Sinapismos
XII O Senhor Deputado
XII
O Senhor Deputado
Mais uma vez manifestou o Circulo eleitoral n.º 3 a sua opinião politica e, pela acção liberrima e independente do suffragio popular, tem hoje uma cadeira em S. Bento, o sr. dr. Queiroz Ribeiro.
Nos campos do partido opposicionista lavra o descontentamento com a decisão dos eleitores; nos arraiaes, em que tremula a bandeira progressista, erguem-se os clamores da victoria e entoam-se hosannas ao novo representante do povo.
Os regeneradores negam a competencia de Sua Excellencia para tão elevado cargo, fundamentando a insufficiencia na pouca edade e escassa madureza para os negocios publicos; alguns, até, os do respeitabilissimo grupo da rua de S. João, exprimem e synthetisam todo o valor e força dos seus argumentos em tres palavras:—até faz versos!
Os progressistas exaltam a aptidão intellectual do seu correligionario; affirmam que é um rapaz que deve dar alguma coisa; servem-se do proprio argumento dos adversarios—os versos—, impondo-o á consideração dos eleitores; citam os seus conhecimentos sobre Direito penal, o seu enthusiasmo pela nova eschola italiana, etc., etc., e rematam por asseverar que a escolha foi felicissima.
Ora eu, meus senhores, sou tambem eleitor e recenseado na freguezia de S. Maria dos Anjos; não estou filiado em partido militante da actual politica, porque sou, como os srs. José Narciso e Santa Clara: legitimista, genuinamente legitimista, por convicção e por tradição. Acceitar, n’estas condições, a faculdade do voto equivaleria a approvar e reconhecer, tacitamente, a legalidade dos poderes que nos regem e, procedendo assim, faltaria ás minhas convicções e ao respeito que tenho e devo ao meu Rei, a Sua Magestade Fidelissima o Senhor Dom Miguel de Bragança, que Deus guarde.
Estou, portanto, n’um campo perfeitamente neutral e insuspeito, ao abrigo do tumultuar das paixões partidarias, n’uma região serena de paz e livre reflexão e posso, n’estas circumstancias, dar a minha opinião sobre a escolha dos eleitores, depois da rigorosa apreciação que fiz dos argumentos apresentados pelos dois partidos.
Vou ter a honra de a apresentar a Vossas Excellencias.
Na futura Camara electiva devem reunir-se cento e tantos deputados. N’esse numero entram estrellas de primeira grandeza na constellação brilhantissima da nossa politica. Ha talentos de raça; espiritos previlegiados, que honram e ennobrecem o paiz; ha oradores fluentissimos como os srs. Oliveira Mattos e Visconde da Torre; ha polemistas de irresistivel logica de argumentação, como os srs. Ferreira d’Almeida; ha celebridades em todos os ramos das sciencias e da publica administração.
Pois, meus senhores, com verdade lhes digo, que é a seguinte a minha convicção:—entre todos esses homens, entre todas as individualidades aptas no nosso paiz para as funcções da representação popular, ninguem—absolutamente ninguem—nos poderia satisfazer tanto, comprehender as nossas ideias, adaptar-se melhor á nossa politica, interpretando-a e assimilando-a nas suas aspirações—como Sua Excellencia o sr. Dr. Queiroz Ribeiro.
—Ora essa! (ouço eu bradar aos meus amigos, os srs. Joaquim e Abilio, os mais fogosos caudilhos da politica regeneradora), fará o favor de provar.
A isso vou, meus senhores, e com argumentos leaes, solidos, porque os sustento com a irrefutavel demonstração, que vou estabelecer dentro do campo positivo das sciencias abstractas: a logica e a mathematica.
Vejamos, meus senhores, o que é a Politica em Valença? O que foi, o que é, d’onde vem e para onde vae? Como se poderá e deverá classificar n’uma terra em que, se a gente vae á estação do caminho de ferro assistir á recepção do sr. Marianno de Carvalho, ou do sr. Barjona, ou do sr. Lopo Vaz, ou do sr. José Dias Ferreira, ou do sr. Rodrigues de Freitas, ou do sr. Consiglieri Pedroso, vê sempre na gare—além dos engajadores dos hoteis e do sr.
Capellão[36]—as mesmas caras, as mesmas casacas e as mesmas cartolas, que, depois, vão acompanhar Suas Excellencias até Cerveira, com ruidosas e enthusiasticas demonstrações de adhesão e fidelidade partidarias?
O que poderemos julgar da Politica d’um concelho em que a padralhada, com o seu rebanho de carneiros votantes, vae, submissa, para onde a toca a aguilhada da Administração, sem consciencia, nem orientação, nem ideal politico?
N’uma terra, em que os mais importantes caudilhos teem, na opinião, a variabilidade constante do catavento de Santo Estevão e em que ha potestades eleitoraes que, vistas de Coura, são regeneradoras, vistas de Valença são progressistas e não são barjonaceas e republicanas, porque ninguem as examinou ainda de Gandra ou de S. Pedro da Torre?
Estudemos os chefes, senhores, que devem representar as tradições, a opinião, a respeitabilidade dos partidos. Temos d’um lado—o progressista—o Sr. Dr. Ladislau; temos do outro—o
regenerador—o Sr. Dr. Pestana. [37]
O Sr. Dr. Ladislau sahiu, approximadamente ha seis annos, dos bancos da Universidade e filiou-se, franca e desassombradamente, no partido do sr. José Dias Ferreira; hoje obedece ao sr. José Luciano, isto é, duas opiniões diversas, oppostas, heterogeneas, como as que separaram e dividiram os guelfos dos gibelinos, os armagnacs dos borguinhões, os jacobinos dos girondinos, os da rosa branca dos da rosa vermelha, os malhados dos realistas.
Ora, consultando os trabalhos estatisticos dos mais eminentes socialistas, sobre a longevidade da vida humana, observamos que a media actual é de sessenta annos. (Deus n’este caso a prolongue e livre o Sr. Doutor de dyspepsias hermogenicas, que tão prejudiciaes são á juventude...)
Se quizermos, pois, avaliar rigorosamente a capacidade opinativa de Sua Excellencia, nada mais teremos do que estabelecer uma proporção, admittindo a hypothese mais favoravel—que em egual espaço de tempo não augmentará a volubilidade. Representando, pois, por a os seis annos decorridos e os trinta que a Sua Excellencia faltam, por op as opiniões conhecidas e por x as desconhecidas, teremos:
6 a : 2 op :: 30 a : x.
Operando, encontramos:
x = 10 op.
Reunindo as opiniões conhecidas, temos
x = 12
quer dizer: teremos de pedir, por emprestimo, alguns partidos á Hespanha, porque cá não os ha para tanta opinião; e, aos sessenta annos, o Sr. Dr. Ladislau attingirá um grau de saturação partidaria muito superior á que hoje possue o Sr. Agostinho, que é a coisa mais perfeita e acabada em Politica, que terras de Valença teem produzido.
Agora, o sr. dr. Pestana...
Eu desejava fazer identica demonstração com referencia a Sua Excellencia, e tenho, para isso, elementos e factores ordenados; mas são d’uma tal complexidade e obrigam a operações algebricas tão complicadas, que me abstenho de aqui as reproduzir, limitando-mo a dar conhecimento a Vossa Excellencia do resultado obtido.
Para o sr. dr. Ladislau tivemos: x = 10.
Com o Sr. Dr. Pestana chegamos a: x = ∞ isto é, x = infinito. E como o infinito existe muito para lá dos limites, a que a intelligencia humana póde levar a analyse, está prejudicado o raciocinio.
Temos, pois, n’estas condições, os dois chefes politicos da nossa terra e ha vinte e cinco annos, em que aqui resido, os sub-chefes, as potestades, os abbades e as patrulhas seguem exactamente o mesmo systema.
Os que hontem eram regeneradores, são hoje progressistas, serão ámanhã barjonaceos e no dia seguinte socialistas. No mundo politico somos cosmopolitas, e Valença é para o paiz, o que a casa do Sr. Agostinho é para Valença—um perfeito caravanserail!
Synthetisando, eu repito a pergunta, que deu logar a estas considerações, com que desejo fundamentar a minha demonstração:
Como se deve classificar a nossa Politica?
Politica voluvel, incolôr, de... contradança!
Repito:
de contradança.
Ora aqui está, justamente, o ponto de reunião entre ella e a individualidade do nosso deputado. Aqui está, onde uma e outra se coadunam, se consubstanciam, se identificam.
Em Politica somos dançarinos. Pois para representar dançarinos e para comprehender as suas aspirações, como o Justino Soares, ou os srs. Roldão e dr. João Cabral se não habilitam a um circulo, claro é que se devia escolher um estranho, versado e perito nos segredos da arte de Terpsichore. E, para satisfazer cabalmente a estas condições (creio que os srs. Joaquim e Abilio se não atreverão a refutar esta minha proposição) ninguem—absolutamente ninguem —se encontraria mais habilitado, do que o nosso actual representante.
Isto não é uma asserção gratuita. A vizinha villa de Cerveira a confirmará, quando se torne necessario.
Porque é que o sr. Visconde da Torre não provou bem, como deputado? Porque nunca poderia representar dignamente Valença, com o seu volumoso abdomen, com a abundancia do seu tecido adiposo, com o pouco desempeno dos seus movimentos, com a pouca elegancia (perdoe Sua Excellencia) da sua linha. Dançava pouco e mal. Era, mesmo, detestavel a sua posição quando, pela complicadissima tactica das danças, era obrigado a fazer um en avant. Não tinha ropia nem salero, nem entrain.
Mas o nosso actual representante...
Que saudosas recordações não originarão estes periodos ás tricanas e sopeiras de Villa Nova—a chiquita!
Que dulcissimas reminiscencias não entristecerão, por momentos, aquelles formosissimos rostos da terra das solhas!
Que pranto amargo e copioso não verterá a estas horas o bom e fiel Maldonado, socio commandita nos bailes do sopeirame!
A Meca, a terna e legendaria Meca, com que acerbo pungir, não enxugará das mimosas e assetinadas faces as perolas crystallinas, como as do rocio matutino, que a lembrança de Sua Excellencia, a cada momento lhe faz brotar das glandulas lacrimaes!
Redomoinhar vertiginoso das valsas; suave enleio de pequeninas cinturas; exhalações dulcissimas; doces fragrancias de solha e azeite, bacalhau e alho, das formosas tricanas; noites de amor e de phantasia em que vós, encantadoras filhas da—Chiquita—vos deliciaveis com os papos d’anjo de Caminha e as roscas da Galliza; noites inolvidaveis de luar, em que os vossos castos seios se alvoroçavam com desconhecidas sensações, quando Sua Excellencia, sob as janellas, acompanhado ao violão pelo fiel Maldonado e pela artistica cohorte dos Figaros, soltava ás brisas, com voz maguada e terna, as melancholicas trovas do:
Gondoleiro, a noite é bella!
Recordações saudosas, miragens gratas e fugitivas... adeus!
Tudo se sumiu na voragem da urna eleitoral!
*
Eleitores do concelho de Valença!
Nos annaes da benemerita Sociedade Artistica, Harmonia e Recreio Cerveirense, registra-se, como um periodo aureo de engrandecimento e prosperidade, a epocha em que o nosso Deputado honrou, frequentando, os salões da Associação.
A arte de Terpsichore obteve consideravel impulso e desenvolvimento. Á voz auctorizada de Sua Excellencia, transformaram-se os Lanceiros, floreou-se a Franceza e surgiu, vaporosa e louçã, a moderna valsa a dous tempos. Abandonaram-se marcas velhas e rançosas, substituiudo-se por elegantes couronnes de dames e graciosos moulinets de chevaliers.
Foi, pois, profundamente civilizadora a influencia que Sua Excellencia exerceu nas classes medianamente abastadas:— sopeiras e tricanas—, porque lhes incutiu os germens d’uma larga intuição artistica e senso esthetico, já com as brilhantes manifestações da arte de Terpsichore, já com mimosas producções musicaes, com que Sua Excellencia as deliciava, acompanhado pelo fiel Maldonado e—em occasiões solemnes—pela brilhantissima cohorte dos Figaros cerveirenses.
Quem, pois, se atreverá a dizer, quem ousará ahi, dos arraiaes da opposição, affirmar que não foi acertada e felicissima a escolha?
Concluo a demonstração, srs. Lucas e Abilio. Pódem Vossas Excellencias refutal-a?
Eleitores do concelho de Valença! Damas e cavalheiros do Club e da Assemblea! Ditas e ditos do Gremio artistico; tricanagem, technicaphilas e paradas-velhas dos bailes do Theatro, eu—Zinão— vos felicito!
E vós, vizionarios, descrentes, que por ahi apregoaes a incompetencia do sr. Deputado, em breve,—eu vol-o affirmo—se dissiparão as vossas duvidas e os vossos applausos hão-de juntar-se, fervorosos e delirantes ás acclamações enthusiasticas da grei progressista quando, no proximo carnaval, assistirdes, nos bailes do Theatro, á verdadeira consagração, á apotheose do nosso Deputado, vendo-o, como par marcante, offuscar a fama, até hoje immaculada, dos srs. Trincheiras e Zé do Caes, gritando ás multidões, radiante e enthusiasmado, em francez adoptado nos nossos tricanés:
An ivant! Chevaliers dão as mãos e les Dames ó miliú.
*
Ah Esteves! Ah Caetano!
Que futuro brilhante e glorioso não está reservado para os vossos violões!
Emquanto a nós:
vá de redrò, Senhor Doutor!