Sinapismos
VIII Quimtilinarias[26]
VIII
Quimtilinarias[26]
Diz algures Macaulay:
«É nas grandes crises politicas, nas grandes agitações populares, que se denunciam os grandes homens e se manifestam os grandes genios.»
Cá temos a confirmação d’esse periodo do eminente historiador inglez.
Ruge, infrene, a colera do povo por causa do mandado: e no meio d’essa espantosa effervescencia da nossa politica, ergue-se aos céos da posteridade, dardejando raios mortiferos de oratoria epistolar, um homem, até hoje ignorado na republica das lettras: Quim Fonseca!
Tenho lido muita epistola e muita carta; li as epistolas de S. Paulo aos corinthios; as de Horacio e Cicero; as de Racine e Pascal; as de M.ᵐᵉ de Sevigné e de Girardin; as do Rosalino e Jayme José; mas, coisa tão puxada de rhetorica, tão desembolada de logica, tão frecheira, de estylo—é que ainda não pude encontrar nas litteraturas passadas e presentes, desde a sanskrita, até á dos papuas, ou á das gentes do Molembo-Kuango!
Sempre desconfiei que, no cerebro d’este Fonseca, vascolejava algo de extraordinario e de superior. Quando, por ahi, aventavam deformidades psychicas, amesquinhantes do intellecto, affirmava eu sempre:
Fonseca tem lume no olho! O futuro o dirá.
Ahi estão as suas sessenta epistolas engranzadas nas gazetas da terra, confirmando, plenamente, os meus presentimentos.
*
Estudei durante muito tempo o Quim Fonseca, auscultando as minucias da sua existencia social e as subtis ramificações da sua politica.
Considero-o como um dos vultos mais importantes da minha terra, porque é o fulcro diamantino, onde se apoia a alavanca civilizadora (?) do Progresso. Impõe-se, portanto, á minha observação e ao meu respeito.
Consumi annos n’esse estudo, sem poder formular uma classificação exacta e rigorosa.
Mas, um dia, descobri que Fonseca usava... suspensorios!
Ora, os suspensorios teem para mim uma grande significação; considero-os como elemento precioso e infallivel na investigação do caracter individual—elemento mais precioso e mais infallivel, do que as protuberancias do craneo, na theoria de Gall; os traços physionomicos na de Lavater, ou o volume do cerebro na de Broca. Após minuciosas analyses e confrontações, cheguei á conclusão, de que os suspensorios pódem significar: reflexão, sobriedade, economia, previdencia, sensatez, paz do espirito, pureza de costumes, existencia de virtudes civicas.
Homem que usa suspensorios, sabe de cór quanto produz, livre do imposto de rendimento, o capital de doze moedas d’oiro a tres e meio por cento; sabe em que lua se cortam as madeiras; sabe em que epocha convém semear a couve penca, o rábano, a nabiça e as pevides de marmelo; sabe em que mez se capam os gatos; sabe salgar um porco, dispôr os presuntos no fumeiro, encher um chouriço; sabe coisas de emphyteuta, de fóros, de aguas de rega, de bacellos, de alpórcas e de bens de mão-morta; sabe aparar um callo e applicar um crystel; conhece remedios para o gôgo e para as bichas; conhece as propriedades do sebo de Hollanda; sabe— emfim—de tudo um boccadinho, porque é encyclopedico em Sciencias caseiras e perito em questões de vida pratica.
E V. Ex.ª, que conhece o Fonseca, diga-me, agora, se as aptidões do seu intellecto não estão ahi, nitidamente inventariadas.
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Eu venero as commendas.
Quando, em Quinta-feira santa, na vizita ás casas do Senhor, encontro o sr. V. de Moraes, deslumbrando a gente com a sua casaca e com as scintillações da Gran-cruz gallega, onde o sol poente arranca chispas—tiro humildemente o meu chapéo e curvo-me submisso.
Venero a banda bicolor, diagonalando a obesa pança d’um senador; venero a vara d’um juiz de irmandade.
Reconheço tambem, a importancia social dos titulos honorificos.
Um Visconde foi, é, e será, sempre, um homem de massa mais afinada do que qualquer Zinão; um homem estremado entre a peonagem; um homem de sangue cruzadico, de alta sabença, de apurado senso. Ahi está o sr. V. da Torre, que, ainda de molleirinha e a fazer tem-tem, escrevia os Preconceitos, para... despreconceituar a heraldica dos viscondados.
Venero e respeito tudo isso, repito, porque, emfim, Deus que resolveu distinguir na sociedade umas certas pessoas, com titulos e com penduricalhos, lá se entende e lá tem as suas razões...
Mas cá no fôro intimo, nada provoca, mais fortemente, a minha consideração, como umas alças, uns suspensorios, d’aquelles de tres cores, como a bandeira franceza—com as suas fivelas doiradas, as suas prezilhas de coiro unidas, symetricamente, aos quatro botões alinhados pelo buraquinho do umbigo.
*
Este meu culto ás alças já me originou grave desgosto na familia.
Minha filha mais velha, D. Fagundes, namoriscava o filho do nosso procurador em Monsão. Ha cinco annos entra o mocinho na sala de visitas e, deante da rapariga, balbucia trémulo de commoção:
—Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo!
O Senhor passou bem?
Eu vinha pedir a mão de sua filha D. Fagundes d’Atouguia. Tenho 25 annos; sou camarista na minha terra; as minhas propriedades rendem 40 carros e 60 pipas; tenho doze contos nominaes em inscripções; vinte obrigações das Aguas de Melgaço e de S. Pedro, cinco acções do piano da Assemblea e dez do Theatro Valenciano...
—Perdão, interrompi eu; e emquanto ás ultimas, pagou todas as prestações?
—Não, senhor; assignei, mas só paguei a primeira prestação de 10 p. c.
(O homem convem-me, disse com os meus botões, já vejo que é agostinhado.)
—Serve-me para genro; mas, um esclarecimento apenas, que é o mais importante: o meu amigo usa suspensorios?
—Ora essa! exclama o joven, acaso é isso importante no meu futuro marital? Pois a minha barriga é que tem de crescer...
—Basta, senhor! Visto que ridiculariza uma coisa tão seria,—nada feito! Queira bater a outra porta.
E Fagundes ficou solteira...
Ora ella está longe de ser uma belleza e, ás vezes, tem telha; mas para Monsão servia e, servia, até, muito bem.
*
Recebi hontem á noite um telegramma de Bismarck, pedindo informações urgentes ácerca das sessenta cartas. Como sou correspondente da Gazeta da Allemanha, tratei de averiguar o caso inspirador d’aquellas Catili—digo—Quimtilinarias.
Eis o que descobri:
Na ultima reunião dos quarenta-maiores, o Fonseca, subitamente atacado de violenta verborrhea, poz em pratos limpos a historia do mandado, segredada ao bichinho do ouvido por um amphibio.
Os senadores ficaram aterrados e os municipes bateram palmas, porque tinham farejado escandalo.
Fonseca exaltou-se, berrou, vociferou; e, por vezes, para o acalmar no furor do seu zelo pelos interesses do Municipio, teve um prestimoso amigo de lhe molhar a palavra, com agua da Fonte de S.
Sebastião, que é a mais fresquinha[27].
A final serenou e retirou-se satisfeito.
Jantou e soube-lhe bem; mesmo muito bem. Com o enthusiasmo entrou de mais n’um arrozito de berberichos.
Retirou-se para o seu escriptorio.
Os berberichos principiaram, porém, a repontar com elle, provocando-lhe, em certo apparelho, uns beliscões diabolicos.
Lembrou-se de ir convidar o Leopoldo a dar um passeio nas muralhas; mas, por outro lado, a rigidez e a austeridade dos seus habitos aconselhavam-n’o a ir ter com o Capellão, certamente para se desobrigar dos peccados do dia.
Mas, n’isto, no lusco-fusco da sua somnolencia, viu apparecer e avançar o vertice d’um angulo de 25°, angulo que foi alargando, alargando, sustentando sempre, um dos seus lados, em parallelismo com os olhos do Fonseca.
Linhas irregulares, verticalmente dispostas, desenharam, depois, uma cabeça collada a esse grande appendice angular; novas linhas configuraram um corpo, como appendice d’aquelle primitivo appendice.
Appareceu um nariz com perninhas!
Em seguida, surgiu uma coisa redonda, muito arrebitada e rechonchuda, que foi, tambem, crescendo, crescendo...
Rebolava-se uma pança que, avançando, exclamou:—Oh Quim! Tu falaste bem; mas foi e Zé, quem te deu o papel!
Approxima-se o nariz, aos saltinhos, e diz tambem, roçando pelo respeitavel dito, do Fonseca:
—Sim! O Zé deu-te o papel! Foi o Zé! Foi o Zé! Foi o Zé!
—Ah, Morãeses do diabo! Bofé, que mentis! A mim, gentes de Verdoejo e de Taião!
E arremessando para longe as lubricas tentações, o chale-manta e o barretinho bordado com a sua borlinha toda repenicada, a dar-a-dar,—foi-se á escrevaninha e principiou a escrever uma carta; depois, outra; depois, outra;—total sessenta cartas!
No intellecto do Fonseca deu-se, então, aquelle phenomeno da scissiparidade por segmentação.
Cidadãos pacatos e sisudos, pouco versados na mechanica epistolar e affeitos á bolorenta erudição do:
«Muito estimarei que ao receber estas mal esboçadas regras, esteja gozando perfeita saude, em companhia de quem mais deseja, pois a minha, graças a Deus, ao fazer d’esta, é boa...»
sahiram-se com puxadas de estylo de rachar tudo, graças á communicabilidade galvanica do intellecto fonsecoide, saturado de rhetorica e prenhe de syllogismos irrefutaveis.
*
Mas vem cá—oh Fonseca—O que é, afinal, que pretendes dizer na tua, com essas sessenta epistolas?
Que diabo te disse o Noticioso, que tão violentamente arrepiou a tua espinha, como se te communicasse a irritabilidade nervosa do galvanismo?
Offendeste-te por elle affirmar, que na sessão dos quarenta-maiores, o teu esplendido discurso não foi improvisado e que houve, até, quem te desse o ponto?
Mas—oh filho—suppões, acaso, que no intimo da alma dos nossos conterraneos não existe, profundamente radicada, a absoluta confiança nos teus dotes oratorios, embora se reconheça, sem desdoiro, que não és, precisamente, o que se póde chamar um Pico de Mirandola?
Então não está ahi, bem pronunciado, no teu luzidio craneo, o extraordinario desenvolvimento da terceira circumvolução cerebral, em que Broca localizou a eloquencia e a arte oratoria?
Olha, Quim, um conselho de amigo:
As tuas sessenta epistolas,—embora, verdadeiramente, se não saiba, ainda, para que as escreveste e para que incommodaste tanto cidadão pacato, tanto cerebro, tanta caneta, tanto bico e tanto papel de chupeta—estão boas; isso estão. Mas ouve, filho, a respeito de litteratices, de cartas—isto é—de escripturas e de lettras, manda-n’os algumas, mas d’essas que tens com hypothecas e com fiadores.
As que para ahi estás a publicar, guarda-as, para quando não tiveres quem te chegue o papel...
Não maces mais a gente, que tem de aturar bissemanalmente o
Noticioso [28] , diariamente o Marilio e—aos domingos,
o João de Ganfey.