Sinapismos

Francisco Pires Zinão · Capítulo 18 de 40

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XIV A Questão da Musica (LEITURA PARA HOMENS)

XIV

A Questão da Musica

(LEITURA PARA HOMENS)

 

Ha poucos annos, alli pelo Maio, quando a Primavera floresce os campos e a Natureza parece despertar, com novo vigor, da somnolencia invernal, Dona Politica sentiu pular o sangue nas veias, reclamando folia e brodio.

Teve uns arrebiques eroticos de matrona insensivel á influencia lunar e amancebou-se, clandestinamente, com o Conde de Lippe e com o Senhor Administrador.

Noitadas com um, barrigadas de camarões com outro, lá se arranjou de tal fórma que, d’essas relações, resultou um producto hybrido:—A Questão da Musica.

Parto acabado, os amantes disputaram a paternidade do aborto:

—É meu!

—É teu!

—Parece-se commigo!

—Não se parece comtigo!

Zangaram-se e ficaram de mal.

Nunca mais se puderam vêr.

A desavergonhada, ora sorri para um, ora para outro; acirrando, assim, pela sua inconstancia e bandalhice acadellada, o odio dos dois rivaes.

O mostrengo (sahiu femea) veiu ao mundo com todos os defeitos dos Papás e da Mamã: vaidosa, ridicula, traiçoeira, caprichosa e porca.

Ao nascer, embirrou que não queria Musica. Papás e Mamã teem-lhe feito a vontade. Qualquer dia, embirra que quer Musica; teremos, então, de soffrer e pagar as furias dos paus-tesos, até hoje refreadas.

O que por ahi não irá!

 

*

 

A Comedia da Santa, ou antes, a Comedia da Musica, absorveu e absorve toda a actividade dos nossos politicos—dos homens que se apresentam á consideração do povo, allegando serviços e pedindo votos.

E em que diabo hão de pensar esses santos varões, se o Concelho voga em mar de rosas, com vento fresco e bons timoneiros?

Examinemos, de relance, as instituições da nossa terra:

Camara Municipal

Praça de toiros com serviço permanente. Emprezario: o Senhor Administrador. Intelligentes: o Senhor Joaquim (por procuração), ou João Cabral.

N’este anno, as corridas promettem. O primeiro espada, Senhor Abilio, foi occultamente a Madrid adestrar-se com Lagartijo e com Frascuelo. O gado, do lavrador Ladislau, é manso. Tem fraca pinta e pouco pé. A casa está passada para as primeiras corridas semanaes. Ha toiros para curiosos.

 

*

 

Agora, duas tiradas a serio:

 

A administração do nosso Municipio anda como V. Ex.ª sabe, querido leitor, em bolandas e ao deus-dará. Muito lhe poderia dizer a tal respeito; mas esta gente séria da terra, tanto me tem soprado aos ouvidos com aquella preventiva phrase de:

Nem todas as verdades se dizem

que, por emquanto, ainda me resolvo a conservar na minha carteira os curiosos apontamentos que d’estas coisas de Valença, cuidadosamente tenho colligido. Prosigamos.

—Approvou-se ultimamente um novo traçado de estradas para o districto; todos os concelhos foram contemplados, menos o de Valença. Pelos modos, lá nas secretarias das Obras publicas ainda se não descobriu, ao certo, se isto pertence a Portugal, se á Galliza. A Camara podia elucidar este caso e requerer, ou instar por concessões a que tem direito. Os politicos, porém, teem mais em que pensar... Ainda se não decidiu a Questão da Musica.

—Alli, na Esplanada, amontoam-se, sem ordem nem regularidade, as novas construcções. Ora, apesar da opposição dos paysanducos, a futura povoação de Valença ha de extender-se por esses campos fóra, e esta latrina acastellada com muralhas, poternas e tenalhas, passará a ter o merecimento historico das ruinas de Lapella, hoje excellentes para ninhos de morcegos, luras de toupeira e tocas de grillos.

Portanto, a qualquer cerebro medianamente esclarecido parecerá urgente e indispensavel o levantamento d’uma planta, que desde já disponha, com regularidade, as arterias da futura povoação.

Não se pensa em tal, nem é preciso. Temos a lei das expropriações. A ordem é rica, os frades são poucos e os imbecis são muitos. Ha mais em que pensar. Temos a Questão da Musica.

—No centro da villa, ao lado da Ex.ᵐᵃ Camara, existe uma commua, que chamam: Eschola municipal.

Quando quizerdes avaliar a civilização d’este povo, que se ri de vós—oh gentes de Monsão e de Coura!—vinde cá, embebei o lenço em agua de Colonia e entrae alli, na Eschola, onde sem ar, sem luz, sem condições hygienicas de qualquer natureza, se atrophiam diariamente dezenas de creanças.

Os rapazes, cá na terra, sahem da barriga das mães, já com a caneta atraz da orelha para escreverem á familia; não precisamos, portanto, de subsidios do Conde de Ferreira, nem de utensilios escholares.

Corre tudo muito bem. Só falta uma coisa: um pelourinho, alli ao pé da Sexta, com os nomes dos philanthropos que responderam aos testamenteiros do Conde:

—Dispensamos o subsidio; não temos terreno para a eschola; está tudo occupado com cacos de guerra e com o Assento dos militares!

 

—Diz-se que é util o saber lêr e, n’esta crença, auxilia-se em toda a parte a instrucção do povo, fiscalizando-se o serviço das escholas, animando-se as creanças e estimulando-se os professores.

O pelouro da instrucção (?) no concelho de Valença é um mytho, uma coisa nominal e hypothetica.

Regateiam, por ahi, miseravelmente, os dois patacos de expediente; e na Eschola, como verdadeira commua, não ha mobilia, não ha um mappa, não ha uma esphera, uma loisa, um diccionario. A Camara não gasta dinheiro n’essas ridicularias; gasta-o, mas com outras applicações, que fazem parte dos meus apontamentos particulares...

De quando em quando o bandalho da Politica entra tambem nas Escholas; e d’essa visita, nascem as perseguições torpissimas e ineptas contra homens que, politicamente podem ter todos os defeitos, mas que para o exercicio do cargo que exercem, possuem incontestavel aptidão.

 

—Construiram-se, no largo principal da terra, os Paços do Concelho. O edificio ficou uma gaiola de grillos, com uma unica porta, para elles não fugirem, quando lhes appetecer a serradela.

As divisões interiores são d’uma disposição perfeitamente apatetada. Com as dependencias do Tribunal, repetiu-se aquelle caso dos moinhos de Coura. Lá, só pensaram na agua, quando os moinhos estavam promptos; cá, só depois do Tribunal concluido, é que surgiu na mente dos illustres senadores a necessidade provavel d’uma sala para jurados.

Mas o defeito remediou-se e bem.

Fez-se uma especie de espigueiro, um sotão, como os que a gente tem para extender as batatas por causa do grelo e para lá se manda o Jury. Está alli muito bem, livre de correntes d’ar, e com grande vantagem para os curiosos da terra: muito antes que se pronuncie a sentença, já se póde saber, pela janella das escadas, se o réo vae para a rua, ou para o cavallinho de pau.

Não ha dinheiro que pague esta commodidade.

 

—Na Coroada, admiram os forasteiros a desconjunctada architectura d’uns cortelhos, onde, em nauseabunda promiscuidade, se aconchegam de noite: mulheres, porcos, creanças, bacorinhos, gatos com tinha e cadellas com sarna.

Em terra menos civilizada, já o senado teria estudado o meio de, por uma operação financeira possivel de realizar, sem graves encargos, transformar esses focos de immundicie em habitações economicas, mas hygienicas.

Mas, então, V. Ex.ª não viu na Exposição de Paris, entre tantas maravilhas da Arte, as primitivas construcções dos differentes povos? Pois cá, em Valença, não precisamos de arranjar artificialmente essa exposição. Alli estão os cortelhos da Parada velha, immundos, doentios, nojentos,—como nota caracteristica do nosso Progresso moral e material.

 

—A gente das cidades tem a mania da Civilização. Abre mercados, rasga ruas espaçosas, aformoseia praças, alinha os edificios e varre as ruas.

Com o pretexto da hygiene e da limpeza faz dinheiro até do esterco.

—Miserias humanas!—dizem os nossos camaristas. Nas ruas de Valença, o que cai, deixa-se ficar. Podem-nos chamar immundos, mas ao menos, não somos dos futres que vendem carros de lixo.

Cá, a gente é assim...

 

—O concelho precisa de estradas que unam as freguezias e facilitem as communicações. A estrada de A para B foi considerada, como a mais urgente, pela importancia (politica, já se vê) de B.

Principiou-se a estrada: terraplenagens, aterros, desaterros, etc.

A folhas tantas, desabou a caranguejola ministerial e o que era politicamente positivo em B passou para negativo. Suspendeu-se a construcção da estrada.

Chegou o inverno: lamas, enxurradas, desmoronamentos. O que estava feito inutilizou-se, mas não importa: a ordem é rica, os frades são poucos e os imbecis são muitos. Ha mais em que pensar: a Questão da Musica.