptidões intellectuaes com elementos tão apreciaveis, na choldra da Politica, ou descendo, ainda, tanto e tanto, que se não pejam com a pasquinada a carvão nos logares, onde o carrejão usualmente se encosta, para... ensalitrar as paredes.
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E no grupo dos que a inercia atrophia, dos que deviam libertar-se para outras espheras mais luminosas e mais puras, porque já possuem na Imaginação e na Phantasia a vigorosa organização do condor, vejo eu um homem—que sabe burilar preciosamente a idea, que filigrana artisticamente a palavra—debater-se, na triste condição de bonifrate, movimentado pelas guitas dos especuladores, transformando o cerebro, d’onde arranca chispas d’um verdadeiro talento, na bola ensebada e porca dos jogos malabares que os politiqueiros por ahi exhibem, visando á esportula dos magnates.
E como se não fosse profanação bastante, o manchar a penna nos bispotes, em que essa megéra—a Politica—diariamente evacua, ainda ha pouco manchou tambem os labios d’onde, palpitante, quente, phantasiosa e bella, lhe resalta a palavra, na dentuça cariada e porca d’um salta-pocinhas eleitoral agargalado!
Suprema humilhação do talento!
Pudesse eu agarrar-te pela golla do casaco e, applicando-te em certa parte do corpo duas palmadas, fazer actuar no teu espirito, incisiva e caustica, a affectuosa indignação, com que d’aqui te brado:
Livra-te d’esse chiqueiro, [25] homem de Deus !