Sinapismos

Francisco Pires Zinão · Capítulo 36 de 40

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Sinapismos

XXIII Compadres e Comadres

XXIII

 

Compadres e Comadres

 

Decididamente, não se póde ser rapaz solteiro em Valença.

Segundo reza a minha cartilha, os inimigos do homem são tres: mundo, diabo e carne.

Cá na terra, os inimigos dos rapazes são tambem de tres especies: aguas de Christello, bailes e comadres.

Todos estes inimigos teem procedencia diversa: um nasce na Assembléa, outro fóra de Portas, outro na Coroada.

Todos teem um caminho:—o namoro.

Todos teem um fim:—o casamento.

Epilogo egual para todos:—o conjugo vos do Magalhães e a Sr.ª Dona Maria do Hospital.

 

Berra-se por ahi contra os jesuitas, contra os abusos dos regeneradores, contra as tyrannias do João Cabral, contra tudo que póde affectar o livre exercicio dos nossos direitos e das nossas regalias.

Ninguem se lembra de requerer uma querela contra as comadres da Coroada, que ha dezenas de annos implacavelmente lançam ao pescoço dos nossos mais airosos jovens as gargalheiras do casamento e a colleira de paterfamilias.

Em bella manhã de Abril entra um raio de sol na alcova; acaricia-nos o rosto; faz-nos cocegas no bigode e diz-nos baixinho ao ouvido: São seis horas; levanta-te, calaceiro! Lá fóra cantam as aves, exhalam aromas as flores; está tão bonita a campina... tão risonhos estão os prados... tão diaphana a atmosphera e tão azul o azul dos ceos... Vem commigo. És livre; não precisas de ajudar a lavar os pequenos. Vamos,—veste-te, que eu espero cá fóra.

Vinte minutos depois, respiramos por esses campos o ether das madrugadas. A nossa alma inebria-se; sentimo-nos alegres, bons, fortes e felizes, porque somos livres. Desejavamos possuir umas botas de sete leguas, como as d’aquelles contos da infancia; trepar a todos os oiteiros, subir a todas as collinas, saltar por todas as planicies.

Phantasiamos azas como as da cotovia que se libra nos ares, cantando hymnos de jubilo, de liberdade, de amor.

 

Horas depois regressamos a casa. Á entrada, a sopeira entrega-nos mysteriosamente uma caixinha dos collarinhos, ou dos pós da gomma, cuidadosamente atada com fita de seda azul.

Abrimos:

Dentro, muito secio e garrido, um palmito; ao lado, teso e perfilado, um cartão de visita:

Fulana de tal.

Desde aquelle momento, o bacillo virgula do matrimonio inficiona o nosso organismo. Perdemos a vontade de comer, damos ais, suspiramos á lua, fazemos versos, cantamos o choradinho e principiamos a cuidar nas roupas brancas.

Se não mudamos immediatamente de terra, unico remedio efficaz, estamos perdidos.

Que me conste, até hoje, dos atacados pela fatal molestia só resiste um—o Velloso. Se escapa até aos quarenta, vae para o museu do Inglez.

Perde-se em a noite dos tempos a origem d’essa funesta cerimonia:—a eleição dos compadres.

Sei que dubia é, ainda, a tradição que a localiza na Coroada; porquanto, auctores varios e jurisconsultos sisudos estabelecem no centro da villa a instituição de tão perfidas solemnidades.

As pandectas da Assembléa, os folios da Collegiada, os annaes da Ex.ᵐᵃ Camara nada informam a tal respeito. Em vão os consulto em frequentes e longas vigilias.

Esta prioridade de direitos na organização do escrutinio annual tem por vezes suscitado controversias violentas e disputas acaloradas entre os pacificos habitantes da rua de S. João e os da Coroada; e se não fôra a sisudez, prudencia, diplomacia e tino politico dos conspicuos inquilinos do Santo Precursor, certamente já teriamos a lamentar successos graves e não pouco deploraveis acontecimentos.

No emtanto, a malquerença entre os dois povos existe e existe evidente.

Na rua de S. João, um habitante da Coroada nunca foi um cidadão da villa:—foi, e é um pelludo da aldéa; e a esta offensa responde a Coroada affirmando a superioridade dos seus costumes e dos seus habitos, allegando, com assaz persuasiva logica, que não tem lá, nem precisa, de Borralhos ou de Egyptos.

A origem de tão lastimaveis dissensões está na eleição das comadres.

 

A epocha d’esta cerimonia não foi, como alguem poderá imaginar, fixada ao acaso. Fixou-se traiçoeiramente para o domingo de Ramos.

Domingo de Ramos quer dizer: Semana santa e Paschoa—isto é —soirées na egreja e na Assembléa e—mais ainda—chavenas de chá sem assucar preparadas pelo Cruz com agua do Christello.

Aos olhos incautos isto nada significa, mas significa muito para o espirito do observador, porque lhe mostra em caminho perfeitamente livre e desembaraçado, juncado de rosas e saturado de aromas,—a comadre e o compadre amarrados um ao outro com as fitas de seda do palmito e da caixa das amendoas. Vão alegres, risonhos, chilreando, sorrindo, despenhar-se no abysmo sombrio do matrimonio, onde o Magalhães, com uma saia de mulher aos hombros, attencioso e mitrado, lhes desfecha quatro tretas de latim.

 

O palmito aproxima o compadre da comadre: agradeço a V. Ex.ª —dou-lhe os meus sentimentos, porque foi infeliz na sorte—merecia compadre melhor, e tal, etc.,—diz elle.

—Oh sr. Fulano! Por quem é!... fui até a mais feliz.—Cá espero as amendoas.—Olhe que é uma vergonha se as não dá.—Quero vêr, eu quero vêr como se porta—diz ella.

Ao despedir, um cumprimento demorado, um sorriso, um olhar... e compadre e comadre trocam mentalmente, na visão doirada do futuro, o grau do parentesco.

Magalhães surge ao longe, entre nuvens côr de rosa.

A sr.ª Dona Maria do Hospital pisca graciosamente o magano olho esquerdo...

 

Na quarta-feira santa, entra um rapazito no portal; bate as palmas —sou eu!—faz favor?—e entrega uma perfumada caixinha, toda alegre e catita, oiro e setim azul, recheada de amendoas e confeitos.

No fundo espreguiça-se sorrateiramente uma carta.

Rubôr ás faces, noventa pulsações por minuto, leitura tremula, arfar de seios, um suspiro, dois suspiros.

Lê-se, relê-se e torna-se a relêr a carta.

Trabalha o ferro de frisar com mais cuidado, estuda-se uma prega mais graciosa para a mantilha, flor ao peito para o que der e vier, e —entra a comadre na egreja.

Quando abre o livro das orações, já não atina com o Padre-Nosso nem com a Ave-Maria. Com os olhos da imaginação, só vê e lê os caracteres seguintes:

Minha senhora.

Vel-a e amal-a, foi obra d’um momento. Quiz a fagueira sorte escolher-me para compadre de Vocellencia. Bemdita seja ella que me aproximou de quem, ha muito tempo, é o enlevo dos meus olhos, a alegria da minha alma, a ventura do meu coração. Tomo a ousadia de offerecer a Vocellencia as amendoas «inclusas». Desculpará Vocellencia. Na minha terra fazem-nas muito bem feitas. Doces d’ovos e amendoas são as especialidades. Se o Papá e a Mamã gostarem, eu mando vir mais. É bom comer poucas, porque são muito indigestas e fazem dôres de barriga. Serei correspondido n’este meu amor? Oh ceos! Quanto anhelo sabel-o! De Vocellencia

até á morte

V.

 

Durante as licções, n’aquelles intervallos em que o Albino canta o seu macarronico, o Padre Alexandre gargareja o melhor e o mais brunido do seu latim e os outros padrecas se revezam, previamente annunciados pelo rapaz sacrista que, de saiote vermelho, vae apagando, um a um, os treze tocos da girandola—compadre e comadre libram as suas almas pelas naves d’um mystico arroubo, ebrios de felicidade, de esperanças risonhas, e dulcificados fartamente com amendoas de Tuy e rebuçados de avenca.

Á noite, na visita ás casas do Senhor, o compadre acompanha a comadre. Atraz, cochicham o futuro sogro e a futura sogra. As beatas, ao longe, segredam mais um casamento... Compadre e comadre já se tratam por tu. Fica combinado o gargarejo.

—Amo-te—boas noites—até amanhã.

 

Domingo de Paschoa.

Baile na Assembléa.

A comadre, quando alguem a pede para dançar de roda, está sempre compromettida. Só dança com o compadre.

Compadre escolhe os melhores doces para a comadre; rodeia de attenções a Mamã da dita comadre; entretem o cavaco com o Papá da dita comadre; é vis-à-vis do Mano da dita comadre.

As amigas da comadre, quando o compadre está em pé, arranjam-lhe logo um logar ao pé da comadre.

—Comadrinha vae, compadrinho vem.

No fim da noite, entram já na conversa as roupas de linho, de panno cru, as caçarolas, as panellas.

Lá ao longe, muito ao longe, sempre em nuvens côr de rosa, a fugitiva miragem d’um cavalheiro, irreprehensivelmente encasacado, gravata e luvas brancas,—curvado em graciosa mesura perante o Papá e a Mamã.

Um pedido—um sim, Papá!—uma lagrima da Mamã—um ai! e um fanico.

Dois mezes depois, Padre Magalhães dá o nó; e o mesmo raio do sol, que em Abril nos despertava, penetra indiscretamente na alcova nupcial e segreda-nos ao ouvido:

forte lôrpa!

Annos passados, quando compadre e comadre teem quatro filhas casadoiras, são elles que reclamam a eleição.

Cada palmito que sai de casa é um anzol.

Para o Velloso—oh Paes de familia!—só a coca ou o botirão.

Gentis senhoras da Coroada!

Por piedade! Acabae com este tributo mais violento e mais horrivel do que o tributo de sete mancebos e sete donzellas que, outr’ora, Athenas pagava a Creta.

Por piedade, senhoras!

Arrebataes, annualmente, lá para cima, a melhoria dos mancebos, a nata da mocidade, a fina essencia da juventude, que depois abandonaes a essas ruas—obesos, gordurosos, crivados de callos, paterfamilias de cache-nez, lenço tabaqueiro e barretinho d’algodão.

D’aqui a pouco não ha um rapaz solteiro em Valença; e como as estatisticas demonstram que, para cada mancebo casadoiro ha, entre nós, vinte damas em disponibilidade, attentae que não é risonho o vosso futuro, porque está provado á evidencia, que os rapazes de fóra sabem escapar á magia dos vossos palmitos.

Vêde o Velloso, o Leopoldo, o Gomes da Artilheria, o Prado, o dr. Brandão.

Transijamos, pois, gentis damas:

Nós estamos promptos a enviar annualmente para a Coroada, quarenta arrobas de amendoas e quarenta dictas de rebuçados dos melhores e dos mais ricos que tenham o Có-Có, e o Telmo Parada.

Outrosim nos compromettemos ao pagamento d’um tributo annual de tres mancebos casadoiros, que vos serão entregues no domingo de Ramos, ao meio dia, em frente das Alminhas, com os respectivos bahus de roupa branca: camisas, ceroilas, piugas, barretinhos de dormir, pannos da barba.

Para o pagamento d’este tributo organizaremos um gremio, como o dos negociantes, na distribuição da decima.

Os tres desgraçados serão indicados pela sorte. Irão esses para as negras penas do matrimonio, mas, ao menos, os restantes poderão em todo o anno andar satisfeitos, alegres, livres de melancholias e de... palmitos.

Sou casado tres vezes, senhoras! O Magalhães que o diga...

E tanto ás defunctas consortes, como á companheira actual, quem me prendeu foi a vossa eleição.

Por isso, quando agora vejo um palmito é o mesmo que vêr o diabo.

 

Em nome da mocidade, protesto contra a

 

eleição das comadres!