Sinapismos

Francisco Pires Zinão · Capítulo 29 de 40

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Sinapismos

XX A questão ingleza (NOTAS SOLTAS)

XX

A questão ingleza

(NOTAS SOLTAS)

 

Alem-mar scintilla na escuridão a iris do abutre.

O leopardo rugiu, saltou, e cravou as garras ensanguentadas no velho Portugal.

Este enorme gigante que teve no encephalo, como cellulas, os craneos de Camões, de Gama e de Cabral; que teve por apophyses as columnas de Hercules, os rochedos do Bojador, do Boa-Esperança, do Razalgate e do Comorim; por articulações Angola, Moçambique, Mascate, Ormuz, Diu, Calicut, Malacca; por veias os filões preciosos de Sofala, de Minas e Cyaté, do Pegu e de Narsinga; por arterias o Tejo e o Zaire, o Quanza e o Limpopo, o Zambeze e o Mandovi, o Ganges e o Amazonas; por cabellos os cedros seculares do Novo Mundo; por musculos os braços de mil heroes; por thorax a amplidão de todos os céos; por limite visual a linha de todos os horisontes; por fronteira o circulo de todos os quadrantes; por dominio a vastidão de todos os mares; por fanal a luz de todas as constellações—esse colosso que teve por servos o Çamorim e os rajahs da India, por thesoiro os abysmos aquaticos de Borneo e de Ceylão; por sonhos os mythos do Preste-Joham; por pesadelos as tragedias de Alcacer-Kibir e de Tanger; e que pela rigidez do seu braço, pela heroicidade do seu valor, conseguiu a crystallização de todas as chimeras e a realidade de todas as phantasias—eil-o ahi, prostrado, corroido pelo fanatismo religioso que ha quatro seculos lhe ulcerou os membros, enfraquecido pelos caprichos de monarchas perdularios, aviltado pela phthiriase de cortezãos servis, cancerado pela ambição insaciavel dos aulicos traiçoeiros, decrepito, pobre, agonisante... mas não morto!

Não! Não está morta a Patria! Ha n’ella quatro milhões de cellulas; e se muitas são inertes ou inuteis, covardes ou egoistas, existe nas restantes força viva sufficiente para transmittir á musculatura do heroe decrepito a energia das grandes crises e o arrojo dos antigos feitos.

 

*

 

N’essa cloaca—a côrte ingleza—escoante de todas as sargetas, deposito de todas as fezes, sumidoiro de todas as immundicies que podem existir na alma humana, as ambições e a perfidia actuaram como acidos d’uma pilha sobre o metal—oiro—dos nossos terrenos da Mashona.

Como reophoro transmissor d’essa electricidade cupida, partiu de Londres—polo negativo—o ultimatum de Salisbury e tocou no coração da Patria.

Immediatamente, outra electricidade se desenvolveu com os elementos positivos da Justiça e do Direito n’essa enorme pilha—a alma portugueza—que já actuou em todo o Universo com a intensidade das mais arrojadas emprezas e com a força dos mais generosos heroismos.

E então, ao contacto d’esse novo fluido, de que n’um bello impulso de ardente enthusiasmo a Academia foi conductor, todos os membros do decrepito colosso se agitaram convulsivamente. Ergueu-se o heroe, d’um arranco, e magestoso de altivez, fremente de indignação—d’ahi, do promontorio de Sagres, d’onde avassallára o Mundo, arremessou para lá da Mancha o escarro do desprezo, unico desforço que a dignidade permitte ás affrontas d’um villão.

 

Cartel de desafio não se manda a representantes de lords. Bright era quaker; Crawfurd, provavelmente, é castrado; condições diversas, mas eguaes na intenção—livrar decentemente as regiões trazeiras da bota d’um portuguez.

 

*

A excitação da colera e a allucinação do perigo teem por vezes prejudicado a imponencia da nossa attitude perante essa malta de esbodegados borrachões, paus-de-virar tripas encasacados, feitos de esperma de lupanar e de muco leucorrheico, que constituem na sua abjecta individualidade de lords a canalha servil da côrte ingleza.

Morra a Inglaterra! bradamos.

Não! Não se levantam gritos de exterminio contra uma nação inteira. Entre quarenta milhões de habitantes ha, tambem, opprimidos e oppressores.

A podridão e a villania condensam-se nas altas espheras do high-life, nos palacios da City, nos corredores de Windsor Castle, no royal box de Covent Garden, no Pelican Club, no Devonshire Club, no Turf-Club, onde impera, infrene, El-Rei Deboche.

Cá em baixo, labuta e moireja um povo trabalhador e geme um mundo de parias. Nos bairros immundos de Londres, no West-End, no White-Chapel, dormem ao ralento, esfarrapados e nús, centenares de velhos e de creanças.

Agonizando pelas esquinas e escabujando nos monturos, morrem annualmente, de fome, tres a quatro mil pessoas.

Das camadas que trabalham sahiram Shakspeare, Milton, Jenner, Newton, Davy, Graham, Bacon, Locke, Hume, Priestley, Adam Smith, Stephenson, Wollaston, Boyle, Shaftesbury, Harvey, Stuart Mill, Spencer.

Esses homens alguma coisa fizeram em prol da humanidade e da civilização, e não é justo, portanto, que á sua memoria e ao seu nome lancemos o escarro do insulto e o estigma da maldicção.

Odio aos lords! deve ser o nosso grito, porque são elles, e só elles, os nossos espoliadores.

Odio a essa aristocracia abandalhada que estrangula a Irlanda— mancha vergonhosa da civilização europea e que os magarefes da City por vezes transformam em sangrento açougue.

Odio a esses lacaios de libré que nas sessões da Lords’ House vemos erectos, empertigados, orgulhosos, e á noite se curvam sobre os tapetes do brothel—bestiaes, apopleticos, rubros, babados,

falling on one’s jaws [58] entre saias almiscaradas e amarellas com o liquido da menorrhéa.

N’esse asqueroso quadro de infamias que em 85 a Pall Mall Gazette desvendou á imprensa europea ha, como actores, lords, só lords—os mesmos canalhas de Cleveland-Street que, ha mezes, uns áltos personagens da côrte protegiam, suffocando a peso de oiro a publicidade das suas novas torpezas. São elles e só elles que fixaram o preço de 15 a 20 libras para as fresh-girls—virgo intacta— de 13 a 14 annos, que hoje são as 50:000 prostitutas—black army dos trottoirs londrinos.

São elles que para a lucta contra essas desgraçadas creanças, attrahidas infamemente aos subterraneos de West-End, inventaram a black-draught do narcotico.

São elles que para obterem o oiro necessario ás phantasias d’uma sensualidade bestial, constituiram a Slaughter-House contra os desgraçados filhos da Irlanda; que reunidos em Royal Companies ordenaram essas medonhas carnificinas de Pendjab e dos cipayos; e que agora, trocando em casa de Salisbury as fardas bordadas pela jaqueta de pick-pocket, chypram do mappa africano o oiro da Mashona.

Esses asquerosos Tartufos, occultando cynicamente nas casacas de congressistas philanthropicos e humanitarios a sua cupidez e insaciavel ambição, propozeram, ha tempos, a Portugal e ao sultão de Zanzibar um bloqueio na costa oriental, de Inhambane a Pembe, que impedisse—diziam—a importação de armas aos arabes do interior, eternos traficantes de carne humana.

O nosso governo accedeu; o bloqueio estabeleceu-se; e poucos dias depois, o governador do Cabo enviava occultamente a Lobengula, feroz chefe dos Matabelles, com quem os arabes se entendem, 1:000 espingardas Martini-Henry com 300:000 cartuchos!

Odio, pois, aos lords!

Organize-se contra elles uma nova cruzada de exterminio, e que todo o portuguez tenha o direito de os correr a tiro, como a animal feroz, quando no solo honrado da Patria poisarem as suas enormes patas de tres toesas.

São elles e só elles que nos roubam. Ahi vae a historia do caso Chire-Nyassa.

 

Lord Fife, duque do dito Fife, é genro de Sua Alteza Real o Principe de Walles; casou com a princeza Luiza, uma neta da graciosa rainha e imperatriz Victoria.

Lord Fife é um pobresinho de Christo; das suas propriedades de Scotland e de outros bens de fortuna tem um rendimento aproximado a dois contos por dia, e como a sua Ex.ᵐᵃ Consorte é de egual pobreza, com mais umas achegas, dotação, etc., nas telhas d’aquelle desgraçado casal caem umas quarenta libras por cada hora de cada dia.

Mas succede que lá, como cá, estas coisas de nobreza custam muito dinheiro, porque é preciso sustentar a respeitabilidade da posição official, como diz o Albino, quando entra nas idéas e no coração da gente para dispôr os petardos das suas transcendentes, nebulosas e philosophicas reflexões sociaes.

Como o povo inglez embicou, ha tempos, com o augmento da dotação da Royal Family, lord Fife, para ganhar o seu pataco, fez-se agiota, socio commandita da firma commercial Samuel Scott and C.º e director da British South Africa Company, a quem uma Royal Charter concedeu, ultimamente, 400:000 milhas de terreno africano com aquella liberalidade conhecida: do pão do nosso compadre grossa fatia ao afilhado.

Mas as libertinagens de West-End, do Cleveland-Street, os serviços dos rapazinhos do telegrapho, as orgias de champagne, os boat-matches do Naval Club, absorvem todos os rendimentos de lord Fife e segundo consta, ha poucos mezes, as finanças de His

Lordship estavam por assim dizer: [59] tem-te, não caias.

A concessão feita a Lord Fife, a Lord Abercorn, a Lord Gifford (cá estão os lords), organizadores da African Company, era tão importante que em Londres, o Times e o Standard, fazendo reclamo, annunciavam-na como: Empreza colossal. Todavia, as acções conservavam-se na baixa e Lord Fife, nominalmente um dos maiores accionistas, não arranjava com aquelle negocio para pagar um little boy.

Surgiu então uma idéa salvadora. Os nossos terrenos na Mashona eram, ha muito tempo, indicados como preciosos para explorações auriferas. Salisbury levou rasca na assadura; contractou-se o patife Johnston, compraram-se por baixo preço todas as acções da South Company e no dia seguinte rebentou o ultimatum. Em vinte e quatro horas, cada acção obteve um premio de setenta libras. Cinco mil acções—trezentas e cincoenta mil libras.

 

God save the Queen! e vamos ás fresh-girls!

 

Odio pois aos lords! E como em Valença as manifestações patrioticas ficaram no projecto d’um telegramma a Serpa Pinto, porque se repetiu, talvez, aquelle caso da subscripção para o

bucephalo[60], eu proponho o seguinte:

 

Que se mande a Lisboa uma commissão para escolher e contractar nas viellas da Baixa duas duzias de ladies matrafonas, das mais abandalhadas e nojentas.

A mesma commissão contractará, tambem, dez ou doze grumetes da marinha real ingleza. Esses grumetes serão vestidos, da cinta para cima, com o uniforme dos boletineiros telegraphicos; da cinta para baixo, uma parra.

Matrafonas e grumetes, com seis barris de cachaça de 90°, serão envolvidos por uma forte rede de arame, á qual se atará um solido cabo de algumas milhas.

A gente vae depois alli, a Calais, põe um pé em Douvres e atira com a isca para o Tamisa.

Fica um de nós a ter conta no cabo. Póde ser—por exemplo—o Fernando que é o mais entendido em coisas de pesca, como o prova annualmente na Rapozeira com os seus botirões. O Braga tambem póde servir, porque tem habilidade para descobrir peixes.

O Fernando, pois, senta-se em qualquer rochedo, fuma o seu cigarro, espalha as tristezas com o Noticioso, ou com as latinhas do Cruz, e quando sentir que a corda estica, signal de que o peixe pica, puxa vagarosamente para terra.

A meio cabo, levanta-se e vem descendo pela costa da Mancha: Dieppe, Havre, Cherbourg; Brest, S. Nazaire, Bordeaux; contorna o Golpho, Bayonne, Santander; dobra o Ortegal, Corunha, Vigo, Guardia; entra no Minho e vem subindo pela margem direita até ao Pau-do-fio.

A gente põe-se cá de cima, das muralhas, e recebe o cabo. Chamam-se os paysanducos e toca a puxar.

Fóra da agua a isca, veremos logo, agarrados a ella, todos os lords da City: Lord Fife, Lord Foife, Lord Fufe, Lord Craft, Lord Creft, etc.

O lord é animal amphibio, organização de batrachio; resiste bem debaixo d’agua, como se sabe.

Paysanducos continuam a puxar e vae tudo para o largo de S. João.

Os lords devem apparecer esbodegados, cambaleantes, tropegos.

Vem o Parádas com o bolo municipal e divide-o pelos borrachões.

Duas horas depois, o Gamellas traz a carroça do lixo, carrega, e despeja na Sexta.

Extincta, assim, a raça vil, a City fica deserta; e como a Hygiene recommenda a collocação das fossas longe das habitações, faremos do fashionable bairro uma sentina para uso diario.

Ao norte: Para damas.

Ao sul: Para homens.

Para fazer a limpeza e fornecer papeis, ficarão:

Mr. Jacob Bright

e

Mr. Oswald Crawfurd.

2-3-90.