Sinapismos
XVIII Uma recita de curiosos (FRAGMENTO)
XVIII
Uma recita de curiosos
(FRAGMENTO)
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Passou-se ao segundo acto.
O panno subiu, e á luz da ribalta appareceu o Nascimento.
Nascimento—diga-se a verdade—não é precisamente um Brazão.
Tenho assistido, por vezes, aos trabalhos d’este actor. Brazão ri, chora, soluça, tem arrancos de colera, tem na voz a doçura d’uma supplica, a suavidade d’uma prece, a meiguice d’um carinho, o vigor d’uma maldicção, o rugido d’uma ameaça.
A melancholia da saudade, as expansões do amor, as torturas do remorso, as angustias do ciume resaltam nitidas, vibrantes, envolvendo-nos a alma—comprimindo-a, dilatando-a—com o fluido subtil de uma verdadeira interpretação artistica.
Por doze vintens, eu tenho visto o Nascimento fulgurando na gloriosa constellação—grande Ursa dos nossos céos artisticos—de que fazem parte: Sampaio, Guilherme, Aurelio, Romano, Machado, Ernesto.
Com franqueza:—sem querer irritar a indisposição que no espirito do Nascimento violentamente se denunciou contra o Zinão, sem querer amesquinhar o culto idolatrado que elle nutre pela Arte dramatica, ou apoucar as suas aptidões—direi em homenagem á Verdade: Nascimento é um barbaro!
É um barbaro quando pisa o palco, porque não tem naturalidade, nem expressão, nem relevo.
Apresenta-se em todas as scenas com o mesmo fato amarello, de tecido africano, que o Isidoro lhe empresta; tem para todas as surprezas o mesmo oh!; para todas as dores o mesmo: ai Jesus!; para todas as saudações o mesmo: ora viva!; para todos os cumprimentos o mesmo: Comoestá? Passoubem? Bemmuitoobrigado.
Os pés soldam-se-lhe ao pavimento: as peças das articulações unificam-se, como se as membranas synoviaes segregassem chumbo derretido; os musculos tomam a rigidez do aço, permanecendo hirtos, inteiriços, refractarios ao imperio da vontade e á malleabilidade dos sentimentos.
Não tem flexibilidade nos movimentos, nem elasticidade nas formas que as diversas situações exigem, porque uma barreira de frieza e de immobilidade—quiçá composto de espessas cellulas philosophicas (?)—se oppõe á intima e immediata transmissão dos phenomenos psychicos aos orgãos e ramificações do systema nervoso.
Predominam em todas as modulações da sua voz aquellas notas seccas, asperas, do: Carregar! Alto!
Denuncia-se em todas as posições a rigidez d’aquella linha d’uma convexidade opisthotonica, que a Ordenança militar traça para o Perfilar!
E assim, Nascimento, como Boticario da Morgadinha, como carcereiro de 1640, ou como Mano Gaspar do Mano Aniceto—é sempre o mesmo Nascimento: gordinho, obeso, rechonchudo, espartilhado, vestido de mabella africana.
Todavia, estudando as minuciosidades dos seus trabalhos dramaticos, analysando a mechanica dos seus movimentos, comparando a dynamica dos sentimentos que elle tenta exprimir com as manifestações da sua vitalidade no convivio diario e com os actos exteriores da sua existencia social, eu chego á seguinte conclusão que poderá ser considerada como paradoxal: Nascimento, no desempenho dos seus papeis, na interpretação d’um caracter, na reproducção d’um typo, consome mais Sentimento do que o Brazão. O seu trabalho psychico é superior ao d’aquelle artista; na sua alma as situações definem-se, as individualidades esclarecem-se, as faculdades actuam. Nascimento pensa, sente e quer, como Boticario de Val d’Amores; mas o que não possue é esse colorido, ou—por assim dizer—essa moldura artistica que dá relevo ás interpretações e vida aos personagens.
E como a sensibilidade affectiva é um requisito indispensavel ao actor, e talvez o mais essencial, porque é ella que o guia nos reconditos escaninhos da alma de Hamlet, Nascimento, que possue essa faculdade em superior grau, tem direito a ser considerado a par de Brazão, dos Rosas, e até, ao lado de Lekain, de Kean, de Rossi, de Irving, de Kronsweg.
Vou demonstrar a existencia d’essa sensibilidade apuradissima no Boticario da Morgadinha.
Nascimento tem um sanctuario:—a sua officina.
Alli passa as noites e os dias, com a blusa de operario,— aplainando madeiras, envernizando quadros, esquadrando molduras, curando a telha dos relogios, deitando gatos em terrinas quebradas, endireitando a espinhela a leques, brocando pulseiras, parafusando engrenagens, limando metaes, furando boquilhas, cinzelando coronhas, soldando rabos de colheres, aguçando pinos, collando cacos, cosendo botões, deitando pingos em panellas, enfiando agulhas, inventando flores exoticas de couvelórinton, preparando pilhas, misturando acidos, bases, metaes, metalloides, oxydos, protoxydos, bioxydos, azotatos, azotitos, chloratos, chloretos, chloritos, etc., etc.
Nas horas de descanço que as suas occupações lhe permittem, sente-se feliz com as multiplices e encyclopedicas applicações da sua actividade e do seu engenho; consome, pacientemente, sessenta e quatro horas com o encaixe d’uma insignificante peça de metal para a sua locomovel microscopica; aplaina e replaina o empeno d’uma taboa para a sua mobilia; gasta uma noite, duas noites, trez noites com o estudo analytico da reacção d’um acido sobre uma base.
Com a applicação d’uma lei chimica, no desenvolvimento d’uma formula mechanica, na adaptação d’uma propriedade physica, Nascimento concentra todo o seu ser, toda a sua actividade mental, abandonando as distracções, os prazeres, e esquecendo-se até, das horas das refeições.
No seu cerebro amontoam-se os projectos, chocam-se as theorias, amalgamam-se as applicações.
Tem o arrojo de Lesseps, a tenacidade de Edison, a phantasia de Eiffel.
A sua alma, o seu corpo, os seus orgãos, os seus musculos, estão alli:—no torno, na serra, no serrote, no brocador, no pichel da colla, no arame dos gatos.
O seu engenho tem o quer que seja de epileptico: ataca trinta emprezas ao mesmo tempo: mobilias, machinas photographicas, installações electricas, bobinas, telegraphos, telephones, phonographos, campainhas de alarme, etc., etc.
Vencidas as difficuldades, contornadas, cortadas e limadas as peças, nova explosão de inadiaveis projectos interrompe a conclusão dos antecedentes; e assim, Nascimento, fazendo tudo, nada faz, porque a epilepsia do engenho dá ás suas obras a incommensurabilidade do Infinito: todas tiveram principio e nenhuma tem fim.
Como se pode explicar, pois, que, annunciada uma recita de Santo Antonio, ou da Morgadinha, este homem abandone immediatamente o seu meio, o seu sanctuario e enthusiasticamente se venha offerecer para desempenhar o papel de Mano Gaspar, ou de Boticario?
Pela extrema sensibilidade das suas faculdades affectivas.
Nascimento lê o drama, a comedia, ou a scena comica; a sua alma vibrou, agitou-se com o caracter d’este ou d’aquelle personagem; identificou-se com os sentimentos do galan, ou do comico; e, possuido de irresistivel enthusiasmo, abandona a officina, troca o alicate ou o saca-trapos pelo caderno almaço e lá vae para as muralhas metter na cabeça, em giros constantes—para traz, para deante—os periodos do papel.
Este enthusiasmo, em qualquer de nós—no Albino, por exemplo, que já representou de mulher, nos paysanducos, eximios na Comedia—seria uma coisa vulgar, insignificante; mas no Nascimento que nós conhecemos e que eu examinei na officina, revela uma enorme tensão de faculdades affectivas.
Os trabalhos do Brazão são correctos e são artisticos; mas este actor adquiriu já a physiologia dos sentimentos; os seus musculos contraem-se, por assim dizer, inconscientemente, independentes do imperio da vontade, como nas acções reflexas. Mostra no rosto a agitação d’um mar de paixões, quando na alma tem a tranquillidade d’um lago.
Alem d’isso, Brazão tem o scenario de D. Maria; tem o Keil, a luva do Baron; o talhe elegante, o perfil distincto, a perna flexivel, o bigode loiro, o monoculo—todas essas pequenas coisas que emmolduram e aristocratizam o actor.
Nascimento tem o desbotado scenario do nosso theatro, ainda saturado de irritantes aromas dos meios com cebolada que, ha annos, o meu amigo S. Lima arremessava ás fauces de toda a tribu pica-calcantes; tem a roupa de mabella; a rigidez linear da Ordenança conturbando a flexibilidade dos movimentos; a reacção dos acidos paralysando a acção dos nervos centrifugos; o ordinario marche! pruindo compassadamente na sola dos pés e na barriga das pernas...
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Examinado pelo prisma da Arte, Nascimento actor é—repito—um barbaro. Mas analysado pelo prisma do Sentimento revela-nos uma organisação especialissima, que seria a gloria de nossos palcos e da nossa terra, se um defeito organico a não prejudicasse.
Nascimento ouve uma valsa de Metra, uma symphonia de Berlioz; ouve Rubinstein e Sarasate, a Patti e a Nilsson. Permanece mudo, quedo, insensivel.
Tem nas mãos uma flôr mimosa: uma Captain Christi ou Bertha Mackart; uma Alba imbricata ou Countess of Derby; a violeta, o lirio, a sensitiva. Os dedos afastam-se e a bella flôr cae abandonada, cerrando as petalas...
—Não gosto de muzica; não gosto de flores—diz o Nascimento.
Poderemos acreditar na sinceridade d’estas palavras pronunciadas pelo homem, em quem os insipidos gracejos do Mano Aniceto exercem tal influencia e inspiram tal enthusiasmo que, arrancando-o da sua Thebaida, da sua officina, o expõem, vestido de amarello, á extatica contemplação dos loiceiros?
Não! Nascimento é accessivel á vibratilidade das commoções; os seus nervos sensitivos communicam ás cellulas cerebraes toda a intensidade dos enthusiasmos, mas o tal defeito organico—um enfraquecimento dos nervos centrifugos—oppõe-se á transmissão da força necessaria para a mechanica muscular e para a movimentação das situações dramaticas.
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Terminou o segundo acto. Tenho de estudar os outros curiosos da Companhia; mas ao despedir-me de ti, Nascimento, permitte um conselho: abandona o theatro. Trata d’esse enfraquecimento do tecido nervoso.
Com seis mezes de cuidadoso regimen, póde ser que um dia, na apotheose das nossas glorias theatraes, como já annuncio:
Sampaio—o Jeremias da Balagota...
possa tambem dizer: