Sinapismos

Francisco Pires Zinão · Capítulo 30 de 40

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Sinapismos

XXI A manifestação dos artistas

XXI

 

A manifestação dos artistas

 

Em 28 de janeiro, a Direcção da Assembléa Recreativa promoveu uma manifestação patriotica, préviamente annunciada nos jornaes da terra com a minuciosidade espaventosa d’um programma de S. Telmo ou da Agonia.

Não é meu intento censurar essa manifestação; mas, pelo simples facto de ella ter sido promovida por um grupo de artistas e de homens do trabalho não devo excluil-a do campo critico, onde com estes artigos analyso os factos mais importantes na chronica valenciana.

A meu vêr, essa manifestação teve uma origem que a absolve plenamente d’uns pequenos ridiculos que a amesquinharam. Originou-a um impulso de sincero patriotismo, e basta isso para escudar os promotores d’ella contra a rudeza da phrase com que verberei a fantochada de 14.

Se essa manifestação offerece alguns lados censuraveis, se teve peripecias irrisorias, se não me inspira hoje phrases de caloroso applauso e de sincera adhesão, os seus promotores devem-no, exclusivamente, ás impressões que nos seus espiritos deixou a grande rusga de 14. Aproveitaram parte do programma: musica, cortejo, vivas arruaceiros, procissões intra e extra-muros, etc., abandonando deploravelmente os meios que a Razão aconselha para, em occasiões identicas, se dar a qualquer manifestação um caracter significativo de energia, de sensatez e—sobretudo—de utilidade.

Não me rio perante as bandeiras que n’esse cortejo distinguiram a Arte, do Commercio, como estulta e imbecilmente o fizeram alguns dos illustres patriotas, comparsas na ignobil farça dos abbades. Essas bandeiras significam o trabalho honrado, o homem que labuta e moireja dia e noite no sustento da familia, e que nunca serviu de lacaio a qualquer magnate eleitoral para, á custa do Estado, coçar por ahi, nas esquinas, os seus setenta kilos de ociosidade; significam o artista que contribue efficazmente para a riqueza da nação; o commerciante que concorre com uma boa parte dos seus interesses para as despezas das nossas mais uteis instituições e não o eunucho indifferente a todos os impulsos da Civilização e que, arrastando uma existencia ignobil, como a da lapa eternamente presa ao rochedo, na valla commum dos inuteis desapparece, sem ter conhecido outra energia e outras sensações além das que obteve, comendo, bebendo e dormindo.

Passe, pois, o cortejo, porque perante elle, eu, descubrindo-me, exclamarei tambem:

 

Viva a patria!

*

 

A Musica da Santa veiu outra vez espancar os ares com as notas festivas dos hymnos, bufadas para os céos da Patria com a furia d’uma orchestra de Cafres.

É crença arraigada no espirito do povo que não póde haver solemnidade sem gaiteiro.

Era preciso, disseram-me, estimular, avivar o espirito da nacionalidade.

Este argumento defensor dos paus-tesos recorda-me as funcções luctuosas das antigas carpideiras, nas casas minhotas.

Morria o fidalgo.

Expunha-se o cadaver na sala nobre.

As mulheres e as creanças acocoravam-se sobre os tapetes.

Em volta do caixão perfilavam-se, tristes, sombrias e sinistras, seis mulheres recrutadas no auditorio dos Missionarios, entre as mais hystericas e lacrimosas, quando algum dos energumenos descrevia os horrores do caldeirão de Pero Botelho, o rechinar das carnes e os forcados rubros de trezentos milheiros de diabos que pinchavam sobre as cabeças chamuscadas dos condemnados.

Vinham os amigos da familia apresentar as suas condolencias.

As carpideiras irrompiam n’um chorar convulso, com todos os sons da gamma afflictiva, com todas as notas ascendentes e descendentes d’uma suprema dôr: suspiros, gemidos, gritos, berros —berros, gritos, gemidos, suspiros.

Os sentimentos quando se manifestam com violencia exercem uma forte acção de communicabilidade a que nem todos são refractarios. Vêmos lagrimas nos olhos d’uma viuva, ouvimos o casquinar de sonoras gargalhadas e o cerebro, recebendo as impressões d’essas lagrimas e d’esses risos, reproduz em nossa face os sentimentos que os motivaram: rimos quando os outros riem

e choramos quando os outros choram[61].

Assim, na scena das carpideiras, ellas, a familia, as visitas, os creados, disputavam primazia em intensidade de sentimentos.

Terminada a cerimonia, os amigos compunham no rosto os traços d’uma grande dôr; distribuiam pela familia arrochados abraços e violentos apertos de mão, exprimindo entre soluços os desejos de se tornarem uteis: se fôr preciso qualquer coisa—estamos ás ordens —mandar com franqueza—adeus—é ordem do mundo—resignação —adeus...

Fechada a porta, fechavam-se tambem, com ella, as valvulas das glandulas lacrimaes; e carpideiras e doridos corriam á vasta cozinha, onde pantagruelicamente atafulhavam o bandulho com grossas postas de bacalhau cozido, abundantemente regadas por successivos cangirões de bom e espumante verdasco.

Batiam, de novo, á porta; tudo voltava á sala.

O morto lá estava; amarello, hirto, de mãos ceraceas cruzadas sobre o peito, muito esticado dentro da sua roupa preta perolada de agua benta, exhalando fragrancias de vinagre aromatico, de nariz para o ar, onde as moscas esgaravatavam com as patitas, na doida e frenetica sensualidade das cocegas que ellas tanto appetecem, e que o finado, dias antes, tão pertinazmente lhes recusára.

Então, a sensibilidade das carpideiras explodia pelo canal digestivo em sonoros arrotos.

 

E n’essa sessão solemne que constituiu a segunda parte do programma—uma verdadeira visita de pezames pela frieza da sala, pelo tremulo discursar dos primeiros oradores, pela hesitação dos mestres de cerimonia e pela presença da bandeira nacional que significava os restos mortaes dos nossos brios e das nossas glorias, tambem se ouviu—permitti que o diga, honrados artistas—um rasoavel arroto:—aquella polka final.

 

*

Durante o trajecto do cortejo, a Musica tocou, por vezes, hymnos varios. Excluistes o da Restauração, que só os eunuchos da Rotina hoje podem admittir nas suas manifestações simontadas. Devieis dispensar tambem os outros: o da Carta e o do Rei.

O primeiro lembra a libertação da tyrannia, a emancipação dos direitos do cidadão, a queda do absolutismo, o inicio d’uma nova era de Progresso intellectual que devia esmigalhar as algemas de instituições odiosas e impulsionar-nos na bemdita estrada da Civilização, livres das trevas e dos espinhos que amarguraram os dias dos nossos antepassados.

Recorda, pois, um facto—a outorga da Carta—que trouxe jubilos, alegrias; e não é em horas de tristeza e de desalento que n’elle devemos procurar lenitivo.

O segundo solemnisou a coroação d’um monarcha—uma festa nacional em que houve bailes, recepções, salvas reaes, paradas, espectaculos de gala.

Pelo anterior argumento devia ser excluido.

 

O ultimatum inglez é, apenas, a primeira bala do assedio que essa côrte de debochados planeou contra o nosso dominio d’alem-mar.

A espoliação de Bolama que elles tentaram em 38; a de Goa, Damão e Diu em 39; a das ilhas de Lourenço Marques em 62; a redacção da Royal Charter que ultimamente concedeu a Lord Fife os terrenos a oeste de Moçambique; a necessidade que elles teem de possuir, na costa africana oriental, um bom porto que dê expansão ao desenvolvimento das colonias estabelecidas no interior á sombra de perfidos protectorados; as recentes ameaças sobre as ilhas da Madeira e sobre Lourenço Marques—revelam claramente o plano da usurpação violenta de que mais tarde ou mais cedo, com pretexto ou sem elle, Portugal será victima.

Os nossos terrenos africanos, se pouco teem produzido até hoje pelo abandono a que os condemnamos, podem ser no futuro elemento valiosissimo de riqueza e de prosperidade; e na tristissima situação em que as nossas finanças se encontram, com o enorme desequilibrio que annualmente se denuncia entre a receita e a despeza, quando os encargos da divida absorvem, já, metade dos rendimentos, importantissimo é o problema colonial, porque a solução d’elle póde evitar funestissimas perturbações, póde evitar a ruina da Nação, e mais do que isso—a perda da sua independencia!

E dizei-me agora, honrados artistas e commerciantes:

Se no dia trinta e um de dezembro, quando fechaes o vosso balanço annual, reconheceis que o passivo excede o activo— quando perante esse deficit encaraes, com olhar vacillante, o futuro, onde vêdes sombras e não auroras—se no anno seguinte uma nova especulação, uma nova industria vos proporcionar meios com que possaes capitalizar uns centos de mil reis collocados depois, á ordem, no Roriz,—se um dia o Primeiro de Janeiro vos annunciar a quebra d’aquelle banqueiro e, com ella, a perda do vosso capital, a destruição completa dos elementos com que esperaveis viver com abastança no futuro—acaso a vossa alma se póde regosijar com o Hymno do Rei ou com o da Carta?

Pois as situações são as mesmas.

Vós e a Patria tendes annualmente um enorme passivo.

O capital que estava no Roriz—o vosso futuro—é o dominio d’alem-mar—o futuro da Patria.

A noticia da fallencia é a noticia do ultimatum, com esta differença apenas: uma originou-se na adversidade dos negocios, outra na ambição d’um lord.

Vós sois a Patria; viveis n’ella; sois a alma e o braço d’ella.

A Patria é tudo isso que vos rodeia: familia e amigos, affectos e carinhos; é tudo o que ha de bom, de generoso, de nobre e feliz na vossa existencia; é a limpidez d’este formosissimo céo peninsular, a risonha paizagem do nosso Minho, a irradiação das nossas alvoradas, o oiro dos nossos crepusculos, o matizado dos nossos campos; é essa dulcissima melancholia que ao toque das trindades inunda a nossa alma com a toada longinqua das canções populares, é o nobre orgulho que em vossos olhos brilha quando escutaes a epopéa das nossas gloriosas façanhas; é essa formosa cabeça de velho que vos sorri, é a esposa carinhosa que vela a vossa doença, é a creança—esse pequenino sêr feito com raios de alvoradas e

crystallizações de sorrisos—a quem chamaes filho [62].

Quem offender a Patria—offende-vos.

Quem a roubar—rouba-vos.

Quem toca o hymno da Carta quando ella soffre, toca-vos o hymno do rei quando, com a fallencia do Roriz, reconheceis perdidas e inutilizadas as esperanças do vosso futuro.

 

*

 

Despedi, pois, os gaiteiros, amigos.

Não lhes faltará que fazer.

Ahi estão os paysanducos esperando a borga das eleições. Lá estão os de Monsão que d’elles necessitam para as farças publicas do entrudo, em que figuram makololos e Serpa Pinto.

Uns e outros: paysanducos, makololos e santascocas provam á evidencia, pela sua immobilidade mental, que, realmente, não havia razão para os sabios repellirem com tanto ardor as theorias de Darwin.

Nos cerebros de todos elles, existem irrefutaveis vestigios de hereditariedade chimpanzéca.

Distingui-vos d’elles!

 

*

 

Á sympathia que me inspira a vossa Assembléa deveis estes periodos, onde podereis encontrar phrase aspera de sinceridade, mas não phrase humilhante de ironia.

Não vos offendaes, pois, por eu declarar que estou intimamente convencido de que nenhum de vós conhece exactamente o valor, a extensão, a situação geographica, os limites dos terrenos que a canalha dos lords nos pretende roubar; como sinceramente creio que a mesma ignorancia existe no espirito da maior parte dos patriotas que promoveram a grande rusga de 14 e que por ahi, ainda hoje, erguem as mãos ao céo, falando de roubos, de direitos indiscutiveis, etc., etc.

Tirae-me do grupo promotor da fantochada umas tres ou quatro cabeças, e demonios me levem se as restantes vos disserem para que lado fica a Africa, se fica perto ou longe de Taião e se lá vivem homens civilizados como nós, se paysanducos, se orangotangos.

Em vós, tudo desculpa essa ignorancia. Sois homens do trabalho. Quando o dia nasce, principiaes a lucta pela vida; quando o sol se esconde, procuraes no repoiso, vigor para a tarefa de ámanhã. Não podeis, portanto, dispensar o tempo necessario ao estudo d’estas questões que a Historia, a Geographia, o Direito internacional, etc., esclarecem.

Essa ignorancia existe, ainda mais profunda nas camadas populares inferiores á vossa.

Berraes, pois, que vos roubam sem conhecerdes, quanto, o que, e onde.

Consultae a consciencia e dizei-me se isto assim não succede, e se não consideraes censuravel que um homem nas ruas grite contra um ladrão, ignorando os direitos que tem de o fazer e só porque ouviu as exclamações dos outros.

 

*

 

Reconhecereis, portanto, que podia condemnar a vossa manifestação de 28, mas se acreditaes na sinceridade d’essa sympathia que eu vos affirmei nutrir pela Assembléa Recreativa, se a opinião d’um homem que se ri dos que, n’outras espheras mais illustradas, fazem das luvas—uma coisa que o meu cocheiro usa— distinctivo irrefutavel de sentimentos dignos e cavalheirescos (!) permitti que em poucas palavras vos indique a fórma como eu entendo que vós devieis ter organizado a manifestação.

 

Nada de musicas; nada de procissões pelas ruas!

Um de vós pediria o theatro. Tres ou quatro iriam em commissão convidar qualquer dos officiaes do Regimento—que os tendes ahi illustrados e competentissimos—para uma conferencia sobre a questão do Chire-Nyassa, em que vos expozesse claramente, perante um mappa, a situação dos nossos dominios e a legalidade dos nossos direitos.

Para essa conferencia abririeis as portas ao povo, a esse eterno ignorante sempre explorado, porque o não educam; e se os vossos recursos podessem contribuir para uma verdadeira e util obra de patriotismo, a esse mesmo official pedirieis que vos escrevesse um pequeno volume onde, em linguagem chan, clara, perfeitamente intuitiva e ao alcance de todas as intelligencias, se desenrolasse a historia do nosso Passado e a historia d’essa vergonhosa alliança com a corte dos lords.

Distribuirieis depois, oito centos ou mil exemplares d’essa publicação pelas freguezias do concelho, pelas escholas, pelas ruas.

E então, amigos, com os brados de cólera e com as exclamações de desalento que a miragem das nossas gloriosas conquistas provocaria, poderieis compôr um hymno—um verdadeiro hymno nacional, magestoso, triumphante, imponente de enthusiasmos, arrebatador de generosos sentimentos, palpitante de sincero, energico e irresistivel Patriotismo!

Poderieis então gritar:

 

Viva a Patria!

 

que eu, sobre a cabeça d’esses paysanducos que se riram de vós, responderia com toda a energia de minha alma:

Honra á Assembléa Recreativa!