Sinapismos

Francisco Pires Zinão · Capítulo 14 de 40

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Sinapismos

X Violetas

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Violetas

 

As imagens até aqui reflectidas no foco da minha lente ficam delevelmente estereotypadas n’essas paginas, porque é indeciso o traço, debil o colorido, irregular o contorno e imperfeitissimo o relevo.

Falta ahi a luz indispensavel á nitida percepção de todas as minucias das individualidades sociaes, que a minha critica envolve, porque não é dado a espiritos vulgares o emittil-a.

Encontro na expressão escripta as difficuldades caracteristicas d’essa lesão cerebral, que os physiologistas incluem na classe das aphasias motoras, sob o nome de agraphia; e, se até aqui deplorei as consequencias d’essa lesão, que se oppõe á reproducção fiel das minhas impressões sobre a sociedade em que vivo, sincero é o meu pesar, reconhecendo-me incapaz de avivar a imagem d’um vulto, que já desappareceu sob a loisa dos tumulos, mas que deixou luminoso rasto de bondade e de honradez nas sombrias atmospheras onde, implacavel e feroz, se trava a eterna lucta pela existencia.

 

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Schopenhauer filia-se n’essa eschola philosophica, que poderemos denominar pessimista, em que sarcasticamente se dissecam as fibras do coração humano, negando-se-lhe sentimentos affectivos e a possibilidade de alimentar aspirações puras e nobres.

Na fria analyse, que o philosopho allemão nos apresenta do homem na sociedade e na familia, resaltam os exaggeros d’um espirito sombrio, em que poderosamente influiram a acção morbida de temperamento e a acção do meio: mas ha tambem nas suas paginas grandes verdades que nós, dissipada a má impressão originada na rudeza da phrase, intimamente não podemos refutar.

 

«O nosso mundo civilizado não passa de uma grande mascarada. Encontram-se n’elle cavalleiros, frades, soldados, doutores, advogados, padres, philosophos, que mais sei eu? Mas não são o que representam ser; são simples mascaras, debaixo das quaes se occultam, a maior parte das vezes, especuladores de dinheiro.

Um toma, assim, a mascara da justiça para melhor ferir o seu semelhante; outro, com o mesmo fim, escolheu a mascara do bem publico e do patriotismo; um terceiro a da religião, da fé immaculada.

Para toda a especie de fins secretos, mais de um se occultou sob a mascara da philosophia, como tambem sob a da philanthropia. Ha tambem mascaras vulgares, sem caracter especial, como os dominós nos bailes, e que se encontram por toda a parte; estes representam a rigida honestidade; a polidez; a sympathia sincera e a amizade fingida.»

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Ora, observando a nossa actual sociedade, n’esta epocha de egoismo, de ambições, de illegalidades, com que por ahi se conspurcam e desprestigiam as mais nobres instituições,—n’esta epocha de Wilsons, de Hersents, de bonds e de processos da fava —poderemos, com intima convicção, acoimar de exaggeradas essas linhas do pensador allemão?

A consideração social chatina-se vilmente nas Bolsas, onde se expõe á venda com as inscripções de tres por cento. Os titulos do governo teem, como bonus, uma certa maquia de respeito publico; por consequencia, o valor d’este está na razão directa da quantidade total, que cada um possue dos outros.

Quem tiver duzentos contos, póde ser um larapio e um canalha; mas, com certeza, é um homem de consideração.

 

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Antonio da Silva, aquelle carpinteirito da Esplanada, ganhava dezoito vintens por dia; sustentava mulher e tres filhos.

Adoeceu: contrahiu dividas no mercieiro, na botica e na padaria; deixou de pagar ao senhorio; pôz no prego, a pataco por corôa ao mez, o relogio de prata, os brincos da mulher, os cobertores do inverno e a ferramenta.

Esteve dois mezes de cama.

Voltou fraco e abatido para o trabalho. Tentou desempenhar-se. Fazia serões. Não poude pagar uma divida.

Os credores perseguiam-no.

As mulheres e os filhos não tinham roupa; tiritavam e... choravam.

Um crédor requereu a penhora; levaram-lhe a cama.

Na alma d’aquelle homem havia um inferno porque era honrado— o pateta!—e era doido pela familia.

Um dia, collou a massa encephalica nas paredes da latrina com a balla do rewolver.

—Um criminoso—disse o abbade.

—Um caloteiro—disseram os do pataco por mez.

—Um pobre diabo—responsaram as almas piedosas.

—Um pateta de menos—resmungou a sociedade.

A Santa Madre Egreja, toda Caridade e Amôr, recusou-lhe o latim da padralhada—esse latim tão sonoro, tão vibrante, tão repenicado, quando responsa o negreiro e o ladrão de gravata, que deixaram quarenta moedas, para missas de pinto a duzia.

Foi enterrado no fosso, ao lado d’uma pileca do Guilherme; como responso, teve uma enfiada de pragas dos coveiros, porque estava realmente muito frio e ainda não tinham matado o bicho.

—Oh estupor—disse o Coruja—podias arrebentar a pinha no verão. Não tinhas agora tanto frio!

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Á mesma hora, Henrique de tal, Conde de Burnay, mandava photographar os bonds do sr. Hersent e mais de trezentas carruagens com fidalgos, bispos, padres, conegos e escorropicha-galhetas varios, acompanharam até aos Prazeres o cadaver d’um beneficiado na falcatrua hersentica, portuguez abrazileirado, que mantinha relações illicitas com a irmã—o que era publico e notorio na freguezia, alli para os lados de Penafiel—e que, n’uma terrifica visualidade do inferno, apartára trezentos mil reis, adquiridos n’esse infamissimo trafico de carne humana, para missas cantadas e por cantar.

Viremos folha...

 

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—Mas, Senhor Zinão,—diz Vossa Excellencia—isso é velho, é sediço, é estafado e massador...

—Esta jeremiada veia a lume, meu Senhor, porque no meio da reles pataqueirice da nossa actual sociedade onde pullulam os Iagos, os Tartufos, os Pausanias, os Wilsons, os Tamandarés—toda essa corja de falsarios, de perjuros e de traidores, que Dante implacavelmente esfarrapa e esphacela com as torturas do nono circulo—a gente póde soltar uma exclamação de surpreza tão ruidosa e tão violenta, como aquella trombetada de Rolando na batalha de Roncesvalles, quando encontra um homem, caminhando sempre, sem tergiversar, no caminho da Honra e da Dignidade.

Consagro estas linhas á memoria d’um valenciano, que não deixou fortuna nem filhos governadores civis, ou deputados, que possam premiar esta homenagem com um naco do orçamento, como é da praxe pedir e conceder.

Não me conhece a familia que elle deixou; e não é, portanto, o vil interesse, ou a lisonja porca, ou a torpissima adulação, que actuam na minha penna, obrigando-a a vergar-se, a perder a inflexibilidade com que, até aqui, tem fustigado muita importancia ridicula e chata.

Ninguem, no concelho de Valença, até hoje adquiriu maior estima e maior consideração do que esse homem.

Ninguem, como elle, poderia, mais proveitosamente, especular com o affectuoso prestigio, que o seu nome alcançou por essas freguezias.

Era, porém, nobilissimo o seu caracter para que lhe permittisse manchar o nome n’esse bordel de pantomineiros e de histriões que por ahi especulam com a ignorancia do aldeão, fazendo do voto degrau para chegarem á mesa do orçamento e poderem roer as codeas babadas, que os Gargantuas politicos abandonam, ou lamber os productos do vomito, que a orgia e a indigestão provocam.

 

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Esse homem morreu pobre; não é vergonha dizel-o; mas levem o aldeão acolá, ao cemiterio, mostrem-lhe todos esses mausoleus de marmore e de granito, e perguntem-lhe qual é o nome que, ainda hoje, mais affectuosamente vibra na sua alma rude, mas sincera.

Dizem que as mulheres de Sparta, fazendo ajoelhar os filhos sobre o tumulo dos grandes heroes, alli lhes referiam os feitos gloriosos que insculpiram os seus nomes no livro d’oiro da Patria.

Era assim que ellas preparavam a vigorosa musculatura dos futuros cidadãos da grande republica.

Como ellas, valencianos dignos, quando a razão dos vossos filhos estiver preparada para receber os germens, que mais tarde devem fructificar na Honradez, apontae-lhes para essa pagina que, por escrupuloso respeito e por enthusiastica veneração, separo das outras, onde escouceiam ridiculos.

 

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Zinão descobre-se, perante o nome que alli vêdes.